O dia em que a PETROBRAS deixou de ser BRASileira
Dia 26 de dezembro de 2000, um dia depois do Natal, o povo brasileiro foi surpreendido por mais uma medida antinacional do governo FHC. Coerente com a máxima de FHC de que “ia virar a página do getulismo no Brasil” – sem o que o neoliberalismo não seria possível – o presidente da Petrobrás, Henri Philippe Reichstul, anunciou que a empresa estava mudando seu nome comercial para PetroBrax.
ABRAÇO denuncia tráfico de influência no Maranhão
Desabafo
Por que tantos políticos são corruptos? Por que, ao invés de pensar em moralizar, pensar em fechar o Congresso? Por que a expressão "dinheiro público" já perdeu o sentido para o brasileiro? Por que, tendo medo de ousar, perpetua-se o voto pelo status quo? Por que os escândalos já não nos escandalizam mais? Por que votar significa hoje tão pouco?
Rebelo em verde, amarelo, branco, azul anil...
Lula é tudo, menos hipócrita
'Folha': Quando o "erramos" pretende encobrir a fraude
A controvérsia iniciada pela Folha de S.Paulo em 5 de abril, com a extensa matéria que vinculava a atual ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao planejamento do sequestro do então ministro Delfim Netto, em 1969, atingiu um novo patamar com o texto publicado sábado (25/4). O título, oblíquo, dissimula: "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada". Ali o jornal – em matéria enviada pela sucursal do Rio, e não produzida na sede – reconhece dois "erros": o crédito, como "Arquivo [do] Dops", dado à reprodução de um documento que, na verdade, fora enviado por e-mail à repórter, e o fato de haver tratado como autêntica uma ficha cuja origem não podia comprovar.
Este Observatório reagiu com agilidade à matéria, acusando no dia seguinte o "erramos envergonhado" e afirmando: "Folha publicou ficha falsa de Dilma". No entanto, errou, também, duplamente: primeiro, ao dizer que o jornal havia reconhecido ser "falsa" a tal ficha; segundo, e mais importante, ao tratar como "erro" algo que é evidentemente uma fraude. Delimitar com clareza a distinção entre uma coisa e outra é fundamental para uma crítica justa, dadas as implicações – jurídicas, inclusive – que cada uma dessas práticas importa.
As diferenças entre erro e fraude
Erro, como se sabe, é algo casual, involuntário, que "acontece". Pode ser banal e irrelevante, pode ser grave, gravíssimo e produzir consequências catastróficas, pode resultar de incompetência ou de informações insuficientes, mas será sempre um acidente. É, como se costuma dizer, uma característica da espécie humana. No caso do jornalismo, o ritmo sempre acelerado de produção, aliado ao irracionalismo que domina a competitividade na era do "tempo real", costumam ser a principal justificativa – quando não a desculpa – para os erros que se multiplicam no noticiário cotidiano. Foi um erro, por exemplo, o anúncio da queda do avião da Pantanal em São Paulo, em maio do ano passado; foi um erro assumir como verdadeira a denúncia da brasileira que teria sido torturada por skinheads na Suíça.Não é o caso dessa história sobre a ficha da ministra: desde sempre, a Folha sabia da origem do documento e também sabia que não havia confirmado sua autenticidade. No entanto, vendeu-o como fidedigno e falseou a fonte. Não apenas no minúsculo "Arquivo Dops" que aparece como crédito, mas no escancarado FICHA DE DILMA ROUSSEFF NO DOPS, menor apenas que o título da chamada de capa da edição de 5 de abril.
Obrigada a recuar, diante das investigações realizadas por iniciativa da própria Casa Civil, que demonstraram a inexistência daquele modelo de ficha no Arquivo Público de São Paulo, e da carta que a ministra escreveu ao ombudsman, a Folha optou pelo contorcionismo verbal – para não dizer ético – e acusou um singelo "erro técnico" na classificação dos documentos utilizados para a reportagem, que teria originado a identificação equivocada da fonte.
É verossímil que uma reportagem que custou quatro meses de pesquisa – segundo artigo neste mesmo Observatório ["Uma releitura da Folha e da fonte", em 8/4] – possa descurar de algo tão elementar como a catalogação correta daquela ficha?
Pérola de cinismo
Já muito se especulou sobre as intenções dessa reportagem. É muito óbvio que, se o jornal estivesse comprometido com o nobre propósito de zelar pela "memória da ditadura", não teria qualquer motivo para explorar a figura da ministra: afinal, todas as informações sobre o planejamento do sequestro-que-não-houve foram dadas por Antonio Espinosa, o comandante militar da organização guerrilheira. Como argumentou o ombudsman em sua primeira crítica sobre a matéria, o correto seria utilizar como ilustração a ficha de Espinosa.Mas quem conhece Espinosa?
Por outro lado, quem desconhece Dilma?
Então é muito óbvio: a título de "memória da ditadura", o jornal alardeia, jogando com o tamanho das letras: "Grupo de DILMA planejou sequestro de DELFIM NETTO". E "ilustra" a chamada com a reprodução da tal ficha policial.
É óbvio demais: a publicação de fotos ou cópias de documentos só se justifica como comprovação de fatos. Por isso, precisam ser fidedignos. Porém a Folha decidiu publicar um documento cuja origem desconhece e que "está circulando há mais de um ano pela internet". Entretanto, só nos diz isso agora, desculpando-se pelo "erro", que nem foi tão grave assim: afinal, a autenticidade "não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada".
Esta pérola de cinismo – esse cinismo que campeia nas redações e que exige de todos os que vivem ou passaram por essa experiência um estômago de avestruz para discutir a sério tais argumentos –, esta pérola de cinismo tem, no entanto, efeito oposto ao pretendido: só ajuda a escancarar a fraude, que induz o público a erro e o leva a duvidar do jornal que lê.
