Por Gustavo Barreto (*), da redação
O jornal Folha de S. Paulo está selecionando projetos de pesquisa sobre a história do jornalismo brasileiro, com patrocínio da maior transnacional farmacêutica do planeta, a Pfizer (...)
Indústria farmacêutica incentiva "memória fraca" na mídia
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Sobre o caráter de um atleta
Por Gustavo Barreto, da redação
Estávamos mais ou menos aos 40 do segundo tempo de um jogo decisivo pela Copa do Brasil. O time A jogava pelo empate com gols, fora de casa, e estava de fato empatando em 1 a 1. O time B, desesperado, precisava de um gol, apenas um gol, para ir à semi-final. Com o estádio lotado, os jogadores do time B conheciam o tamanho da decepção que seria não passar para a próxima fase (...) Leia clicando no título.
Estávamos mais ou menos aos 40 do segundo tempo de um jogo decisivo pela Copa do Brasil. O time A jogava pelo empate com gols, fora de casa, e estava de fato empatando em 1 a 1. O time B, desesperado, precisava de um gol, apenas um gol, para ir à semi-final. Com o estádio lotado, os jogadores do time B conheciam o tamanho da decepção que seria não passar para a próxima fase (...) Leia clicando no título.
Controle ou ameaça?
Por Gustavo Barreto
O jornal O Globo de hoje (18/5) vem com mais uma contra o Governo Chávez, o acusando de querer impedir ONGs de trabalharem. Real motivo está nas últimas quatro linhas, quando admite que Chávez está questionando o oligopólio da mídia. Matéria confusa, mistura as coisas. As "fontes jornalísticas", na verdade, são os jornalões com quem tem parceria por lá, o oligopólio-espelho venezuelano.
O jornal O Globo de hoje (18/5) vem com mais uma contra o Governo Chávez, o acusando de querer impedir ONGs de trabalharem. Real motivo está nas últimas quatro linhas, quando admite que Chávez está questionando o oligopólio da mídia. Matéria confusa, mistura as coisas. As "fontes jornalísticas", na verdade, são os jornalões com quem tem parceria por lá, o oligopólio-espelho venezuelano.
Israel ataca comboio da ONU de ajuda humanitária
Míssil que atingiu um comboio de ajuda humanitária da Agência de Assistência aos Refugiados Palestinos matou dois motoristas. Bombardeio, que ocorreu durante cessar-fogo estabelecido por Israel, levou à interrupção do auxílio da ONU a Gaza. Por Gustavo Barreto, da redação. Leia mais clicando aqui.
Dane-se o ser humano
A mídia supostamente denuncia os atentados (aos olhos de alguns), mas continua com pressupostos absolutamente estranhos. Rotulam de “radicais” o Hamas, mas não Israel, que já assassinou 500 pessoas em dez dias. Por Gustavo Barreto (*), da redação. Leia mais.
A mídia supostamente denuncia os atentados (aos olhos de alguns), mas continua com pressupostos absolutamente estranhos. Rotulam de “radicais” o Hamas, mas não Israel, que já assassinou 500 pessoas em dez dias, segundo dados conservadores oficiais. Muitas crianças. Muitas mulheres. Muitos inocentes.
Por fazer isso – uma política equivocada, que não resolve conforme demonstram as lições “esquecidas” História, e uma política neonazista, de extermínio étnico –, Israel não é tachado de “radical” pelos telejornais.
Uma pena que até na GloboNews (por exemplo), em que sempre aparecem historiadores e sociólogos um pouco mais inteligentes, principalmente no programa Milênio e em documentários comprados de emissoras estrangeiras, eles dêem este tratamento vergonhoso à informação, bem tão precioso em tempos de guerra.
Pelo contrário. A apresentadora do noticiário econômico quase sorri ao informar que os conflitos em Israel fizeram a Bovespa fechar em alta. O economista ouvido por este canal nesta segunda (5/9) – sempre um neoliberal – confirma taxativamente: as ações da Petrobras estão “bombando” no mercado financeiro. É como se dissessem: “Dane-se o ser humano”.
Os comentários são feitos de forma totalmente descomprometida: não se tratam de seres humanos. Existem apenas variações de commodities devido à variação de “fatores externos”, entre eles o extermínio étnico de um povo. A apresentadora não acha isso anormal: ela comemora o ano de 2009, que “surpreendeu” com todos estes “indicadores positivos”.
Diante deste cenário sombrio na imprensa brasileira, conforme qualquer cidadão um pouco mais humanista pode acompanhar diariamente, a partir do seu senso crítico, só resta protestarmos e retomarmos o pensamento de Sófocles (495 a.C.–406 a.C), dramaturgo grego: “Onde convocar forças para derrubar a injustiça e a tirania quando cidadãos respeitáveis se calam?”
Por fazer isso – uma política equivocada, que não resolve conforme demonstram as lições “esquecidas” História, e uma política neonazista, de extermínio étnico –, Israel não é tachado de “radical” pelos telejornais.
Uma pena que até na GloboNews (por exemplo), em que sempre aparecem historiadores e sociólogos um pouco mais inteligentes, principalmente no programa Milênio e em documentários comprados de emissoras estrangeiras, eles dêem este tratamento vergonhoso à informação, bem tão precioso em tempos de guerra.
Pelo contrário. A apresentadora do noticiário econômico quase sorri ao informar que os conflitos em Israel fizeram a Bovespa fechar em alta. O economista ouvido por este canal nesta segunda (5/9) – sempre um neoliberal – confirma taxativamente: as ações da Petrobras estão “bombando” no mercado financeiro. É como se dissessem: “Dane-se o ser humano”.
Os comentários são feitos de forma totalmente descomprometida: não se tratam de seres humanos. Existem apenas variações de commodities devido à variação de “fatores externos”, entre eles o extermínio étnico de um povo. A apresentadora não acha isso anormal: ela comemora o ano de 2009, que “surpreendeu” com todos estes “indicadores positivos”.
Diante deste cenário sombrio na imprensa brasileira, conforme qualquer cidadão um pouco mais humanista pode acompanhar diariamente, a partir do seu senso crítico, só resta protestarmos e retomarmos o pensamento de Sófocles (495 a.C.–406 a.C), dramaturgo grego: “Onde convocar forças para derrubar a injustiça e a tirania quando cidadãos respeitáveis se calam?”
(*) Outros textos sobre os ataques à Faixa de Gaza em www.consciencia.net
Heresias modernas
Se formulações como “toda regra tem exceção” são da ordem do divino, tal como é o desprezo geral pela educação pública, faz sentido que quem, de posse de boas condições financeiras, coloque seu filho na escola pública por ideologia se torne um herege. Análise de Gustavo Barreto, clique no título.
TV Café: Joana francesa, de Chico para Diegues
Gustavo Barreto, da redação - Humberto Werneck comenta: "Cacá Diegues lhe encomendou uma canção para Jeanne Moreau, que faz uma dona de bordel. Quando Jeanne chegou de Paris, Chico foi lhe mostrar a música - morrendo de vergonha, conta, e se lembrando o tempo todo dela em Les amants, de Louis Malle, filme que assombrou os adolescentes de sua geração. A atriz adorou essa canção onde fundem palavras em português e francês e gravou-a no seu LP." (in Chico Buarque Letra e Música, Companhia da Letras, 1989)
Abaixo trecho de um documentário que eu não identifiquei (quem souber manda!), com a letra completa tirada do site do Chico (aqui). Mais abaixo, a minha primeira postagem, com destaque para a versão simpática da Nara Leão e trecho destacado.
Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
* * *
Mata-me de rir / Fala-me de amor / Songes et mensonges / Sei de longe e sei de cor / Geme de prazer e de pavor / Já é madrugada (...)
Joana francesa, Chico Buarque, (1973), para o filme Joana Francesa, de Cacá Diegues.
Abaixo trecho de um documentário que eu não identifiquei (quem souber manda!), com a letra completa tirada do site do Chico (aqui). Mais abaixo, a minha primeira postagem, com destaque para a versão simpática da Nara Leão e trecho destacado.
Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
* * *
Mata-me de rir / Fala-me de amor / Songes et mensonges / Sei de longe e sei de cor / Geme de prazer e de pavor / Já é madrugada (...)
Joana francesa, Chico Buarque, (1973), para o filme Joana Francesa, de Cacá Diegues.
Comentário: Graves inconvenientes
Gustavo Barreto, da redação
O tal jornalismo ficaria muito mais interessante se os ditos jornalistas se abrissem para o mundo (em vez de fecharem a pauta todos os dias), o que acabaria por causar um retrocesso imenso (porém produtivo), segundo nos conta Montaigne (1533-1592), no livro 1 dos Ensaios, capítulo 31:
“(...) O homem que tinha a meu serviço, e que voltava do Novo Mundo, era simples e grosseiro de espírito, o que dá maior valor a seu testemunho. As pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar sua interpretação, persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade (...)" Leia mais na Revista NOVAE, clicando no título.
