A moral dos figurões: com o dedo na ferida

Celso Lungaretti

Deu na coluna de Fernando Rodrigues, na Folha de S. Paulo desta 2ª feira (11): magistrados da Justiça do Trabalho e respectivos(as) cônjuges passaram o último feriadão de Tiradentes num hotel de luxo baiano (o Tivoli Ecoresort Praia do Forte), com hospedagem e todas as mordomias pagas pela Febraban, a federação dos bancos brasileiros.

Em setembro de 2006 uma iniciativa semelhante, da mesma Febraban e na mesma Bahia (ilha de Comandatuba), ganhou as páginas da imprensa. Na ocasião, Antonio de Pádua Ribeiro, corregedor nacional do CNJ - Conselho Nacional de Justiça, deu uma justificativa hilária: "Procurei, com o sacrifício do meu fim de semana, dar cumprimento ao preceito constitucional de ser o CNJ um órgão de interlocução do Judiciário com a sociedade".

Pouco original, João Oreste Dalazen, vice-presidente do Tribunal Superior do Trabalho e membro do CNJ, usou palavras semelhantes para qualificar o uso que deu a seu 21 de abril: teria sido "um sacrifício muito grande".

Sacrifício fez Tiradentes, no cativeiro e no cadafalso, não esses togados refestelados na piscina, por conta de uma entidade que representa péssimos patrões. Os bancários que ponham as barbas de molho, pois a Justiça do Trabalho ficou sob suspeição.

Trabalhando numa agência de comunicação empresarial, presenciei exatamente a mesma prática, no caso de grandes laboratórios que convidavam médicos importantes para desfrutarem do bom e do melhor.

Não era exigida nenhuma contrapartida explícita, mas, claro, os doutores sabiam muito bem o que deles se esperava. E receitavam os medicamentos do laboratório anfitrião.

Mais: incumbido de resenhar lançamentos literários em algumas revistas, eu recebia toneladas de paradidáticos medíocres que as editoras conseguiam fazer com que os professores recomendassem a cada nova temporada, em substituição a idêntico lixo adotado no ano letivo anterior.

Ou seja, há toda uma engrenagem perversa funcionando para impedir que os livros do primogênito sejam passados para os irmãos mais novos, primos, amigos, vizinhos, etc., dispensando uma nova compra, como acontecia no passado.

E, com isto, os clássicos da literatura são deixados de lado, substituídos por obras produzidas às dezenas por autores de aluguel.

Se queres um monumento, olha em torno. Capitalismo é isso: podridão globalizada.

O VERDADEIRO VILÃO - Na mesma edição da Folha, a carta de uma leitora de Maringá/PR me chamou a atenção: "Sempre que alguém falava mal dos políticos, eu pensava: ainda bem que há o Fernando Gabeira, o Eduardo Suplicy, o Osmar Dias. Agora, após saber que eles também usaram as passagens, estou me sentindo meio órfã, pois, quando elejo alguém, espero que ele faça o que é certo, e não o que todo mundo faz".

Sei que tal desencanto é compartilhado por muitos e muitos brasileiros decentes, então vou entrar neste tema em relação ao qual meu primeiro impulso foi o de guardar distância.

Não por temer que venha à tona algo a meu respeito -- acostumei-me desde cedo a viver de acordo com a moral revolucionária --, mas por respeitar o que o Gabeira foi e o que o Suplicy é.

Honestamente, acrescento que o segundo me ajudou muito quando travei uma luta dramática pela anistia política, à beira da miséria, em 2004/05. É justo que o leitor saiba disto e tire sua conclusão sobre se minha argumentação está ou não embutindo um sentimento de gratidão pessoal.

Paulo Francis estava certíssimo ao criticar, na década de 1960, a adoção por alguns setores da esquerda de uma bandeira eminentemente direitista: a moralização política.

Pois a corrupção é íntrínseca ao capitalismo. Enquanto os cidadãos forem levados a competir insana e inutilmente uns com os outros, compelidos a buscar sempre a diferenciação e o privilégio, nenhuma medida política, judicial ou policial a erradicará. Haverá sempre jeitinhos para driblar as restrições.

Quando os valores supremos da sociedade forem a igualdade, a solidariedade e a comunhão de esforços em prol do bem comum, a corrupção desaparecerá por desuso.

Então, a meta dos idealistas tem de ser a de tornar realidade a frase célebre: a ética é a estética do futuro. Não a de tentarem, em vão, remendar o capitalismo, que é amoral em essência.

Mesmo tendo uma infinidade de exemplos históricos para alertá-la de que a bandeira moralista serve mesmo é para justificar golpes de estado reacionários, a esquerda cedeu à tentação do comodismo. Utilizou-a para desmoralizar os Malufs da vida.

Poderia obter o mesmo resultado, com um pouco mais de trabalho, combatendo suas políticas; preferiu, entretanto, o caminho fácil.

O resultado aí está: atualmente são colocadas na alça de mira as pessoas, e não o sistema que gera a cultura da corrupção.

Médicos, juízes e professores, pilares da sociedade de outrora, hoje se vendem por um prato de lentilhas. Porque são intrinsecamente corruptos? Não, porque os condicionamentos sociais os estão levando a isto.

