Intolerância religiosa e estigmatização

Por Antonio Ozaí da Silva

Um dos aspectos que chama a atenção em certas denominações religiosas é intolerância religiosa e a estigmatização do diferente, em especial em relação aos cultos e religiões afro-descendentes e aos homossexuais (...) >>

Grupo Pela Vidda/RJ comemora 20 anos de existência

Organização celebra duas décadas de luta contra estigmatização de pessoas vivendo com HIV/Aids. Por Diego Cotta.

A mídia só é livre quando a mente é livre

Evandro Ouriques introduz no I Forum de Mídia Livre a questão da Mente Livre: "O Forum de Mídia Livre é o lugar decisivo para tratarmos da questão da "Mente Livre", que proponho e sustento, pois a "Verba Livre", que o FML quer obter através de pressões legítimas na direção do Governo para que haja distribuição democrática das verbas publicitárias públicas, e o "Verbo Livre", que o FML também quer ajudar a ampliar através da cultura digital e das redes, somente alcançarão seu objetivo de transformação social se os ativistas estiverem livres das sequências mentais do regime de servidão tornando-se ele próprios exemplos vivos no mundo de comunicadores-cidadãos, de cidadãos-comunicadores." Leia mais clicando na imagem.

Expressar sentimentos num blog faz bem à saude, diz pesquisa

Deu no BlueBus: Expressar seus pensamentos e emoçoes através de um blog pode ser bom para a saúde, diz uma materia da revista Scientific American. Entre os beneficios de se expressar atraves da escrita estao a melhoria da memoria e do sono, o estimulo à atividade imunológica das celulas e a aceleraçao da recuperaçao após uma cirurgia.

Em fevereiro, um estudo na França com pacientes com cancer indicou que os que se envolveram com a escrita logo antes do tratamento se sentiram melhor, mental e fisicamente, do que os que nao fizeram isso. Ainda segundo a materia, blogar pode liberar dopamina, um neurotransmissor que estimula o sistema nervoso central, da mesma maneira que outras atividades como ouvir musica, correr ou ver obras de arte. E ainda mais, a possibilidade de resposta imediata oferece a quem escreve o beneficio de encontrar outras pessoas em situaçao similar. Dica do Gawker, via BlueBus.

A felicidade e o homem-máquina

Programa da TV Globo incorpora a idéia do “homem-máquina” e torna evidente o processo de degradação de valores como 'felicidade' e 'simplicidade'. No filme “Muito Além do Jardim”, temos uma pista sobre como nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva - inviabilizando para grande parte das pessoas uma reação eficaz. Por Gustavo Barreto (*).

O apresentador Luciano Huck teve recentemente uma experiência-limite, muito triste e desgastante para qualquer brasileiro. Um assalto a mão armada. Prontamente foi publicado em um grande jornal de São Paulo seu artigo-desabafo: “Pensamentos quase póstumos” (Folha de S. Paulo, 01/10/2007).

Huck alerta aos leitores que foi assaltado e poderia, naquele momento, estar morto – o que causaria uma série de conseqüências importantes, entre as quais não ver nunca mais seu segundo filho, deixar “uma multidão bastante triste”, “um governador envergonhado” e “um presidente em silêncio”. Foi uma tentativa de roubar o seu Rolex – grife de relógios que custam pelo menos 5 mil reais e até 50 mil reais.

Ele argumenta: “Provavelmente não tiveram [os assaltantes] infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia (sic). O lugar deles é na cadeia.”

Neste artigo, Luciano aponta porque considera importante o “desabafo” – como classifica seu texto – e porque estava “envergonhado” e “revoltado”. São basicamente cinco pontos: (1) Ele paga impostos: “(...) como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa”; (2) Ele passa o “dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes”, no que argumenta: “TV diverte (...)”; (3) Ele passa “o dia pensando em como tentar fazer este país mais bacana”: “(...) a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão”; (4) O prazer dele “passa pelo bem-estar coletivo”: “(...) não tenho dúvidas disso”; (5) Ele é “alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. (original aqui)

Homem-lata

Este mesmo apresentador Luciano tem um quadro desta safra que “diverte”, fruto do dia que ele passa “pensando em como deixar as pessoas mais felizes”. O quadro “Lata Velha” é, na prática, uma troca: a equipe de Huck reforma (e melhora substancialmente) o carro de alguma pessoa transformada em personagem pela produção e, do outro lado, esta personagem tem que dançar, cantar ou fazer qualquer coisa na TV.

No último, em 24 de maio, um cidadão de João Pessoa teria que dançar Michael Jackson e, efetivamente, “rebolar”. A proposta foi prontamente aceita não só pelo participante, como também por sua namorada e toda a população em volta, durante a gravação na capital da Paraíba. O carro, afinal, precisava de reformas. Quem tem o dinheiro para fazê-lo dá as ordens, expressas pelo apresentador, aquele que “pensa nas pessoas mais felizes” e que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. Ordena ele: “Você vai ter que rebolar” (Luciano Huck, TV Globo, 24/05/2008, por volta de 15h45, e repetidamente até 16h15).

Não é um tema para poucas linhas, mas é notável a matriz religiosa de seu discurso após o roubo: durante quase todo o artigo, Luciano busca deixar claro que tem crédito pelo que se proclama como benfeitor e, de forma alguma, uma dívida. Ele tem um “crédito” conquistado e, portanto, não mereceria “um 38 na testa”.

Cadeia nacional

“Uma multidão bastante triste”, adiciono, é a multidão de pessoas que, como eu, ficam deprimidas com o fato de que o trabalho de milhões de pessoas sérias, milhões de brasileiros comprometidos com a educação e a saúde das pessoas, passem a vida toda no mais completo anonimato, sem qualquer espécie de reconhecimento “em cadeia nacional”. Alguns têm, efetivamente, destino diverso: a cadeia Stricto sensu, a prisão. Outros estão metaforicamente presos dentro de uma lógica que sufoca milhares de grupos organizados sem acesso à opinião pública – os sem-mídia.

Foi Luciano Huck que, hoje, pensando no mesmo conceito – felicidade – levou um cidadão paraibano (que aceitou de bom grado, por sua vez) para a televisão de modo a – citando – “rebolar em cadeia nacional e, depois, ter de voltar para a Paraíba, terra de cabra machos” (...) “esse paraibano macho, de batom (...) aqui do meu lado, com a mãe e com a irmã” (Luciano Huck, idem). É o mesmo apresentador que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”.

Os acontecimentos não deixariam apenas “um governador envergonhado”: são muito mais numerosos os “envergonhados”, de distintas profissões, políticos ou não, civis ou militares, por distintos motivos. Espalham-se os envergonhados pelas mais diversas formas de classificação dos seres humanos. Pela falta de cidadania plena. Pela falta de compromisso de nossa elite nos rumos mais democráticos do país. No silêncio quanto aos assassinatos perversos de sem-terra e outras pessoas que lutam, no interior do Brasil, por direitos fundamentais (terra, segurança alimentar etc). Na defesa de um modelo econômico fracassado, que paga bilhões em juros às mesmas famílias de sempre e, na outra ponta, dá um salário de subsistência a centenas de cidadãos e deixa para as próximas gerações um meio ambiente caótico, cidades mal planejadas e uma infra-estrutura que paralisa qualquer noção de desenvolvimento.

Por fim, ainda citando o “credor” Luciano Huck, temos de fato “um presidente em silêncio”. Mas não só um presidente: temos uma série de políticos, todos com nome e sobrenome, que aceitam o jogo do poder e se vendem às empresas de “comunicação” brasileiras. “Não é à toa que a Rede Globo é uma das quatro maiores do mundo”, disse o apresentador Faustão em seu programa especial número 1.000. E não é à toa mesmo. Com tanta promiscuidade, com tanta falta de compromisso público por parte daqueles que deveriam democratizar a comunicação de massa, fica aberto o caminho para o crescimento desigual de uma empresa, que ditará o que é certo ou errado, a despeito da diversidade cultural brasileira e suas matrizes diversas.

Compromisso com o besteirol

O presidente brasileiro ora no cargo, mais popular do que nunca, foi utilizado nesta mesma emissora como a voz do poder, enaltecendo o apresentador Fausto Silva e se calando (ou sendo calado, por vezes, porém dando credibilidade aos seus censores) sobre um sem-número de questões que não deve considerar prioritárias.

A população, de uma forma geral, entende que a qualidade da TV não é boa, desde que o assunto entre em pauta. É razoável concordar com as críticas de intelectuais, sociólogos e demais formadores de opinião. Não há, porém, alternativas disponíveis. Sem meias palavras: é só besteirol. Há exceções que confirmam a regra. E é com a regra que há o compromisso cotidiano das empresas do ramo. O resto é classificado como “responsabilidade social” ou algo que o valha, relegado a um nicho de mercado.

Da farsa coletiva

Em algum momento nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva, o que inviabiliza para grande parte das pessoas uma reação eficaz. O episódio “Lata Velha”, descrito acima, poderia ser uma metáfora de alguns valores que ora cultivamos. “Muito Além do Jardim” (Being There, 1979), filme do diretor Hal Ashby, demonstra de forma sutil e brilhante a farsa que se constrói em torno do protagonista. Chance (Peter Sellers), um jardineiro anônimo e analfabeto, viveu toda a sua vida em uma mansão, sem nunca ter saído de casa. Seu conhecimento sobre jardinagem é enorme, porém só conhece o “mundo externo” por meio da televisão – pela qual é absolutamente obcecado.

Com a morte de seu patrão, depois de mais de meio século servindo numa mesma casa, se vê obrigado a deixar sua morada e, por acidente, conhece uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos. Passa a andar com pessoas riquíssimas e é apresentado, inclusive, ao presidente, que fica encantado com o humilde porém imponente homem.

A sociedade que não consegue olhar para si está destinada
a ser uma farsa, como ilustra "Muito Além do Jardim" (1979)

Chance é confundido com um astuto homem de negócios e passa a ser chamado de Chauncey Gardiner (em inglês, gardener é “jardineiro”). A confusão de nomes é criada por Eve Rand (interpretada por Shirley MacLaine), esposa do figurão que reside na mansão para a qual é levado. Tanto Eve quanto Benjamin Rand (interpretado por Melvyn Douglas), dono de fortuna incalculável, se impressionam com a naturalidade e simplicidade de Chauncey. Após a visita do presidente americano, o jardineiro passa a ser assediado pela imprensa e ganha popularidade nacional.

O filme não pode ser facilmente estigmatizado, pela riqueza de detalhes. Chance é um homem franco, cordial e se porta muito bem. Encanta seu modo simples, de fato, porém não sabe nada sobre política, economia ou qualquer outro tema mundano – daí sua força. Desta forma, a ascensão de “Chauncey” se dá em duas versões que se complementam. Na versão otimista, pela força que as pessoas dão às metáforas. Também pela importância que, mais dia ou menos dia, damos à simplicidade da vida. Na versão pessimista, à farsa coletiva que vivemos em tempos modernos (e o filme continua atual).


"Muito Além do Jardim", com Peter Sellers

Fica evidente, em uma leitura possível, que em algum momento nos perdemos. Felicidade não é mais um valor relacionado à paixão pela vida, pelas pessoas, pelo sentimento. É, no caso do quadro 'Lata Velha' da TV Globo, “a paixão pela máquina” (conforme o próprio apresentador anuncia, todo sábado). É, em outros casos, uma bolsa de estudo de 100 milhões de reais (em uma instituição privada, claro). Em alguns outros, um plano de previdência promissor para um fim de vida cômodo. Em outros ainda, sua casa mobiliada pelos benfeitores.