O tal jornalismo ficaria muito mais interessante se os ditos jornalistas se abrissem para o mundo (em vez de fecharem a pauta todos os dias), o que acabaria por causar um retrocesso imenso (porém produtivo), segundo nos conta Montaigne (1533-1592), no livro 1 dos Ensaios, capítulo 31:
“(...) O homem que tinha a meu serviço, e que voltava do Novo Mundo, era simples e grosseiro de espírito, o que dá maior valor a seu testemunho. As pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar sua interpretação, persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade (...)" Leia mais na Revista NOVAE, clicando no título.
Comentário: A derrota do pensamento de esquerda no Rio
Gustavo Barreto, da redação - O articulista de esquerda Emir Sader publicou na Carta Maior o artigo "A derrota da esquerda no Rio". Sugere: "O argumento do candidato do PSOL não foi mais consistente: uma vez mais enganaram-se sobre onde está a direita, negando-se a apoiar a Jandira, dizendo que ela é “da base governista”, o que parece condenar o candidato a estar na direita, já que o PSOL entrou no caminho sem volta de tomar o PT como o inimigo fundamental [...]".
Não sou do PSOL, mas o que este partido sinalizava era que Jandira tinha alianças absolutamente conservadoras. O problema não era o "PT como o inimigo fundamental", nunca foi. O que o PSOL-RJ sinalizou claramente, por meio de seu candidato a prefeito, era que se tornava insustentável a aliança, por exemplo, com o PMDB. E vinha coisa pior ainda de Brasília.
Dito e feito: Jandira apóia Eduardo Paes! Este, por sua vez, é amigo de um famoso chefe de quadrilha aqui no Rio, Álvaro Lins, apoiado como "homem de caráter" por Sergio Cabral na campanha de 2006. Sergio Cabral, amigo de Lins, é o "nosso" governador e principal articulador da campanha de Paes. Todos do PMDB. Lembrando - sem julgar previamente, apenas para lembrar - que agora Jandira e Marcelo Crivella apoiam a mesma candidatura, simplesmente porque de fato são da base aliada do Governo Federal.
Jandira está diariamente com Paes nas ruas. Não é um "voto crítico", que é a baboseira que muitos falam para justificar a vergonha em votar em gente de direita, da pior direita que existe.
Perguntar não é crime: Emir Sader, que achava que Jandira era o nome da esquerda no Rio, agora apoiará o Eduardo Paes? Eduardo Paes, agora, é de esquerda? Lamentável este posicionamento, que demonstra um certo clima de derrota - não da esquerda, mas do pensamento de parte da esquerda.
Parece ser o fim, para alguns segmentos políticos outrora combativos, das ideologias - dando lugar às "táticas" eleitorais.
Não sou do PSOL, mas o que este partido sinalizava era que Jandira tinha alianças absolutamente conservadoras. O problema não era o "PT como o inimigo fundamental", nunca foi. O que o PSOL-RJ sinalizou claramente, por meio de seu candidato a prefeito, era que se tornava insustentável a aliança, por exemplo, com o PMDB. E vinha coisa pior ainda de Brasília.
Dito e feito: Jandira apóia Eduardo Paes! Este, por sua vez, é amigo de um famoso chefe de quadrilha aqui no Rio, Álvaro Lins, apoiado como "homem de caráter" por Sergio Cabral na campanha de 2006. Sergio Cabral, amigo de Lins, é o "nosso" governador e principal articulador da campanha de Paes. Todos do PMDB. Lembrando - sem julgar previamente, apenas para lembrar - que agora Jandira e Marcelo Crivella apoiam a mesma candidatura, simplesmente porque de fato são da base aliada do Governo Federal.
Jandira está diariamente com Paes nas ruas. Não é um "voto crítico", que é a baboseira que muitos falam para justificar a vergonha em votar em gente de direita, da pior direita que existe.
Perguntar não é crime: Emir Sader, que achava que Jandira era o nome da esquerda no Rio, agora apoiará o Eduardo Paes? Eduardo Paes, agora, é de esquerda? Lamentável este posicionamento, que demonstra um certo clima de derrota - não da esquerda, mas do pensamento de parte da esquerda.
Parece ser o fim, para alguns segmentos políticos outrora combativos, das ideologias - dando lugar às "táticas" eleitorais.
A farra financeira consensuada pelas elites
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise, há décadas ativistas e intelectuais denunciam o caráter explorador do sistema financeiro. De um lado, especuladores e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da globalização financeira. Do outro, trabalhadores em todo o planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA. Por Gustavo Barreto (*), da redação.
Como resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um conhecido processo estudado e identificado há décadas por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01] analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”.
O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” [02].
Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” [03].
O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” [04].
É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno.
Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”.
Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional. Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”.
Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.
Caça aos “culpados”
O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano.
A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado.
É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada.
Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar.
Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha.
Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares.
A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” [05].
A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
“Cadê a tal independência?”
A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?”
A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou...
Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”.
Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos.
Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”?
A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.
Farra com dinheiro (do) público
Os meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam a falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo.
Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”.
Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” [06] [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo].
O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”.
O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? [07] – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” [08].
Lula faz discurso duro sobre crise e é ignorado pela mídia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio.
O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé.
Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial. As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”.
Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”.
Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário.
Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski [09], é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil.
Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem.
No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos... [10]
“Fuga para o futuro”
Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.
Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo [11].
Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.
Muros da globalização
Mantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”.
E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina.
“Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” [12].
Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso. E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
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www.consciencia.net
Como resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um conhecido processo estudado e identificado há décadas por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01] analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”.
O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” [02].
Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” [03].
O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” [04].
É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno.
Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”.
Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional. Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”.
Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.
Caça aos “culpados”
O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano.
A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado.
É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada.
Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar.
Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha.
Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares.
A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” [05].
A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
“Cadê a tal independência?”
A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?”
A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou...
Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”.
Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos.
Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”?
A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.
Farra com dinheiro (do) público
Os meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam a falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo.
Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”.
Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” [06] [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo].
O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”.
O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? [07] – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” [08].
Lula faz discurso duro sobre crise e é ignorado pela mídia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio.
O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé.
Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial. As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”.
Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”.
Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário.
Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski [09], é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil.
Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem.
No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos... [10]
“Fuga para o futuro”
Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.
Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo [11].
Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.
Muros da globalização
Mantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”.
E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina.
“Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” [12].
Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso. E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
(*) Gustavo Barreto é editor da Revista Consciência.Net e editor de Internacional do Fazendo Media.
REFERÊNCIAS
01 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: EDUSP, 2000
02 Belluzo, Luiz Gonzaga. “A turma do ‘Veja Bem’...”. Revista Carta Capital. 17 set. 2008. No 513.
03 A Revista Consciência.Net realizou a cobertura do REGGEN 2003. Disponível em http://www.consciencia.net/reggen/reggen2003.html
04 Chomsky, Noam; Barsamian, David. Propaganda e consciência popular. Bauru, SP: EDUSC, 2003. Págs 166-167.
05 “Leia o projeto de socorro do Tesouro”. Folha de S. Paulo. 22 set. 2008.
06 Sader, Emir. 'Spread' ou a farra especulativa. Jornal do Brasil. 22 fev. 2004.
07 “William Bonner: meio Homer, meio Lineu”. Revista Consciência.Net. Dez. 2005.
08 “Crise de confiança na economia dos EUA se acentua”. Jornal Nacional (TV Globo). 17 set. 2008.
09 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: Edusp, 2000.
10 Para dados recentes, visitar http://www.jubileubrasil.org.br/
11 Charge animada do Jornal da Globo, TV Globo. 23 set. 2008.
12 Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas (Nova Iorque - EUA). Presidência da República. 23 set. 2008.
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A farra financeira consensuada pelas elites
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise, há décadas ativistas e intelectuais denunciam o caráter explorador do sistema financeiro. De um lado, especuladores e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da globalização financeira. Do outro, trabalhadores em todo o planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA. Por Gustavo Barreto (*), da redação. Leia mais clicando aqui.
Como resultado de um intenso bombardeio midiático, me peguei diversas vezes classificando os recentes acontecimentos no sistema financeiro global como uma “crise”. Trata-se, no entanto – de forma muito evidente, inclusive –, de um conhecido processo estudado e identificado há décadas por gente como o economista brasileiro Celso Furtado.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01] analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”.
O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” [02].
Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” [03].
O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” [04].
É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno.
Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”.
Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional. Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”.
Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.
Caça aos “culpados”
O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano.
A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado.
É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada.
Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar.
Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha.
Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares.
A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” [05].
A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
“Cadê a tal independência?”
A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?”
A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou...
Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”.
Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos.
Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”?
A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.
Farra com dinheiro (do) público
Os meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam a falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo.
Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”.
Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” [06] [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo].
O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”.
O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? [07] – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” [08].
Lula faz discurso duro sobre crise e é ignorado pela mídia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio.
O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé.
Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial. As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”.
Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”.
Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário.
Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski [09], é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil.
Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem.
No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos... [10]
“Fuga para o futuro”
Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.
Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo [11].
Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.
Muros da globalização
Mantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”.
E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina.
“Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” [12].
Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso. E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
O noticiário econômico acerca deste processo de falências e estatizações que ora ocorre nos EUA segue um padrão jornalístico já há algum tempo observado. As estatísticas são lançadas em função de uma dominação das elites sobre o aparelho de Estado, realidade que é presente no Brasil, de fato, porém de forma muito mais evidente nos Estados Unidos, como veremos a seguir.
Conforme destacou o jornalista Bernardo Kucinski [01] analisando o cenário brasileiro, “divulgam quanto cresceu o PIB (Produto Interno Bruto), porque esse dado é importante para o empresariado. Mas a participação do salário na renda nacional parou de ser divulgada há anos, desde que caiu abaixo de níveis civilizados (...) Divulgam-se detalhadamente os itens de pauta das exportações, mas não os detalhes de gastos com royalties e patentes. Seu conhecimento geraria uma atitude crítica em relação à renumeração dos capitais financeiros”. E alerta: “Quase tudo pode ser provado em economia, manipulando-se estatísticas”.
O sociólogo Luiz Gonzaga Belluzzo tratou de lembrar que o neoliberalismo, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nunca desejou o “Estado mínimo”, pois precisa de Estados nacionais fortes para utilizar o poder político e fiscal destes, com o objetivo de fortalecer os respectivos sistemas empresariais (incluindo os mercados financeiros e de capitais). O propósito é o de ganhar espaço na arena global. “Nessa toada, as reformas [ditas neoliberais, dos anos 70] atropelaram as instituições destinadas a garantir a segurança econômica e social da maioria assalariada ou dependente”,avalia Belluzzo. E conclui: “O Estado não saiu de cena, apenas mudou de agenda” [02].
Até mesmo no Brasil, durante a onda de privatizações e entreguismo dos oito anos do Governo FHC, foi observado durante o seminário da Rede de Economia Global (REGGEN) de 2003 que, ao contrário do que muitos propunham, os dados mostravam que o investimento público cresceu, porém foi – conforme denuncia Belluzzo – direcionado para a “iniciativa privada” [03].
O próprio termo “iniciativa privada” é contraditório, pois, como veremos, muitas vezes a iniciativa é do Estado, com dinheiro público, e o setor privado se apropria destes recursos por meio de ações fraudulentas e lesivas aos cofres públicos. Vide, entre outros inúmeros casos, a privatização da ex-estatal brasileira Vale do Rio Doce, que opera no setor de extração de recursos naturais, centralmente estratégico para o país.
Contradições negligenciadas
O noticiário da mídia corporativa procura fixar os atuais acontecimentos a poucos tópicos, sem discutir a seriedade e complexidade do problema, como, por exemplo, a falta de controle do sistema financeiro. O analista político Noam Chomsky aponta há décadas as contradições de um sistema fadado ao fracasso: “Uma instituição privada tem um objetivo: maximizar os lucros e minimizar as condições humanas. Porque isso maximiza os lucros. Isso é o que eles perseguem. Eles não poderiam perseguir nada além disso. Se o sistema é minimamente competitivo, eles precisam fazer isso. É a natureza do sistema (...) Haverá bastante dinheiro do contribuinte entrando nos fundos para não deixar que seus lucros caiam” [04].
É preciso um esforço para não considerar como custos apenas os gastos feitos diretamente pelo governo num contexto de “crise” – tal como a proposta de gastar US$ 700 bilhões na compra de títulos “podres”. Há muitos outros custos que são vendidos como grandes benefícios do capitalismo moderno.
Um dos exemplos utilizados por Chomsky é comum a todos os brasileiros: “Digamos que você telefone para conseguir uma passagem aérea [ou outro serviço que dependa desta forma de atendimento]. As empresas aéreas são automatizadas, o que lhes economiza um monte de dinheiro. Os economistas podem constatar que isto é muito eficiente. Por outro lado, quando você dá o telefonema. Isso está lhe custando dinheiro, você fica sentado lá, por meia hora, enquanto você fica ouvindo aquelas mensagens, ‘Obrigado por nos ligar’, ‘Agradecemos sua ligação’, ‘Nós o amamos’, ‘Espere um momento’, ‘O próximo operador lhe atenderá em seguida’... e aí entra a música. Todo esse tempo tem um custo para você. Mas não é um custo que alguém meça”.
Até o momento, nem um único economista distinto ou jornalista venerável, com espaço e destaque na televisão, questionou qual é o custo de não gastar este dinheiro – R$ 700 bilhões! – no sistema de saúde ou educacional. Ressalta-se que os “custos” são gerados por decisões tomadas e por decisões não tomadas – a inércia política. O caos no sistema de saúde americano – conforme denunciou o documentarista Michael Moore – ou o aumento da fome no mundo entre 2006 e 2007 – denunciado há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – não geram manchetes de “crise”.
Chomsky conclui, ainda dentro do exemplo acima referido: “O custo é multiplicado pelo número de usuários. É uma grande soma. Pegue o custo do indivíduo, multiplique pelo número de pessoas usando o serviço, compare isso com a eficiência da automação e você talvez venha a descobrir que a automação é uma total perda para a economia. Mas é um ganho da maneira como é calculada”.
Caça aos “culpados”
O discurso oficial da mídia (TV Globo, GloboNews, Record, Bandeirantes e grandes jornais do Rio e São Paulo, avaliados nesta segunda 22) tenta sutilmente culpar um punhado de CEOs [chief executive officer], os diretores de grandes transnacionais financeiras, pela debandada do sistema financeiro americano.
A âncora da GloboNews chegou a perguntar a um ex-ministro da Fazenda se eles [os CEOs] não deveriam ser penalizados. O “comentarista” disse que sim, que eles deveriam ser punidos. “Os executivos deveriam não receber seus benefícios e até mesmo devolver alguns que já receberam”, disse. O falso debate – com esta gravíssima punição sugerida, destaca-se! – está formado.
É preciso ser muito astuto para imaginar que, por conta de erros pessoais, individuais, o Banco Central americano (FED) tenha decidido injetar outros 95 bilhões de dólares nos bancos em chamadas “operações de refinanciamento de rotina”. Prestem atenção: esta medida foi anunciada nesta segunda (22), para além da proposta da Casa Branca enviada ao Congresso e dos 315 bilhões da semana passada.
Não coube a esta emissora questionar se não estaria havendo uma falência deste sistema, proclamado por especialistas de plantão como liberal, o mesmo sistema que agora se vê obrigado a recorrer ao dinheiro do contribuinte para supostamente não afundar.
Como estão envergonhados, digamos objetivamente aqui o que está se salvando: a barra dos “investidores”, os acionistas, gente que tem dinheiro o suficiente para injetar milhares de dólares nesses bancos. A população, conforme denunciaram parlamentares nos EUA, não vão receber nenhum apoio, segundo a proposta do governo. Apesar manter suas crescentes dívidas no “crédito” imobiliário que, no final das contas, era mais uma bolha.
Alguns congressistas, a despeito da pressão política do sistema financeiro, pediram no “ato” administrativo proposto pela Casa Branca o mais básico de todos os principais governamentais: regras! É curioso que nenhum telejornal tenha citado alguns dos trechos do pequenino documento (de apenas 3 páginas) que a secretaria do Tesouro dos EUA criou para abocanhar 700 bilhões de dólares.
A Casa Branca determina, por exemplo, que “a secretaria está autorizada a tomar tais ações à medida que a secretaria considerar necessárias para realizar os poderes deste ato, inclusive, sem limitação (...)”. Em outro trecho define: “Quaisquer verbas usadas para ações autorizadas por este ato, incluindo o pagamento de despesas administrativas, devem ser consideradas apropriadas no momento de tais gastos” [05].
A imprensa manteve o velho estilo parcial de sempre – o secretário de Tesouro dos EUA era o único que aparecia durante a primeira semana de crise. “Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano”, repetia a GloboNews na própria segunda-feira (22). “A Globalização não deve ser responsabilizada”, ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo – é claro – voz oficial. Para falarem da ‘crise’, convocaram apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
“Cadê a tal independência?”
A jornalista e apresentadora Lilian White Fibe, no último programa ‘Roda Viva’ (TV Cultura) da segunda (22), fez uma pergunta franca e direta ao entrevistado, o economista Ilan Goldfajn, que já foi diretor de política econômica do Banco Central (BC) brasileiro e atualmente é pesquisador da PUC Rio. Ela questionou firmemente: “Então, professor, cadê a tal independência do Banco Central americano, o tal Banco Central mais independente do mundo?”
