Israel, Guerra Fria Árabe e o Massacre de Gaza

Ramez Philippe Maalouf
Mestrando em Geografia Humana – USP / Especialista em História das Relações Internacionais - Uerj

O Estado de Israel se proclama um "Estado judeu" em sua carta de fundação, porém, a realidade demográfica desmente tal pretensão, cerca de 20% da população israelense é árabe (palestinos, libaneses, árabes beduínos e drusos), há ainda armênios (cristãos) e circassianos. Há árabes no exército israelense, os drusos, que são seguidores da religião drusa, uma heterodoxia do Islã oriunda do xiismo. Os drusos apoiaram os judeus na chamada Guerra de Independência, entre 1947 e 1949, contra os palestinos e demais árabes. Portanto, a população árabe de Israel não é homogênea. A fundação de Israel foi possível através da expulsão de mais de 700 mil palestinos pelas forças judias em conluio com as monarquias árabes conservadoras (Jordânia e Egito) e governos árabes militares corruptos (Síria sob a ditadura do coronel Hosni Zaim), porém cerca de 100 mil palestinos permaneceram no chamado "Estado judeu". Estes remanescentes deram origem à maioria dos atuais 1,4 milhão de árabes-israelenses.

Em 1967, como resultado da Guerra dos Seis Dias, Israel invadiu e ocupou a península do Sinai, tomada do Egito, as Colinas do Golã, tomadas da Síria, e os territórios palestinos da Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Com isto, uma grande população árabe passou a ficar sob o domínio de um Estado que se definia como judeu. Para reverter tal situação (um Estado judeu com 40% de sua população de origem árabe) os israelenses fomentaram um processo de colonização judia, com o apoio de extremistas religiosos judeus, nos territórios árabes ocupados, de modo a criar um “fato consumado” e forçá-los a sair da região ocupada. Foi para quebrar de uma vez por todas a resistência pacífica dos palestinos nos Territórios Ocupados e expulsar os palestinos para a Jordânia, que o então ministro da defesa, general Ariel Sharon, e o então premier, do partido Likud, de extrema-direita, Menachem Begin, resolveram, no verão de 1982, invadir o Líbano, com apoio de milícias libanesas, e expulsar a OLP para a Tunísia, causando a morte de mais de 20 mil árabes.

Derrotados no Líbano e duramente reprimidos nos Territórios Ocupados, os palestinos se sublevaram com paus e pedras contra a opressão israelense, em dezembro de 1987, iniciando a Intifada (levante em árabe) na Faixa de Gaza, o território palestino mais pobre e mais densamente povoado, logo se alastrando para a Cisjordânia. O então ministro da defesa do governo de coalizão likudista-trabalhista, general Yitzhak Rabin, ordenou uma dura repressão à população palestina, provocando comoção internacional. Para quebrar a resistência, os serviços secretos israelenses passaram a instilar a guerra civil intra-palestina, financiando grupos extremistas islâmicos, tradicionais inimigos da ideologia secular da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), principal liderança militar e civil do movimento nacional palestino. Dentre estas organizações extremistas apoiadas por Israel, destacou-se um braço da Irmandade (ou Fraternidade) Muçulmana egípcia, o Hamas, fundada em 1988.

A Primeira Intifada acabou perdendo força com a Guerra do Golfo, em 1991, e praticamente cessou de existir com os Acordos de Oslo, em 1993. Por outro lado, estes Acordos, assinados por Arafat, então chefe da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e Rabin (então premier de Israel), em 1993, legitimaram bantustanização dos palestinos nos Territórios Ocupados e Invadidos por Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A “bantustanização” significa o cerco das cidades e aldeias palestinas pelas colônias judias, desta forma, os palestinos passaram a viver em enclaves (territórios descontínuos), com acesso restrito ao mundo exterior. Assim, Israel mantém mais de 3,9 milhões de palestinos sob cerco permanente e enclausurados nos enclaves na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, impossibilitando a fundação de um Estado Palestino plenamente soberano. Entretanto, ao inviabilizar a fundação de um Estado palestino soberano, Israel, que se define como um Estado judeu, terá obrigatoriamente a conviver com uma população árabe em territórios sob seu domínio de fato, que somada, se iguala a população judia.