Então, é hora de pararmos de priorizar comportamentos pessoais e passarmos a centrar fogo no verdadeiro vilão: o capitalismo.

Ex-ministro da Agricultura é flagrado escravizando trabalhadores (por Celso Lungaretti)

Nome: Antonio Cabrera.

Antecedentes: ministro da Agricultura em 1990/92 (Governo Collor); secretário da Agricultura de São Paulo em 1995/2001 (Governo Mário Covas).

Ocupação atual: proprietário do Grupo Cabrera, cuja usina de cana em Limeira do Oeste (MG) foi autuada por manter 184 trabalhadores em situação análoga à de escravos.

Divulgada somente nesta 4ª feira (6), a fiscalização foi realizada no mês passado pelo Ministério do Trabalho e Emprego e por promotores do Ministério Público, com o apoio da Polícia Federal.

Constatou que a jornada de trabalho era excessiva; os equipamentos de proteção, inadequados; e os alojamentos, irregulares.

Segundo o procurador do Trabalho Eliaquim Queiroz, operadores do plantio mecanizado, técnicos agrícolas e auxiliares chegavam a trabalhar QUASE 18 HORAS DIÁRIAS (!!!) em finais de semana, incluído o tempo gasto no transporte.

Vieram-me à mente os relatos chocantes de Marx sobre a rotina nas minas de carvão do início do capitalismo.

Cabrera fez constar em ata sua "sua discordância quanto à existência de condições de trabalho degradantes ou análogas".

O que não o impediu de firmar um acordo judicial pelo qual se comprometeu a pagar entre R$ 500 e R$ 1.800 de indenização a cada trabalhador, por danos morais; além de R$ 120 mil por danos morais coletivos.

Ou seja, negou a culpa em termos retóricos e admitiu-a para efeitos práticos.

Que cada um julgue:
  1. se isto é aceitável num ex-ministro e ex-secretário da Agricultura;
  2. se este comportamento é uma exceção ou uma regra entre nossas autoridades governamentais;
  3. se podemos esperar dessa gente algo mais do que isto.
ESTATUTO DA GAFIEIRA - A sequência de episódios desmoralizantes envolvendo expoentes do Executivo, Legislativo e Judiciário ao longo desta década, sem poupar sequer aqueles em quem mais acreditávamos, nos faz responder "não" ao terceiro quesito

Meu grande amigo Luiz Alberto de Abreu, teatrólogo consagrado, é um cético de esquerda.

Seguindo os passos do inesquecível Augusto Boal, dedica o melhor do seu tempo a escrever e ajudar a encenarem peças que levem as vítimas do capitalismo a tomarem consciência de sua condição; e a formar novos quadros para o teatro popular.

Mas, de Brasília quer distância.

Avalia que quem tem assento na corte, quer se apresente como de esquerda, de centro ou de direita, é solidário mesmo aos demais cortesãos; à casta a que pertence, enfim.

E tudo faz para bloquear o acesso de intrusos aos privilégios de que desfruta: quer mesmo é conservá-los para si e para os que já participam da farra. "Quem está fora, não entra; quem está dentro, não sai", como rezava o estatuto da gafieira...

Eu ainda não desisti da ação política propriamente dita. Mas, de Brasília, sim. Há muito tempo.

Só acredito no que logremos organizar fora do Estado; na alternativa ao capitalismo que consigamos engendrar "nas escolas, nas ruas, campos e construções", como dizia o Vandré dos bons tempos.

A criminalidade é intrínseca ao capitalismo

Celso Lungaretti

O problema da escalada da criminalidade no Brasil vai muito além da ótica simplista e repressiva da nossa mídia. Tem a ver com o estilhaçamento da família e da sociedade sob o capitalismo globalizado.

Ambas ainda se mantinham razoavelmente estruturadas no chamado capitalismo industrial, apesar de todos os defeitos que tão bem conhecemos: desigualdades econômicas e sociais, elitismo, autoritarismo, etc.

No final da década de 1960, entretanto, esse modelo chegou ao esgotamento. O próprio capitalismo demandava uma desestruturação da antiga sociedade, para erguer uma nova sobre seus escombros. Os jovens, entretanto, tentaram ir mais longe: em vez da substituição de uma forma de dominação por outra, sonharam com o fim de todas as dominações.

Com o fracasso das tentativas revolucionárias do período (da Primavera de Paris à de Praga, passando pela contestação nos EUA e pelos movimentos revolucionários no 3º mundo) implantou-se a sociedade de massas, em que tudo e todos devem estar permanentemente disponíveis para o consumo.

No Brasil, isto se deu em meio à paz dos cemitérios, na terrível década de 1970.

Os órgãos de comunicação, assumindo plenamente as características de uma indústria cultural, deixaram de lado a missão de formar (expoentes da elite) para o exercício do pensamento crítico, restringindo-se a apenas informar (a elite e a classe média) fragmentariamente e a repisar os valores capitalistas. A formação de cidadãos cedeu lugar à capacitação de profissionais.

O trabalho perdeu qualquer atrativo que ainda tivesse como concretização do potencial criativo do ser humano. Tornou-se uma corrida de ratos atrás do dinheiro, sem ética nem o mínimo respeito pelo interesse coletivo.

