O Caso Battisti e a Itália das conveniências

Gianni Minà (*)

Impressiona a firmeza com que o governo brasileiro rejeita o pedido de extradição de Cesare Battisti, ex-"proletário armado pelo comunismo" e mais recentemente escritor de sucesso na França, antes de fugir para o Rio de Janeiro, condenado por vários homicídios nos "anos de chumbo" italianos.

Mas impressiona ainda mais o uso inescrupuloso que alguns políticos e jornalistas levianos, ligados ao governo em exercício na Itália, fazem do episódio, evitando aprofundar uma história que não pode ser lida só como proteção por motivos ideológicos que a França socialista de Mitterand, e também a França mais conservadora de Chirac e depois o Brasil de Lula, concederam a um personagem complexo como Battisti.

Porque Mitterand foi indiscutivelmente político ético; e Chirac, que o sucedeu no comando de um governo de direita, foi sem dúvida sagaz e pragmático. Além disso, Inácio Lula da Silva – o presidente ex-operário que reconduziu o Brasil para o trilho da democracia depois de uma ditadura sanguinária e de um punhado de presidentes no mínimo omissos e surdos diante das assombrosas injustiças sociais do país – é o fruto de um vasto movimento de católicos de base que tentaram afirmar uma sociedade mais justa.

O que teria levado, pois, esses homens de Estado, politicamente diferentes, a manter sobre o caso Battisti atitude aparentemente tão contraditória e não coerente com a exigência de punir quem está manchado por delitos imperdoáveis?

Alguns especialistas em jurisprudência argumentam que as motivações pelas quais Battisti teria sido considerado culpado nos processos que o condenaram não são convincentes. Outros ressaltam que a Itália ultimamente não goza de alta fama por equidade jurídica; e que o nosso país, já habituado, desde o início do governo Berlusconi, a absolver todos os maculados mesmo que maculados por crimes pesados e indecentemente fraudulentos no campo econômico, comercial e fiscal, negou no ano passado a extradição de empresário ítalo-brasileiro condenado por um tribunal do outro lado do oceano a doze anos de prisão por bancarrota e gravíssimos crimes no campo financeiro. Portanto, a recusa a extraditar Battisti seria resposta irritada do Brasil a um comportamento não exatamente transparente do governo italiano.

Não sei se algum desses fatores teria influenciado o rumo que tomou a história, mas certamente me espanta descobrir a superficialidade, a ambigüidade, a dupla moral de muitos de nossos políticos no governo e de tantos colegas da mídia – que não só não quiseram aprofundar esses desdobramentos, mas em outros casos dramáticos, como esse que envolve a complexa figura de Battisti, simularam não ver, eludiram, esquivaram-se, esquecendo até que na Itália aconteceram tramas eversivas que culminaram em sete massacres de Estado, pelos quais ninguém pagou.

Quando Tarso Genro, ministro da Justiça do Brasil, lembra que a Itália ainda não soube acertar as contas com os "anos de chumbo", de fato afirma conceito muito próximo da realidade.

Porque os aparatos de Estado que naquela época confundiram-se com o terrorismo – por exemplo, o "Escritório de assuntos confidenciais" do Ministério do Interior do famoso Federico Umberto d'Amato, que, em conluio com setores do Viminale, inventaram a pista anarquista, marcando para sempre a vida do pobre Piero Pinelli ou de Pietro Valpreda –, nunca foram responsabilizados pelas infâmias que cometeram.

Aquele aparato de Estado perverso, não se pode esquecer, produziu o massacre de Piazza Fontana, o primeiro daqueles anos, antes que aparecessem as Brigadas Vermelhas, arruinando também a vida de tantos jovens da extrema direita que aceitaram ser o braço armado e que, dessa forma, com o tempo, tornaram-se eles próprios vítimas do terrorismo que eles mesmos praticavam.

