Intolerância religiosa e estigmatização

Por Antonio Ozaí da Silva

Um dos aspectos que chama a atenção em certas denominações religiosas é intolerância religiosa e a estigmatização do diferente, em especial em relação aos cultos e religiões afro-descendentes e aos homossexuais (...) >>

Sonhei que eu era de direita!

Por Antonio Ozaí da Silva

Se não correspondemos ao comportamento esperado, facilmente nos acusam de “fazer objetivamente o jogo da direita” e até de adjetivos mais duros como “fascitóide” etc. Ainda mais se o que escrevemos é considerado futilidade (...)

O vício do gerundismo

por Antonio Ozaí da Silva

Estarei escrevendo na tentativa de estar contribuindo para que os leitores possam estar prestando atenção à uma determinada forma de comunicação oral e escrita que está sendo comumente utilizada em nosso tempo. Caros leitores, por favor, não estranhem a linguagem. Procuro apenas ser fiel à maneira de se comunicar que, se já foi novidade e modismo, hoje parece consolidada e incorporada à fala e escrita da intelligentsia de Pindorama.

Meninas e meninos mimados

por Antonio Ozaí da Silva

Vejo crianças e jovens aborrecentes mimados, arrogantes e autoritários. Pais endividados e perdulários tudo fazem para atender os desejos dos pequenos reizinhos e princesinhas despóticos. Sentem-se culpados se não conseguem saciá-los. Acostumam os filhos a um padrão de consumo muitas vezes acima das possibilidades. Não conseguem voltar atrás, cortar gastos e os pequenos prazeres. Então, recorrem ao cheque especial, ao cartão de crédito, empréstimos etc. (...) Clique no título para ler.

Reflexões dostoievskianas

por Antonio Ozaí da Silva

Tenho o costume de fazer anotações sobre os livros lidos. Um comentário reflexivo, um trecho que chama a atenção, uma referência que permite estabelecer links com outras leituras e fatos da vida, etc. Antes, anotava em papel. Agora, na era do computador, os registros das leituras e da vida são informatizados e estão ao alcance em um clique. Foi assim que, sem querer, encontrei em meus arquivos as notas sobre o livro Memórias do subsolo e outros escritos, de Dostoievski, que li no início de 2006. *

A obra é composta por três textos: Notas de inverno sobre impressões de verão, Memórias do subsolo e O crocodilo. Boris Schnaiderman, tradutor e autor da apresentação do livro, ressalta o tom de negação da vida ocidental presente em Notas de inverno. Assim, no Capítulo V (“Baal”), “ao ligar o espírito capitalista de ganância com a religião, na Inglaterra, ele prenuncia claramente a teorização de Max Weber sobre este assunto.” (p.10).

Dostoievski ironiza o espírito burguês e a eloqüência do francês (que esconde seus pobres) e compara-o com o inglês. ** Faz uma excelente descrição da capital inglesa na época da Revolução Industrial. “E que visão dantesca ele nos transmite da cidade capitalista! Violenta e muito mais demolidora que a de Dickens, diante dos mesmos panoramas urbanos. Aquele fragrante da menininha prostituída, agarrada à moeda que recebera, tem algo de clamor desesperado. E isso pode parecer surpreendente num escritor que não acredita no socialismo e tem uma fé cega em seu povo, em seu país, cujas instituições ele nem pensa em contestar”, escreve Schnaiderman (p.11).

O Crocodilo é excelente! Nele, o autor polemiza com a intelectualidade russa sobre o desenvolvimento nacional e a influência ocidental. Sobressai a ironia ao “princípio econômico”, ou seja, a prevalência do Capital sobre todos os demais valores. O crocodilo engoliu o funcionário e este se torna, diante do “princípio econômico”, culpado. Ele aceita e procura uma maneira de lucrar com a situação em que se encontra, isto é, no interior do animal. É uma visão crítica, mas divertida!

O texto que mais me marcou foi Memórias do Subsolo. É nele que Dostoievski escreve as palavras que inspiram este blog: “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio: e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quando mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui.” (p.99).

É um texto impactante, embora seja maçante em seu início e exija perseverança do leitor. Li quanto minha filha fez uma cirurgia, em sua companhia no hospital. Não foi uma leitura agradável e talvez esse fato tenha influenciado. Não estava em plenas condições para concentrar-me. Logo nas palavras iniciais Dostoieviski afirma: “Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Ceio que sofro do fígado”. (p. 65). O leitor deve imaginar o que vem depois!

Não obstante, esse texto me fez pensar sobre o ser intelectual e, especialmente, sobre as Ciências Sociais. “Juro-vos senhores que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para uso do cotidiano seria mais do que suficiente a consciência humana comum...”, afirma Dostoievski (p. 68). A consciência perspicaz trás à tona o sofrimento. Não há escapatória para o intelectual e cientista social comprometido com o ser no mundo e tudo o que isto envolve. Só há uma forma de evitar o sofrer: manter-se na ignorância.