Não é, definitivamente, o que entendo por felicidade.

(*) Gustavo Barreto é editor de meios independentes e estudante de comunicação da UFRJ.



Algumas cenas do filme

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www.consciencia.net

A felicidade e o homem-máquina

Programa da TV Globo incorpora a idéia do “homem-máquina” e torna evidente o processo de degradação de valores como 'felicidade' e 'simplicidade'. No filme “Muito Além do Jardim”, temos uma pista sobre como nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva - inviabilizando para grande parte das pessoas uma reação eficaz. Por Gustavo Barreto (*).

O apresentador Luciano Huck teve recentemente uma experiência-limite, muito triste e desgastante para qualquer brasileiro. Um assalto a mão armada. Prontamente foi publicado em um grande jornal de São Paulo seu artigo-desabafo: “Pensamentos quase póstumos” (Folha de S. Paulo, 01/10/2007).

Huck alerta aos leitores que foi assaltado e poderia, naquele momento, estar morto – o que causaria uma série de conseqüências importantes, entre as quais não ver nunca mais seu segundo filho, deixar “uma multidão bastante triste”, “um governador envergonhado” e “um presidente em silêncio”. Foi uma tentativa de roubar o seu Rolex – grife de relógios que custam pelo menos 5 mil reais e até 50 mil reais.

Ele argumenta: “Provavelmente não tiveram [os assaltantes] infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia (sic). O lugar deles é na cadeia.”

Neste artigo, Luciano aponta porque considera importante o “desabafo” – como classifica seu texto – e porque estava “envergonhado” e “revoltado”. São basicamente cinco pontos: (1) Ele paga impostos: “(...) como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa”; (2) Ele passa o “dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes”, no que argumenta: “TV diverte (...)”; (3) Ele passa “o dia pensando em como tentar fazer este país mais bacana”: “(...) a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão”; (4) O prazer dele “passa pelo bem-estar coletivo”: “(...) não tenho dúvidas disso”; (5) Ele é “alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. (original aqui)

Homem-lata

Este mesmo apresentador Luciano tem um quadro desta safra que “diverte”, fruto do dia que ele passa “pensando em como deixar as pessoas mais felizes”. O quadro “Lata Velha” é, na prática, uma troca: a equipe de Huck reforma (e melhora substancialmente) o carro de alguma pessoa transformada em personagem pela produção e, do outro lado, esta personagem tem que dançar, cantar ou fazer qualquer coisa na TV.

No último, em 24 de maio, um cidadão de João Pessoa teria que dançar Michael Jackson e, efetivamente, “rebolar”. A proposta foi prontamente aceita não só pelo participante, como também por sua namorada e toda a população em volta, durante a gravação na capital da Paraíba. O carro, afinal, precisava de reformas. Quem tem o dinheiro para fazê-lo dá as ordens, expressas pelo apresentador, aquele que “pensa nas pessoas mais felizes” e que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. Ordena ele: “Você vai ter que rebolar” (Luciano Huck, TV Globo, 24/05/2008, por volta de 15h45, e repetidamente até 16h15).

Não é um tema para poucas linhas, mas é notável a matriz religiosa de seu discurso após o roubo: durante quase todo o artigo, Luciano busca deixar claro que tem crédito pelo que se proclama como benfeitor e, de forma alguma, uma dívida. Ele tem um “crédito” conquistado e, portanto, não mereceria “um 38 na testa”.

Cadeia nacional

“Uma multidão bastante triste”, adiciono, é a multidão de pessoas que, como eu, ficam deprimidas com o fato de que o trabalho de milhões de pessoas sérias, milhões de brasileiros comprometidos com a educação e a saúde das pessoas, passem a vida toda no mais completo anonimato, sem qualquer espécie de reconhecimento “em cadeia nacional”. Alguns têm, efetivamente, destino diverso: a cadeia Stricto sensu, a prisão. Outros estão metaforicamente presos dentro de uma lógica que sufoca milhares de grupos organizados sem acesso à opinião pública – os sem-mídia.

Foi Luciano Huck que, hoje, pensando no mesmo conceito – felicidade – levou um cidadão paraibano (que aceitou de bom grado, por sua vez) para a televisão de modo a – citando – “rebolar em cadeia nacional e, depois, ter de voltar para a Paraíba, terra de cabra machos” (...) “esse paraibano macho, de batom (...) aqui do meu lado, com a mãe e com a irmã” (Luciano Huck, idem). É o mesmo apresentador que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”.

Os acontecimentos não deixariam apenas “um governador envergonhado”: são muito mais numerosos os “envergonhados”, de distintas profissões, políticos ou não, civis ou militares, por distintos motivos. Espalham-se os envergonhados pelas mais diversas formas de classificação dos seres humanos. Pela falta de cidadania plena. Pela falta de compromisso de nossa elite nos rumos mais democráticos do país. No silêncio quanto aos assassinatos perversos de sem-terra e outras pessoas que lutam, no interior do Brasil, por direitos fundamentais (terra, segurança alimentar etc). Na defesa de um modelo econômico fracassado, que paga bilhões em juros às mesmas famílias de sempre e, na outra ponta, dá um salário de subsistência a centenas de cidadãos e deixa para as próximas gerações um meio ambiente caótico, cidades mal planejadas e uma infra-estrutura que paralisa qualquer noção de desenvolvimento.

Por fim, ainda citando o “credor” Luciano Huck, temos de fato “um presidente em silêncio”. Mas não só um presidente: temos uma série de políticos, todos com nome e sobrenome, que aceitam o jogo do poder e se vendem às empresas de “comunicação” brasileiras. “Não é à toa que a Rede Globo é uma das quatro maiores do mundo”, disse o apresentador Faustão em seu programa especial número 1.000. E não é à toa mesmo. Com tanta promiscuidade, com tanta falta de compromisso público por parte daqueles que deveriam democratizar a comunicação de massa, fica aberto o caminho para o crescimento desigual de uma empresa, que ditará o que é certo ou errado, a despeito da diversidade cultural brasileira e suas matrizes diversas.

Compromisso com o besteirol

O presidente brasileiro ora no cargo, mais popular do que nunca, foi utilizado nesta mesma emissora como a voz do poder, enaltecendo o apresentador Fausto Silva e se calando (ou sendo calado, por vezes, porém dando credibilidade aos seus censores) sobre um sem-número de questões que não deve considerar prioritárias.

A população, de uma forma geral, entende que a qualidade da TV não é boa, desde que o assunto entre em pauta. É razoável concordar com as críticas de intelectuais, sociólogos e demais formadores de opinião. Não há, porém, alternativas disponíveis. Sem meias palavras: é só besteirol. Há exceções que confirmam a regra. E é com a regra que há o compromisso cotidiano das empresas do ramo. O resto é classificado como “responsabilidade social” ou algo que o valha, relegado a um nicho de mercado.

Da farsa coletiva

Em algum momento nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva, o que inviabiliza para grande parte das pessoas uma reação eficaz. O episódio “Lata Velha”, descrito acima, poderia ser uma metáfora de alguns valores que ora cultivamos. “Muito Além do Jardim” (Being There, 1979), filme do diretor Hal Ashby, demonstra de forma sutil e brilhante a farsa que se constrói em torno do protagonista. Chance (Peter Sellers), um jardineiro anônimo e analfabeto, viveu toda a sua vida em uma mansão, sem nunca ter saído de casa. Seu conhecimento sobre jardinagem é enorme, porém só conhece o “mundo externo” por meio da televisão – pela qual é absolutamente obcecado.

Com a morte de seu patrão, depois de mais de meio século servindo numa mesma casa, se vê obrigado a deixar sua morada e, por acidente, conhece uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos. Passa a andar com pessoas riquíssimas e é apresentado, inclusive, ao presidente, que fica encantado com o humilde porém imponente homem.

A sociedade que não consegue olhar para si está destinada
a ser uma farsa, como ilustra "Muito Além do Jardim" (1979)

Chance é confundido com um astuto homem de negócios e passa a ser chamado de Chauncey Gardiner (em inglês, gardener é “jardineiro”). A confusão de nomes é criada por Eve Rand (interpretada por Shirley MacLaine), esposa do figurão que reside na mansão para a qual é levado. Tanto Eve quanto Benjamin Rand (interpretado por Melvyn Douglas), dono de fortuna incalculável, se impressionam com a naturalidade e simplicidade de Chauncey. Após a visita do presidente americano, o jardineiro passa a ser assediado pela imprensa e ganha popularidade nacional.

O filme não pode ser facilmente estigmatizado, pela riqueza de detalhes. Chance é um homem franco, cordial e se porta muito bem. Encanta seu modo simples, de fato, porém não sabe nada sobre política, economia ou qualquer outro tema mundano – daí sua força. Desta forma, a ascensão de “Chauncey” se dá em duas versões que se complementam. Na versão otimista, pela força que as pessoas dão às metáforas. Também pela importância que, mais dia ou menos dia, damos à simplicidade da vida. Na versão pessimista, à farsa coletiva que vivemos em tempos modernos (e o filme continua atual).


"Muito Além do Jardim", com Peter Sellers

Fica evidente, em uma leitura possível, que em algum momento nos perdemos. Felicidade não é mais um valor relacionado à paixão pela vida, pelas pessoas, pelo sentimento. É, no caso do quadro 'Lata Velha' da TV Globo, “a paixão pela máquina” (conforme o próprio apresentador anuncia, todo sábado). É, em outros casos, uma bolsa de estudo de 100 milhões de reais (em uma instituição privada, claro). Em alguns outros, um plano de previdência promissor para um fim de vida cômodo. Em outros ainda, sua casa mobiliada pelos benfeitores.

Não é, definitivamente, o que entendo por felicidade.

(*) Gustavo Barreto é editor de meios independentes e estudante de comunicação da UFRJ.



Algumas cenas do filme

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Vaticano divulga lista de novos pecados capitais

Assimina Vlahou, de Roma, para a BBC Brasil - A manipulação genética, o uso de drogas, a desigualdade social e a poluição ambiental estão entre os novos pecados capitais pelos quais os cristãos devem pedir perdão, segundo a nova lista apresentada pela Santa Sé. O Vaticano atualizou a lista de pecados capitais para adaptá-la à "realidade da globalização".

Os novos pecados capitais – merecedores de condenação segundo a Igreja Católica – serão agregados aos anteriores: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça. Publicada no domingo no jornal do Vaticano, Osservatore Romano, a lista foi divulgada depois que o Papa Bento 16 denunciou a "queda do sentimento de pecado no mundo secularizado", em meio à redução no número de católicos que praticam a confissão.

(...) Monsenhor Gianfranco Girotti falou dos novos pecados aos padres reunidos no Vaticano até o final de semana passado, durante curso de atualização sobre o sacramento da confissão. Durante o curso, o responsável pelo tribunal informou que cada vez menos católicos confessam os próprios pecados aos padres. Girotti denunciou que cerca de 60% dos fiéis na Itália não se confessam, citando estatísticas da Universidade Católica italiana.

Na entrevista ao Osservatore Romano, Girotti recordou as recomendações para se receber o perdão. "Confissão em 15 ou máximo 20 dias antes ou depois de cometer o pecado, comunhão, oração segundo as intenções do papa, pureza e caridade", disse o clérigo. Leia na BBC Brasil, na íntegra, clicando no título.