Testando hipóteses
Todo mundo sabe que o principal capital de um jornal é a sua credibilidade. Todo mundo sabe que vender gato por lebre é fraude. Nem se fale do ponto de vista ético, mas dos interesses mais comezinhos de sobrevivência, que orientam qualquer comerciante em seus cálculos. Por isso, o espanto: sabendo que seria inevitável a descoberta da fraude, como foi possível tamanha irresponsabilidade?Talvez a resposta esteja na já famosa teoria do teste de hipóteses, como observaram aqui mesmo, em comentário, o professor Samuel Lima e, em seu blog, o jornalista Luiz Carlos Azenha: a Folha estaria apenas testando a hipótese da autenticidade do documento – bem de acordo, aliás, com outra hipótese, tão cara ao "jornalismo colaborativo", de publicar primeiro e confirmar depois. De minha parte, sugiro outras duas. A primeira (da matéria original): a principal fonte implicada, uma ministra de Estado, não iria correr atrás da informação; a segunda (do atual "erramos"): o público é idiota.
Tão idiota que nem deve ter notado a ausência de um mísero registro desse "erramos" na capa, como seria compatível com um mínimo critério de proporcionalidade. Tão idiota que pode, por isso mesmo, ser convencido de que a autorregulação é mesmo o melhor caminho para a garantia de uma imprensa livre, democrática e responsável. Tão idiota que não deve achar necessário o esclarecimento cabal desse escândalo.
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa, clique aqui para acessar.
Muito além da descriminalização
por Ricardo Cabral*
A aproximação da conferência da ONU para redefinir o programa das Nações Unidas de combate às drogas, que será realizada no próximo mês em Viena, vem trazendo à esfera pública um intenso debate sobre a questão das drogas no mundo. Somado a isso, casos como a agressão de policiais no Posto 9 da praia de Ipanema e a alegação do pai do jovem acusado de tráfico de drogas Henrique Dornelles de que permitia o consumo de maconha do filho em casa reforçam a necessidade de uma reflexão sobre a atual questão das drogas.
Uma coisa é certa: a política exclusivamente repressora que vem sendo adotada nos últimos cinquenta anos falhou. Um exemplo é o grande fracasso do Plano Colômbia. Criado pelos Estados Unidos no ano 2000, o plano visava, a partir da ajuda financeira norte-americana, combater a produção e o tráfico de cocaína no país latinoamericano – um dos mais importantes na rota internacional do tráfico da droga. A questão é que, de acordo com dados do próprio Congresso norte-americano publicados no jornal O Globo (13/02/2009), apesar de todo dinheiro investido, desde 2000 até 2006, o cultivo de coca no país aumentou em 15%.
Mas os sinais do fracasso ainda vão além e vêm de muito antes. Outro caso é o da política da “Guerra às Drogas” adotada pelo ex-presidente norte-americano Richard Nixon. A idéia era, através do endurecimento das penas para consumo e tráfico, acabar de vez com o uso de entorpecentes nos EUA. Os resultados? O consumo de cocaína cresceu e a população carcerária de crimes relacionados a drogas aumentou em 900%, de 50 mil para 500 mil. Além disso, hoje, estados como a Califórnia que permitem o uso medicinal da maconha, enfrentam a corrupção de médicos, que vendem a usuários atestados de necessidade do uso da erva. Para os habitantes de Los Angeles, por exemplo, “é como se fosse legalizado”.
Fora isso, o que se percebe é que a imagem criada das drogas pelo poder público é muito diferente da realidade. Com relação à maconha, a droga ilícita mais usada no mundo, os mitos mais comuns são: a “queima” de neurônios; a idéia de que o consumo da erva é apenas o primeiro passo de uma suposta linha de evolução do uso de entorpecentes; a oposição drogas versus esportes; e o medo frequente em crianças de que traficantes as aborde no meio da rua oferecendo a droga. É óbvio que, quando um adolescente percebe que tudo isso é mentira, seja por experiência própria ou de outros, a sua primeira reação é a descrença nos efeitos maléficos da droga, o que pode levar mais facilmente à experimentação da droga.
– Depois que vi que amigos meus usavam maconha e continuavam estudando e praticando esportes normalmente, percebi que as coisas não eram como eu imaginava e que a maconha não fazia mal como as pessoas diziam – declarou B., usuário.
Reunida na semana passada, a ONG Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Violência, que conta, entre outros, com ex-presidentes de Brasil, Colômbia e México, defendeu uma revisão da política atual, assumindo a falência do foco único na repressão. O documento elaborado pela comissão pede, então, que os usuários passem a ser tratados como pacientes do sistema de saúde e que seja estudada ainda a possibilidade de descriminalização do uso pessoal da maconha.
Por um lado, faz sentido. O ataque de civis a policiais que tentavam fazer a lei ser cumprida em um lugar conhecido com “point dos maconheiros” na praia de Ipanema é o símbolo da ineficácia da própria lei e resultado de anos e anos de um vácuo de poder rompido subitamente pelo choque de ordem de Paes.
Segundo estudo da fundação inglesa Beckely publicado por O Globo (13/02/2009), as ameaças físicas e psicológicas a usuários constantes de maconha podem ser consideradas modestas se comparadas com as causadas, por exemplo, pelo álcool e pelo tabaco. Além disso, em um país em que o metro quadrado parece ser mais concorrido em uma cela de prisão do que nos bairros do Leblon ou da Barra da Tijuca, colocar na cadeia usuários de drogas é um desperdício de espaço, de dinheiro e de força policial, uma vez que as raízes do tráfico e do crime organizado se encontram, geralmente, bem longe das praias da Zona Sul carioca.
E é justamente essa organização do tráfico que necessita ser combatida. Além das causas mais óbvias, como todas as vidas perdidas diariamente pelo mundo das drogas e o grande número jovens que deixa de estudar pelo dinheiro fácil desse mercado negro, é preciso mencionar ainda toda a rede de corrupção e extorsão que se forma entorno do tráfico, envolvendo forças da lei, civis e criminosos.
Mas, por outro lado, é muito difícil crer que um país como o Brasil, hoje, possa ter sucesso com a descriminalização do uso da maconha. É bem verdade que, como já dizia Foucault, a pior forma de censurar é a própria censura – afinal, só se proíbe aquilo que é possível de ser feito. Mesmo assim, deve preceder à descriminalização um cuidado muito maior com áreas que hoje ainda são deixadas ao relento.