A resposta não poderia ter sido mais risível, porém esclarecedora. Ilan disse que o FED – o BC americano – continuava independente, na opinião dele, e que o fato de o anúncio ter sido eminentemente político não mudava esta posição. O governo americano, argumentou Ilan, foi até o FED e este, por sua vez, colocou as opções mais “razoáveis” na mesa. O governo americano, então, acatou...
Em suma: quem manda nas finanças do mundo – o que inclui deter a chave dos cofres do governo mais rico do mundo – são os financistas de Wall Street. Ou seja, os responsáveis pelo caos que a presidente argentina classificou como “economia de cassino dos EUA”.
Já Giuliano Guandalini, editor de economia da revista Veja, procurou – a serviço do tipo de imprensa mais vendida que existe no Brasil – defender os “mercados”, que estão inevitavelmente sofrendo ataques até mesmo de grupos conservadores. Giuliano argumentou – em formato de “pergunta” para Ilan – que o sistema não era falho, já que havia proporcionado ganhos consideráveis durante muitos anos.
Aqui, novamente, faz-se uma observação risível e reveladora. Se os investidores se beneficiaram enormemente deste sistema que, como muitos agora lembram, privatiza os lucros e socializa os prejuízos, por que o governo não utiliza parte destes lucros e paga a “conta” da farra? Por que, afinal, o dinheiro tem que vir do bolso do contribuinte, e não destas empresas de “investimento de risco”?
A resposta é simples. A saída, para o esquema neoliberal, não admite outra coisa senão socializar os prejuízos. Fazer os capitalistas pagarem a conta – até Arnaldo Jabor anda falando mal deles! – é muito perigoso. Seria como, digamos, “confiscar bens”! Confiscar bens de capitalistas não é permitido.
Farra com dinheiro (do) público
Os meios de comunicação evitam passear por este debate e, inclusive, se negam a falar em estatização. Até porque estatizar é coisa de gente como Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Trata-se, no linguajar da mídia corporativa, de uma “intervenção” – mesmo que o governo tenha confiscado, por meio de cláusula contratual, 80% das ações da AIG, por exemplo.
Emir Sader, num artigo de 2004, explica como funciona um dos instrumentos correntes de privatização dos lucros e socialização dos riscos: “Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que – além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. –, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais. Essa ‘pequena’ diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês”.
Mas o que é o spread? “Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro – batidos novamente esta semana – à custa de quem não vive da especulação. Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc” [06] [leia mais sobre este mecanismo brutal de exploração do trabalhador na referência do artigo].
O Jornal Nacional da quarta-feira (17), ainda assustado com a derrocada de um projeto que defende diariamente, abriu falando sobre “a maior intervenção dos EUA” no setor privado. Já naquele dia, o governo havia comprometido mais de 300 bilhões de dólares nas empresas falidas. E, como sempre, deram voz ao Ser Supremo, Vossa Divindade: “Mesmo assim, o mercado não se acalmou”.
O apresentador William Bonner falou em “crise de confiança que atinge o mercado financeiro”. Não pretende explicar que a crise não é de confiança, porque seria muito perigoso que o telespectador que o vê e o ouve – aquele que é metade Homer Simpson metade Lineu, lembra? [07] – fique sabendo que não são apenas os títulos que o governo comprará que são podres, e sim o próprio sistema de jogatina que diversos ativistas denunciam há décadas. Insistem no discurso vazio: “E mais um sinal da crise de confiança que atinge o mercado financeiro: um outro banco americano, o Washington Mutual, anunciou que está à venda. Procura um comprador para salvá-lo da crise” [08].
Lula faz discurso duro sobre crise e é ignorado pela mídia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais importantes de seu mandato, agregando elementos como conhecimento histórico, síntese política, momento oportuno e amplitude de temas. Destaca-se que o Brasil sempre abre os debates, por tradição, o que se configura em um importante aspecto de prestígio.
O Jornal da Globo (TV Globo) desta terça-feira (23), dia do discurso, procurou esconder a fala de Lula, ao citar apenas um trecho insignificante e, ainda por cima, dizer que o “discurso mais esperado” era o do presidente Bush. Como sempre, o mandatário estadunidense teve uma participação pífia, ordinária e mentirosa, que nem sequer vale nota de rodapé.
Lula, no entanto, sem nenhum sentimento de nacionalismo ou partidarismo, falou o que poucos têm condição ou coragem de pôr em pauta. Logo no início, o brasileiro registra: “A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial. As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política”.
Evidentemente que o povo brasileiro não terá acesso, nos jornais e telejornais populares, a uma explicação detalhada sobre o que Lula quis dizer com “fundamentalistas de mercado”. “A ausência de regras”, completa o presidente, favorece os “aventureiros e oportunistas” (sic), em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. “É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”.
Novamente, seria perigoso demais que os Willians da TV Globo (Bonner ou Waack) retomassem o pensamento de Celso Furtado. Seria perigoso, pois poderia desencadear questionamentos sobre o funcionamento da própria lógica de privatização dos lucros e socialização dos riscos que ora ocorre no Brasil, tal como a lógica que permite o spread bancário.
Eles poderiam explicar, por exemplo, que a globalização financeira alimenta-se da desordem monetária causada pelo fim das paridades fixas entre moedas fortes. As regras, neste caso, são parecidas com as regras de um grande cassino em Las Vegas. O pano de fundo, comenta o jornalista Bernardo Kucinski [09], é a lenta agonia da cultura monetária baseada no dólar. Enquanto o Japão acumula, por exemplo, grandes saldos em seu comércio exterior, os Estados Unidos tentam manter a hegemonia do dólar, numa espécie de “fuga para o futuro”, na expressão de Furtado. Nesta tentativa, arrastaram para uma crise estrutural nos anos 90 países que têm dívidas em dólar – incluindo o Brasil.
Kucinski demonstra como funciona este “novo sistema de dominação” baseado no endividamento, igualmente registrado no balanço de pagamentos e consolidado em grandes tábuas mundiais da dívida externa, compiladas pelo Banco Mundial: “Essas tábuas mostram que, entre 1980 e 1991, os países da periferia pagaram US$ 607 bilhões de juros, mais do que o valor original da dívida, que, no entanto, nesse mesmo período saltou de US$ 573 bilhões para US$ 1281 bilhões”. Em outras palavras: quantas mais estes países pagam, mais devem.
No Brasil, o pagamento dos juros é a rubrica que consome a maior quantidade de recursos públicos. Só nos primeiros meses de 2008, o governo gastou com juros R$ 106,8 bilhões, ou 6,7% do PIB. É possível imaginar, diante de tão obscuros números, que nem todo o dinheiro da “ajuda” financeira que os EUA deram e pretendem dar às instituições financeiras são de contribuintes americanos. Há também brasileiros, argentinos, bolivianos, venezuelanos, chilenos... [10]
“Fuga para o futuro”
Esta mesma lógica especulativa de fuga para o futuro, com a política de redução da taxa de juros sem controle sobre o crédito, é um fator essencial para o estouro da bolha especulativa nos mercados de hipotecas. Agora, os neoliberais de plantão, com amplo suporte dos amigos jornalistas da mídia corporativa, tratam de tentar transferir os riscos para os indivíduos dispersos.
Em vez de abordar estes temas, a TV Globo preferiu exibir uma charge em que sugere Lula e seus assessores vão à ONU, na verdade, para vender biocombustíveis ele próprio, como se fosse um mercador querendo vender a matéria prima de seu país. Este é o “humor” praticado na Rede Globo [11].
Lula defendeu o papel da ONU na criação de “mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras” contra o que classificou como “anarquia especulativa”.
Muros da globalização
Mantendo a coesão entre os temas, em um dos mais importantes trechos, Lula criticou duramente o caráter totalitário da globalização financeira: “O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados”.
E partiu objetivamente para a defesa de governos como o da Venezuela e da Bolívia: “Um suposto ‘nacionalismo populista’, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos”, complementando com algumas considerações sobre a importância da aliança dos países do sul, em particular da América Latina.
“Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado – em 200 anos de vida independente – que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa” [12].
Na mídia corporativa brasileira, ao que tudo indica, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) nem sequer existe – apesar dos seus inúmeros êxitos políticos. O motivo dos neoliberais da mídia brasileira (hoje envergonhados) para esconder esta iniciativa é justamente o seu sucesso. E um outro detalhe: a sede da União será localizada em Quito, capital do Equador, o Banco do Sul será na capital da Venezuela, Caracas, e o seu parlamento será localizado em Cochabamba, na Bolívia.
(*) Gustavo Barreto é editor da Revista Consciência.Net e editor de Internacional do Fazendo Media.