Aliados à “demopolítica” israelense, os Estados árabes estão em guerra civil aberta, sacrificando a população civil em conflitos "terceirizados", ou seja, o combate a um Estado árabe rival ocorre através da intervenção externa de um Estado não-árabe. Este foi o caso das duas invasões americanas que destruíram o Iraque, em 1991 e em 2003 e as três grandes invasões israelenses do Líbano, em 1978, 1982 e em 2006. Inicialmente, a rivalidade entre os Estados árabes surgiu, em grande medida, como decorrência da Guerra Fria, na disputa entre os EUA e a antiga União Soviética (URSS) pela supremacia mundial. A disputa inter-árabe era entre as monarquias conservadoras (Jordânia, Marrocos, Arábia Saudita e xecados do Golfo), firmemente apoiadas pelos EUA e Europa, e as repúblicas militaristas de inspiração kemalista (nacionalismo reformista), como era o caso do Egito (pós-1952), Iraque (pós-1958), Síria (pós-1949) e Líbia (pós-1969), que buscaram apoio da URSS. A Guerra de 1967, com a humilhante derrota das repúblicas nacionalistas, diluiu esta divisão. Com o fim da URSS, a Guerra Fria, que jamais terminou, ganha novos contornos com a possível aliança asiática entre China, Índia e Rússia, entendida pelos EUA como uma ameaça real e imediata aos seus interesses. Tal enfrentamento mundial reflete-se no Oriente Médio via a aliança entre Irã e China, que é percebido pelos EUA como desestabilizadora ao equilíbrio mundial.

O Irã, país não-árabe e remanescente do Império Persa, por sua vez, tem um projeto nacional-desenvolvimentista, com pretensões de hegemonia sobre o mundo árabe, pois, pretende expandir sua revolução xiita pela região. A destruição do Iraque, entretanto, principal inimigo do regime nacionalista-xiita do Irã, favoreceu o regime dos aiatolás. É preciso lembrar que o regime islâmico de Teerã apoiou da destruição do país mesopotâmico pelos EUA, que resultou num massacre contra as populações iraquianas sunitas, xiitas, cristãs e palestinas. Por outro lado, o desenvolvimento de um programa nuclear pelo Irã gerou hostilidade não apenas do Ocidente, mas de Israel e de seus aliados árabes (Egito, Jordânia e Arábia Saudita), aumentando ainda mais a polarização regional. Formou-se, com isto, no mundo árabe, duas coalizões de caráter heterodoxo e paradoxal, o chamado "eixo xiita", aliado à Rússia e China, formado pelo Líbano (após a posse de Michel Sleiman, pró-Hizbollah, grupo xiita), Síria (sob uma ditadura alauíta, ramo do xiismo), Irã (país não árabe) e o Hamas (grupo sunita palestino); e o chamado "eixo sunita", cujo núcleo duro é formado pela Arábia Saudita, Marrocos, Jordânia, Egito e Israel (país dominado pelos judeus).

Esta nova Guerra Fria no mundo árabe é uma das principais razões do ataque de Israel à Faixa de Gaza, na virada de 2008 para 2009, que visa diminuir a pressão demográfica dos árabes em territórios sob ocupação israelense. Os bombardeios israelenses, sem qualquer resistência militar palestina efetiva, resultaram no massacre de mais de 1330 palestinos, em sua maioria civis (mulheres e crianças). Esta política foi denominada pelo historiador israelense Ilan Pappé como genocídio. O "eixo sunita" deu sinal verde para Israel massacrar os palestinos na Faixa de Gaza, o que vem ocorrendo sistematicamente desde 2005, de forma a enfraquecer/eliminar o Hamas e seus aliados regionais (Síria e Irã). Se a "coalizão sunita" entender que o novo presidente dos EUA, Barak Obama, será um linha-dura com o Irã, tal como W. Bush, a ponto de apoiar a neutralização do programa nuclear iraniano, é grande a possibilidade de um agravamento dos conflitos na região a tal ponto que possam eclodir em escala internacional, com conseqüências sombrias.

A postura de Obama é pautada pela ambigüidade, pois ao mesmo tempo sinaliza com uma conciliação com o "eixo xiita" (Síria e Irã), nomeia para seu secretariado nomes alinhados com o expansionismo militar israelense. Por outro lado, a grave crise econômica enfrentada pelos EUA pode inibir ambições imperiais, constrangimento que W. Bush não sofreu, e com isto pacificar, ainda que temporariamente, a região.