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* DOSTOIEVSKI, F. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo, Editora Paulicéia 1992. [Tradução do russo por Boris Schnaiderman]
** Ver o capítulo VI, “Ensaio sobre o burguês” (p. 233-245). Nesta parte, Dostoievski brinda o leitor com uma definição sobre a liberdade criativa e crítica: “O que é liberté? A liberdade. Que liberdade? A liberdade, igual para todos, de fazer o que bem se entender, dentro dos limites da lei. Mas quando é que se pode fazer o que bem se entender? Quando se possui um milhão. A liberdade concede acaso um milhão a cada um? Não. O homem desprovido de milhão não é aquele que faz o que bem entende, mas aquele com quem fazem o que bem entendem. O que se conclui daí? Conclui-se que, além da liberdade, existe a igualdade e justamente a igualdade perante a lei. Quanto a esta igualdade perante a lei, pode-se dizer apenas que, na forma em que ela se pratica atualmente, cada francês pode e deve considerá-la uma ofensa pessoal.” (p. 240)

A Política, de Aristóteles

por Antonio Ozaí da Silva

A Política, de Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), escrita há mais de dois mil anos, é uma obra atualíssima. Isso, apesar do tempo que nos separa e das transformações radicais pelas quais passaram as sociedades humanas nestes séculos.

A Política, é sobre a vida na Pólis e tudo o que esta envolve. Quem governa e quem é governado? Como escolher os governantes? Quem é cidadão?[1] Qual a melhor forma de governo? Quais os fatores que levam à degeneração política? Como manter a ordem social diante das diversas classes que compõem a pólis? Qual a finalidade do Estado? As respostas, ilustradas por exemplos, mostra que muitos dos dilemas dos homens e mulheres da Grécia antiga são também os nossos.

A obra tem a marca do tempo-espaço em que viveu o Estagirita.[2] Todo autor, em menor ou maior grau, também é prisioneiro de seu tempo. Talvez isto explique as posições aristotélicas sobre o papel das mulheres, as restrições à cidadania dos trabalhadores manuais e a sua justificação da escravidão.

Como leitor, não posso concordar. Especialmente, quando ele fundamenta sua argumentação nas “leis da natureza”. Assim, uns nascem para obedecer e outros para comandar, uns para trabalharem e outros para governarem, uns para serem senhores e outros para escravos. “Pertence ao desígnio da natureza”, afirma Aristóteles, “que comande quem pode, por sua inteligência, tudo prover e, pelo contrário, que obedeça quem não possa contribuir para a prosperidade comum a não ser pelo trabalho de seu corpo. Essa partilha é salutar para o senhor e para o escravo” (p. 2).

O escravo é propriedade da casa e parte do senhor. Ele não se pertence, e, portanto, não pode ser outra coisa senão escravo por natureza, equivalente ao boi da família. E a mulher? Sua condição, diz o Estagirita, difere do escravo. Mas, como este, ela deve se submeter ao senhor. “Em todas as espécies, o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção”, sentencia (p.13). Escravos e mulheres são considerados inferiores e devem ser submissos. É a lei da natureza: “há homens feitos para a liberdade e outros para a servidão, os quais, tanto por justiça quanto por interesse, convém que sirvam” (p.15).

O macho livre é senhor dos escravos e da sua família. No âmbito doméstico deve reinar como um monarca absoluto. Sua condição de homem livre é o atributo para o exercício da cidadania, da participação no governo civil; cidadão na pólis, déspota no governo doméstico. Ele comanda. A virtude da mulher consiste “em vencer a dificuldade de obedecer” e a do escravo em “bem fazer o seu serviço” (p.36).

A família natural é parte do Estado, o qual tem a responsabilidade de educar as crianças e mulheres. A felicidade do Estado depende dessa educação, isto é, de cuidar para que elas sejam virtuosas – no sentido da virtude esperada da mulher. As crianças devem ser educadas enquanto futuros cidadãos, partícipes do governo dos negócios públicos, e senhores de suas mulheres e escravos.

Para bem cumprir sua finalidade, o Estado também deve cuidar da eugenia: o corpo, os casamentos, nascimentos, etc. A saúde do Estado depende da saúde e perfeição dos corpos dos seus cidadãos. O legislador deve preocupar-se com o controle dos corpos.[3]

Quem sabe, a argumentação do filósofo sobre a mulher, os escravos, a educação e a eugenia encontre adeptos. Não há os que concordam com idéia da superioridade natural masculina? Por outro lado, o poder econômico de uns não resulta em ver os outros como inferiores, uma nova categoria de escravos? E o preconceito e racismo também não se alimentam de idéias fundadas na eugenia? Ou estou equivocado? Aristóteles permanece atual, em todos os sentidos.