REFERÊNCIAS
01 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: EDUSP, 2000
02 Belluzo, Luiz Gonzaga. “A turma do ‘Veja Bem’...”. Revista Carta Capital. 17 set. 2008. No 513.
03 A Revista Consciência.Net realizou a cobertura do REGGEN 2003. Disponível em http://www.consciencia.net/reggen/reggen2003.html
04 Chomsky, Noam; Barsamian, David. Propaganda e consciência popular. Bauru, SP: EDUSC, 2003. Págs 166-167.
05 “Leia o projeto de socorro do Tesouro”. Folha de S. Paulo. 22 set. 2008.
06 Sader, Emir. 'Spread' ou a farra especulativa. Jornal do Brasil. 22 fev. 2004.
07 “William Bonner: meio Homer, meio Lineu”. Revista Consciência.Net. Dez. 2005.
08 “Crise de confiança na economia dos EUA se acentua”. Jornal Nacional (TV Globo). 17 set. 2008.
09 Kucinski, Bernardo. Jornalismo Econômico. SP: Edusp, 2000.
10 Para dados recentes, visitar http://www.jubileubrasil.org.br/
11 Charge animada do Jornal da Globo, TV Globo. 23 set. 2008.
12 Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas (Nova Iorque - EUA). Presidência da República. 23 set. 2008.
A farra financeira consensuada pelas elites
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise, há décadas ativistas e intelectuais denunciam o caráter explorador do sistema financeiro. De um lado, especuladores e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da globalização financeira. Do outro, trabalhadores em todo o planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA. Por Gustavo Barreto, da redação.
Publicado também na Agência Carta Maior, Fazendo Media, Observatório da Imprensa, Fórum Mundial das Alternativas, Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal), Jornal Tem Notícia.
Publicado também na Agência Carta Maior, Fazendo Media, Observatório da Imprensa, Fórum Mundial das Alternativas, Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal), Jornal Tem Notícia.
Comentário: Faz mais sentido
Gustavo Barreto, da redação Consciência.Net
O Bom Dia Brasil de hoje (TV Globo) veiculou uma matéria comparando o tempo de locomoção de pessoas que faziam o mesmo trajeto em São Paulo, mas por meios distintos: carro, ônibus, bicicleta e a pé. Chegou a uma interessante conclusão: no trecho verificado, quem ganhou foi a bicicleta (metade do tempo do carro ou do ônibus). E, no final, em vez de chamar a Secretaria de Transportes para saber o que eles estão fazendo para ampliar as ciclovias, literalmente ignoraram a função pública do jornalismo. Simplesmente lamentam: "É uma pena".
É uma pena, na verdade, que os governos não estimulem meios de comunicação efetivamente comprometidos com as transformações sociais que o povo - esse mesmo, por exemplo, que pede por transporte público de qualidade - tanto deseja. É uma pena, mas é também para pensarmos o que fazer para mudar esta situação. Lamentar não adianta.
Toda a atenção aos bancos
Enquanto isso, toda a atenção da mídia está voltada para a aprovação de uma lei que ajudará o sistema financeiro dos Estados Unidos (leia-se bancos). Mantendo o velho estilo parcial de sempre - o secretário de Tesouro dos EUA é o único que aparece com seus argumentos para "salvar" a população norte-americana. A saber: quer que a lei seja aprovada rápido, sem discussão.
"Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano", repete a GloboNews mais tarde. "A Globalização não deve ser responsabilizada", ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo - é claro - voz oficial. Para falarem da crise, estão chamando apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
Enquanto isso, o povo por lá pergunta por que, depois de uma ingerência enorme no sistema financeiro, o governo deles deveria ajudar os bancos com o maior aporte financeiro de toda a história. Os comentaristas de plantão - aqueles que, conforme Bourdieu apontou, estão sempre prontos para confirmar a opinião geral - não sabem o que dizer, não conseguem respostas. Tudo agora é inédito e o mercado precisa "ser acalmado". Haja imparcialidade...
Além de não explicar onde a população brasileira entra nessa história, já que quem é efetivamente influenciado são investidores e agentes do "mercado" - gente com bastante grana -, a imprensa simplesmente apagou a agenda política brasileira. Deveriam mudar logo os âncoras e repórteres todos para Washington, cobrindo o Brasil a partir de lá. Faz mais sentido.
O Bom Dia Brasil de hoje (TV Globo) veiculou uma matéria comparando o tempo de locomoção de pessoas que faziam o mesmo trajeto em São Paulo, mas por meios distintos: carro, ônibus, bicicleta e a pé. Chegou a uma interessante conclusão: no trecho verificado, quem ganhou foi a bicicleta (metade do tempo do carro ou do ônibus). E, no final, em vez de chamar a Secretaria de Transportes para saber o que eles estão fazendo para ampliar as ciclovias, literalmente ignoraram a função pública do jornalismo. Simplesmente lamentam: "É uma pena".
É uma pena, na verdade, que os governos não estimulem meios de comunicação efetivamente comprometidos com as transformações sociais que o povo - esse mesmo, por exemplo, que pede por transporte público de qualidade - tanto deseja. É uma pena, mas é também para pensarmos o que fazer para mudar esta situação. Lamentar não adianta.
Toda a atenção aos bancos
Enquanto isso, toda a atenção da mídia está voltada para a aprovação de uma lei que ajudará o sistema financeiro dos Estados Unidos (leia-se bancos). Mantendo o velho estilo parcial de sempre - o secretário de Tesouro dos EUA é o único que aparece com seus argumentos para "salvar" a população norte-americana. A saber: quer que a lei seja aprovada rápido, sem discussão.
"Os investidores do mundo inteiro estão com a atenção voltada para o Congresso americano", repete a GloboNews mais tarde. "A Globalização não deve ser responsabilizada", ecoa outro correspondente da Globo, reproduzindo - é claro - voz oficial. Para falarem da crise, estão chamando apenas ex-diretores do Banco Central e banqueiros.
Enquanto isso, o povo por lá pergunta por que, depois de uma ingerência enorme no sistema financeiro, o governo deles deveria ajudar os bancos com o maior aporte financeiro de toda a história. Os comentaristas de plantão - aqueles que, conforme Bourdieu apontou, estão sempre prontos para confirmar a opinião geral - não sabem o que dizer, não conseguem respostas. Tudo agora é inédito e o mercado precisa "ser acalmado". Haja imparcialidade...
Além de não explicar onde a população brasileira entra nessa história, já que quem é efetivamente influenciado são investidores e agentes do "mercado" - gente com bastante grana -, a imprensa simplesmente apagou a agenda política brasileira. Deveriam mudar logo os âncoras e repórteres todos para Washington, cobrindo o Brasil a partir de lá. Faz mais sentido.
O desprezo pela vida, em um computador perto de você
Gustavo Barreto, da redação Consciência.Net
Nunca é demais denunciar a espetacularização do jornalismo, sempre disponível a promover o apequenamento da política, por exemplo. A lógica da manchete acima, registrada há pouco no Portal iG Eleições, trata uma intervenção militar - que, para as pessoas pobres das regiões atingidas, representará uma violência e implica na utilização da armas de fogo e provável batalha constituída - como uma "estréia". Tiveram a gentileza de colocar as aspas.
É claro que estréia pode indicar inauguração, abertura de algo, mas frequentemente aparece relacionada a uma atividade artística, cultural. Em outras palavras, um espetáculo. O público alvo do Portal iG, que em sua absoluta maioria não será atingido pela "estréia", de fato pode se servir da idéia de que isso é um filme e que, portanto, estão no direito de agirem como espectadores.
Cai por terra a idéia de que a "Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade". Está prevista no juramento profissional dos jornalistas. Frequentemente ignorado pela imprensa hegemônica, infelizmente.
Nunca é demais denunciar a espetacularização do jornalismo, sempre disponível a promover o apequenamento da política, por exemplo. A lógica da manchete acima, registrada há pouco no Portal iG Eleições, trata uma intervenção militar - que, para as pessoas pobres das regiões atingidas, representará uma violência e implica na utilização da armas de fogo e provável batalha constituída - como uma "estréia". Tiveram a gentileza de colocar as aspas.É claro que estréia pode indicar inauguração, abertura de algo, mas frequentemente aparece relacionada a uma atividade artística, cultural. Em outras palavras, um espetáculo. O público alvo do Portal iG, que em sua absoluta maioria não será atingido pela "estréia", de fato pode se servir da idéia de que isso é um filme e que, portanto, estão no direito de agirem como espectadores.
Cai por terra a idéia de que a "Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade". Está prevista no juramento profissional dos jornalistas. Frequentemente ignorado pela imprensa hegemônica, infelizmente.
O que não sairá na mídia sobre Daniel Dantas e sua organização criminosa
Gustavo Barreto, da redação
O site Em Dia Com A Cidadania disponibilizou na última quarta-feira (16) o relatório completo da Polícia Federal que investiga Daniel Dantas e o Opportunity. Na página 6, o relatório destaca que “o conceito de organização criminosa não conta com definição legal e também não se encontra sedimentado na doutrina ou na jurisprudência”.