Primeiramente, a liberação do uso pessoal da maconha traria, obviamente, um aumento do consumo da erva e, consequentemente, um crescimento dos casos de dependência de drogas em geral. No entanto, para que os dependentes sejam de fato considerados pacientes do sistema de saúde é preciso que exista, antes, um sistema de saúde de qualidade – e a maioria dos poucos centros de reabilitação públicos que existem hoje no Brasil lembram, sendo otimista, manicômios mal conservados.
Além disso, seria necessária também a implementação de uma campanha acima de tudo sincera sobre os efeitos da droga. Isso, no entanto, parece uma realidade distante quando vemos senadores que tentam embarreirar a distribuição de uma cartilha do Ministério da Saúde intitulada “O álcool e outras drogas alteram seus sentidos, mas não afetam seus direitos no serviço de saúde”, que ensina a usuários de maconha, crack, cocaína e ecstasy a forma mais segura de utilizá-los.
Fica evidente, portanto, que, apesar da falência da atual política de drogas, é preciso analisar de maneira holística o contexto em que estamos inseridos. A descriminalização do usuário e até mesmo a legalização de drogas leves – que daria aos governos controle sobre a quantidade, a exploração, os preços e a qualidade – são sim alternativas possíveis e interessantes. No entanto, antes de tudo, devem ser, mais que tudo, pensadas.
(*) Ricardo Cabral é graduando de Comunicação Social da UFRJ - ricardocp@ufrj.br. Artigo publicado também no jornal O Globo em 19/02/2009 (leia aqui).
Seminário "As Alternativas para o Brasil enfrentar a crise" no Rio começa nesta terça (2)
O Jornal Monitor Mercantil organiza, de 02 a 04 de dezembro - junto com Corecon-RJ, AFBNDES, Aepet, ABI, Fórum de Mídia Livre RJ e outras entidades - o seminário Alternativas para o Brasil enfrentar a crise, na ABI - Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro. A abertura será terça-feira (2/12), às 19h, com a presença do governador do Paraná, Roberto Requião. Inscrições abertas pelo site do evento. A participação garante certificado de participação.Depois de quase duas décadas e meio crescendo apenas pouco mais de 2% ao ano, o Brasil enfrenta a maior crise internacional desde 1929. Apesar de a gravidade da situação estar mais para tsunami do que para marola, a crise internacional também oferece uma oportunidade para nosso país enfrentá-la e sair dela em melhores condições, rumo a um grande projeto de desenvolvimento nacional.
Este é o principal objetivo do seminário "Alternativas para o Brasil enfrentar a crise", que reunirá economistas como Carlos Lessa e João Paulo de Almeida Magalhães, políticos como o governador do Paraná, Roberto Requião, e especialistas de diversas áreas.
O evento é uma realização de Aepet, Corecon-RJ, Fórum Mídia Livre RJ, Jornal Monitor Mercantil, Modecon, Movimento em Defesa da Amazônia, Movimento de Solidariedade Ibero-americana e Associação dos Funcionários do BNDES.
Será na ABI, de 2 a 4 de dezembro.
Para conhecer a programação e se inscrever gratuitamente, acesse o site do evento: http://seminario-alternativas-crise.blogspot.com/
Informações:
Conselho Regional de Economia 1ª Região (Corecon-RJ)
Tel.: (21) 2533-7891/7892 e 2103-0105
Assessoria de imprensa:
Gustavo Barreto: (21) 9250-9594 / 9551-4453 / gb@consciencia.net
Rogerio Lessa: (21) 9993-9400
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Seminário 'As Alternativas para o Brasil enfrentar a crise' no Rio começa nesta terça (2)
O Jornal Monitor Mercantil organiza, de 02 a 04 de dezembro - junto com Corecon-RJ, AFBNDES, Aepet, ABI, Fórum de Mídia Livre RJ e outras entidades - o seminário Alternativas para o Brasil enfrentar a crise, na ABI - Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro. A abertura será terça-feira (2/12), às 19h, com a presença do governador do Paraná, Roberto Requião. Inscrições abertas pelo site do evento. A participação garante certificado de participação. Leia mais.Este é o principal objetivo do seminário "Alternativas para o Brasil enfrentar a crise", que reunirá economistas como Carlos Lessa e João Paulo de Almeida Magalhães, políticos como o governador do Paraná, Roberto Requião, e especialistas de diversas áreas.
O evento é uma realização de Aepet, Corecon-RJ, Fórum Mídia Livre RJ, Jornal Monitor Mercantil, Modecon, Movimento em Defesa da Amazônia, Movimento de Solidariedade Ibero-americana e Associação dos Funcionários do BNDES.
Será na ABI, de 2 a 4 de dezembro.
Para conhecer a programação e se inscrever gratuitamente, acesse o site do evento: http://seminario-alternativas-crise.blogspot.com/
Informações:
Conselho Regional de Economia 1ª Região (Corecon-RJ)
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Comentário: A eleição do Poste
Alerj apura denúncia de falta de agentes penitenciários
Para isso, os presidentes das duas comissões, respectivamente, os deputados Alessandro Molon (PT) e Wagner Montes (PDT), aprovaram a convocação do secretário de Estado de Administração Penitenciária, Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, que não compareceu ao último encontro. Os parlamentares investigam quais foram as circunstâncias do assassinato, no último dia 16, do diretor do presídio Bangu 3, tenente-coronel José Roberto do Amaral Lourenço. Leia na íntegra clicando no título.
Como o partido dos ricos vence eleição dizendo defender os pobres
Quem é leitor deste site há muito tempo sabe que um dos assuntos de meu interesse é o crescente uso da mídia corporativa tanto em campanhas políticas quanto em guerras comerciais. Às vezes as duas coisas se combinam.