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[1] “O que constitui propriamente o cidadão, sua qualidade verdadeiramente característica, é o direito de voto nas Assembléias e de participação no exercício do poder público em sua pátria”, escreve Aristóteles. (p.42). A edição citada aqui é a publicada pela Martins Fontes (São Paulo, 2002).
[2] Aristóteles nasceu em Estagiros, cidade da Trácia fundada por colonos gregos no lugar onde hoje se situa Stavro, na costa setentrional do mar Egeu. Daí o termo “Estagirita”
[3] Para Aristóteles, o legislador “deve imprimir profundamente no espírito de seu povo que o que é muito bom para cada um em particular também o é para o Estado” (p.67). Ele deve “cuidar antes de tudo da boa conformação do corpo dos súditos que deverá criar, cabe-lhe por bem regular os casamentos, determinando a idade e a compleição dos que julgar admissíveis na sociedade conjugal” (p. 70). Aristóteles proporá várias medidas, desde a melhor idade para o casamento (homens e mulheres), a época propícia para o sexo, os cuidados com a gravidez e o parto, limite de filhos e a defesa do aborto, etc. (Ver o Livro II, p. 70-74).

O professor e o MST

por Antonio Ozaí da Silva

Outro dia, na aula cujo tema era a sociedade civil, dava exemplos sobre os grupos, classes sociais, entidades representativas, ONGs, associações, movimentos sociais, etc. Citei, então, o MST como um dos movimentos que compõe a sociedade civil organizada. Um aluno, de supetão, perguntou sobre a minha posição, a favor ou contra.

Primeiro, pensei em não responder. A minha postura política-ideológica não era o tema da conversa. Nem mesmo o MST era o assunto da aula, mas apenas um exemplo entre outros. Decidi, porém, responder. O aluno esperava, a turma também. O silêncio impôs-se sem necessidade de solicitar, os olhares concentravam-se na figura do professor e ouvidos atentos aguardavam a fala. Foram alguns segundos, mas é um daqueles momentos em que o tempo parece parar.

Comecei expressando meu primeiro pensamento, isto é, que a minha posição política não era o assunto da aula. Em seguida, disse que a questão era complexa e exigia uma resposta não restrita ao “sim” ou ao “não”, considerando-se que estávamos no ambiente da sala de aula. Por uma fração de segundos, criou-se uma certa tensão. Respondi, em alto e bom som: “Sou a favor!”
No dia seguinte, lendo Ideologia e Utopia, de Karl Mannheim*, deparei-me com este trecho: “Mas existe uma profunda diferença entre um professor que, após cuidadosa deliberação, se dirige a seus alunos, cujas mentes ainda não estão formadas, de um ponto-de-vista adquirido por uma cuidadosa meditação, conduzindo a uma compreensão da situação total, e um professor exclusivamente interessado em inculcar um ponto-de-vista partidário já firmemente estabelecido”.

A sala de aula não é “escola de formação de quadros” de partidos ou da organização “x”. A postura do professor, portanto, não deve ser a do “doutrinador político”, daquele que procura ganhar “corações e mentes” para a sua causa. Enquanto cidadão e pessoa pública, ele tem outros espaços para defender suas propostas e ideologia. O professor tipo “dogmático” e “doutrinador” desconhece que sua contribuição maior não está em conquistar discípulos, mas sim em “preparar o caminho para se chegar a decisões” (id.). Ou seja, ele deveria apresentar e debater com seus alunos todos os aspectos que envolvem a questão, o tema. Às vezes ele até conquista um ou outro, mas presta um desserviço à ideologia que defende (tive professores, por exemplo, que não davam aula, faziam doutrinação; fortaleciam a fé dos convertidos, mas afastavam a maioria dos que até poderiam simpatizar).

Os companheiros que me desculpem, mas não considero que o papel do professor seja fazer doutrinação política. Claro, ele tem o direito a ter a sua posição ideológica e política; não acredito em neutralidade. O espaço da sala de aula não está isolado do mundo, nem os alunos, e menos ainda o professor, são neutros. A pergunta do meu aluno não foi ingênua, inocente. Fosse outro e poderia até tomar como provocação.

Por outro lado, estar em sala de aula, como afirma Paulo Freire, “é uma presença política em si. Enquanto presença não posso ser uma omissão mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar, de comparar, de avaliar, de decidir, de optar, de romper”.**

Isso, porém, não me dar o direito de “fazer a cabeça dos alunos”, de convertê-los ao meu credo. Esta prática é ainda mais grave quando se traduz em exigências, diretas ou veladas, de adoção do discurso do professor no processo avaliativo. É desrespeitosa e abusiva. É meu direito ser a favor do MST, mas devo respeitar se o aluno for contra. É seu direito!

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* MANNHEIM, Karl. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro: Zahar, 1976, p.187.
** FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2ª edição, 1997, p.110.