No entanto, destaca que “podemos constatar uma série de elementos na composição de quase todas as definições, quais sejam: a) previsão de lucros; b) hierarquia entre seus membros; c) planejamento empresarial; d) divisão de trabalhos; e) ingerência no poder estatal; d) mescla de atividades lícitas e ilícitas para dificultar a atuação dos órgãos públicos encarregados da persecução penal”. E conclui: “No caso em tela, encontram-se presentes todas estas características como demonstraremos no corpo da presente representação”.
Ressaltamos aqui ao leitor, telespectador, radiouvinte e “consumidor” da mídia em geral, na mesma página, uma nota em que se destaca: “Ao longo da investigação notamos a constante aproximação do Grupo com autoridades públicas, lobistas, jornalistas, grandes empresários, pessoas muito bem articuladas, uma vez que esses contatos nas diversas esferas públicas e privadas são necessários para que esta organização criminosa continue atuando de forma protegida”.
Leia o relatório clicando aqui.
O grande Luis Nassif já descobriu quem são os jornalistas que fazem parte do esquemão, clica aqui pra ler.
O site Em Dia Com A Cidadania disponibilizou na última quarta-feira (16) o relatório completo da Polícia Federal que investiga Daniel Dantas e o Opportunity. Na página 6, o relatório destaca que “o conceito de organização criminosa não conta com definição legal e também não se encontra sedimentado na doutrina ou na jurisprudência”.
No entanto, destaca que “podemos constatar uma série de elementos na composição de quase todas as definições, quais sejam: a) previsão de lucros; b) hierarquia entre seus membros; c) planejamento empresarial; d) divisão de trabalhos; e) ingerência no poder estatal; d) mescla de atividades lícitas e ilícitas para dificultar a atuação dos órgãos públicos encarregados da persecução penal”. E conclui: “No caso em tela, encontram-se presentes todas estas características como demonstraremos no corpo da presente representação”.
Ressaltamos aqui ao leitor, telespectador, radiouvinte e “consumidor” da mídia em geral, na mesma página, uma nota em que se destaca: “Ao longo da investigação notamos a constante aproximação do Grupo com autoridades públicas, lobistas, jornalistas, grandes empresários, pessoas muito bem articuladas, uma vez que esses contatos nas diversas esferas públicas e privadas são necessários para que esta organização criminosa continue atuando de forma protegida”.
Leia o relatório clicando aqui.
O grande Luis Nassif já descobriu quem são os jornalistas que fazem parte do esquemão, clica aqui pra ler.
Comentário: E que fique registrado
Gustavo Barreto, da redação - Muitos sabem, mas repito pra evitar estigmas: não sou PT. E vamos lá.
Não aparece no vídeo o senador Agripino Maia citando a própria Dilma Roussef, quando ela declarou que, durante o regime militar, "a gente mentia feito doido, mentia muito, mas muito". Apenas no terceira, com a reação do Jô Soares, que foi ótima. Sem mais, tenha paciência com o senador e ouça sua "pergunta". Depois, a ministra Dilma deixa um registro histórico, que se percebe histórico durante a fala, momento simbólico de extrema importância.
Agripino Maia:
Dilma Roussef:
E, no final deste, o comentário do Jô sobre o senador Agripino "Culatra":
Registra-se: Agripino exerceu durante quase uma década a engenharia civil e também cargos administrativos e de direção na iniciativa privada, até iniciar sua carreira política, em 1979, como prefeito de Natal, nomeado pela ditadura militar. Em 1982, na primeira eleição direta realizada após o movimento militar de 1964, Agripino chegou ao governo do Rio Grande do Norte. Foi o terceiro governador consecutivo da familia. Antes o cargo foi ocupado por seu pai Tarcísio de Vasconcelos Maia e pelo seu primo Lavoisier Maia Sobrinho. Ambos foram nomeados e não eleitos, demonstrando a força que sua família obteve com sua colaboração ao regime de exceção. (aqui)
Não aparece no vídeo o senador Agripino Maia citando a própria Dilma Roussef, quando ela declarou que, durante o regime militar, "a gente mentia feito doido, mentia muito, mas muito". Apenas no terceira, com a reação do Jô Soares, que foi ótima. Sem mais, tenha paciência com o senador e ouça sua "pergunta". Depois, a ministra Dilma deixa um registro histórico, que se percebe histórico durante a fala, momento simbólico de extrema importância.
Agripino Maia:
Dilma Roussef:
E, no final deste, o comentário do Jô sobre o senador Agripino "Culatra":
Registra-se: Agripino exerceu durante quase uma década a engenharia civil e também cargos administrativos e de direção na iniciativa privada, até iniciar sua carreira política, em 1979, como prefeito de Natal, nomeado pela ditadura militar. Em 1982, na primeira eleição direta realizada após o movimento militar de 1964, Agripino chegou ao governo do Rio Grande do Norte. Foi o terceiro governador consecutivo da familia. Antes o cargo foi ocupado por seu pai Tarcísio de Vasconcelos Maia e pelo seu primo Lavoisier Maia Sobrinho. Ambos foram nomeados e não eleitos, demonstrando a força que sua família obteve com sua colaboração ao regime de exceção. (aqui)
Dica cultural: Piazzolla revisitado
Gustavo Barreto, da redação - The Anderson & Roe Piano Duo é uma dupla sensacional, não sei se conhecem. Eu conheci por causa do Piazzolla. É que eles interpretam Libertango (e que bela interpretação).
Vale a pena navegar: www.andersonroe.net
Vale a pena navegar: www.andersonroe.net
Comentário: Então você pensa que é humano? (vídeo)
O elefante me parecia uma figura interessante, por vários aspectos. Li num livro (ao lado) sobre o fato de que boa parte dos animais (não só o elefante) aprendem sobre nós com muito mais facilidade do que aprendemos sobre eles. É de um conceituado historiador inglês e não vem ao caso agora (capa ao lado).
Mas segue uma rápida questão do livro: "Quando os postulados evolutivos também não resistem muito tempo às mais recentes descobertas arqueológicas, resta uma certa perplexidade: nos sabemos humanos e tão diferentes de outros tipos de animais, mas, afinal, temos uma boa justificativa para nos colocarmos tão à parte deles?" (Então Você Pensa que é Humano? Uma breve história da Humanidade, Felipe Fernández-Armesto, Companhia das Letras, 2007).
(...) Leia mais clicando no título.
Mas segue uma rápida questão do livro: "Quando os postulados evolutivos também não resistem muito tempo às mais recentes descobertas arqueológicas, resta uma certa perplexidade: nos sabemos humanos e tão diferentes de outros tipos de animais, mas, afinal, temos uma boa justificativa para nos colocarmos tão à parte deles?" (Então Você Pensa que é Humano? Uma breve história da Humanidade, Felipe Fernández-Armesto, Companhia das Letras, 2007).
(...) Leia mais clicando no título.
Artigo: A felicidade e o homem-máquina
Programa da TV Globo incorpora a idéia do “homem-máquina” e torna evidente o processo de degradação de valores como 'felicidade' e 'simplicidade'. No filme “Muito Além do Jardim”, temos uma pista sobre como nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva - inviabilizando para grande parte das pessoas uma reação eficaz. Por Gustavo Barreto (*), da redação. Leia no Consciência.Net, Revista Nova-E ou GBlog.
A felicidade e o homem-máquina
Programa da TV Globo incorpora a idéia do “homem-máquina” e torna evidente o processo de degradação de valores como 'felicidade' e 'simplicidade'. No filme “Muito Além do Jardim”, temos uma pista sobre como nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva - inviabilizando para grande parte das pessoas uma reação eficaz. Por Gustavo Barreto (*).
O apresentador Luciano Huck teve recentemente uma experiência-limite, muito triste e desgastante para qualquer brasileiro. Um assalto a mão armada. Prontamente foi publicado em um grande jornal de São Paulo seu artigo-desabafo: “Pensamentos quase póstumos” (Folha de S. Paulo, 01/10/2007).
Huck alerta aos leitores que foi assaltado e poderia, naquele momento, estar morto – o que causaria uma série de conseqüências importantes, entre as quais não ver nunca mais seu segundo filho, deixar “uma multidão bastante triste”, “um governador envergonhado” e “um presidente em silêncio”. Foi uma tentativa de roubar o seu Rolex – grife de relógios que custam pelo menos 5 mil reais e até 50 mil reais.
Ele argumenta: “Provavelmente não tiveram [os assaltantes] infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia (sic). O lugar deles é na cadeia.”