Artigo: Os percalços do caminho

CLAM - Quase três décadas depois do surgimento da Aids e de múltiplas iniciativas dos movimentos sociais no combate ao preconceito e à discriminação, pesquisas apontam a persistência de uma representação demasiado negativa da soropositividade. Na investigação “Práticas sexuais e conscientização sobre Aids: uma pesquisa sobre o comportamento homossexual e bissexual”, realizada em 2006 pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), 58% dos respondentes afirmaram que não teriam relação sexual com uma pessoa declaradamente soropositiva para o HIV e 60,5% não estabeleceria uma parceria regular com esta pessoa.

Um novo estudo conduzido pela instituição, intitulado “Levantamento de necessidades em HIV/AIDS entre homossexuais soropositivos no Rio de Janeiro”, cujos resultados preliminares foram apresentados no dia 19 de fevereiro deste ano, confirma os dados da pesquisa anterior, de 2006, quando foram entrevistados (através de um questionário) 400 homo e bissexuais, a qual revelou um alto índice de rejeição a um soropositivo como um potencial parceiro sexual. Clique no título para ler.

Maré sem homofobia

Viva Favela, Fabiana Oliveira - Assumir-se gay numa sociedade onde a homofobia ainda é marcante não é tarefa fácil. Para tentar amenizar a situação, moradores do Complexo da Maré realizaram o primeiro evento GLBT em favela carioca com direito até a inauguração de um mural de memória gay da região. Moradora de uma das comunidades da Maré, a travesti Silvana, 33 anos, “batalha”, como ela mesma diz, diariamente, há seis anos na Avenida Brasil. Segundo ela, mais pela dificuldade que as travestis têm para arrumar emprego, devido aos corpos transformados, do que por opção. Clique no título para ler a matéria.

Abertas inscrições para o II Fortalecendo

Seminário "Fortalecendo, Informando e Articulando Mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transsexuais da Região Sudeste", que ocorre no Rio de 25 a 27 de abril, é direcionado a mulheres homoafetivas (Lésbicas, Bissexuais, Transexuais) e tem como objetivo desenvolver diretrizes comuns que viabilizem o entendimento, a informação, a articulação, o fortalecimento, o conhecimento e a troca de experiências e vivências entre mulheres homoafetivas. Leia mais.

O Mito Mercado - Ensaio 1

O que desejamos para nossos parentes, amigos e colegas nesse novo ano? (...) Há quatro mil anos eu iria a um oráculo resolver essas questões (mesmo que há quatro mil anos elas não existissem), há dois mil e poucos anos a um filósofo, há mil anos eu iria a um padre, rabino, sacerdote, há sessenta ou setenta anos eu iria a um psicólogo. Mas essas são águas passadas (ou não?). Por Renato Kress, da redação.

Feliz discurso “novo”!
O que desejamos para nossos parentes, amigos e colegas nesse novo ano? É mesmo complicado termos o discernimento necessário para desejar “as palavrinhas certas” aos que nos rodeiam. Mesmo saber identificar o atributo visceral ou norteador para realizarmos nossa satisfação pessoal ou social, nosso projeto de vida, é uma tarefa um tanto desorientadora.

Oráculos
Há quatro mil anos eu iria a um oráculo resolver essas questões (mesmo que há quatro mil anos elas não existissem), há dois mil e poucos anos a um filósofo, há mil anos eu iria a um padre, rabino, sacerdote, há sessenta ou setenta anos eu iria a um psicólogo. Mas essas são águas passadas (ou não?). Hoje, se desejo obter as respostas que se articulem com o universo atual, eu as procuro no nosso “guru” contemporâneo, o “todo poderoso” Mercado.

Pensando assim me espantei com as situações inusitadas que me vieram à mente: Imagino a cena – minutos após a virada do ano – torno para a minha mãe, por exemplo, e, olhando nos seus olhos, com muito carinho e genuína preocupação com a felicidade ou “realização” dela, ternamente, digo: “Muita competitividade e flexibilidade”! Para os meus sobrinhos mais velhos, na faixa dos vinte anos, de coração desejaria um: “Muita liderança, agressividade e formação”! Aos meus amigos e conhecidos em geral eu desejaria “Muita pró-atividade e empreendedorismo!”.

Fico imaginando se esses adjetivos realmente definiriam algo em relação à possível “realização” deles, seja financeira, seja como seres humanos, e, por alguma razão, não me vejo muito entusiasmado. Talvez porque não veja, em nenhum desses adjetivos – mercadologicamente impostos diariamente no discurso dominante em nossa sociedade contemporânea –, algo de definidor do que possamos chamar de caráter.

Se o importante mesmo – dizem nossos especialistas (em geral economistas e seus seguidores administradores) – é ter “competitividade”, “agressividade”, “flexibilidade”, “liderança”, “pró-atividade” e outras fórmulas do sucesso devidamente pré-digerido, porque ainda assim não consigo ver todas essas características com bons olhos? Será que sou um pessimista convicto, ou essas palavras também soam ao leitor como belíssimas bolhas multicoloridas de ar esperando por serem preenchidas por conteúdos que variem de acordo com o que for mais rentável, aquilo que o momento econômico eleger como financeiramente “lógico”?

Tábula Rasa 8.0
Em primeiro lugar, por quê essas fórmulas de auto-ajuda administrativa ou financeira nos empurram que o ser humano (na realidade, segundo o discurso corrente, mais os jovens que os idosos) é um “hardware” vazio, com espaço livre para “baixar” os “programas” que precisa “ter”, como o programa da “competitividade 7.0” ou da “flexibilidade 8.1”? Uma desculpa crível (ou quase) do Mercado para iludir seu avanço acelerado na destruição de empregos e cargos de trabalho? Uma estratégia perversa para colocar sobre a “inaptidão” do trabalhador, sobre as suas pretensas “ineficácia”, “ineficiência” ou “inépcia” a culpa por sua pouca ou nenhuma “empregabilidade”?

Brincando com a (quase extinta) língua portuguesa
Aliás – permitam-me um breve intervalo em defesa da comunicação (não da comunicabilidade) – não que eu seja um grande literato versado em preciosismos gramaticais, mas a língua portuguesa deriva do tronco itálico e não do germânico ocidental ou do germânico, donde provém as línguas inglesa, saxônias e neerlandesas, portanto seria de ótimo tom que alguma Academia Brasileira de Letras (se houvesse) buscasse empreender alguma reprimenda pública e pesada sobre as constantes “teratologias vocabulares” do discurso do Mercado.

Parece-me que qualquer substantivo pode agora ser transformado em adjetivo da mesma forma e segundo o mesmo padrão que a língua inglesa, bastando a ele somar-se o sufixo “-ability” mal traduzido para o português “-abilidade” (sem “h” mesmo). Seguindo essa lógica você pode criar indistintamente vários adjetivos que, por terem o sufixo “-abilidade”, derivado de uma tradução direta (leia-se: sem passar pelo crivo da lógica interna da gramática portuguesa) da língua metropolitana, tornam-se imediatamente os únicos adjetivos possíveis e necessários para o ingresso numa vida mais “pró-ativa”, etc etc.

Senão vejamos: Você deseja emprego? É preciso que desenvolva “empregabilidade”. Acha justo que receba uma promoção? Desenvolva sua “promocionabilidade”. Quer tirar sua carteira de motorista? Melhore (ou melhor ainda, “improve” – com sotaque brasileiro mesmo) sua “dirigibilidade”, “guiabilidade”, “motoristabilidade”, “motociclistabilidade” etc.

Neodiscurso totalitário
Deixando brincadeiras literárias ao largo do assunto, imaginemos um mundo onde todo o discurso de construção de sentido das nossas narrativas internas, das nossas biografias, da coesão e da coerência de nossos atos e de nossas escolhas cotidianas, fosse determinado ou direcionado em busca dessas “palavrinhas ocas” cujo sentido varia ao bel prazer do Mercado, esse Demiurgo complexado e cheio de questões psicológicas insolúveis.

Imaginemos todos nós como perfeitos produtos desse discurso: legitimamente “agressivos”, “líderes”, “pró-ativos”, “empreendedores”, “flexíveis”, “eficazes” e “eficientes”. Uma espécie de Éden do Mercado, de Idade Dourada perdida e agora reencontrada. Será que um mundo, povoado por essa qualidade de ser humano, seria viável?

As Bestas no Apocalipse
Em essência, levando as perspectivas dessas “palavrinhas” ao extremo, o ser humano que o discurso do “todo poderoso” Mercado deseja criar tem todos os atributos de um pequeno déspota voluntarioso, arrogante e vaidoso e, na realidade, ele não é nada, nem ninguém.

Com toda a desordem programada do nosso planeta, ainda existe a necessidade de algum sentido maior que os possíveis de serem criados por essas “palavrinhas ocas”, que repetem de forma completamente desvinculada de contexto e conhecimento as teorias de um Hobbes e de um Darwin aliadas ao sociologismo frágil e mercadológico de um Spencer.

Essa questão é urgente não só para que nossa sanidade possa permanecer levemente dentro de parâmetros aceitáveis para o convívio social, mas também para que essa ideologia dos mais “aptos” não torne o planeta inteiro “inepto”, “ineficaz” ou “ineficiente” para a vida humana.

Resposta única do discurso único
A velha dicotomia filosófica entre o “ter” e o “ser” encontra sua resposta rasteira (e unânime!) na lógica do Mercado: “ter é ser”. Caso o seu carro, roupa, contatos, televisão, caneta, casa ou apartamento não estejam devidamente “atualizados” para 2008 – ou seja, que eles sejam respectivamente “do ano”, “da moda”, “influentes”, “de plasma”, “do modelo do ano”, “decorado pelo X ou Y da moda”, você não é ninguém.

A beatitude do “todo poderoso”
Mas, calma, o Mercado é um Demiurgo benevolente: ainda que você não possua nada disso, há uma (remota) chance de ser reconhecido como um ser apto a se tornar um dos seletos “seres humanos”, ou “cidadãos”! Basta que você “baixe” os “programas” certos, os atributos que o discurso definiu como importantes e definidores de um ser humano habilitado para o novo universo em constante mutação: tenha “agressividade”, “liderança”, “competitividade” etc. Resumindo bem, se, nesse ano de 2008, todos nós nos comportarmos como bons consumidores, dos produtos que o Mercado seleciona, das idéias que o Mercado produz, estaremos todos concorrendo a uma ou duas vagas para “Cidadãos” daqui a dez ou vinte milhões.

Processo Seletivo
O importante é que você se planeje, seja organizado, perseverante e, principalmente, flexível, porque – não duvide! – o “todo poderoso” Mercado vai te apertar (os horários livres), esmagar (perspectivas de crescimento ou estabilidade), humilhar (manifestações de sensibilidade, que são lidas como falta de agressividade e “maturidade”), esticar (seus horários de trabalho com horas extras e treinamentos), trucidar (sua saúde mental e física). Mas não se preocupe! São apenas provas, provas “naturais”, um pequeno processo seletivo para definir “os melhores”, afinal, segundo a lógica do “todo poderoso” nem todos têm mérito suficiente para serem reconhecidos como os digníssimos “seres humanos” da “Montanha Mágica” de Davos, por exemplo.


Renato Kress é brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro no ano 82. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro 'Consciência', sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net. Atualmente cursa a faculdade de Ciências Sociais na PUC-RJ. Contato por e-mail, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.

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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]

O Mito Mercado - Ensaio 1

O que desejamos para nossos parentes, amigos e colegas nesse novo ano? (...) Há quatro mil anos eu iria a um oráculo resolver essas questões (mesmo que há quatro mil anos elas não existissem), há dois mil e poucos anos a um filósofo, há mil anos eu iria a um padre, rabino, sacerdote, há sessenta ou setenta anos eu iria a um psicólogo. Mas essas são águas passadas (ou não?). Por Renato Kress, da redação.