O ingresso em massa da mulher no mercado de trabalho aviltou remunerações e subjugou toda a família à engrenagem de produção e consumo, transformando o lar em mero dormitório.

A família foi desvalorizada pela influência atordoante da comunicação de massas. Pais e mães cansados não conseguem competir com o brilho da telinha que hipnotiza as crianças, impingindo-lhes os valores consumistas.

Então, nada existe de estranho no fato de que as pessoas sem aptidões para competir dentro do sistema busquem atalhos para conseguir aqueles bens dia e noite propagandeados como objetos de desejo.

Perplexos, muitos cidadãos gostariam de ver aplicadas aqui as punições drásticas dos países muçulmanos: que se cortassem as mãos dos ladrões, o pênis dos estupradores e a vida dos assassinos. Olho por olho, dente por dente.

Outros pedem mais policiais nas ruas, de preferência atirando primeiro e perguntando depois... nos bairros pobres ou quando os suspeitos são negros, pardos ou malvestidos, é claro.

E há os que defendem a maioridade penal a partir dos 14 ou 16 anos, o que somente fará os bandidos diminuírem proporcionalmente a idade do recrutamento de seus serviçais, até que tenhamos crianças empunhando fuzis e metralhadoras. O velho chavão moralista mudará de “hoje mocinho, amanhã bandido” para “hoje bandido, amanhã defunto”.

No fundo, tudo isso são paliativos. Inexiste forma ideal de se lidar com aqueles que já se tornaram bestas-feras, nocivos para si próprios e para a sociedade. Pode-se, quanto muito, controlá-los – e a um custo dos mais elevados para um país de tantas e tão dramáticas carências.

Exterminá-los, jamais! Isso levaria a violência a patamares apocalípticos, pois os bandidos não teriam mais nada a perder. Nós, sim, perderíamos, ao abrirmos mão da civilização arduamente edificada nos milênios que nos separam da horda primitiva, voltando à estaca zero.

O xis do problema, no entanto, nunca é discutido: o fato de que a criminalidade é intrínseca ao capitalismo e subsistirá enquanto não substituirmos o primado da ganância e da competição pelo da solidariedade e da cooperação.

Vivemos numa sociedade que desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta; que faz as pessoas trabalharem muito mais do que o suficiente para a produção do necessário e útil; que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância; que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo; que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).

Então, os que ainda têm emprego e os empreendedores continuarão irrealizados, esforçando-se demais para nunca obterem as gratificações almejadas, pois a lógica do capitalismo é perpetuar a insatisfação e mitigá-la com o consumo (a cenoura colocada à frente do asno para que ele continue puxando a carroça). Um círculo vicioso perverso que faz a fortuna dos analistas, dos farsantes religiosos e dos picaretas da auto-ajuda.

Alguns excluídos continuarão vivendo das esmolas dos programas oficiais e vão ajudar a eleger aqueles a quem convém mantê-los em eterna dependência.

Outros tentarão obter pela força aquilo que jamais alcançarão pela competência. E servirão de espantalho para intimidar as classes superiores, fazendo-as crer que uma sociedade policial seria a solução.

É paradoxal que, em nossa época, formidáveis avanços científicos e tecnológicos coexistam com uma regressão ao ambiente medieval, com os nobres entrincheirados em condomínios de alto padrão, circulando em veículos brindados e só podendo levar vida social em shopping centers, sem ousarem expor-se fora de suas fortalezas. No exterior desses espaços fortificados e vigiados, os bárbaros estão sempre à espreita, prontos para desferir seus golpes.

Uma previsão terrível de Friedrich Engels, um dos pais do marxismo: quando uma sociedade consegue aniquilar as forças progressistas que poderiam levá-la a um estágio superior de civilização, acaba sendo destruída pela barbárie. O paralelo é com Roma, que venceu os gladiadores de Spartacus mas sucumbiu aos povos atrasados, condenando o mundo a séculos de trevas.

E o papel de carrasco da sociedade putrefata não será necessariamente cumprido pelos excluídos do progresso desequilibrado e insano: após a recessão capitalista em curso, com enorme risco de evoluir para depressão, vêm aí as décadas de devastações com que o meio ambiente pagará, na mesma moeda, àqueles poucos que gananciosamente o devastaram e àqueles muitos que bovinamente consentiram na devastação.

O que resta saber é se os homens conseguirão unir-se na adversidade, assumindo uma responsabilidade coletiva pela perpetuação da espécie humana.

Pois, prevalecendo a mentalidade do salve-se quem puder, a humanidade dificilmente sobreviverá ao capitalismo.

A EXCEÇÃO E A REGRA

Celso Lungaretti

O veterano e sempre perspicaz Clovis Rossi, em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, comenta a indignação causada nos EUA pelas práticas delinquentes da principal seguradora do país, a American International Group -- que, além de dar contribuição significativa para o deflagramento da crise global do capitalismo, ainda contemplou seus executivos com bônus milionários pouco antes do castelo de cartas começar a ruir.