A duração desta crise regional depende exclusivamente do apoio que os Estados árabes do "eixo sunita" e os EUA oferecem a Israel, na guerra à “coalizão xiita”, e também da opinião pública israelense, que apesar de ser dividida, se revela cada vez mais belicista. Tudo indica que a coalizão árabe sunita, a qual Israel é aliado, não pretende mudar o "status quo", ao contrário, não só quer mantê-lo, como também aprofundá-lo. Percebe-se, com isto, que ao contrário do que acredita a maioria das pessoas, este conflito não é apenas uma guerra de árabes contra judeus, mas, sim, uma guerra civil árabe, onde árabes e judeus se unem para assassinar árabes.


Referências Bibliográficas

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Faroeste no Gueto de Gaza

Celso Lungaretti

Pasmem: tanto a Câmara dos Representantes quanto o Senado dos EUA aprovaram, por esmagadoras maiorias, resoluções de apoio ao genocídio que Israel está perpetrando no Gueto de Gaza!

Como se fossem autistas, alheios a tudo que câmaras mostram, correspondentes relatam e a ONU deplora (com tanta veemência quanto impotência), os parlamentares estadunidenses atribuem ao Hamas a responsabilidade única por essa versão em miniatura e com sinal trocado do Holocausto.

"Israel, como qualquer outra nação, tem direito à autodefesa quando está sob ataque", disse a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, omitindo a extrema desigualdade de forças e a adoção da matança generalizada de civis (velhos, mulheres e crianças incluídos) como prática intimidatória por parte do estado judeu.

Então, que fique o resto do mundo ciente: por melhores que sejam as intenções do presidente eleito Barack Obama, pouco ou nada poderá fazer para corrigir as distorções mais aberrantes da política dos EUA. O Congresso não deixará.

De resto, louve-se a coerência dos deputadores e senadores estadunidenses, que mantêm ínalterada sua postura através dos séculos. Avalizaram outrora o extermínio dos indígenas em seu país com a mesmíssima argumentação ora utilizada para avalizar o extermínio dos palestinos.

PITONISA - Embora pareça mais o jornalzinho da Gaviões da Fiel enfocando um Corinthians x Palmeiras, o trecho abaixo é da reportagem "O direito à autodefesa", publicada na edição de 14/01/2009 da revista Veja:

"O que é fora de dúvida é que Israel não pode (e não vai) perder a guerra contra as forças da intolerância religiosa no Oriente Médio, representada agora pelos terroristas do Hamas. Israel é uma sentinela avançada da democracia e da civilização judaico-cristã cercada por nações e grupos políticos armados que formal e claramente lutam pela destruição do estado judeu e pela morte de todos os seus habitantes não-árabes. Também é fora de dúvida que não haverá paz enquanto os vizinhos hostis não aceitarem que a existência de Israel é legítima, que o país tem o direito de se defender e que o terrorismo destrói o que pretende construir."

A confusão é total entre espaços noticiosos e editoriais, bem como entre jornalismo e militância e, enfim, entre análise séria e mera expressão de desejos.

Eu, que não vi em nenhuma bola de cristal se Israel vai ou não perder qualquer guerra, prefiro relatar/comentar os fatos à medida que vão ocorrendo, como aprendi na escola de jornalismo .


BUMERANGUE - O PT comparou a carnificina em Gaza com suas similares históricas, cometidas pelos nazistas. Pelo menos desta vez, está certíssimo.

Que se preparem, entretanto, os petistas para o bumerangue: eles é que serão alvos de uma comparação extremamente vexatória, caso venham a entregar o perseguido político Cesare Battisti para a retaliação (não Justiça) italiana.

O episódio será encarado pela esquerda digna desse nome como repetição do ato indigno de Getúlio Vargas, ao despachar Olga Benário para os cárceres nazistas e a morte.

E a reputação que certos petistas laboriosamente tentam construir, de coerência com os ideais históricos que o partido esqueceu, virará pó no mesmo instante.

A tragédia do Oriente Médio

Celso Lungaretti

Os folhetins, o cinema e a TV nos acostumaram a observar os complexos dramas das pessoas, povos e nações a partir de uma ótica simplista: heróis-vilãos-vítimas.

Ou, simplificando mais ainda, a acreditarmos que quem causa sofrimento às vítimas são os bandidos e quem as defende, os mocinhos.

No fundo, trata-se do velho e obtuso maniqueísmo, a que os pensadores marxistas contrapuseram a dialética: Bem e Mal não existem como instâncias metafísicas que, desde os píncaros do paraíso celestial ou das profundezas do inferno, teleguiam a práxis humana, mas sim como resultado das decisões e ações adotadas pelos homens em cada situação.

No primeiro caso, alguns encarnam o Bem absoluto e o Mal absoluto, sem nuances: os mocinhos são sempre mocinhos e os bandidos, eternamente bandidos.