Neste artigo, Luciano aponta porque considera importante o “desabafo” – como classifica seu texto – e porque estava “envergonhado” e “revoltado”. São basicamente cinco pontos: (1) Ele paga impostos: “(...) como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa”; (2) Ele passa o “dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes”, no que argumenta: “TV diverte (...)”; (3) Ele passa “o dia pensando em como tentar fazer este país mais bacana”: “(...) a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão”; (4) O prazer dele “passa pelo bem-estar coletivo”: “(...) não tenho dúvidas disso”; (5) Ele é “alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. (original aqui)
Homem-lata
Este mesmo apresentador Luciano tem um quadro desta safra que “diverte”, fruto do dia que ele passa “pensando em como deixar as pessoas mais felizes”. O quadro “Lata Velha” é, na prática, uma troca: a equipe de Huck reforma (e melhora substancialmente) o carro de alguma pessoa transformada em personagem pela produção e, do outro lado, esta personagem tem que dançar, cantar ou fazer qualquer coisa na TV.
No último, em 24 de maio, um cidadão de João Pessoa teria que dançar Michael Jackson e, efetivamente, “rebolar”. A proposta foi prontamente aceita não só pelo participante, como também por sua namorada e toda a população em volta, durante a gravação na capital da Paraíba. O carro, afinal, precisava de reformas. Quem tem o dinheiro para fazê-lo dá as ordens, expressas pelo apresentador, aquele que “pensa nas pessoas mais felizes” e que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. Ordena ele: “Você vai ter que rebolar” (Luciano Huck, TV Globo, 24/05/2008, por volta de 15h45, e repetidamente até 16h15).
Não é um tema para poucas linhas, mas é notável a matriz religiosa de seu discurso após o roubo: durante quase todo o artigo, Luciano busca deixar claro que tem crédito pelo que se proclama como benfeitor e, de forma alguma, uma dívida. Ele tem um “crédito” conquistado e, portanto, não mereceria “um 38 na testa”.
Cadeia nacional
“Uma multidão bastante triste”, adiciono, é a multidão de pessoas que, como eu, ficam deprimidas com o fato de que o trabalho de milhões de pessoas sérias, milhões de brasileiros comprometidos com a educação e a saúde das pessoas, passem a vida toda no mais completo anonimato, sem qualquer espécie de reconhecimento “em cadeia nacional”. Alguns têm, efetivamente, destino diverso: a cadeia Stricto sensu, a prisão. Outros estão metaforicamente presos dentro de uma lógica que sufoca milhares de grupos organizados sem acesso à opinião pública – os sem-mídia.
Foi Luciano Huck que, hoje, pensando no mesmo conceito – felicidade – levou um cidadão paraibano (que aceitou de bom grado, por sua vez) para a televisão de modo a – citando – “rebolar em cadeia nacional e, depois, ter de voltar para a Paraíba, terra de cabra machos” (...) “esse paraibano macho, de batom (...) aqui do meu lado, com a mãe e com a irmã” (Luciano Huck, idem). É o mesmo apresentador que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”.
Os acontecimentos não deixariam apenas “um governador envergonhado”: são muito mais numerosos os “envergonhados”, de distintas profissões, políticos ou não, civis ou militares, por distintos motivos. Espalham-se os envergonhados pelas mais diversas formas de classificação dos seres humanos. Pela falta de cidadania plena. Pela falta de compromisso de nossa elite nos rumos mais democráticos do país. No silêncio quanto aos assassinatos perversos de sem-terra e outras pessoas que lutam, no interior do Brasil, por direitos fundamentais (terra, segurança alimentar etc). Na defesa de um modelo econômico fracassado, que paga bilhões em juros às mesmas famílias de sempre e, na outra ponta, dá um salário de subsistência a centenas de cidadãos e deixa para as próximas gerações um meio ambiente caótico, cidades mal planejadas e uma infra-estrutura que paralisa qualquer noção de desenvolvimento.
Por fim, ainda citando o “credor” Luciano Huck, temos de fato “um presidente em silêncio”. Mas não só um presidente: temos uma série de políticos, todos com nome e sobrenome, que aceitam o jogo do poder e se vendem às empresas de “comunicação” brasileiras. “Não é à toa que a Rede Globo é uma das quatro maiores do mundo”, disse o apresentador Faustão em seu programa especial número 1.000. E não é à toa mesmo. Com tanta promiscuidade, com tanta falta de compromisso público por parte daqueles que deveriam democratizar a comunicação de massa, fica aberto o caminho para o crescimento desigual de uma empresa, que ditará o que é certo ou errado, a despeito da diversidade cultural brasileira e suas matrizes diversas.
Compromisso com o besteirol
O presidente brasileiro ora no cargo, mais popular do que nunca, foi utilizado nesta mesma emissora como a voz do poder, enaltecendo o apresentador Fausto Silva e se calando (ou sendo calado, por vezes, porém dando credibilidade aos seus censores) sobre um sem-número de questões que não deve considerar prioritárias.
A população, de uma forma geral, entende que a qualidade da TV não é boa, desde que o assunto entre em pauta. É razoável concordar com as críticas de intelectuais, sociólogos e demais formadores de opinião. Não há, porém, alternativas disponíveis. Sem meias palavras: é só besteirol. Há exceções que confirmam a regra. E é com a regra que há o compromisso cotidiano das empresas do ramo. O resto é classificado como “responsabilidade social” ou algo que o valha, relegado a um nicho de mercado.
Da farsa coletiva
Em algum momento nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva, o que inviabiliza para grande parte das pessoas uma reação eficaz. O episódio “Lata Velha”, descrito acima, poderia ser uma metáfora de alguns valores que ora cultivamos. “Muito Além do Jardim” (Being There, 1979), filme do diretor Hal Ashby, demonstra de forma sutil e brilhante a farsa que se constrói em torno do protagonista. Chance (Peter Sellers), um jardineiro anônimo e analfabeto, viveu toda a sua vida em uma mansão, sem nunca ter saído de casa. Seu conhecimento sobre jardinagem é enorme, porém só conhece o “mundo externo” por meio da televisão – pela qual é absolutamente obcecado.
Com a morte de seu patrão, depois de mais de meio século servindo numa mesma casa, se vê obrigado a deixar sua morada e, por acidente, conhece uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos. Passa a andar com pessoas riquíssimas e é apresentado, inclusive, ao presidente, que fica encantado com o humilde porém imponente homem.
A sociedade que não consegue olhar para si está destinada
a ser uma farsa, como ilustra "Muito Além do Jardim" (1979)
Chance é confundido com um astuto homem de negócios e passa a ser chamado de Chauncey Gardiner (em inglês, gardener é “jardineiro”). A confusão de nomes é criada por Eve Rand (interpretada por Shirley MacLaine), esposa do figurão que reside na mansão para a qual é levado. Tanto Eve quanto Benjamin Rand (interpretado por Melvyn Douglas), dono de fortuna incalculável, se impressionam com a naturalidade e simplicidade de Chauncey. Após a visita do presidente americano, o jardineiro passa a ser assediado pela imprensa e ganha popularidade nacional.
O filme não pode ser facilmente estigmatizado, pela riqueza de detalhes. Chance é um homem franco, cordial e se porta muito bem. Encanta seu modo simples, de fato, porém não sabe nada sobre política, economia ou qualquer outro tema mundano – daí sua força. Desta forma, a ascensão de “Chauncey” se dá em duas versões que se complementam. Na versão otimista, pela força que as pessoas dão às metáforas. Também pela importância que, mais dia ou menos dia, damos à simplicidade da vida. Na versão pessimista, à farsa coletiva que vivemos em tempos modernos (e o filme continua atual).
"Muito Além do Jardim", com Peter Sellers
Fica evidente, em uma leitura possível, que em algum momento nos perdemos. Felicidade não é mais um valor relacionado à paixão pela vida, pelas pessoas, pelo sentimento. É, no caso do quadro 'Lata Velha' da TV Globo, “a paixão pela máquina” (conforme o próprio apresentador anuncia, todo sábado). É, em outros casos, uma bolsa de estudo de 100 milhões de reais (em uma instituição privada, claro). Em alguns outros, um plano de previdência promissor para um fim de vida cômodo. Em outros ainda, sua casa mobiliada pelos benfeitores.
Não é, definitivamente, o que entendo por felicidade.
Algumas cenas do filme
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www.consciencia.net
O apresentador Luciano Huck teve recentemente uma experiência-limite, muito triste e desgastante para qualquer brasileiro. Um assalto a mão armada. Prontamente foi publicado em um grande jornal de São Paulo seu artigo-desabafo: “Pensamentos quase póstumos” (Folha de S. Paulo, 01/10/2007).
Huck alerta aos leitores que foi assaltado e poderia, naquele momento, estar morto – o que causaria uma série de conseqüências importantes, entre as quais não ver nunca mais seu segundo filho, deixar “uma multidão bastante triste”, “um governador envergonhado” e “um presidente em silêncio”. Foi uma tentativa de roubar o seu Rolex – grife de relógios que custam pelo menos 5 mil reais e até 50 mil reais.