Houve até quem, pejorativamente, atribuísse à sigla AIG o significado de arrogância, incompetência e avareza ("greed", em inglês). E Rossi completou:
- É uma evidência gritante de quanto a cobiça de executivos de conglomerados financeiros está causando revolta mesmo em um público que tradicionalmente cortejava esse mundo. Não deveriam, em todo o caso, espantar-se tanto. Cobiça é um ingrediente inerente ao capitalismo desde que foi inventado. (...) O problema é que a cobiça da 'pátria financeira' ultrapassou nos últimos muitos anos todos os limites da decência e da ética, do interesse coletivo, do bem público - e 'otras cositas más', que às vezes dá até vergonha de escrever de tão ultrapassadas que ficaram nessa maré montante de individualismo.

Ao discorrer sobre a ganância capitalista, ele veio ao encontro de um raciocínio constante em meus artigos: o de que os cidadãos mesmerizados pela indústria cultural já não conseguem mais perceber o quanto há de predador, abusivo, desumano e irracional nas práticas costumeiras do capitalismo, só se revoltando quando essas práticas intrinsecamente criminosas são levadas às últimas consequências, como se deu no caso da AIG.

O que é uma seguradora, afinal? Trata-se de uma companhia que cumpre função parasitária e inútil, praticamente não correndo riscos, salvo em grandes tragédias (que não poupam empresa nenhuma).

Assim, com base nas estatísticas de roubos, colisões, incêndios, mortes, etc., calculam quanto devem cobrar do universo de segurados para, pagando os prêmios daqueles que forem vítimas desses infortúnios, ainda assim conservarem a parte do leão.

É claro que, se os segurados optassem por poupar mensalmente tal quantia, mantendo-a guardada para emergências, na média sairiam ganhando -- e muito.

Ocorre que, por um lado, são incapazes de resistirem à compulsão consumista: o que têm nos bolsos, gastam.

Além disto, mantêm uma relação tão neurótica com seus bens (até sua coisificada existência equivale, em seus distorcidos raciocínios, a uma propriedade) que não admitem perdê-los de maneira nenhuma. Querem, no mínimo, compensação, para si ou para os herdeiros. E caem nas garras das seguradoras.

O capitalismo não só nos explora, como nos infantiliza. Faz-nos arcar com grandes prejuízos ao induzir-nos a adotar uma atitude covarde e pusilâmine diante da vida: a de preferirmos ser ordenhados como vacas, ao invés de corrermos o risco de ser donos dos próprios narizes.

BNDES apóia usinas que degradam os trabalhadores

Celso Lungaretti

A Folha de S. Paulo apurou que três usinas de açúcar e álcool para as quais em 2008 o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social liberou US$ 1,1 bilhão foram multadas pelo Ministério do Trabalho por imporem situação degradante a seus trabalhadores: contratação de mão-de-obra por meio de aliciadores, alojamentos precários, jornadas extenuantes, transporte irregular e falta de equipamentos de proteção ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1703200928.htm ).

Pior: duas das multas já haviam sido aplicadas quando ocorreu a liberação dos recursos.

Desde 2007 o BNDES alardeia em sua propaganda estar condicionando seus contratos ao cumprimento de cláusulas socioambientais. Mas, diante desta situação concreta, saiu pela tangente, declarando não ter competência legal para julgar empresas sob investigação, mas que, diante de uma eventual condenação, poderá suspender ou revisar os contratos.

Traduza-se: agora que a massa fecal foi para o ventilador, poderá até tomar alguma medida para salvar as aparências. Mas, se a imprensa não denunciasse, ficaria tudo por isso mesmo.

Antigamente, podíamos ao menos dizer: "Ah, mas quando o PT chegar ao poder, vai ser tudo bem diferente".

Agora, nem este consolo nos resta.

Capitalismo, o anjo exterminador

Celso Lungaretti

Uma marca da Geração 1968 foi enveredar pela psicanálise, para entender melhor a forma de dominação imposta pelo capitalismo avançado.

Herbert Marcuse, principalmente, colocou a sociedade pós-industrial no divã, daí derivando conclusões utilíssimas para os movimentos revolucionários... que logo as deixariam de lado, voltando celeremente às crenças e posturas antigas, como se quisessem confirmar a crítica disparada por Caetano Veloso contra os energúmenos que vaiavam É Proibido Proibir: "Vocês vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!".

O certo é que caiu em desuso falar na lógica perversa do capitalismo, denunciar suas tendências autofágicas e atribuir-lhe (como o filósofo Norman O. Brown fazia) o papel de anjo exterminador da espécie humana.

Mas, a nova crise global do capitalismo veio ao encontro das teses de Marcuse e O. Brown, num aspecto importantíssimo: o comportamento desatinado de cada empresa, tentando salvar-se sozinha e, com isto, contribuindo para o naufrágio geral.

Noutro dia mesmo abordei o comportamento ignóbil dos bancos que, beneficiados por medidas governamentais que lhes proporcionaram recursos para irrigar a economia, preferiram, isto sim, jogar a grana extra em seus próprios fundos de proteção contra os prejuízos que a inadimplência dos clientes lhes causará. Ou seja, aprofundam a recessão para reduzirem suas próprias perdas com a recessão... e que se danem o Brasil e os brasileiros!