Feliz discurso “novo”!
O que desejamos para nossos parentes, amigos e colegas nesse novo ano? É mesmo complicado termos o discernimento necessário para desejar “as palavrinhas certas” aos que nos rodeiam. Mesmo saber identificar o atributo visceral ou norteador para realizarmos nossa satisfação pessoal ou social, nosso projeto de vida, é uma tarefa um tanto desorientadora.

Oráculos
Há quatro mil anos eu iria a um oráculo resolver essas questões (mesmo que há quatro mil anos elas não existissem), há dois mil e poucos anos a um filósofo, há mil anos eu iria a um padre, rabino, sacerdote, há sessenta ou setenta anos eu iria a um psicólogo. Mas essas são águas passadas (ou não?). Hoje, se desejo obter as respostas que se articulem com o universo atual, eu as procuro no nosso “guru” contemporâneo, o “todo poderoso” Mercado.

Pensando assim me espantei com as situações inusitadas que me vieram à mente: Imagino a cena – minutos após a virada do ano – torno para a minha mãe, por exemplo, e, olhando nos seus olhos, com muito carinho e genuína preocupação com a felicidade ou “realização” dela, ternamente, digo: “Muita competitividade e flexibilidade”! Para os meus sobrinhos mais velhos, na faixa dos vinte anos, de coração desejaria um: “Muita liderança, agressividade e formação”! Aos meus amigos e conhecidos em geral eu desejaria “Muita pró-atividade e empreendedorismo!”.

Fico imaginando se esses adjetivos realmente definiriam algo em relação à possível “realização” deles, seja financeira, seja como seres humanos, e, por alguma razão, não me vejo muito entusiasmado. Talvez porque não veja, em nenhum desses adjetivos – mercadologicamente impostos diariamente no discurso dominante em nossa sociedade contemporânea –, algo de definidor do que possamos chamar de caráter.

Se o importante mesmo – dizem nossos especialistas (em geral economistas e seus seguidores administradores) – é ter “competitividade”, “agressividade”, “flexibilidade”, “liderança”, “pró-atividade” e outras fórmulas do sucesso devidamente pré-digerido, porque ainda assim não consigo ver todas essas características com bons olhos? Será que sou um pessimista convicto, ou essas palavras também soam ao leitor como belíssimas bolhas multicoloridas de ar esperando por serem preenchidas por conteúdos que variem de acordo com o que for mais rentável, aquilo que o momento econômico eleger como financeiramente “lógico”?

Tábula Rasa 8.0
Em primeiro lugar, por quê essas fórmulas de auto-ajuda administrativa ou financeira nos empurram que o ser humano (na realidade, segundo o discurso corrente, mais os jovens que os idosos) é um “hardware” vazio, com espaço livre para “baixar” os “programas” que precisa “ter”, como o programa da “competitividade 7.0” ou da “flexibilidade 8.1”? Uma desculpa crível (ou quase) do Mercado para iludir seu avanço acelerado na destruição de empregos e cargos de trabalho? Uma estratégia perversa para colocar sobre a “inaptidão” do trabalhador, sobre as suas pretensas “ineficácia”, “ineficiência” ou “inépcia” a culpa por sua pouca ou nenhuma “empregabilidade”?

Brincando com a (quase extinta) língua portuguesa
Aliás – permitam-me um breve intervalo em defesa da comunicação (não da comunicabilidade) – não que eu seja um grande literato versado em preciosismos gramaticais, mas a língua portuguesa deriva do tronco itálico e não do germânico ocidental ou do germânico, donde provém as línguas inglesa, saxônias e neerlandesas, portanto seria de ótimo tom que alguma Academia Brasileira de Letras (se houvesse) buscasse empreender alguma reprimenda pública e pesada sobre as constantes “teratologias vocabulares” do discurso do Mercado.

Parece-me que qualquer substantivo pode agora ser transformado em adjetivo da mesma forma e segundo o mesmo padrão que a língua inglesa, bastando a ele somar-se o sufixo “-ability” mal traduzido para o português “-abilidade” (sem “h” mesmo). Seguindo essa lógica você pode criar indistintamente vários adjetivos que, por terem o sufixo “-abilidade”, derivado de uma tradução direta (leia-se: sem passar pelo crivo da lógica interna da gramática portuguesa) da língua metropolitana, tornam-se imediatamente os únicos adjetivos possíveis e necessários para o ingresso numa vida mais “pró-ativa”, etc etc.

Senão vejamos: Você deseja emprego? É preciso que desenvolva “empregabilidade”. Acha justo que receba uma promoção? Desenvolva sua “promocionabilidade”. Quer tirar sua carteira de motorista? Melhore (ou melhor ainda, “improve” – com sotaque brasileiro mesmo) sua “dirigibilidade”, “guiabilidade”, “motoristabilidade”, “motociclistabilidade” etc.

Neodiscurso totalitário
Deixando brincadeiras literárias ao largo do assunto, imaginemos um mundo onde todo o discurso de construção de sentido das nossas narrativas internas, das nossas biografias, da coesão e da coerência de nossos atos e de nossas escolhas cotidianas, fosse determinado ou direcionado em busca dessas “palavrinhas ocas” cujo sentido varia ao bel prazer do Mercado, esse Demiurgo complexado e cheio de questões psicológicas insolúveis.

Imaginemos todos nós como perfeitos produtos desse discurso: legitimamente “agressivos”, “líderes”, “pró-ativos”, “empreendedores”, “flexíveis”, “eficazes” e “eficientes”. Uma espécie de Éden do Mercado, de Idade Dourada perdida e agora reencontrada. Será que um mundo, povoado por essa qualidade de ser humano, seria viável?

As Bestas no Apocalipse
Em essência, levando as perspectivas dessas “palavrinhas” ao extremo, o ser humano que o discurso do “todo poderoso” Mercado deseja criar tem todos os atributos de um pequeno déspota voluntarioso, arrogante e vaidoso e, na realidade, ele não é nada, nem ninguém.

Com toda a desordem programada do nosso planeta, ainda existe a necessidade de algum sentido maior que os possíveis de serem criados por essas “palavrinhas ocas”, que repetem de forma completamente desvinculada de contexto e conhecimento as teorias de um Hobbes e de um Darwin aliadas ao sociologismo frágil e mercadológico de um Spencer.

Essa questão é urgente não só para que nossa sanidade possa permanecer levemente dentro de parâmetros aceitáveis para o convívio social, mas também para que essa ideologia dos mais “aptos” não torne o planeta inteiro “inepto”, “ineficaz” ou “ineficiente” para a vida humana.

Resposta única do discurso único
A velha dicotomia filosófica entre o “ter” e o “ser” encontra sua resposta rasteira (e unânime!) na lógica do Mercado: “ter é ser”. Caso o seu carro, roupa, contatos, televisão, caneta, casa ou apartamento não estejam devidamente “atualizados” para 2008 – ou seja, que eles sejam respectivamente “do ano”, “da moda”, “influentes”, “de plasma”, “do modelo do ano”, “decorado pelo X ou Y da moda”, você não é ninguém.

A beatitude do “todo poderoso”
Mas, calma, o Mercado é um Demiurgo benevolente: ainda que você não possua nada disso, há uma (remota) chance de ser reconhecido como um ser apto a se tornar um dos seletos “seres humanos”, ou “cidadãos”! Basta que você “baixe” os “programas” certos, os atributos que o discurso definiu como importantes e definidores de um ser humano habilitado para o novo universo em constante mutação: tenha “agressividade”, “liderança”, “competitividade” etc. Resumindo bem, se, nesse ano de 2008, todos nós nos comportarmos como bons consumidores, dos produtos que o Mercado seleciona, das idéias que o Mercado produz, estaremos todos concorrendo a uma ou duas vagas para “Cidadãos” daqui a dez ou vinte milhões.

Processo Seletivo
O importante é que você se planeje, seja organizado, perseverante e, principalmente, flexível, porque – não duvide! – o “todo poderoso” Mercado vai te apertar (os horários livres), esmagar (perspectivas de crescimento ou estabilidade), humilhar (manifestações de sensibilidade, que são lidas como falta de agressividade e “maturidade”), esticar (seus horários de trabalho com horas extras e treinamentos), trucidar (sua saúde mental e física). Mas não se preocupe! São apenas provas, provas “naturais”, um pequeno processo seletivo para definir “os melhores”, afinal, segundo a lógica do “todo poderoso” nem todos têm mérito suficiente para serem reconhecidos como os digníssimos “seres humanos” da “Montanha Mágica” de Davos, por exemplo.


Renato Kress é brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro no ano 82. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro 'Consciência', sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net. Atualmente cursa a faculdade de Ciências Sociais na PUC-RJ. Contato por e-mail, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.

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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
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Ibope lança estudo sobre Internet
O IBOPE Mídia lançou nesta terça-feira (15), em todo o Brasil, a 19ª edição do Internet Pop - um mapeamento completo dos hábitos de uso de Internet dos brasileiros. O grande diferencial da pesquisa é que, diferente de outras disponíveis no mercado, ela mensura também o acesso à Internet em lan houses, celulares, smartphones e computadores de mão (PDAs).

O estudo oferece diversas possibilidades de análises como, por exemplo, o percentual de pessoas que freqüentam lan houses e os respectivos sites mais acessados nestes locais, freqüência de acesso à Internet através de celulares, smartphones e PDAs, além de posse de computador e acesso à Internet no trabalho e em domicílio, entre outros lugares.

O levantamento, que foi realizado de 18 de outubro a 31 de outubro de 2007 em 9 mercados (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Fortaleza), contou com mais de 17 mil entrevistas, com população acima de 10 anos.

Foi detectado que 41% dos internautas costumam freqüentar lan houses, sendo que os sites de relacionamento e comunidades são os mais visitados por este público. A pesquisa também apontou que a maior parte dos freqüentadores de lan houses é do sexo masculino e tem até 19 anos. A 19ª Internet Pop está disponível para aquisição, com um preço salgado, em www.ibope.com.br

O Mito Mercado - Ensaio 1

O que desejamos para nossos parentes, amigos e colegas nesse novo ano? (...) Há quatro mil anos eu iria a um oráculo resolver essas questões (mesmo que há quatro mil anos elas não existissem), há dois mil e poucos anos a um filósofo, há mil anos eu iria a um padre, rabino, sacerdote, há sessenta ou setenta anos eu iria a um psicólogo. Mas essas são águas passadas (ou não?). Por Renato Kress, da redação.

O dilema do ser humano

Esses dias foi exibido no Rio o festival de cinema ambiental FICA. Não pude ver todos, mas aquele que recomendo é "Meu primeiro contato", um documentário comovente sobre a história de uma tribo amazônica transferida para o Xingú pela equipe do Orlando Villas Boas. Por Clarissa Taguchi, da redação

O filme mostra o primeiro contato dessas pessoas com a cultura dos "brancos" e o processo de interferência causado por nós ao tentarmos olhar culturas alheias sob nossas perspectivas. Há o registro da inocência e do medo de seus personagens no primeiro encontro, em contraste à situação de arrependimento de hoje. A história termina com depoimentos de pessoas enclausuradas em suas esperanças de retornar à terra de suas origens e que agora são utilizadas para pasto.

E em meio à exibição dos filmes, pessoas de grande importância na disseminação da linguagem ambiental vieram expor suas posições frente aos nossos dilemas atuais. Leonardo Boff, André Trigueiro e Marcos Sá Correa foram perfeitos e complementares em suas conclusões e limitações como seres humanos que tentam "fazer a sua parte" abrindo o debate ambiental a todas às culturas e populações desse Brasil. Iniciativas como o FICA, assim como os novos meios de comunicação desenvolvidos pelas novas ferramentas tecnológicas servem, especialmente, à disseminação do debate ambiental.