Arrepio-me de pensar no cinismo de alguns funcionários, convencidos pela CIA ou por qualquer outra superestrutura política internacional (Gládio, por exemplo, era um organismo secreto da Otan, cuja operação nunca foi aprovada pelo Parlamento italiano), que escolhiam por fotografias ou pela simples descrição de seu modo de ser, feita por qualquer delegadinho inábil, quem deveria seria o culpado ou quem seria o "monstro", ignorando que aquelas pessoas inocentes eram seres humanos, cidadãos italianos com suas histórias de vida, responsáveis apenas por apoiar campanhas civis e sindicais normais numa democracia de verdade.

Piazza Fontana foi o início de uma guerra civil não declarada que a polícia italiana nunca soube ou quis enfrentar para estudá-la, explicá-la condená-la, enfim, para esclarecer.

E no exterior, está-se vendo! Pelo menos em nações que têm, como a França, grande familiaridade com as lutas pelos direitos das pessoas ou em nações que finalmente se aproximam de uma democracia completa, como o Brasil, e então às vezes, já começam a não transigir.

A Alemanha teve o mesmo problema que a Itália, com a complicação da reunificação com a ex-Europa comunista do leste, mas não cedeu ante as próprias responsabilidades e acertou as contas com o seu passado.

Na Itália, ao contrário, esse dever de clareza para os cidadãos jamais foi exigido ou cumprido por nenhum dos governos que conduziram o país nesses anos. Sequer as inquietantes conivências de alguns setores do Estado, como no massacre do Banco da Agricultura de Piazza Fontana em Milão, nunca foram completamente esclarecidas e condenadas, tampouco os atentados à delegacia de Milão, em Brescia (pelo qual são novamente inquiridos Delfo Zorzi, junto com Carlo Maria Maggi e Maurizio Tramonte), ao trem expresso Italicus, em Ustica e à estação de Bolonha (onde, para despistar, foram indiciados alguns representantes da loja maçônica P2, entre os quais o próprio Licio Gelli).

Franco Freda e Giovanni Ventura, neofascistas três vezes acusados e três vezes absolvidos por insuficiência de provas (em 1981, 84 e 85) como organizadores do massacre de Piazza Fontana, já não podem ser julgados, mesmo se acusados por novas testemunhas.

Delfo Zorzi, militante de Ordine Nuovo e acusado em 1990 de ser o executor material do atentado ao Banco da Agricultura em Milão (o início de todo o terrorismo de Estado), vive bilionário no Japão, país que negou sua extradição. Não muito tempo atrás, Zorzi foi novamente acusado pelos arrependidos Martino Siciliano e Carlo Digilio, também militantes de Ordine Nuovo, de ser o responsável pelo primeiro massacre terrorista dos "anos de chumbo" na Itália.

O processo foi instruído pelo juiz (Giudice per le indagini preliminari) Guido Salvini. Mas, nesse meio tempo, Carlo Digilio morreu e Martino Siciliano, não tão surpreendentemente, retratou-se. O juiz argumentou que ele fora comprado por trinta milhões das antigas liras, por Zorzi. E assim, por esse suborno pouco edificante está sendo inquirido, tanto em Milão quanto em Brescia, o advogado de Martino Siciliano, Gaetano Pecorella.

Exatamente por causa dessa acusação, o advogado Pecorella, que quando jovem era um dos advogados do Soccorso Rosso, mas que ultimamente tornou-se um dos defensores de Berlusconi e foi eleito ao Parlamento, teve que ser substituído pelo partido Forza Italia na corrida pelo Juizado Constitucional.

Creio que esse quadro inquietante e esquecido, do qual a direita subversiva do país foi mandante e cúmplice, antes e depois que se materializassem as Brigadas Vermelhas, deveria convidar ministros como La Russa, Alfano, Frattini, a serem mais cautelosos, por decência, em suas declarações sobre o caso Battisti, e alguns colegas da grande imprensa e da TV, a exercitar a humildade que a busca da verdade e o respeito aos cidadãos requer. Os italianos não são rebanho de ovelhas. São cidadãos e têm direito a uma memória honesta.

* publicado em "Il Manifesto" (04/02/2009) e solidariamente traduzido pela Caia Fittipaldi, Leonardo Palma e Lúcia Coppeti Dalmaso

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