A mesma insensatez se constata em três notícias desta semana:
  • A fusão entre os laboratórios farmacêuticos Merck e Schering-Plough, recém-anunciada, deverá resultar na demissão de 15% do quadro de funcionários (16.620 pessoas) para a formação da nova empresa. Um comunicado conjunto informa que "a prioridade será manter os melhores talentos de ambas" (ai dos demais!). Tanto a Merck como a Schering-Plough vão congelar suas contratações imediatamente.
  • O grupo petroquímico americano Dow Chemical anunciou que vai completar a aquisição da rival Rohm and Haas. A estimativa é que a compra provocará o corte de mais 3.500 postos de trabalho, a somarem-se aos 6.500 antes anunciados pelos dois grupos.
  • As montadoras brasileiras, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, extinguiram 1.786 postos de trabalho em fevereiro/2009, embora a produção tenha aumentado 9,2% em relação ao mês anterior. O incentivo governamental para manter aquecido o mercado automobilístico não afugentou o passaralho. As vagas eliminadas nos últimos quatro meses já somam 7.769.
Conclusão óbvia: as corporações não estão nem aí para os esforços de superação da crise. Querem é posicionar-se para o day after, pretendendo sair melhor da recessão do que estavam ao nela entrarem. E atiram insensivelmente seres humanos na rua da amargura, quando mais difícil será conseguirem nova colocação.

E se a recessão não terminar, mas sim aprofundar-se cada vez mais? De que lhes adiantará essa faina repulsiva para ocupar os melhores camarotes, caso o navio afunde?

Tal comportamento certamente se repetirá quando a humanidade estiver enfrentando o gravíssimo desafio das alterações climáticas e outros que virão por aí.

Daí a minha convicção de que, com o salve-se quem puder! capitalista, ninguém se salvará.

Os seres humanos terão de redescobrir a solidariedade e a comunhão de esforços, no momento mais crítico e da pior maneira possível, se quiserem sobreviver como espécie.

A Nova Direita e o antídoto

Celso Lungaretti

Faz muito tempo que não leio um comentário político tão lúcido como A nova direita ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0303200906.htm ), de Marcos Nobre, publicado na Folha de S. Paulo de hoje (3).

Segundo ele, a esquerda antes predominava no debate político com teses como as de que "aplicar pena de prisão não diminui a criminalidade, porque o crime (...) é (...) falha de toda uma sociedade"; "o desemprego não é culpa do desempregado, mas de um sistema econômico que produz injustiça"; "o progresso material só significa progresso social e político se houver uma justa e solidária distribuição da riqueza", etc.

Nos últimos 30 anos, entretanto, faltou-lhe a percepção de que havia uma demanda de mais liberdade por parte dos movimentos e grupos sociais. Esquivando-se ao desafio "de pensar uma nova relação entre liberdade e igualdade", boa parte da esquerda respondeu de maneira desastrosa: "liberdade, só com igualdade primeiro".

A direita, então, entrou por essa brecha, apresentando-se, demagogicamente, "em nova roupagem, como paladina da liberdade e mãe da democracia". E assim foi ocupando "um a um, os espaços disponíveis nos meios de comunicação de massa e na esfera pública".

Como resultado, "o que se pede hoje de todos os lados é mais prisão, mais responsabilização dos indivíduos, mais progresso material puro e simples" e por aí vai.

Nobre aproveitou para aplicar uma merecida alfinetada no jornal que o publica: "A nova direita vê a forma atual da democracia como imutável, como o 'fim da história'. Avalia toda tentativa da esquerda de transformar a democracia como um ataque à liberdade. Mas, ao mesmo tempo, não vê problema em aceitar - como fez a Folha a propósito da ditadura militar brasileira - o revisionismo histórico e gradações no autoritarismo".

Como a esquerda poderá reagir? É uma discussão longa, mas eu tenho apontado alguns caminhos:
- colocar em pé de igualdade os ideais revolucionários, a defesa dos direitos humanos e o exercício do pensamento crítico, sem estabelecer nenhuma priorização entre estes valores e apostando na possibilidade de se desenvolver uma prática coerente com os três ao mesmo tempo;
- descartar a estratégia de conquista do governo, como trampolim para a conquista do poder e transformação vertical da sociedade (de cima para baixo);
- partir para a organização autônoma e não-autoritária dos cidadãos, construindo, horizontal e gradativamente, uma sociedade livre, solidária e igualitária no seio da própria sociedade capitalista, até suplantá-la e "engoli-la" (o que poderá ser propiciado pela brecha histórica que se abre nos períodos de grandes crises, quando os homens são compelidos a unirem-se para assegurar a própria sobrevivência).

Sobre Shylocks e Cândidos (bancos surfam na crise e a produção afunda)

Celso Lungaretti

Os agiotas estão entre os piores exemplares do gênero humano, ao lado dos torturadores, dos assassinos seriais, dos traficantes, dos molestadores de menores e outras aberrações.

Em qualquer circunstância, um agiota só pensa em aumentar sua fortuna. Não lhe importa que suas vítimas sejam reduzidas à penúria, percam os lares, passem fome, prostituam suas crianças, cometam suicídio.

Moverá céus e terras para arrancar até o último centavo que lhe devem e sairá em busca de outros desesperados para oferecer-lhes não uma tábua de salvação, mas a âncora que os arrastará para as profundezas.