Desde que George W. Bush se elegeu em 2000, graças a uma fraude eleitoral e à supressão de votos na Flórida, me interesso especialmente pelo uso da informação em campanhas eleitorais. Li sobre a fraude na mais recente campanha presidencial do México e sobre a campanha internacional que tem o objetivo de apear Hugo Chávez do poder, que usou todo tipo de artifício para tentar derrotar o venezuelano, inclusive naquele referendo em que Chávez foi confirmado no cargo, em 2004. Sempre que existe uma forte polarização política, como a que vivemos atualmente no Brasil, aumenta a possibilidade de golpes de toda ordem. (...) Leia mais clicando no título.
Comentário: A derrota do pensamento de esquerda no Rio
Não sou do PSOL, mas o que este partido sinalizava era que Jandira tinha alianças absolutamente conservadoras. O problema não era o "PT como o inimigo fundamental", nunca foi. O que o PSOL-RJ sinalizou claramente, por meio de seu candidato a prefeito, era que se tornava insustentável a aliança, por exemplo, com o PMDB. E vinha coisa pior ainda de Brasília.
Dito e feito: Jandira apóia Eduardo Paes! Este, por sua vez, é amigo de um famoso chefe de quadrilha aqui no Rio, Álvaro Lins, apoiado como "homem de caráter" por Sergio Cabral na campanha de 2006. Sergio Cabral, amigo de Lins, é o "nosso" governador e principal articulador da campanha de Paes. Todos do PMDB. Lembrando - sem julgar previamente, apenas para lembrar - que agora Jandira e Marcelo Crivella apoiam a mesma candidatura, simplesmente porque de fato são da base aliada do Governo Federal.
Jandira está diariamente com Paes nas ruas. Não é um "voto crítico", que é a baboseira que muitos falam para justificar a vergonha em votar em gente de direita, da pior direita que existe.
Perguntar não é crime: Emir Sader, que achava que Jandira era o nome da esquerda no Rio, agora apoiará o Eduardo Paes? Eduardo Paes, agora, é de esquerda? Lamentável este posicionamento, que demonstra um certo clima de derrota - não da esquerda, mas do pensamento de parte da esquerda.
Parece ser o fim, para alguns segmentos políticos outrora combativos, das ideologias - dando lugar às "táticas" eleitorais.
"Tropa de Elite" desembarca na campanha de Gabeira na TV
Ex-oficial do Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio) e roteirista do filme, Rodrigo Pimentel foi o articulador do apoio a Gabeira, com quem discutiu propostas há 7 meses. Crítico da política de confronto do governo Sérgio Cabral, principal cabo eleitoral de Eduardo Paes (PMDB), Pimentel defende que a prefeitura tenha papel mais importante na área de segurança pública que os governos estadual e federal.
"Quem mais pode fazer pela segurança pública é o município. É o poder municipal que pode implementar todas as ações de prevenção primária ao delito e promover inclusão social", disse o ex-oficial à Reuters. Clique no título para ler mais.
Partido da mudança
Sobre “analistas políticos” e “institutos de pesquisa”
Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2008
Com cópia para faixa.livre@yahoo.com.br
Prezados Amigos do “Faixa Livre”,
Os denominados “analistas políticos”, presentes na imprensa escrita, e nos bastidores das rádios e das emissoras de televisão, são contumazes em atribuir absoluta fidedignidade às informações dos “institutos de pesquisa”, sem contudo acrescentarem maiores considerações. A partir dessas informações consolidadas em dados estatísticos - em números frios -, concluem, por exemplo, sobre o grau de aceitação pessoal do presidente da República e do seu governo, para, em exercício de futurologia política, deitar falação sobre o que consideram determinante influência presidencial nas eleições de 2010. Ousam até em considerar como “favas contadas” a eleição do candidato que vier a ser indicado por Lula.
De forma idêntica se comportam os mesmos intrépidos “analistas” diante das “preferências do eleitorado” por este ou aquele candidato ao mandato de prefeito, prognosticando, com base em dados alardeados em pesquisas encomendadas, sobre se haverá, ou não, 2º turno e, em havendo, quais serão os contendores!
Cabe, no entanto, indagar: É lícito a esses “analistas” alegar desconhecimento das particularidades de cada pesquisa?
Positivamente, não. Pelo menos a lei não permite que pesquisas eleitorais se tornem verdadeiras “caixas pretas”; ao contrário, determina precisamente que:
“As entidades e empresas que realizarem pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos, para conhecimento público, são obrigadas, para cada pesquisa, a registrar, junto à Justiça Eleitoral, até cinco dias antes da divulgação, as seguintes informações:
I - quem contratou a pesquisa;
II - valor e origem dos recursos despendidos no trabalho;
III - metodologia e período de realização da pesquisa;
IV - plano amostral e ponderação quanto a sexo, idade, grau de instrução, nível econômico e área física de realização do trabalho, intervalo de confiança e margem de erro;
V - sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo;
VI - questionário completo aplicado ou a ser aplicado;
VII - o nome de quem pagou pela realização do trabalho (de pesquisa).”(Lei 9504, art. 33)
Registre-se que a lei impõe pena pecuniária à divulgação de pesquisa sem o prévio registro daquelas informações e criminaliza a pesquisa fraudulenta.
Não obstante, esses “analistas”, em se tratando, por exemplo, de pesquisa sobre os índices de aprovação do governo federal, limitam-se a repetir que foram ouvidas “N” pessoas em “N” municípios. Quase nunca revelam quem contratou a pesquisa, muito menos o grau de interesse do contratante nos resultados da pesquisa. Ponto e basta!
Entretanto, para que pesquisas do gênero se tornem legalmente sustentáveis para os fins a que se destinam, esses e outros informes deveriam ser considerados e revelados, tais como:E, em se tratando de pesquisas sobre as próximas eleições municipais, outras tantas informações deveriam estar instruindo os dados apresentados, além da simples indicação do número de pessoas ouvidas. Seriam elas:
- Quais foram esses municípios e a que estados pertencem?
- Em quantos deles seus habitantes, total ou parcialmente, são beneficiários do “Bolsa Família”?
- Foram ouvidas apenas pessoas do povo, ou as pesquisas estenderam-se a áreas de influência das estâncias ruralistas, financeiras e do grande empresariado?
- Manifestaram-se políticos e palacianos?