Concluímos que não é preciso anos de academia, ou a leitura de milhares de títulos, para chegarmos a simples conclusão do tamanho do problema que enfrentamos, assim como a falta de perspectivas vergonhosamente empurrada às futuras gerações. "Qual o futuro para a humanidade?", "Temos jeito?" foram questionamentos colocados a todos os participantes pela platéia.

Como resposta, todos os palestrantes foram uníssonos ao apontar o consumo como a grande origem desse desequilíbrio catastrófico. Pois é o consumo e, a forma como consumimos, que geram esse modelo de produção que vem literalmente consumido todos os recursos da Terra até sua exaustão.

Contexto, personagem e roteiro

Identificadas os papéis do drama ambiental planetário, a platéia volta para casa sabendo que algo tem de ser feito e que de alguma maneira vamos ter que "fazer a nossa parte". É extremamente desconfortante voltar para casa sem tentar pensar numa idéia, sem questionar uma solução antes que nossas vidas tornem-se desesperançosas. Uma idéia torna-se uma esperança e, uma ação, um alívio. E foi assim que decidi não comer mais carne alguns punhados de anos atrás, como uma atitude que me trouxesse algum alívio. Mas jamais imaginei a tamanha dor de cabeça que declarar-se vegetariano pode causar. Convido todos a experimentar, declare-se vegetariando, mesmo que de brincadeira.

Digo que é desconfortante, não como o desconforto anterior de sentir-se perdendo a estrada por onde seguir, mas é o desconforto de tornar-se um espelho nítido; colocando na frente de todos a resposta para perguntas que ninguém ousa fazer.

Até quando deixaremos oculto, velado, trancado e maquiado nosso maior "bem" de consumo, aquele nosso maior "produto" que para ser "fabricado" utiliza quantos planetas forem necessários a saciar uma fome sem fim? E ainda quais as forças culturais que nos levam a esconder de nós mesmos tamanha verdade? Você conhece a violência gerada num prato de comida? Abaixo uma indicação de livro para quem não entendeu "patavinas" dessa história.

Por Clarissa Taguchi, decidida a encarar-se vegana (uma consumidora vegetariana ética) há quase uma semana.


O Dilema do Onívoro
de Michael Pollan, Editora Intrínseca, 2006

A insensatez do agronegócio é objeto deste livro fascinante, que faz sucesso crescente à medida que os leitores descobrem a importância de saber como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às suas mesas. Por Luiz Prado para Planeta Sustentável

Nos EUA, são necessárias duas calorias de fertilizantes sintetizados a partir do petróleo para produzir uma caloria de milho. E como o gado bovino é alimentado com milho, quase um barril de petróleo é consumido para cada animal abatido. Os excedentes da produção de milho estão na origem tanto da abundância quanto da obesidade. Os subsídios governamentais são generosos, o alimento industrializado tem preços baixos, mas dão origem aos altos índices de obesidade que custam algo em torno de 90 bilhões de dólares por ano em despesas médicas. Ou esses excedentes atravessam a fronteira do México, onde liquidam com os pequenos produtores.

Toda uma complexa cadeia de interesses gira em torno da produção de milho, impedindo que cessem os subsídios. A insensatez do agronegócio é objeto de um fascinante livro intitulado "O Dilema do Onívoro", que faz sucesso crescente à medida que os leitores descobrem a importância de saber como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às suas mesas. O livro de Michael Pollan certamente é um importante alerta para um Brasil que se pretende transformar numa Arábia Saudita dos biocombustíveis.

O livro começa pela descrição da gigantesca monocultura de milho no estado de Iowa e volta até a origem da alta produtividade, com raízes na produção de sementes híbridas na década de 30, permitindo a mecanização da lavoura e dando início a um processo que rapidamente transformará os agricultores em reféns - mais do que em beneficiários - da agroindústria. Ao final da segunda guerra mundial, quando os Estados Unidos detinham imensos estoques de nitrato de amônia para a fabricação de explosivos, a solução encontrada foi o uso intensivo de fertilizantes. Também a indústria de pesticidas se estrutura com base nos estoques de produtos químicos destinados à fabricação de gases venenosos para uso militar.

Os excedentes da produção de milho precisam encontrar mercados e logo começam a ser utilizado na alimentação de animais, mesmo dos ruminantes, cujo sistema digestivo não é adaptado ao consumo de cereais.

Seguindo em busca da cadeia produtiva da agroindústria, Pollan viaja até Garden City, no estado de Kansas, e descreve a criação de gado bovino confinado, alimentado com milho, antibióticos e outros medicamentos, suplementos alimentares e estrogênio, gordura liquefeita e uréia sintetizada a partir do gás natural. Trinta e sete mil cabeças numa instalação que na linguagem da agroindústria norte-americana é conhecida como Operação Concentrada de Alimentação Animal (CAFO - Concentrated Animal Feeding Operation).

"Essa instalação se parece como uma cidade pré-moderna, sem espaço, imunda e mal-cheirosa, com o esgoto a céu aberto, ruas sem pavimentação e o ar tornado visível pela poeira. (...) A concentração de animais em meio à falta de higiene sempre foi uma receita para doenças. A única razão pela qual não ocorrem epidemias como nas cidades humanas medievais é o uso intensivo de antibióticos. (...) Essa alimentação da à carne a textura e o sabor que os consumidores norte-americanos passaram a gostar. No entanto, essa carne é menos saudável para nós, já que contem teor mais elevado de gorduras saturadas e menos ômega-3 do que as carnes do bovino alimentado no pasto. (...) Na medida em que se avança na compreensão desse sistema de produção, torna-se inevitável questionar se o que parece racional não é também uma loucura total".

Depois, o autor disseca o processamento dos alimentos consumidos nos EUA. Pode-se dizer que o cereal matinal é o protótipo desse modelo: a indústria transforma 4 centavos de dólar de milho comprado como commodity em 4 dólares de alimentos processados, com novas formas e sabores, vendidos em embalagens que atraem o olhar do consumidor, tudo com o apoio de grandes campanhas publicitárias. Para cada caloria de alimento assim processado são necessárias 10 calorias de combustível fóssil.

"Na General Mills eu ouvi, pela primeira vez, a expressão sistema alimentar. Essa expressão é mais atrativa e indicadora da alta tecnologia do que a palavra comida. E evita as conotações negativas de sua antecessora, alimento processado industrialmente. Os especialistas do setor falam, também, em proteína vegetal texturizada e em nutracêuticos".

Daí, o caminho até o McDonald's é denso de truques apoiados em estudos de mercado e na "ciência da alimentação". Foi o esforço para aumentar a receita de cadeias de cinema que, depois de muitas experiências, levou à criação dos imensos sacos de pipoca e copos de soda que hoje estão presentes em todos os locais dos EUA, tendo as crianças como alvo principal. Três em cada cinco norte-americanos têm o peso mais elevado do que o recomendável, um em cada cinco é obeso, e cada criança nascida depois de 2000 tem 33% de possibilidades de desenvolver diabetes.

"Atualmente, 19% das refeições norte-americanas são feitas em automóveis. Refeições compradas sem que a porta do veículo precise ser aberta, comidas sem que o carro tenha que parar, com o uso de uma só mão. De fato, essa é a genialidade dos nuggets de frango: poder consumir sem o uso de prato ou garfo. Não há dúvidas de que os pesquisadores do McDonald's estão neste momento trabalhando para que se possa fazer o mesmo com uma simples salada."

O livro de Pollan segue por caminhos fascinantes e sua leitura nos faz perguntar se é isso que queremos. A afirmação de que não haverá necessidade de desmatamento para a produção e a exportação de imensas quantidades de biodiesel se baseia na avaliação de que grandes áreas de pastagens podem ser convertidas para monoculturas de oleaginosas com um pouco de modernização de nossa agricultura... Isso, apenas para começar uma reflexão mais profunda sobre estilos de vida na era pós-petróleo.

Mais clique aqui.

O dilema do ser humano

Esses dias foi exibido no Rio o festival de cinema ambiental FICA. Não pude ver todos, mas aquele que recomendo é "Meu primeiro contato", um documentário comovente sobre a história de uma tribo amazônica transferida para o Xingú pela equipe do Orlando Villas Boas. Por Clarissa Taguchi, da redação

O filme mostra o primeiro contato dessas pessoas com a cultura dos "brancos" e o processo de interferência causado por nós ao tentarmos olhar culturas alheias sob nossas perspectivas. Há o registro da inocência e do medo de seus personagens no primeiro encontro, em contraste à situação de arrependimento de hoje. A história termina com depoimentos de pessoas enclausuradas em suas esperanças de retornar à terra de suas origens e que agora são utilizadas para pasto.

E em meio à exibição dos filmes, pessoas de grande importância na disseminação da linguagem ambiental vieram expor suas posições frente aos nossos dilemas atuais. Leonardo Boff, André Trigueiro e Marcos Sá Correa foram perfeitos e complementares em suas conclusões e limitações como seres humanos que tentam "fazer a sua parte" abrindo o debate ambiental a todas às culturas e populações desse Brasil. Iniciativas como o FICA, assim como os novos meios de comunicação desenvolvidos pelas novas ferramentas tecnológicas servem, especialmente, à disseminação do debate ambiental.

Concluímos que não é preciso anos de academia, ou a leitura de milhares de títulos, para chegarmos a simples conclusão do tamanho do problema que enfrentamos, assim como a falta de perspectivas vergonhosamente empurrada às futuras gerações. "Qual o futuro para a humanidade?", "Temos jeito?" foram questionamentos colocados a todos os participantes pela platéia.

Como resposta, todos os palestrantes foram uníssonos ao apontar o consumo como a grande origem desse desequilíbrio catastrófico. Pois é o consumo e, a forma como consumimos, que geram esse modelo de produção que vem literalmente consumido todos os recursos da Terra até sua exaustão.

Contexto, personagem e roteiro

Identificadas os papéis do drama ambiental planetário, a platéia volta para casa sabendo que algo tem de ser feito e que de alguma maneira vamos ter que "fazer a nossa parte". É extremamente desconfortante voltar para casa sem tentar pensar numa idéia, sem questionar uma solução antes que nossas vidas tornem-se desesperançosas. Uma idéia torna-se uma esperança e, uma ação, um alívio. E foi assim que decidi não comer mais carne alguns punhados de anos atrás, como uma atitude que me trouxesse algum alívio. Mas jamais imaginei a tamanha dor de cabeça que declarar-se vegetariano pode causar. Convido todos a experimentar, declare-se vegetariando, mesmo que de brincadeira.

Digo que é desconfortante, não como o desconforto anterior de sentir-se perdendo a estrada por onde seguir, mas é o desconforto de tornar-se um espelho nítido; colocando na frente de todos a resposta para perguntas que ninguém ousa fazer.

Até quando deixaremos oculto, velado, trancado e maquiado nosso maior "bem" de consumo, aquele nosso maior "produto" que para ser "fabricado" utiliza quantos planetas forem necessários a saciar uma fome sem fim? E ainda quais as forças culturais que nos levam a esconder de nós mesmos tamanha verdade? Você conhece a violência gerada num prato de comida? Abaixo uma indicação de livro para quem não entendeu "patavinas" dessa história.

Por Clarissa Taguchi, decidida a encarar-se vegana (uma consumidora vegetariana ética) há quase uma semana.