Ele argumenta: “Provavelmente não tiveram [os assaltantes] infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia (sic). O lugar deles é na cadeia.”
Neste artigo, Luciano aponta porque considera importante o “desabafo” – como classifica seu texto – e porque estava “envergonhado” e “revoltado”. São basicamente cinco pontos: (1) Ele paga impostos: “(...) como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa”; (2) Ele passa o “dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes”, no que argumenta: “TV diverte (...)”; (3) Ele passa “o dia pensando em como tentar fazer este país mais bacana”: “(...) a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão”; (4) O prazer dele “passa pelo bem-estar coletivo”: “(...) não tenho dúvidas disso”; (5) Ele é “alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. (original aqui)
Homem-lata
Este mesmo apresentador Luciano tem um quadro desta safra que “diverte”, fruto do dia que ele passa “pensando em como deixar as pessoas mais felizes”. O quadro “Lata Velha” é, na prática, uma troca: a equipe de Huck reforma (e melhora substancialmente) o carro de alguma pessoa transformada em personagem pela produção e, do outro lado, esta personagem tem que dançar, cantar ou fazer qualquer coisa na TV.
No último, em 24 de maio, um cidadão de João Pessoa teria que dançar Michael Jackson e, efetivamente, “rebolar”. A proposta foi prontamente aceita não só pelo participante, como também por sua namorada e toda a população em volta, durante a gravação na capital da Paraíba. O carro, afinal, precisava de reformas. Quem tem o dinheiro para fazê-lo dá as ordens, expressas pelo apresentador, aquele que “pensa nas pessoas mais felizes” e que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”. Ordena ele: “Você vai ter que rebolar” (Luciano Huck, TV Globo, 24/05/2008, por volta de 15h45, e repetidamente até 16h15).
Não é um tema para poucas linhas, mas é notável a matriz religiosa de seu discurso após o roubo: durante quase todo o artigo, Luciano busca deixar claro que tem crédito pelo que se proclama como benfeitor e, de forma alguma, uma dívida. Ele tem um “crédito” conquistado e, portanto, não mereceria “um 38 na testa”.
Cadeia nacional
“Uma multidão bastante triste”, adiciono, é a multidão de pessoas que, como eu, ficam deprimidas com o fato de que o trabalho de milhões de pessoas sérias, milhões de brasileiros comprometidos com a educação e a saúde das pessoas, passem a vida toda no mais completo anonimato, sem qualquer espécie de reconhecimento “em cadeia nacional”. Alguns têm, efetivamente, destino diverso: a cadeia Stricto sensu, a prisão. Outros estão metaforicamente presos dentro de uma lógica que sufoca milhares de grupos organizados sem acesso à opinião pública – os sem-mídia.
Foi Luciano Huck que, hoje, pensando no mesmo conceito – felicidade – levou um cidadão paraibano (que aceitou de bom grado, por sua vez) para a televisão de modo a – citando – “rebolar em cadeia nacional e, depois, ter de voltar para a Paraíba, terra de cabra machos” (...) “esse paraibano macho, de batom (...) aqui do meu lado, com a mãe e com a irmã” (Luciano Huck, idem). É o mesmo apresentador que “de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo (...)”.
Os acontecimentos não deixariam apenas “um governador envergonhado”: são muito mais numerosos os “envergonhados”, de distintas profissões, políticos ou não, civis ou militares, por distintos motivos. Espalham-se os envergonhados pelas mais diversas formas de classificação dos seres humanos. Pela falta de cidadania plena. Pela falta de compromisso de nossa elite nos rumos mais democráticos do país. No silêncio quanto aos assassinatos perversos de sem-terra e outras pessoas que lutam, no interior do Brasil, por direitos fundamentais (terra, segurança alimentar etc). Na defesa de um modelo econômico fracassado, que paga bilhões em juros às mesmas famílias de sempre e, na outra ponta, dá um salário de subsistência a centenas de cidadãos e deixa para as próximas gerações um meio ambiente caótico, cidades mal planejadas e uma infra-estrutura que paralisa qualquer noção de desenvolvimento.
Por fim, ainda citando o “credor” Luciano Huck, temos de fato “um presidente em silêncio”. Mas não só um presidente: temos uma série de políticos, todos com nome e sobrenome, que aceitam o jogo do poder e se vendem às empresas de “comunicação” brasileiras. “Não é à toa que a Rede Globo é uma das quatro maiores do mundo”, disse o apresentador Faustão em seu programa especial número 1.000. E não é à toa mesmo. Com tanta promiscuidade, com tanta falta de compromisso público por parte daqueles que deveriam democratizar a comunicação de massa, fica aberto o caminho para o crescimento desigual de uma empresa, que ditará o que é certo ou errado, a despeito da diversidade cultural brasileira e suas matrizes diversas.
Compromisso com o besteirol
O presidente brasileiro ora no cargo, mais popular do que nunca, foi utilizado nesta mesma emissora como a voz do poder, enaltecendo o apresentador Fausto Silva e se calando (ou sendo calado, por vezes, porém dando credibilidade aos seus censores) sobre um sem-número de questões que não deve considerar prioritárias.
A população, de uma forma geral, entende que a qualidade da TV não é boa, desde que o assunto entre em pauta. É razoável concordar com as críticas de intelectuais, sociólogos e demais formadores de opinião. Não há, porém, alternativas disponíveis. Sem meias palavras: é só besteirol. Há exceções que confirmam a regra. E é com a regra que há o compromisso cotidiano das empresas do ramo. O resto é classificado como “responsabilidade social” ou algo que o valha, relegado a um nicho de mercado.
Da farsa coletiva
Em algum momento nos perdemos, viramos uma farsa e a tornamos coletiva, o que inviabiliza para grande parte das pessoas uma reação eficaz. O episódio “Lata Velha”, descrito acima, poderia ser uma metáfora de alguns valores que ora cultivamos. “Muito Além do Jardim” (Being There, 1979), filme do diretor Hal Ashby, demonstra de forma sutil e brilhante a farsa que se constrói em torno do protagonista. Chance (Peter Sellers), um jardineiro anônimo e analfabeto, viveu toda a sua vida em uma mansão, sem nunca ter saído de casa. Seu conhecimento sobre jardinagem é enorme, porém só conhece o “mundo externo” por meio da televisão – pela qual é absolutamente obcecado.
Com a morte de seu patrão, depois de mais de meio século servindo numa mesma casa, se vê obrigado a deixar sua morada e, por acidente, conhece uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos. Passa a andar com pessoas riquíssimas e é apresentado, inclusive, ao presidente, que fica encantado com o humilde porém imponente homem.
A sociedade que não consegue olhar para si está destinadaa ser uma farsa, como ilustra "Muito Além do Jardim" (1979)
Chance é confundido com um astuto homem de negócios e passa a ser chamado de Chauncey Gardiner (em inglês, gardener é “jardineiro”). A confusão de nomes é criada por Eve Rand (interpretada por Shirley MacLaine), esposa do figurão que reside na mansão para a qual é levado. Tanto Eve quanto Benjamin Rand (interpretado por Melvyn Douglas), dono de fortuna incalculável, se impressionam com a naturalidade e simplicidade de Chauncey. Após a visita do presidente americano, o jardineiro passa a ser assediado pela imprensa e ganha popularidade nacional.
O filme não pode ser facilmente estigmatizado, pela riqueza de detalhes. Chance é um homem franco, cordial e se porta muito bem. Encanta seu modo simples, de fato, porém não sabe nada sobre política, economia ou qualquer outro tema mundano – daí sua força. Desta forma, a ascensão de “Chauncey” se dá em duas versões que se complementam. Na versão otimista, pela força que as pessoas dão às metáforas. Também pela importância que, mais dia ou menos dia, damos à simplicidade da vida. Na versão pessimista, à farsa coletiva que vivemos em tempos modernos (e o filme continua atual).
"Muito Além do Jardim", com Peter Sellers
Fica evidente, em uma leitura possível, que em algum momento nos perdemos. Felicidade não é mais um valor relacionado à paixão pela vida, pelas pessoas, pelo sentimento. É, no caso do quadro 'Lata Velha' da TV Globo, “a paixão pela máquina” (conforme o próprio apresentador anuncia, todo sábado). É, em outros casos, uma bolsa de estudo de 100 milhões de reais (em uma instituição privada, claro). Em alguns outros, um plano de previdência promissor para um fim de vida cômodo. Em outros ainda, sua casa mobiliada pelos benfeitores.
Não é, definitivamente, o que entendo por felicidade.
(*) Gustavo Barreto é editor de meios independentes e estudante de comunicação da UFRJ.
Algumas cenas do filme
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