Em ambos os tipos de pesquisa, são essas apenas algumas questões básicas que deveriam ser consideradas pelos “analistas”, em sua tarefa de interpretar, para divulgação pública, informações que sejam claras, completas, precisas, verossímeis.
- As consultas foram feitas apenas a transeuntes ou, se também em residências, em que regiões estão localizadas?
- Em que regiões ou bairros residem os transeuntes consultados?
- Houve manifestações por categoria profissional? Quais delas?
- A pesquisa se estendeu a comunidades habitadas por nossos irmãos mais carentes? E naquelas onde, não raro, até a polícia tem dificuldade de entrar?
Entretanto, os ditos “analistas”, contrariando a lei e a ética, vêm, em regra, preferindo despir-se da importante condição de idôneos intérpretes de pesquisas políticas, para assumirem a postura de simples porta-vozes dos números secamente apresentados pelos “institutos de pesquisa”.
Aplicados porta-vozes de pesquisas eleitorais, revelam-se mestres do ocultismo político, esotéricos senhores de artes misteriosas, guardiões de conhecimentos secretos sobre os destinos da Nação. Dispensam investigações sobre a consistência, a fidelidade dessas pesquisas altamente remuneradas. Para a numerologia política que praticam, tais investigações são plenamente dispensáveis; são coisas reservadas para os míseros mortais. Nem mesmo a melhor das pitonisas - as mitológicas sacerdotisas de Apolo - seria capaz de tal prodígio em termos de previsão do futuro!
Ocorre que - pelo menos para nós, os míseros mortais -, pesquisa pressupõe, necessariamente, “indagação ou busca minuciosa para a averiguação da realidade” (“Dicionário de Termos de Marketing”, Atlas, 1996), isto é, deverá importar em rigorosa investigação do que se pretende apurar, em especial quando se referir a pesquisa sobre matéria política, quase sempre destinada a exercer ponderável e esclarecedora influência sobre o eleitorado.
Não sendo assim, ou melhor, não atendendo - como há anos vimos presenciando - aos requisitos mínimos de informação pública juridicamente tutelada, ditas “pesquisas” não poderão ser tidas senão como aliciamento de votos, autêntica manipulação eleitoral.
Registre-se que o “Faixa Livre” não vem se contentando com a análise fria dos números apresentados nas pesquisas; comporta-se com a devida seriedade ao questionar o que eles efetivamente representam. Enquanto isso, atentos ouvintes do Programa vem registrando sérias reservas quanto à fidelidade das pesquisas.
É importante porém que nos mantenhamos alertas no momento, quando eleições municipais se avizinham. Não nos deixemos seduzir por pesquisas - especialmente as de última hora -, viciadas pela falta de transparência, postas a serviço das artimanhas de candidatos ungidos pelas cúpulas tucanas, neo-tucanas e assemelhadas, mestres em dizer - ao som de tendenciosos “jingles” - o que o povo, de boa fé, quer ouvir sobre as crônicas deficiências da administração pública, e em prometer soluções, não raro mirabolantes, de mais que duvidoso cumprimento, se considerarmos o destino das promessas, programas e juramentos dos seus padrinhos, um dos quais vem de também notabilizar-se por misturar incompetência com truculência.
Saudações,
GUILHERME, DE SANTA TERESA.
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Sobre “analistas políticos” e “institutos de pesquisa”
Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2008
Com cópia para faixa.livre@yahoo.com.br
Prezados Amigos do “Faixa Livre”,
Os denominados “analistas políticos”, presentes na imprensa escrita, e nos bastidores das rádios e das emissoras de televisão, são contumazes em atribuir absoluta fidedignidade às informações dos “institutos de pesquisa”, sem contudo acrescentarem maiores considerações. A partir dessas informações consolidadas em dados estatísticos - em números frios -, concluem, por exemplo, sobre o grau de aceitação pessoal do presidente da República e do seu governo, para, em exercício de futurologia política, deitar falação sobre o que consideram determinante influência presidencial nas eleições de 2010. Ousam até em considerar como “favas contadas” a eleição do candidato que vier a ser indicado por Lula.
De forma idêntica se comportam os mesmos intrépidos “analistas” diante das “preferências do eleitorado” por este ou aquele candidato ao mandato de prefeito, prognosticando, com base em dados alardeados em pesquisas encomendadas, sobre se haverá, ou não, 2º turno e, em havendo, quais serão os contendores!
Cabe, no entanto, indagar: É lícito a esses “analistas” alegar desconhecimento das particularidades de cada pesquisa?
Positivamente, não. Pelo menos a lei não permite que pesquisas eleitorais se tornem verdadeiras “caixas pretas”; ao contrário, determina precisamente que:
“As entidades e empresas que realizarem pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos, para conhecimento público, são obrigadas, para cada pesquisa, a registrar, junto à Justiça Eleitoral, até cinco dias antes da divulgação, as seguintes informações:
I - quem contratou a pesquisa;
II - valor e origem dos recursos despendidos no trabalho;
III - metodologia e período de realização da pesquisa;
IV - plano amostral e ponderação quanto a sexo, idade, grau de instrução, nível econômico e área física de realização do trabalho, intervalo de confiança e margem de erro;
V - sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo;
VI - questionário completo aplicado ou a ser aplicado;
VII - o nome de quem pagou pela realização do trabalho (de pesquisa).”(Lei 9504, art. 33)
Registre-se que a lei impõe pena pecuniária à divulgação de pesquisa sem o prévio registro daquelas informações e criminaliza a pesquisa fraudulenta.
Não obstante, esses “analistas”, em se tratando, por exemplo, de pesquisa sobre os índices de aprovação do governo federal, limitam-se a repetir que foram ouvidas “N” pessoas em “N” municípios. Quase nunca revelam quem contratou a pesquisa, muito menos o grau de interesse do contratante nos resultados da pesquisa. Ponto e basta!
Entretanto, para que pesquisas do gênero se tornem legalmente sustentáveis para os fins a que se destinam, esses e outros informes deveriam ser considerados e revelados, tais como:E, em se tratando de pesquisas sobre as próximas eleições municipais, outras tantas informações deveriam estar instruindo os dados apresentados, além da simples indicação do número de pessoas ouvidas. Seriam elas:
- Quais foram esses municípios e a que estados pertencem?