É um abutre em forma humana, tendo o calculismo como característica dominante e a ganância como motivação suprema.

Mas, poderão indagar os leitores, por que lançar tal catalinária contra Shylock (o mercador de Veneza), um personagem tão remoto como o dramaturgo que o criou, William Shakespeare?

Porque Shylock, qual um vampiro, não morreu. Apenas alterou sua aparência. Institucionalizou-se, atendendo hoje pelo nome de banco.

E, enquanto não lhe cravarmos uma estaca no coração, continuará sugando nosso sangue, nossas energias, nossas esperanças.

Estas divagações me foram inspiradas pelo comentário econômico de Octávio Costa na IstoÉ nº 2.051, A lógica dos bancos ( http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2051/artigo127169-1.htm ), sobre a preocupação exclusiva dessas instituições durante a crise global do capitalismo: salvarem a si próprias, sorvendo avidamente o oxigênio de que os setores produtivos carecem para não sufocarem.

Pior mesmo, só essa ingenuidade digna de outro personagem imortal da literatura (Cândido, de Voltaire), ou coisa pior, do Governo Lula: propiciou aos bancos os recursos para eles irrigarem a economia, atenuando a recessão... e agora constata que não fizeram nada disso. Apenas embolsaram a grana, sem sequer agradecerem.

Eis os trechos mais marcantes da ótima coluna de Octávio Costa:

"Os bancos no Brasil têm razões que a própria razão desconhece. Com a economia de vento em popa, praticavam juros e spreads muito elevados porque os custos operacionais e os tributos eram muito altos. Também tomavam por referência a taxa básica de juros, Selic, fixada nas alturas pelo Banco Central (BC) para exorcizar os riscos inflacionários. Mas o cenário mudou. E, para enfrentar a crise econômica mundial e assegurar o fluxo de crédito no País, o governo criou uma série de facilidades para os bancos: liberou R$ 100 bilhões em depósito compulsório, baixou a Selic e reduziu os impostos sobre operações financeiras. Como consequência lógica, esperava-se o aumento no volume de crédito e a queda das taxas de juros e dos spreads. Mas isso não aconteceu. E, diante da perplexidade geral, o chefe do departamento econômico do Banco Central, Altamir Lopes, encontrou uma explicação: 'Os bancos fizeram um movimento defensivo, com juros maiores, esperando um aumento maior da inadimplência. O que não ocorreu'.


"Fica claro que não surtiu o efeito desejado o rol de medidas do Banco Central. A aritmética dos bancos não bate com as contas da equipe econômica. A liberação do compulsório deveria resultar em maior competição e maior volume de crédito. Mas os cinco maiores bancos do País - Itaú- Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Santander Real e a Caixa - preferiram engordar em R$ 7 bilhões as provisões para créditos duvidosos. (...) O saldo de provisões em dezembro somou R$ 55,9 bilhões, 48,4% a mais do que em dezembro de 2007. A maior provisão foi a do Itaú-Unibanco: R$ 3 bilhões no quarto trimestre. O presidente-executivo do banco, Roberto Setubal, achou prudente reforçar o balanço. 'O ajuste da economia brasileira às novas condições da economia mundial levará algum tempo, reduzirá o crescimento e aumentará o desemprego e a inadimplência', previu."

Saudado como herói pela grande imprensa quando fundiu seu negócio com outra casa de agiotagem, Setubal esqueceu de dizer que "o ajuste da economia brasileira às novas condições da economia mundial" levará muito mais tempo, impondo sacrifícios terríveis ao nosso povo, graças a atitudes como a que ele tomou, cujas consequências óbvias serão exatamente as de reduzir o crescimento e aumentar o desemprego e a indamplência.

Crise global do capitalismo detona PIB brasileiro

Celso Lungaretti

A notícia menos ruim é que, segundo a avaliação do respeitado secretário-geral da Comunidade Iberoamericana Enrique Iglesias, a América Latina não será tão fustigada assim pela crise global do capitalismo, devendo fechar 2008 com seu PIB crescendo entre 1% e 2%.

A má notícia é que o Brasil continua revendo para baixo sua projeção de crescimento, agora no patamar de 1,5%.

Nos fugazes tempos do milagre brasileiro, o Brasil chegou a crescer quatro anos consecutivos (de 1970 a 73) acima de 10%, mas logo voltou a ter desempenho econômico incipiente.

Estima-se que seria necessário um crescimento anual de pelo menos 5% para o País absorver os novos contingentes que chegam ao mercado de trabalho e ir reduzindo, aos poucos, sua enorme dívida social.

Nos últimos 30 anos, segundo o IBGE, o patamar de 5% só foi atingido nove vezes e houve cinco anos com crescimento negativo do PIB, o pior deles sendo 1990, o último do catastrófico Governo José Sarney (-4,3%).

O Governo Lula vinha até agora alternando altos e baixos: 2002, 2,7%; 2003, 1,1%; 2004, 5,7%; 2005, 3,2%; 2006, 3,8%; 2007, 5,4%; 2008 deverá fechar entre 4% e 5%.

Quando começava a se tornar perceptível para o cidadão comum a melhora, a saída do sufoco, eis que a crise gerada nos EUA e irradiada para o resto do planeta nos remete de novo para o limbo.