O Dilema do Onívoro
de Michael Pollan, Editora Intrínseca, 2006

A insensatez do agronegócio é objeto deste livro fascinante, que faz sucesso crescente à medida que os leitores descobrem a importância de saber como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às suas mesas. Por Luiz Prado para Planeta Sustentável

Nos EUA, são necessárias duas calorias de fertilizantes sintetizados a partir do petróleo para produzir uma caloria de milho. E como o gado bovino é alimentado com milho, quase um barril de petróleo é consumido para cada animal abatido. Os excedentes da produção de milho estão na origem tanto da abundância quanto da obesidade. Os subsídios governamentais são generosos, o alimento industrializado tem preços baixos, mas dão origem aos altos índices de obesidade que custam algo em torno de 90 bilhões de dólares por ano em despesas médicas. Ou esses excedentes atravessam a fronteira do México, onde liquidam com os pequenos produtores.

Toda uma complexa cadeia de interesses gira em torno da produção de milho, impedindo que cessem os subsídios. A insensatez do agronegócio é objeto de um fascinante livro intitulado "O Dilema do Onívoro", que faz sucesso crescente à medida que os leitores descobrem a importância de saber como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às suas mesas. O livro de Michael Pollan certamente é um importante alerta para um Brasil que se pretende transformar numa Arábia Saudita dos biocombustíveis.

O livro começa pela descrição da gigantesca monocultura de milho no estado de Iowa e volta até a origem da alta produtividade, com raízes na produção de sementes híbridas na década de 30, permitindo a mecanização da lavoura e dando início a um processo que rapidamente transformará os agricultores em reféns - mais do que em beneficiários - da agroindústria. Ao final da segunda guerra mundial, quando os Estados Unidos detinham imensos estoques de nitrato de amônia para a fabricação de explosivos, a solução encontrada foi o uso intensivo de fertilizantes. Também a indústria de pesticidas se estrutura com base nos estoques de produtos químicos destinados à fabricação de gases venenosos para uso militar.

Os excedentes da produção de milho precisam encontrar mercados e logo começam a ser utilizado na alimentação de animais, mesmo dos ruminantes, cujo sistema digestivo não é adaptado ao consumo de cereais.

Seguindo em busca da cadeia produtiva da agroindústria, Pollan viaja até Garden City, no estado de Kansas, e descreve a criação de gado bovino confinado, alimentado com milho, antibióticos e outros medicamentos, suplementos alimentares e estrogênio, gordura liquefeita e uréia sintetizada a partir do gás natural. Trinta e sete mil cabeças numa instalação que na linguagem da agroindústria norte-americana é conhecida como Operação Concentrada de Alimentação Animal (CAFO - Concentrated Animal Feeding Operation).

"Essa instalação se parece como uma cidade pré-moderna, sem espaço, imunda e mal-cheirosa, com o esgoto a céu aberto, ruas sem pavimentação e o ar tornado visível pela poeira. (...) A concentração de animais em meio à falta de higiene sempre foi uma receita para doenças. A única razão pela qual não ocorrem epidemias como nas cidades humanas medievais é o uso intensivo de antibióticos. (...) Essa alimentação da à carne a textura e o sabor que os consumidores norte-americanos passaram a gostar. No entanto, essa carne é menos saudável para nós, já que contem teor mais elevado de gorduras saturadas e menos ômega-3 do que as carnes do bovino alimentado no pasto. (...) Na medida em que se avança na compreensão desse sistema de produção, torna-se inevitável questionar se o que parece racional não é também uma loucura total".

Depois, o autor disseca o processamento dos alimentos consumidos nos EUA. Pode-se dizer que o cereal matinal é o protótipo desse modelo: a indústria transforma 4 centavos de dólar de milho comprado como commodity em 4 dólares de alimentos processados, com novas formas e sabores, vendidos em embalagens que atraem o olhar do consumidor, tudo com o apoio de grandes campanhas publicitárias. Para cada caloria de alimento assim processado são necessárias 10 calorias de combustível fóssil.

"Na General Mills eu ouvi, pela primeira vez, a expressão sistema alimentar. Essa expressão é mais atrativa e indicadora da alta tecnologia do que a palavra comida. E evita as conotações negativas de sua antecessora, alimento processado industrialmente. Os especialistas do setor falam, também, em proteína vegetal texturizada e em nutracêuticos".

Daí, o caminho até o McDonald's é denso de truques apoiados em estudos de mercado e na "ciência da alimentação". Foi o esforço para aumentar a receita de cadeias de cinema que, depois de muitas experiências, levou à criação dos imensos sacos de pipoca e copos de soda que hoje estão presentes em todos os locais dos EUA, tendo as crianças como alvo principal. Três em cada cinco norte-americanos têm o peso mais elevado do que o recomendável, um em cada cinco é obeso, e cada criança nascida depois de 2000 tem 33% de possibilidades de desenvolver diabetes.

"Atualmente, 19% das refeições norte-americanas são feitas em automóveis. Refeições compradas sem que a porta do veículo precise ser aberta, comidas sem que o carro tenha que parar, com o uso de uma só mão. De fato, essa é a genialidade dos nuggets de frango: poder consumir sem o uso de prato ou garfo. Não há dúvidas de que os pesquisadores do McDonald's estão neste momento trabalhando para que se possa fazer o mesmo com uma simples salada."

O livro de Pollan segue por caminhos fascinantes e sua leitura nos faz perguntar se é isso que queremos. A afirmação de que não haverá necessidade de desmatamento para a produção e a exportação de imensas quantidades de biodiesel se baseia na avaliação de que grandes áreas de pastagens podem ser convertidas para monoculturas de oleaginosas com um pouco de modernização de nossa agricultura... Isso, apenas para começar uma reflexão mais profunda sobre estilos de vida na era pós-petróleo.

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Consumo é o grande tabu da midia catástrofe climática

Por Mariano Senna da Costa (*) para Ambiente Já

Tentar entender a mudança climática pelos grandes veículos é um convite à esquizofrenia. Desde que o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês) divulgou em fevereiro seu segundo relatório confirmando a responsabilidade humana sobre o fenômeno, alternam-se na mídia versões e contra-versões a respeito das causas e efeitos do problema.

Um exemplo interessante foi o da edição de junho da revista alemã Cicero. "A mentira do clima - Um dossiê contra o Eco-pânico", dizia o título. Entre análises parciais sobre o interesse de ONGs no assunto e um glossário com as dúvidas que ainda persistem na discussão, a revista criticou a forma sensacionalista como a grande imprensa tem abordado a questão. Logo na primeira página do texto há uma reprodução da capa de dois jornais de Berlim, o Die Tageszeitung e o Berliner Zeitung. Ambos publicados no dia 03 de Fevereiro, noticiando a profecia da ONU para a catástrofe climática, mas exibindo em suas capas cenários opostos. Um trazia uma montagem do portão de Brandenburgo, símbolo turístico da capital alemã, inundado. O outro ilustrava o mesmo lugar transformado em um deserto.

Independente das diferentes interpretações, o fato é que mesmo prevendo catástrofes, a grande mídia ainda se nega a debater o ponto nevrálgico para enfrentar a mudança climática: o consumo. Seja na Europa, nos EUA ou na América Latina e salvo raríssimas exceções, nenhum veículo toca no assunto. E ele não é nenhuma novidade. "Como pode a economia crescer infinitamente num planeta finito? De onde virão os recursos? Temos que mudar a forma de contabilizar o uso dos nossos recursos", defendia o ecologista José Lutzenberger jà na década de 90.

Clima de consumo

Ultimamente o alerta vem sendo reforçado por experts do aquecimento global. "Nós vamos ter problemas tanto com a quantidade de consumo quanto com o padrão das coisas que compramos", declarou o pesquisador do INPE, Carlos Nobre, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo no dia 8 de março deste ano. Como uma das maiores autoridades brasileiras sobre a mudança climática, Nobre faz coro com outros nomes conhecidos internacionalmente. Em seu último livro "The Revenge of Gaia" (A Vingança de Gaia), James Lovelock diz que o maior desafio mundial na luta contra a mudança climática é o que ele chamou de "inércia social". "Pense em como será difícil para nações como China, Índia e Estados Unidos mudar o comportamento de suas populações", traz o texto publicado em fevereiro de 2006.

Uma das tentativas de abordar o tema de forma mais profunda e abrangente foi feita pelos norte-americanos Michael Maniates, Thomas Princen e Ken Conca no livro "Confronting Consumption" (Confrontando o Consumo). Publicado em 2002 o livro descreve cases, faz análises e reflexões sobre conceitos tipo "imersão social do consumo", "soberania do consumidor" e "políticas do consumo". "O desafio não é apenas confrontar o consumo, mas transformar as estruturas que o sustentam", diz a conclusão do livro.

A publicidade é uma dessas estruturas. "Realmente é uma questão ainda sem respostas. Como mudar a mentalidade das pessoas, como fazê-las refletir sobre a abundância de que dispõe, se o sistema de comunicação que as condiciona e educa diariamente depende primordialmente da publicidade, das vendas e do consumo? Eu realmente não sei", declara Michael Maniates, professor de ciência política e ciência ambiental no Allegheny College na Pennsylvania.

Iniciativa x Inércia

Entre as iniciativas que tentam enfrentar o desafio está a revista "Adbusters". Com sede no Canadá e 90 mil "apoiadores" em todo o mundo, ela visa combater o que chama de "poluição física e mental" das grandes corporações. Na capa de Agosto do site há um artigo sobre a iniciativa da Prefeitura de São Paulo de regular a publicidade ao ar livre.

A idéia vem sendo seguida por outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, mas em ambos os casos os argumentos para a implementação de leis que regulem a publicidade não tem a ver com a "racionalização do consumo", mas com o que se pode chamar de "bem-estar urbano".

De maneira geral mídia e governos falam confortavelmente sobre uma solução tecnológica ou política para o controle das emissões de gases estufa. Porém, parecem não querer ver que quando o foco é o indivíduo as contradições continuam cada vez maiores. "Conheço uma mulher absolutamente convencida de que algo precisa ser feito. Mas ela nem cogita deixar de ter a água da sua piscina na temperatura de uma taça de chá bem quente durante todo o inverno, não importa o que isto custe", exemplifica a jornalista britânica Deborah Orr em artigo no 'The Independent'.

Uma das poucas vozes a atacar sistematicamente a incoerência de políticos e grandes empresas de comunicação, ela usa a autocrítica como forma de abordar temas escamoteados do noticiário. "Em alguns momentos, a habilidade para convencer a nós mesmos de que desastres são coisas que acontecem com outras pessoas é realmente muito poderosa", comenta ela em outro artigo.

Sentado confortavelmente em seu jardim no subúrbio de Berlim, o médico aposentado Claus Kuhlmann, sabe que o consumo é um ponto importante no debate para "salvar o mundo". Mas ele também sabe quão difícil é imaginar uma mudança de hábitos. "Dói só de pensar em reduzir aquilo que normalmente compro, mesmo que seja algo supérfluo", admite. Aos 64 anos, Claus acredita que só depois que "algo muito grave acontecer" é que as pessoas talvez acordem. "Dificíl imaginar um mundo sem crescimento econômico, sem capitalismo. É como pensar numa volta à idade média", comenta ele, concordando com o slogam da cúpula do G8 deste ano: "Nenhuma política do clima sem a economia".

Otimismo e Ceticismo

Para Wolfgang Pomrehn, geofísico e meteorologista que atua como jornalista especializado em assuntos do clima e energia desde meados da década de 90, a redução do consumo não é nem desejável, nem factível. "Eu sou cético quanto a isso. Primeiro há uma questão moral aí, pois mesmo na Alemanha, há pessoas que já consomem o mínimo, que dirá em outros países do mundo".