- Em quantos deles seus habitantes, total ou parcialmente, são beneficiários do “Bolsa Família”?
- Foram ouvidas apenas pessoas do povo, ou as pesquisas estenderam-se a áreas de influência das estâncias ruralistas, financeiras e do grande empresariado?
- Manifestaram-se políticos e palacianos?
Em ambos os tipos de pesquisa, são essas apenas algumas questões básicas que deveriam ser consideradas pelos “analistas”, em sua tarefa de interpretar, para divulgação pública, informações que sejam claras, completas, precisas, verossímeis.
- As consultas foram feitas apenas a transeuntes ou, se também em residências, em que regiões estão localizadas?
- Em que regiões ou bairros residem os transeuntes consultados?
- Houve manifestações por categoria profissional? Quais delas?
- A pesquisa se estendeu a comunidades habitadas por nossos irmãos mais carentes? E naquelas onde, não raro, até a polícia tem dificuldade de entrar?
Entretanto, os ditos “analistas”, contrariando a lei e a ética, vêm, em regra, preferindo despir-se da importante condição de idôneos intérpretes de pesquisas políticas, para assumirem a postura de simples porta-vozes dos números secamente apresentados pelos “institutos de pesquisa”.
Aplicados porta-vozes de pesquisas eleitorais, revelam-se mestres do ocultismo político, esotéricos senhores de artes misteriosas, guardiões de conhecimentos secretos sobre os destinos da Nação. Dispensam investigações sobre a consistência, a fidelidade dessas pesquisas altamente remuneradas. Para a numerologia política que praticam, tais investigações são plenamente dispensáveis; são coisas reservadas para os míseros mortais. Nem mesmo a melhor das pitonisas - as mitológicas sacerdotisas de Apolo - seria capaz de tal prodígio em termos de previsão do futuro!
Ocorre que - pelo menos para nós, os míseros mortais -, pesquisa pressupõe, necessariamente, “indagação ou busca minuciosa para a averiguação da realidade” (“Dicionário de Termos de Marketing”, Atlas, 1996), isto é, deverá importar em rigorosa investigação do que se pretende apurar, em especial quando se referir a pesquisa sobre matéria política, quase sempre destinada a exercer ponderável e esclarecedora influência sobre o eleitorado.
Não sendo assim, ou melhor, não atendendo - como há anos vimos presenciando - aos requisitos mínimos de informação pública juridicamente tutelada, ditas “pesquisas” não poderão ser tidas senão como aliciamento de votos, autêntica manipulação eleitoral.
Registre-se que o “Faixa Livre” não vem se contentando com a análise fria dos números apresentados nas pesquisas; comporta-se com a devida seriedade ao questionar o que eles efetivamente representam. Enquanto isso, atentos ouvintes do Programa vem registrando sérias reservas quanto à fidelidade das pesquisas.
É importante porém que nos mantenhamos alertas no momento, quando eleições municipais se avizinham. Não nos deixemos seduzir por pesquisas - especialmente as de última hora -, viciadas pela falta de transparência, postas a serviço das artimanhas de candidatos ungidos pelas cúpulas tucanas, neo-tucanas e assemelhadas, mestres em dizer - ao som de tendenciosos “jingles” - o que o povo, de boa fé, quer ouvir sobre as crônicas deficiências da administração pública, e em prometer soluções, não raro mirabolantes, de mais que duvidoso cumprimento, se considerarmos o destino das promessas, programas e juramentos dos seus padrinhos, um dos quais vem de também notabilizar-se por misturar incompetência com truculência.
Saudações,
GUILHERME, DE SANTA TERESA.
Reflexões sobre as eleições no Rio
As eleições municipais no Rio de Janeiro se encerram neste domingo (5/10) sem encantar o carioca. As razões são várias e cada grupo político pode alegar a sua – isso entre os que gostariam de ver um processo eleitoral mais animador, que conseguisse mostrar ao cidadão a importância deste momento.
O fato é que as forças da direita conseguiram concretizar seus desejos. Eduardo Paes (PMDB), Gabeira (PSDB, PV e PPS) e Crivella (PRB), todos representantes do que há de mais conservador, estão à frente nas pesquisas de opinião. PMDB e PSDB, ao lado do DEM, controlam o poder no Rio de Janeiro há duas décadas. A eleição de qualquer um de seus candidatos significa o aprofundamento do modelo neoliberal, ou seja, privatizações, caveirão e desemprego. Crivella, por sua vez, não representa mudança substantiva; talvez apresente alguma disputa comercial, mas nada que não possa ser resolvido num “acordo de cavalheiros”.
Ditadura do dinheiro
A campanha de Eduardo Paes foi a que mais arrecadou. Até agosto o candidato do PMDB havia declarado a pequena fortuna de R$ 3,166 milhão. Dinheiro de empreiteiras, imobiliárias e bancos. Gabeira não ficou muito atrás. Reuniu um total de quase R$ 2 milhões até agosto, basicamente das mesmas empresas. Crivella e Solange, a candidata do prefeito César Maia (DEM), também arrecadaram valores similares das mesmas fontes.
A empreiteira baiana OAS, que protagonizou o escândalo conhecido com Obras Arranjadas pelo Sogro, envolvendo ACM, foi quem mais investiu: pelo menos R$ 1,5 milhão, sem contar o valor destinado a Crivella, único candidato a não revelar o montante arrecadado. Até candidatos do campo progressista receberam dinheiro da OAS (Jandira Feghali, do PCdoB, R$ 400 mil; e Alessandro Molon, do PT, R$ 100 mil). Bradesco e Carvalho Hosken também doaram dinheiro para candidatos da direita. As duas empresas estiveram envolvidas nos despejos violentos promovidos pela prefeitura, em 2006, na Barra da Tijuca, conforme publicado no Fazendo Media (leia aqui) e na edição de julho deste ano da revista Caros Amigos.