Na análise marxista, os papéis vão sendo assumidos a cada instante, de forma que o mocinho de ontem poderá ser o bandido de hoje, e vice-versa.

Infelizmente, a esquerda mundial até hoje não se recuperou do pesadelo stalinista, que, como Isaac Deutscher bem assinalou, foi um amálgama do pensamento sofisticado dos revolucionários europeus com a religiosidade primitiva da Santa Mãe Rússia.

E a História, infelizmente, favoreceu essa perda de densidade crítica por parte da esquerda. O nazifascismo parecia mesmo encarnar o Mal absoluto, colocando os que o combatiam na condição de cruzados do Bem absoluto.

Veio a guerra fria e a estreiteza de visão se consolidou definitivamente, de ambos os lados. A política mundial se tornou um mero western daqueles tempos em que os mocinhos se vestiam sempre de branco e os bandidos só usavam trajes negros.

Então, desde que os EUA se colocaram como protetores de Israel e os soviéticos se compuseram com o líder egípcio Gamal Abdel Nasser, na década de 1950, ficou estabelecido que a única forma progressista de encararmos os conflitos do Oriente Médio é beatificando os árabes e satanizando os judeus.

A questão no Oriente Médio é muito mais complexa.

Em primeiro lugar, temos um povo (o judeu) milenarmente perseguido, não só devido à maldade intrínseca dos poderosos de todos os tempos, mas também a uma certa vocação para o martírio: nunca quis misturar-se aos outros povos e conviver harmoniosamente com eles, fazendo, pelo contrário, questão de preservar sua identidade cultural/religiosa e de ostentá-la aos olhos de todos.

Então, mais do que a outros povos, fazia-lhe imensa falta um território próprio. Constituindo uma colônia minoritária em outros países e segregando-se rigidamente dos naturais desses países, neles despertava previsível hostilidade.

Ademais, os judeus eram invejados pelos gênios da cultura e da ciência que produziam (Marx, Freud, Einstein e tantos outros) e por seu êxito nas finanças, além de despertarem a hostilidade dos governos pela participação marcante que tinham em movimentos libertários/revolucionários.

É sintomático, aliás, que a esquerda hoje esqueça ou omita a importantíssima contribuição do Bund (União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia) para a gestação do movimento revolucionário russo, no início do século passado.

HOLOCAUSTO – Ao buscar um inimigo comum contra o qual unir a nação alemã, Hitler não precisou pensar muito: os judeus eram a opção óbvia.

Finda a II Guerra Mundial, a indignação que o Holocausto provocou na consciência civilizada fez com que a idéia do lar judaico passasse a ser vista com simpatia generalizada.

Foi quando os judeus cometeram seu maior erro de todos os tempos: aceitando a liderança espúria de fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários, implantaram seu estado nacional numa região em que se chocariam necessariamente com outros fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários.

A Inglaterra, império decadente, bem que tentou impedir, em vão. E as pombas desnorteadas, judeus imbuídos dos melhores ideais, acabaram aderindo em massa ao projeto sinistro dos falcões.

Então, uma das experiências socialistas mais avançadas que a humanidade conheceu, a dos kibutzim (comunidades coletivas voluntárias israelenses), acabou sendo tentada num país que logo viraria bunker – e, melancolicamente, foi definhando, até quase nada diferir hoje das cooperativas dos países capitalistas.

As nações árabes só não exterminaram até agora o estado judeu porque jamais o enfrentaram juntas e disciplinadas, sob um verdadeiro comando militar. Mesmo quando vários exércitos combateram Israel, atuaram praticamente como unidades independentes, em função das querelas e disputas de poder entre os reis, sheiks, sultões, califas, emires, etc., de países cuja organização política e social ainda é feudal.

Os israelenses, por enquanto, têm compensado sua inferioridade numérica com a superioridade de seus quadros e equipamentos militares, bem como com a repulsiva prática de promover massacres intimidatórios, reagindo de forma desproporcional e freqüentemente genocida aos ataques que sofre.

Os movimentos fundamentalistas/terroristas árabes agem como provocadores: sabem que jamais conseguirão enfrentar de igual para igual Israel, mas atraem retaliações contra seus povos, na esperança de que isto acabe trazendo as nações para o campo de batalha. Querem ser o estopim de uma guerra santa e não hesitam em sacrificar os seus em nome dos desígnios de Alá.