Outro aspecto, segundo ele, diz respeito a questões como a estrutura e a tecnologia de geração, sobre as quais o cidadão comum tem pouca ou nenhuma influência. "Para os proprietários de apartamentos e casas alugadas, por exemplo, pouco interessa se os inquilinos precisam gastar mais ou menos energia com aquecimento por conta das condições do isolamento térmico dos imóveis". Wolfgang defende assim, uma série de medidas políticas de difícil implementação. Entre elas está uma valorização do transporte coletivo, em detrimento da "cultura do automóvel". Isso sem afetar o bem estar social.

"Algumas medidas já estão sendo postas em prática, mas ainda são muito poucas e vem aparecendo muito devagar", avalia ele que em setembro estará lançando um livro sobre o tema. Apesar da inércia do debate, o otimismo continua sendo a base do discurso oficial. "Uma das coisas maravilhosas do capitalismo é que a economia consegue aperfeiçoar aquilo que o público deseja comprar", acredita o secretário de meio ambiente da Embaixada brasileira em Berlim, Flávio Mello. E essa visão também é válida para a "sustentabilidade da mídia". "Eu acho que é possível que os órgãos publicitários e a iniciativa privada de modo geral se antecipem a essa necessidade de mudança. Acho que o 'consumo destrutivo' tende a diminuir progressivamente porque ele é autodestrutivo e as pessoas têm instinto de preservação", pondera o secretário que é um dos interlocutores da política brasileira para biocombustíveis na Alemanha.

Aliás, uma das grandes promessas para combater os problemas provocados pela queima de combustíveis fósseis é a sua substituição por produtos de origem vegetal. Pelo menos para o Brasil. "Para discutir a questão climática com seriedade, tem que olhar a questão dos biocombustíveis. E olhar com muito carinho", avisou o presidente Lula durante o encontro do G8 na Alemanha. O objetivo, segundo o presidente, seria convencer o mundo de que os biocombustíveis são a solução para a substituição dos combustíveis fósseis, para a despoluição do planeta e para a geração de renda. "Os países ricos precisam aceitar que os países em desenvolvimento têm o direito de crescer como eles cresceram, para conquistar a mesma qualidade de vida que eles conquistaram", arrematou Lula.

Na contramão desse discurso estão entidades malditas para o establishment. "Não creio que os países em desenvolvimento precisam ser ajudados pelos países desenvolvidos. Devemos lutar todos juntos por uma mudança de paradigma", acredita a agricultora francesa, Isabelle Rouet, de 27 anos.

Integrante da Via Campesina, ela defende que antes de falar em substituição de combustíveis é fundamental reduzir o seu consumo. "As pessoas na Europa devem entender que elas usam muito mais recursos do que dispõe. Esse excedente vem de fora, através de uma relação comercial bastante desequilibrada". Para Isabelle a simples mudança de produtos, ou insumos não tornará as relações entre ricos e pobres mais justa. "É uma questão de cultura e filosofia". Mas movimentos como a Via Campesina, que só na França tem cerca de 10 mil membros, estão fora do governo e da grande mídia.

Consumo é o grande tabu da midia catástrofe climática

Por Mariano Senna da Costa (*) para Ambiente Já

Tentar entender a mudança climática pelos grandes veículos é um convite à esquizofrenia. Desde que o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês) divulgou em fevereiro seu segundo relatório confirmando a responsabilidade humana sobre o fenômeno, alternam-se na mídia versões e contra-versões a respeito das causas e efeitos do problema.

Um exemplo interessante foi o da edição de junho da revista alemã Cicero. "A mentira do clima - Um dossiê contra o Eco-pânico", dizia o título. Entre análises parciais sobre o interesse de ONGs no assunto e um glossário com as dúvidas que ainda persistem na discussão, a revista criticou a forma sensacionalista como a grande imprensa tem abordado a questão. Logo na primeira página do texto há uma reprodução da capa de dois jornais de Berlim, o Die Tageszeitung e o Berliner Zeitung. Ambos publicados no dia 03 de Fevereiro, noticiando a profecia da ONU para a catástrofe climática, mas exibindo em suas capas cenários opostos. Um trazia uma montagem do portão de Brandenburgo, símbolo turístico da capital alemã, inundado. O outro ilustrava o mesmo lugar transformado em um deserto.

Independente das diferentes interpretações, o fato é que mesmo prevendo catástrofes, a grande mídia ainda se nega a debater o ponto nevrálgico para enfrentar a mudança climática: o consumo. Seja na Europa, nos EUA ou na América Latina e salvo raríssimas exceções, nenhum veículo toca no assunto. E ele não é nenhuma novidade. "Como pode a economia crescer infinitamente num planeta finito? De onde virão os recursos? Temos que mudar a forma de contabilizar o uso dos nossos recursos", defendia o ecologista José Lutzenberger jà na década de 90.

Clima de consumo

Ultimamente o alerta vem sendo reforçado por experts do aquecimento global. "Nós vamos ter problemas tanto com a quantidade de consumo quanto com o padrão das coisas que compramos", declarou o pesquisador do INPE, Carlos Nobre, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo no dia 8 de março deste ano. Como uma das maiores autoridades brasileiras sobre a mudança climática, Nobre faz coro com outros nomes conhecidos internacionalmente. Em seu último livro "The Revenge of Gaia" (A Vingança de Gaia), James Lovelock diz que o maior desafio mundial na luta contra a mudança climática é o que ele chamou de "inércia social". "Pense em como será difícil para nações como China, Índia e Estados Unidos mudar o comportamento de suas populações", traz o texto publicado em fevereiro de 2006.

Uma das tentativas de abordar o tema de forma mais profunda e abrangente foi feita pelos norte-americanos Michael Maniates, Thomas Princen e Ken Conca no livro "Confronting Consumption" (Confrontando o Consumo). Publicado em 2002 o livro descreve cases, faz análises e reflexões sobre conceitos tipo "imersão social do consumo", "soberania do consumidor" e "políticas do consumo". "O desafio não é apenas confrontar o consumo, mas transformar as estruturas que o sustentam", diz a conclusão do livro.

A publicidade é uma dessas estruturas. "Realmente é uma questão ainda sem respostas. Como mudar a mentalidade das pessoas, como fazê-las refletir sobre a abundância de que dispõe, se o sistema de comunicação que as condiciona e educa diariamente depende primordialmente da publicidade, das vendas e do consumo? Eu realmente não sei", declara Michael Maniates, professor de ciência política e ciência ambiental no Allegheny College na Pennsylvania.

Iniciativa x Inércia

Entre as iniciativas que tentam enfrentar o desafio está a revista "Adbusters". Com sede no Canadá e 90 mil "apoiadores" em todo o mundo, ela visa combater o que chama de "poluição física e mental" das grandes corporações. Na capa de Agosto do site há um artigo sobre a iniciativa da Prefeitura de São Paulo de regular a publicidade ao ar livre.

A idéia vem sendo seguida por outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, mas em ambos os casos os argumentos para a implementação de leis que regulem a publicidade não tem a ver com a "racionalização do consumo", mas com o que se pode chamar de "bem-estar urbano".

De maneira geral mídia e governos falam confortavelmente sobre uma solução tecnológica ou política para o controle das emissões de gases estufa. Porém, parecem não querer ver que quando o foco é o indivíduo as contradições continuam cada vez maiores. "Conheço uma mulher absolutamente convencida de que algo precisa ser feito. Mas ela nem cogita deixar de ter a água da sua piscina na temperatura de uma taça de chá bem quente durante todo o inverno, não importa o que isto custe", exemplifica a jornalista britânica Deborah Orr em artigo no 'The Independent'.

Uma das poucas vozes a atacar sistematicamente a incoerência de políticos e grandes empresas de comunicação, ela usa a autocrítica como forma de abordar temas escamoteados do noticiário. "Em alguns momentos, a habilidade para convencer a nós mesmos de que desastres são coisas que acontecem com outras pessoas é realmente muito poderosa", comenta ela em outro artigo.

Sentado confortavelmente em seu jardim no subúrbio de Berlim, o médico aposentado Claus Kuhlmann, sabe que o consumo é um ponto importante no debate para "salvar o mundo". Mas ele também sabe quão difícil é imaginar uma mudança de hábitos. "Dói só de pensar em reduzir aquilo que normalmente compro, mesmo que seja algo supérfluo", admite. Aos 64 anos, Claus acredita que só depois que "algo muito grave acontecer" é que as pessoas talvez acordem. "Dificíl imaginar um mundo sem crescimento econômico, sem capitalismo. É como pensar numa volta à idade média", comenta ele, concordando com o slogam da cúpula do G8 deste ano: "Nenhuma política do clima sem a economia".

Otimismo e Ceticismo

Para Wolfgang Pomrehn, geofísico e meteorologista que atua como jornalista especializado em assuntos do clima e energia desde meados da década de 90, a redução do consumo não é nem desejável, nem factível. "Eu sou cético quanto a isso. Primeiro há uma questão moral aí, pois mesmo na Alemanha, há pessoas que já consomem o mínimo, que dirá em outros países do mundo".

Outro aspecto, segundo ele, diz respeito a questões como a estrutura e a tecnologia de geração, sobre as quais o cidadão comum tem pouca ou nenhuma influência. "Para os proprietários de apartamentos e casas alugadas, por exemplo, pouco interessa se os inquilinos precisam gastar mais ou menos energia com aquecimento por conta das condições do isolamento térmico dos imóveis". Wolfgang defende assim, uma série de medidas políticas de difícil implementação. Entre elas está uma valorização do transporte coletivo, em detrimento da "cultura do automóvel". Isso sem afetar o bem estar social.

"Algumas medidas já estão sendo postas em prática, mas ainda são muito poucas e vem aparecendo muito devagar", avalia ele que em setembro estará lançando um livro sobre o tema. Apesar da inércia do debate, o otimismo continua sendo a base do discurso oficial. "Uma das coisas maravilhosas do capitalismo é que a economia consegue aperfeiçoar aquilo que o público deseja comprar", acredita o secretário de meio ambiente da Embaixada brasileira em Berlim, Flávio Mello. E essa visão também é válida para a "sustentabilidade da mídia". "Eu acho que é possível que os órgãos publicitários e a iniciativa privada de modo geral se antecipem a essa necessidade de mudança. Acho que o 'consumo destrutivo' tende a diminuir progressivamente porque ele é autodestrutivo e as pessoas têm instinto de preservação", pondera o secretário que é um dos interlocutores da política brasileira para biocombustíveis na Alemanha.

Aliás, uma das grandes promessas para combater os problemas provocados pela queima de combustíveis fósseis é a sua substituição por produtos de origem vegetal. Pelo menos para o Brasil. "Para discutir a questão climática com seriedade, tem que olhar a questão dos biocombustíveis. E olhar com muito carinho", avisou o presidente Lula durante o encontro do G8 na Alemanha. O objetivo, segundo o presidente, seria convencer o mundo de que os biocombustíveis são a solução para a substituição dos combustíveis fósseis, para a despoluição do planeta e para a geração de renda. "Os países ricos precisam aceitar que os países em desenvolvimento têm o direito de crescer como eles cresceram, para conquistar a mesma qualidade de vida que eles conquistaram", arrematou Lula.

Na contramão desse discurso estão entidades malditas para o establishment. "Não creio que os países em desenvolvimento precisam ser ajudados pelos países desenvolvidos. Devemos lutar todos juntos por uma mudança de paradigma", acredita a agricultora francesa, Isabelle Rouet, de 27 anos.