Nestas eleições cariocas, o quadro econômico reflete a desigualdade social em que vivemos. Pode-se dizer que as quatro campanhas mais ricas (Paes, Gabeira, Crivella e Solange) tiveram cerca de 15 vezes mais recursos para trabalhar do que as quatro mais pobres. Sozinho, o PMDB arrecadou 25 vezes mais que o PSOL, partido do combativo Chico Alencar – número que pode ser ainda maior, pois não computa os valores de setembro (não declarados) do candidato peemedebista. “É a colonização da política pela economia”, afirmou Chico, que foi um leão durante a campanha. Mesmo com todas as debilidades de seu partido, o incansável candidato denunciou por mais de uma vez, em praça pública, o abuso do poder econômico e também o crescimento de uma outra forma de banditismo, este mais explícito, na vida política carioca: candidatos a vereador acusados de integrar milícias concorrendo por partidos grandes, como PMDB, PT e DEM.
Ditadura da mídia
Mas não foi só o sistema financeiro quem favoreceu as candidaturas do sistema. Os meios de comunicação de massa foram utilíssimos na manutenção da atual configuração eleitoral. Em primeiro lugar porque não promoveram um debate sequer, de modo que ao eleitor só chegavam as notícias devidamente editadas. Para banir o debate, a TV Globo alegou ser inviável um encontro com mais de cinco candidatos – apesar de a Band, em São Paulo, ter feito com oito. No Rio, a empresa da família Marinho jogou a culpa em Paulo Ramos, candidato do PDT, que não quis assinar o acordo.
A argumentação da Globo soa como um escárnio. Nitidamente baseada em critérios mercadológicos, a empresa alijou o cidadão carioca de conhecer melhor as propostas daqueles que pleiteiam governar a cidade. As demais emissoras procederam da mesma forma. A Justiça Eleitoral, por sua vez, esqueceu que essas empresas operam concessões públicas de radiodifusão e, como tal, devem promover o interesse público acima de tudo. O obscurantismo favorece aos mesmos grupos políticos que crescem nas sombras, subtraindo a pátria mãe tão distraída em tenebrosas transações. Como disse Mino Carta à revista Caros Amigos, “a mídia está ligada ao dinheiro” (em entrevista publicada na edição de dezembro de 2005).
Paulo Ramos não deixou barato. Desde o início da campanha enfrentou o poder imperial das Organizações Globo, demonstrando coragem digna de nota. Enquanto a esmagadora maioria dos políticos daria tudo para não entrar numa briga com a Globo, Paulo denunciou desde o início a manipulação editorial da empresa. “A Globo lidera um golpe no município, como o que elegeu Collor. Ela já escolher divulgar os candidatos que poderão ser eleitos e os que não serão eleitos”, disse à Caros Amigos de setembro deste ano. Em diversos momentos da campanha, o candidato pedetista denunciou a postura antidemocrática da emissora.
As escassas tentativas de esclarecer os eleitores foram interrompidas por decisões editoriais ou não tiveram a amplitude necessária. O jornal O Globo, que não é mídia de massa, tentou esclarecer seus leitores e consultou especialistas nas áreas de transporte, urbanismo, saúde e educação sobre as propostas de oito candidatos. Uma iniciativa interessante, cujo resultado final não foi publicado. Talvez porque os candidatos da predileção do jornal não estivessem entre os primeiros. Chico Alencar, da Frente Rio Socialista, foi o vencedor. O JB, que também não é mídia de massa, foi o único veículo de comunicação a promover um debate amplo com os candidatos.
Oportunidade para reflexão
Um dos resultados da ditadura da mídia aliada à ditadura do dinheiro é o desinteresse do cidadão. Como essa dupla ditadura serve à direita, que no Rio promove o modelo neoliberal (esse mesmo que agora faz água nos EUA), a mensagem que chega ao eleitor é: não adianta votar porque político é tudo igual. Ou seja, interessa à direita que a noção de poder público seja esquartejada, porque é nivelando por baixo que os canalhas levam vantagem. Mal sabe o cidadão que agindo desta forma ele faz o jogo daqueles que vão explorá-lo pelos próximos quatro anos.
Seja quais forem os números das urnas, este 5 de outubro de 2008 poderá ser um bom momento de reflexão para o campo progressista e a esquerda. Além de reclamar, com justeza, dos muitos obstáculos, é preciso ter humildade para reconhecer seus próprios erros. E, entre eles, a omissão na luta pelas representações. Isso num país com quase 200 milhões de pessoas, mas apenas 7 emissoras abertas de televisão – sendo que seis delas são ideologicamente afinadas à direita e a outra apenas começa a esboçar uma nova narrativa.
A esquerda partidária ainda não compreendeu que a mídia, hoje, é a instituição com maior poder de produção e reprodução de subjetividades. Há outras instituições, como Família, Hospital, Igreja, Forças Armadas e todo um escopo de organizações disciplinares. Mas a mídia supera todas as outras em função de sua transversalidade e devido ao alcance que atingiu com o desenvolvimento tecnológico.
Ou seja, é a mídia quem tem maior poder de produzir e reproduzir formas de sentir, perceber, agir e viver. Se você tem um campo subjetivo construído à direita, esse sujeito vai pautar sua vida por atitudes à direita – incluindo o voto. Se, por outro lado, o repertório de palavras e imagens é progressista, temos o inverso.
Entendendo isso, resta saber se interessa à esquerda assumir essa bandeira – que não é tarefa de um, dois anos, mas um exercício de longo prazo.
(*) Marcelo Salles é jornalista.
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www.consciencia.net
Reflexões sobre as eleições no Rio
O fato é que as forças da direita conseguiram concretizar seus desejos. Eduardo Paes (PMDB), Gabeira (PSDB, PV e PPS) e Crivella (PRB), todos representantes do que há de mais conservador, estão à frente nas pesquisas de opinião. PMDB e PSDB, ao lado do DEM, controlam o poder no Rio de Janeiro há duas décadas. A eleição de qualquer um de seus candidatos significa o aprofundamento do modelo neoliberal, ou seja, privatizações, caveirão e desemprego. Crivella, por sua vez, não representa mudança substantiva; talvez apresente alguma disputa comercial, mas nada que não possa ser resolvido num “acordo de cavalheiros”.