Os governantes feudais árabes, entretanto, têm mais medo de serem desalojados dos seus tronos do que ódio por Israel. Sabem que o despertar das massas contra o inimigo nacional pode derivar para levantes revolucionários em seus países. Preferem preservar o status quo, ao preço de fecharem os olhos a atrocidades como as que estão sendo cometidas contra os palestinos em Gaza.

Não se trata de nenhum filme de mocinho-e-bandido, pois só há vilãos entre os atores políticos; ninguém que mereça nossa simpatia e apoio.

Quanto às vítimas, estas sim são indiscutíveis: os civis que, nas últimas seis décadas, têm sido abatidos como moscas, devido à cegueira e (sejamos francos) imoralidade monstruosa desses atores políticos.

No fundo, a solução sensata seria o estabelecimento dos judeus noutro território qualquer – quantos países paupérrimos não lhes cederiam terras e autonomia administrativa, em troca de recursos e cooperação para seu desenvolvimento?

Mas não é a sensatez que rege o mundo e sim, como Edgar Allan Poe destacou, o horror e a fatalidade.

Então, os Hamas da vida continuarão ensejando carnificinas e os israelenses seguirão massacrando os vizinhos, trucidando seus velhos, mulheres e crianças, até que surja um novo Lawrence da Arábia e consiga levar à vitória a guerra santa sonhada pelos fundamentalistas/terroristas árabes.

O que temos no Oriente Médio é uma tragédia: os acontecimentos marcham insensivelmente para o pior desfecho e nada podemos fazer, exceto atenuar, tanto quanto possível, os banhos de sangue.

Repúdio à campanha genocida de Israel

Celso Lungaretti

Não me considerando autoridade em assuntos do Oriente Médio, mas compartilhando a indignação que a atual campanha genocida de Israel provoca nos cidadãos decentes do mundo inteiro, faço minha as palavras do ex-secretário de Estado de Direitos Humanos do governo brasileiro, Paulo Sérgio Pinheiro, em seu brilhante artigo de hoje na Folha de S. Paulo ("Guerra total: massacre de civis", http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0601200908.htm ). Eis os trechos principais:

"Gaza tem a mais alta densidade demográfica do mundo: mais de 4.000 pessoas por km2. Cerca de 1,5 milhão de pessoas numa área de 360 km2, imprensadas entre o mar e as fronteiras com Israel e Egito.

"Puro engodo bombardeios aéreos israelenses com 'precisão cirúrgica'. Impossível evitar vítimas civis como 'dano colateral'. Não há para onde escapar.

"Em pouco mais de uma semana, 512 palestinos foram mortos. Um quarto das vitimas, segundo a ONU, é de civis, mulheres e crianças. Os feridos já são mais de 2.000 - e os hospitais não dão conta das amputações.

"Trinta e um soldados israelenses foram feridos nos ataques por terra e quatro civis israelenses foram mortos por foguetes de grupos do Hamas.

"A desproporcionalidade entre a guerra total de Israel e os ataques de foguetes do Hamas ou a resistência à ocupação israelense - dos dois lados crimes de guerra sendo cometidos contra civis - fica patente, apesar do bloqueio à entrada de qualquer jornalista ocidental: o ocupante não quer testemunhas do massacre.

"Israel, ao fechar os acessos da fronteira de Gaza há meses, descumpre suas obrigações como potência ocupante e pune coletivamente a população civil. O sistema de água e esgoto beira o colapso, pois os bombardeios destruíram as linhas de eletricidade e há meses não há combustível para gerar energia. Em flagrante descumprimento das convenções de Genebra e seus dois protocolos, estão sendo sistematicamente arrasados hospitais, ambulatórios e escolas, e mulheres e crianças são aterrorizadas.

"...(a) política desastrada de isolamento do Hamas transformou Gaza num enclave condenado a condições de vida a cada dia mais semelhantes aos bantustões do regime do apartheid sul-africano.

"O que se pode esperar nos próximos dias? Nada ou muito pouco, a não ser a intensificação da dança diplomática de visitas a Jerusalém e a Ramallah... Como pano de fundo, bombardeios, o avanço da invasão por terra (e mar), a reocupação, massacre de civis, mais foguetes do Hamas, a caçada letal aos líderes do Hamas (e o trucidamento de suas mulheres e crianças) e mudança de regime em Gaza dissimulada. Tudo deverá continuar até 20/1, quando tomará posse o presidente Obama, do qual se poderia esperar ao menos uma lamentação pelas perdas civis. Trágico começo de ano."