Integrante da Via Campesina, ela defende que antes de falar em substituição de combustíveis é fundamental reduzir o seu consumo. "As pessoas na Europa devem entender que elas usam muito mais recursos do que dispõe. Esse excedente vem de fora, através de uma relação comercial bastante desequilibrada". Para Isabelle a simples mudança de produtos, ou insumos não tornará as relações entre ricos e pobres mais justa. "É uma questão de cultura e filosofia". Mas movimentos como a Via Campesina, que só na França tem cerca de 10 mil membros, estão fora do governo e da grande mídia.

Sadismo rima com capitalismo

Uma provocação: e se "Os 120 dias de Sodoma", de Sade, forem uma metáfora da racionalidade, dessensibilização, hierarquia e prazeres impossíveis que caracterizam as sociedades dominadas por mercados? Por Patrick Vassort, agosto de 2007, no Le Monde Diplomatique-Brasil.

A principal obra de Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814) é Os 120 dias de Sodoma (1785). Trata-se de uma sociedade totalitária, que o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, em seu filme Salò (1976), transpôs para a Itália fascista, já em ruínas, de 1944. Imaginando um rapto maciço de indivíduos jovens e velhos dos dois sexos, com todos os vícios e todas as virtudes, por um grupo de libertinos, o marquês de Sade constrói o “mundo perfeito” da produção sexual com a finalidade do “gozo absoluto”. Esse gozo seria a representação de uma produtividade recorde, ela própria absoluta.

Contemporâneo do início da industrialização, Sade propõe uma visão mais radical que a dos economistas fisiocratas [1], seus contemporâneos, que viam na racionalização da agricultura o único futuro da economia. Para ele, a relação com o corpo torna-se taylorista antes de Taylor [2]. Isto porque responde às exigências da produção corporal e sexual no sentido da máxima produtividade e do máximo rendimento, como também o faz o capital, em sua busca neurótica de produção, de reprodução e de desenvolvimento. Os 120 Dias de Sodoma mostram três principais racionalizações: a do espaço, a do tempo e a do corpo como meio de produção. Três racionalizações que estão igualmente na base da economia política das sociedades capitalistas.

O castelo é a figura do espaço de produção. Mobiliza afetos poderosos. É o lugar dos desejos, dos prazeres, dos gozos, dos medos, das dores, dos traumas. Encontra-se dividido em espaços mais ou menos sagrados. O centro de produção por excelência é o grande gabinete, lugar das narrativas que têm por finalidade evocar situações destinadas a excitar os libertinos, mestres das cerimônias. Os outros cômodos completam o dispositivo, para aumentar a produtividade sádica e “melhorar” a relação dos indivíduos com a tarefa proposta. O gabinete é o centro onde se tecem as produções, as relações, as estruturas sociais. É lá que os estatutos reais se formam e se conscientiza a razão de ser de cada um no mecanismo de produção sexual, com suas formas de dominação e de submissão.

No castelo, como na fábrica, divisão rígida de trabalho, hierarquias, produção ultra-racionalizada

Essa estruturação espacial racional apóia-se na dialética inclusão/exclusão. O quarto e o castelo são lugares de inclusão, como mais tarde o serão a mina, a fábrica e o bairro comercial. Fora do castelo, o espaço é neutro para o leitor. Oculta um “outro lugar” possível, um lugar estrangeiro à lógica produtivista sádica.

Por meio dessa construção espacial, Sade elaborou um mundo onde a única razão de ser dos indivíduos é a busca da produtividade recorde, do orgasmo absoluto. Eis como ele descreveu um simples calabouço: “Com o teto em arco, fechado por três portas de ferro, e no qual se encontra tudo o que a arte mais cruel e a barbárie mais refinada poderiam inventar de mais atroz, tanto para assustar os sentidos quanto para realizar horrores. Que tranqüilidade! [...] Desgraça, cem vezes desgraça, para a criatura desafortunada que, em tal abandono, se encontrava à mercê de um celerado sem lei e sem religião que o crime divertia, e que não tinha outro interesse senão o de suas paixões, nem outras medidas a preservar senão as leis imperiosas de suas perfídias voluptuosas.”

O espaço de vida dos heróis sadistas foi construído de maneira a fazer desaparecer qualquer outro centro de interesse que não o imposto pelos libertinos. Ou seja, foi organizado pela e para a produção “industrial” dos prazeres sexuais, como a indústria organiza o espaço para a produção industrial dos bens de consumo. Sade compreendeu que o desenvolvimento crescente da produção passava pela divisão de tarefas que permitia a “organização científica do trabalho”. Construída ao redor de espaços racionalmente organizados para a produção em massa, que visa fazer desaparecer os outros espaços (da liberdade e da autonomia), a sociedade industrial alterou (com sadismo, pode-se dizer...) as relações do indivíduo com o seu ambiente, racionalizando-o.

Um tempo que sempre se repete. Corpos que produzem, ao invés de corpos sensíveis

Porém, mais do que o espaço, o tempo racionalizado é, simbolicamente, a marca por excelência do capitalismo. Em Sade, a organização da vida no castelo é baseada no eterno retorno. Estruturado de maneira circular, esse tempo é periódico, um regresso perpétuo à origem, que reconduz às mesmas periodicidades. Cada dia é objeto de uma organização racional, obsessiva, quase idêntica à do dia precedente, para não deixar escapar nenhum “prazer” sexual – quer este repouse sobre a doçura, a violência, o gosto, o desgosto, a dor, o odor, a exibição, o olhar –, para não deixar nada ao acaso no mecanismo de produção. Sade escreveu: “Está decidido e arranjado que a virgindade da xoxota de oito moças será retirada apenas no mês de dezembro, e a dos seus cus, e dos cus de oito rapazes, ocorrerá apenas em janeiro”. Porque convém excitar a voluptuosidade pelo crescimento de um prazer incessantemente inflamado e nunca satisfeito. Neste sentido, Os 120 Dias de Sodoma são um longo caminho em um tempo racional que conduz à produtividade última: o amor à morte, já que apenas 16 das 46 pessoas vão sobreviver aos excessos de violência.

A produção capitalista apóia-se igualmente sobre a racionalidade do tempo de trabalho. A produtividade é somente uma relação entre a produção e o tempo. É necessário que, em um intervalo de tempo determinado, se produza sempre mais. Aí está a filosofia do recorde. A aceleração da velocidade de produção dos bens de consumo e dos bens culturais sustenta-se sobre o rebaixamento da qualidade, sobre o desaparecimento da complexidade e, finalmente, sobre a dominação dos seres. Não é esse o modelo de organização que caracteriza os fluxos de informação? Não é esse o modelo de nossa sociedade do espetáculo? A produção taylorista alimenta-se dessa mesma construção. A repetição dos mesmos gestos, dos mesmos processos de fabricação, com seus rituais, suas folgas, suas reconstituições da força de trabalho, corresponde à filosofia produtivista proposta também por Sade. Na produção capitalista, o tempo da aposentadoria não é considerado um tempo merecido de descanso, mas um “tempo inútil” de corpos esgotados, extenuados. Em Sade, não há aposentadoria. O fim da produtividade conduz à morte.

Quanto à racionalização dos corpos, ela se torna uma reificação, ou coisificação. Os corpos sofrem a transformação imposta pelos libertinos. É o aparecimento do corpo enquanto aparelho de produção para responder às necessidades totalitárias e o desaparecimento do corpo sensível.

O gozo mais mecânico que sensual, o desejo que não pode se realizar

Cada orifício, macho ou fêmea, cada parte côncava, cada superfície redonda pode ser objeto de interesse sexual específico, desde que participe da intensificação da produtividade. Sade imaginava personagens de físico sempre anormal, por sua beleza ou feiúra, por suas dimensões ou deformações. A busca de um gozo sem amarras, mais mecânico que sensual, coloca a questão da humanidade no seio de um processo racional que procura aumentar incessantemente a produtividade.

Os rituais da produção sadista fazem do corpo o instrumento de um prazer hipostasiado, transformado em mercadoria. A hibridação dos corpos (transplante) ou a mercantilização dos seres vivos, propostas eminentemente sádicas, encontram suas expressões modernas na industrialização da vida por meio do congelamento do esperma, da estocagem de células-tronco ou do comércio de órgãos.

A produção sadista é, contudo, imperfeita, frustrante. E as repetições tayloristas dos jogos e das agressões sexuais são, como na economia contemporânea, a marca de um fracasso, o da impossibilidade de atingir o absoluto. Isto porque o desejo de possuir sempre mais, de realizar um sempre melhor “desempenho” não pode se extinguir. Ou, como ensinaram Freud e Lacan, é insaciável. Assim, a heroína Justine faz continuamente a descoberta dos prazeres do outro, do qual ela é objeto, mas este prazer é recusado a ela. Os heróis de Os 120 Dias de Sodoma praticam, entre outros atos, a defecação, a sodomia e o açoitamento, que não fazem sentido senão na arte da multiplicação das repetições.

A busca do maior rendimento leva inevitavelmente ao desaparecimento do homem e da humanidade. O império dos sentidos, filme de Nagisa Oshima (1976), simboliza esta busca do absoluto, da loucura e da morte. O último orgasmo, o mais sublime, é obtido pelo estrangulamento do herói, que permanece em ereção após a ejaculação, e provoca, enfim, o orgasmo procurado por sua parceira.

Automatismo, submissão da vida individual, ditadura da razão econômica

A questão colocada por Sade é saber se essa organização do trabalho não anunciava as premissas de um totalitarismo. Vale recordar o que Hannah Arendt escreveu: “O totalitarismo não tende para um reino despótico sobre os homens, mas para um sistema no qual os homens são supérfluos. O poder total pode ser atingido e preservado apenas em um mundo de reflexos condicionados, de marionetes, que não apresentam o menor vestígio de espontaneidade” [3]. Esses “homens supérfluos” não são os desclassificados econômicos, políticos e culturais de hoje (como o eram os prisioneiros dos libertinos em Os 120 Dias de Sodoma)? Eles vêem sua subjetividade negada em nome do “realismo” econômico, da competitividade, da inovação tecnológica, da nova divisão internacional do trabalho, da flexibilidade, da precariedade, dos “imperativos” orçamentários. São despidos de sua personalidade e reduzidos à automatização.

Além disso, pouco a pouco, nesta nova sociedade, a repressão não é mais apenas policial, mas também da competência da auto-repressão. Como ocorre com os heróis sadistas, que não procuravam fugir jamais, terminando por aceitar o sofrimento. Hannah Arendt afirma, em A condição do homem moderno, que “o último estágio da sociedade do trabalho, a sociedade dos empregados, exige de seus membros um puro funcionamento automático, como se a vida individual fosse submergida realmente pelo processo global da vida da espécie”.

Ela notou, ainda, que, por toda parte onde o totalitarismo chegou ao poder, ele “gerou instituições políticas inteiramente novas” e “destruiu todas as tradições sociais, jurídicas e políticas do país”. Não é esta, ainda, a principal preocupação dos libertinos de Sade, que queriam fazer desaparecer as instituições existentes para melhor substituí-las por um poder total?

[1] A Fisiocracia, escola econômica surgida na França em 1768, afirmava que a materialidade constitui o fundamento da riqueza. E media o valor do trabalho pela quantidade de matéria bruta mobilizada.

[2] O engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915) criou o método “científico” de organização do trabalho que, aplicado pelo industrial Henry Ford (1863-1947), serviu de base para a “revolução industrial” do século 20.

[3] Arendt, Hannah, Origens do Totalitarismo, São Paulo, Companhia das Letras, 1989.