Iglesias, que já chefiou o Banco Interamericano de Desenvolvimento, prevê também uma desvalorização do real.

E diz que o mundo só sairá da crise a partir de 2011. Ou seja, a delinquência capitalista já nos terá condenado a dois anos de vacas magras - pelo menos.

Sobre avestruzes e estátuas de sal

Celso Lungaretti

Como era de esperar-se, meu artigo PT quer voltar aos tempos do "Lula-lá" ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/02/pt-quer-voltar-aos-tempos-do-lula-la.html ) recebeu críticas à direita e à esquerda. Por enquanto civilizadas, o que já é alentador...

Os antipetistas gostariam que eu compartilhasse de sua rejeição absoluta e eterna ao partido. Ora, eu sempre disse que sou fiel aos meus princípios, acima de tudo.

Não dei um passo sequer em direção ao PT; foi o PT que veio ao encontro da posição acerca da nova crise cíclica capitalista que sustento há meio ano ( http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2008/07/crnica-da-estagflao-anunciada.html ) e da posição acerca das alterações climáticas que sustento há dois anos ( http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/02/contagem-regressiva-para-humanidade.html ).

Então, por uma questão de coerência, não posso deixar de aplaudir o documento elaborado pelo Diretório Nacional do partido, rechaçando o neoliberalismo e propondo "uma ofensiva contra a ideologia dos senhores do capitalismo mundial".

Faltou, claro, uma autocrítica pela adesão do Governo Lula a essa mesma ideologia no período 2002/2008.

Afora os pornográficos anúncios de recordes de faturamento bancário (propiciados pela política econômica herdada de FHC e mantida inalterada) que éramos obrigados a engolir mês após mês, não dá para esquecermos a profissão de fé no capitalismo que o próprio Lula subscreveu na reunião do G20: "os princípios de mercado, abertura comercial e de regimes de investimento e mercados financeiros eficazmente regulados estimulam o dinamismo, a inovação e o espírito empreendedor, essenciais para o crescimento econômico, o emprego e a redução da pobreza".

Há três meses -- apenas três meses!-- Lula afiançava que a crise capitalista seria apenas uma marola e não via motivos para descrer da excelência do mercado. Agora, o PT afirma que a intervenção do Estado para minorar os estragos causados pela delinquência capitalista "desmoraliza o discurso conservador hegemônico nos últimos 25 anos" e equivale à "queda do 'muro de Berlim' neoliberal".

Em política não convém omitirmos, como avestruzes, as verdades desagradáveis; nem olharmos demais para trás, sob pena de nos tornarmos estátuas de sal.

Então, optei por seguir também neste caso outro dos princípios que formulei para meu uso e procuro sempre manter: o de colaborar, com minhas ações e posicionamentos, para que prevaleça o que as pessoas e agrupamentos têm de melhor dentro de si.

Darei ao PT um voto de confiança em relação às diretrizes que acabou de anunciar, na esperança de que, desta vez, o partido se mantenha fiel a elas.

Mas, seria desonesto omitir de meus leitores que não foi assim que o PT agiu no passado, quando deixou de honrar as esperanças que despertara, principalmente em termos de bandeiras macroeconômicas (e, valeria acrescentar, éticas).

O PT quer voltar aos tempos do "Lula-lá"

Celso Lungaretti

Sai Lulinha Paz-e-Amor, entra Lula-lá.

Na última terça-feira (10) o Diretório Nacional do PT aprovou uma resolução política que representa, na prática, uma volta às posições defendidas pelo partido antes da eleição presidencial de 2002.

A recessão que se aprofunda no mundo capitalista, tendente a virar depressão, fez com que o PT apostasse nas antigas bandeiras ideológicas para tentar eleger Dilma Roussef no ano que vem.

Afinal, o pleito ocorrerá num momento crítico, como a resolução enfatiza: "Estamos diante da maior crise econômica mundial desde a Grande Depressão originada em 1929 (...). A grave crise econômica atual, além de agravar a crise social e alimentar já antes dramática em várias partes do mundo, vem se somar à intensa crise ambiental para a qual o capitalismo não consegue dar resposta. Estamos diante de uma crise do sistema capitalista como um todo".

Daí concluir o PT que "é o momento de ofensiva contra a ideologia dos senhores do capitalismo mundial".

Que passa, claro, por uma ofensiva contra o PSDB e o DEM na próxima eleição presidencial: "A disputa que se travará em 2010 será entre dois projetos. De um lado, as forças progressistas e de esquerda, que querem dar continuidade à ação do governo Lula, reduzindo desigualdades sociais e regionais, ampliando o investimento público, fortalecendo o papel indutor e planejador do Estado, gerando empregos e distribuindo renda, fortalecendo a saúde, a previdência e o ensino público, exercendo uma política externa que fortalece a soberania e a integração continental. De outro lado, as forças neoliberais, conservadoras e de direita, que de 1990 até 2002 privatizaram, desempregaram e arrocharam o povo brasileiro, implementando em nosso país as mesmas políticas que estão na raiz da crise mundial".

Elogios em boca própria à parte, é evidente que o PT, por força das circunstâncias, ensaia a retomada do seu projeto político da década passada, depois de surfar oportunisticamente nas ondas do neoliberalismo entre 2002 e 2008; e que, se as posições enunciadas nessa resolução política forem mantidas na campanha, a esquerda o acabará apoiando maciçamente no previsível 2º turno entre Dilma e Serra. Motivo? A alternativa é muito pior.

Ficará na nossa boca, entretanto, o gosto amargo da lembrança destes seis anos em que os bancos lucraram como nunca e o grande capital teve todos os seus interesses atendidos. Estar novamente com as posições certas não redimirá o PT da facilidade com que delas abdicou para obter o consentimento dos poderosos quando queria chegar ao Planalto.

Também soa meio ridículo este parágrafo: "O PT se posiciona contra as propostas de flexibilização de direitos trabalhistas que estão sendo defendidas por parte do empresariado brasileiro, com apoio de setores da mídia. O PT repudia a postura de setores empresariais que lucraram muito nos últimos anos e, diante das primeiras dificuldades, recorrem às demissões como forma imediata de ajuste".

Em tese, corretíssimo. Só que Lula não tem agido com a diligência para evitar as demissões que tínhamos o direito de esperar de um ex-sindicalista alçado à Presidência da República. Se quiser tornar crível esse discurso, terá de melhorar sua performance.

O PT dá os passos certos para reassumir, pelo menos, a condição de mal menor - o que não foi o caso da eleição de 2006, quando o 2º turno parecia estar sendo disputado entre irmãos siameses.

Vamos torcer para que se torne, isto sim, um bem maior. Ou seja, para que deixe de ser camaleônico e doravante mantenha sempre essa identidade, chova ou faça sol.

Era isto que esperávamos do partido formado pela esquerda que resistiu à ditadura, por sindicalistas que realmente enfrentavam o patronato e pelas alas progressistas da Igreja Católica, cujo crescimento se deu graças ao idealismo e aos esforços voluntários dos seus seguidores.

Jornalões admitem: bancos agem como rapinantes na crise

Celso Lungaretti

A atual crise cíclica do capitalismo, a mais grave desde a de 1929, já provocou um quase milagre: irmanou os dois principais jornais paulistas, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, nas críticas ao nível exorbitante, escandaloso, que a agiotagem bancária atingiu.

A Folha (editorial A batalha do "spread", 06/02) admite que, no momento em que todos deveriam colaborar para que o pior fosse evitado, os bancos trataram é de acumular ainda mais banha, aumentando o chamado spread, que é a diferença entre o que eles pagam para quem lhes empresta dinheiro e o que eles cobram dos que lhes tomam empréstimos (a melhor tradução para esta prática repulsiva e parasitária é ágio bancário).

Diz a Folha que os bancos comerciais "aumentaram os 'spreads' em meio ao estrangulamento do crédito, quando as autoridades agiam no sentido contrário", disponibilizando dinheiro barato para as instituições financeiras, a fim de que houvesse crédito para irrigar a produção e o consumo.

Antes tarde do que nunca, a Folha admite: "...é inegável o peso da oligopolização bancária, que resulta em déficit crônico de competição, nessa equação dos juros altos".

Ou seja, a culpa pelos juros altíssimos praticados no Brasil não é só do Banco Central, dos impostos elevados, da inadimplência excessiva, etc., como alegam os bancos, mas sim da ganância desmedida dos próprios bancos, dos "estrondosos lucros que auferem, chova ou faça sol, as grandes casas bancárias brasileiras".

Não menos incisivo é o Estadão, no editorial Spread alto demais (06/02).

Depois de informar que "uma das causas apontadas pelo Banco Central (BC) para a elevação dos juros ou sua manutenção em níveis altíssimos é o aumento do spread, que propicia o aumento do lucro dos bancos, apesar da crise", o jornal opina ser isto mesmo o que está ocorrendo:

"Apesar das medidas tomadas pelo governo para reduzir os custos bancários, o crédito, além de escasso, está ainda mais caro do que já era. (...) Os gastos da indústria com o pagamento mensal de juros aumentaram 17% no último trimestre de 2008, na comparação com o custo médio dos nove primeiros meses do ano. Normalmente, os gastos com juros são inferiores à folha mensal de salários (sem os encargos). De janeiro a setembro, para cada R$ 100 da folha, a indústria gastou R$ 95 com juros. Nos três últimos meses do ano, para o mesmo gasto com pessoal, a indústria pagou R$ 111 de juros".

Evidência maior de que os bancos são sanguessugas não existe: o patamar dos juros superou o da própria folha salarial das indústrias!

Até a Federação Brasileira de Bancos teria falhado ao tentar rebater as acusações do Banco Central, segundo o Estadão: "Na tentativa de contestar o BC, a Febraban divulgou um estudo técnico cujos resultados, embora divirjam numericamente dos apresentados pelo governo, confirmam que o spread é muito alto e aumentou nos últimos meses, e que medidas de alívio para os bancos tomadas pelo governo não resultaram na queda dos juros para o tomador do empréstimo".

Quem é flagrado praticando a rapina durante uma guerra acaba diante do pelotão de fuzilamento. Pena que, mesmo numa situação de emergência como a atual, esta regra não se aplique aos bancos rapinantes, pois clama aos céus que estão merecendo punições severas!