Ditadura do dinheiro
A campanha de Eduardo Paes foi a que mais arrecadou. Até agosto o candidato do PMDB havia declarado a pequena fortuna de R$ 3,166 milhão. Dinheiro de empreiteiras, imobiliárias e bancos. Gabeira não ficou muito atrás. Reuniu um total de quase R$ 2 milhões até agosto, basicamente das mesmas empresas. Crivella e Solange, a candidata do prefeito César Maia (DEM), também arrecadaram valores similares das mesmas fontes.
A empreiteira baiana OAS, que protagonizou o escândalo conhecido com Obras Arranjadas pelo Sogro, envolvendo ACM, foi quem mais investiu: pelo menos R$ 1,5 milhão, sem contar o valor destinado a Crivella, único candidato a não revelar o montante arrecadado. Até candidatos do campo progressista receberam dinheiro da OAS (Jandira Feghali, do PCdoB, R$ 400 mil; e Alessandro Molon, do PT, R$ 100 mil). Bradesco e Carvalho Hosken também doaram dinheiro para candidatos da direita. As duas empresas estiveram envolvidas nos despejos violentos promovidos pela prefeitura, em 2006, na Barra da Tijuca, conforme publicado no Fazendo Media (leia aqui) e na edição de julho deste ano da revista Caros Amigos.
Nestas eleições cariocas, o quadro econômico reflete a desigualdade social em que vivemos. Pode-se dizer que as quatro campanhas mais ricas (Paes, Gabeira, Crivella e Solange) tiveram cerca de 15 vezes mais recursos para trabalhar do que as quatro mais pobres. Sozinho, o PMDB arrecadou 25 vezes mais que o PSOL, partido do combativo Chico Alencar – número que pode ser ainda maior, pois não computa os valores de setembro (não declarados) do candidato peemedebista. “É a colonização da política pela economia”, afirmou Chico, que foi um leão durante a campanha. Mesmo com todas as debilidades de seu partido, o incansável candidato denunciou por mais de uma vez, em praça pública, o abuso do poder econômico e também o crescimento de uma outra forma de banditismo, este mais explícito, na vida política carioca: candidatos a vereador acusados de integrar milícias concorrendo por partidos grandes, como PMDB, PT e DEM.
Ditadura da mídia
Mas não foi só o sistema financeiro quem favoreceu as candidaturas do sistema. Os meios de comunicação de massa foram utilíssimos na manutenção da atual configuração eleitoral. Em primeiro lugar porque não promoveram um debate sequer, de modo que ao eleitor só chegavam as notícias devidamente editadas. Para banir o debate, a TV Globo alegou ser inviável um encontro com mais de cinco candidatos – apesar de a Band, em São Paulo, ter feito com oito. No Rio, a empresa da família Marinho jogou a culpa em Paulo Ramos, candidato do PDT, que não quis assinar o acordo.
A argumentação da Globo soa como um escárnio. Nitidamente baseada em critérios mercadológicos, a empresa alijou o cidadão carioca de conhecer melhor as propostas daqueles que pleiteiam governar a cidade. As demais emissoras procederam da mesma forma. A Justiça Eleitoral, por sua vez, esqueceu que essas empresas operam concessões públicas de radiodifusão e, como tal, devem promover o interesse público acima de tudo. O obscurantismo favorece aos mesmos grupos políticos que crescem nas sombras, subtraindo a pátria mãe tão distraída em tenebrosas transações. Como disse Mino Carta à revista Caros Amigos, “a mídia está ligada ao dinheiro” (em entrevista publicada na edição de dezembro de 2005).
Paulo Ramos não deixou barato. Desde o início da campanha enfrentou o poder imperial das Organizações Globo, demonstrando coragem digna de nota. Enquanto a esmagadora maioria dos políticos daria tudo para não entrar numa briga com a Globo, Paulo denunciou desde o início a manipulação editorial da empresa. “A Globo lidera um golpe no município, como o que elegeu Collor. Ela já escolher divulgar os candidatos que poderão ser eleitos e os que não serão eleitos”, disse à Caros Amigos de setembro deste ano. Em diversos momentos da campanha, o candidato pedetista denunciou a postura antidemocrática da emissora.
As escassas tentativas de esclarecer os eleitores foram interrompidas por decisões editoriais ou não tiveram a amplitude necessária. O jornal O Globo, que não é mídia de massa, tentou esclarecer seus leitores e consultou especialistas nas áreas de transporte, urbanismo, saúde e educação sobre as propostas de oito candidatos. Uma iniciativa interessante, cujo resultado final não foi publicado. Talvez porque os candidatos da predileção do jornal não estivessem entre os primeiros. Chico Alencar, da Frente Rio Socialista, foi o vencedor. O JB, que também não é mídia de massa, foi o único veículo de comunicação a promover um debate amplo com os candidatos.
Oportunidade para reflexão
Um dos resultados da ditadura da mídia aliada à ditadura do dinheiro é o desinteresse do cidadão. Como essa dupla ditadura serve à direita, que no Rio promove o modelo neoliberal (esse mesmo que agora faz água nos EUA), a mensagem que chega ao eleitor é: não adianta votar porque político é tudo igual. Ou seja, interessa à direita que a noção de poder público seja esquartejada, porque é nivelando por baixo que os canalhas levam vantagem. Mal sabe o cidadão que agindo desta forma ele faz o jogo daqueles que vão explorá-lo pelos próximos quatro anos.
Seja quais forem os números das urnas, este 5 de outubro de 2008 poderá ser um bom momento de reflexão para o campo progressista e a esquerda. Além de reclamar, com justeza, dos muitos obstáculos, é preciso ter humildade para reconhecer seus próprios erros. E, entre eles, a omissão na luta pelas representações. Isso num país com quase 200 milhões de pessoas, mas apenas 7 emissoras abertas de televisão – sendo que seis delas são ideologicamente afinadas à direita e a outra apenas começa a esboçar uma nova narrativa.
A esquerda partidária ainda não compreendeu que a mídia, hoje, é a instituição com maior poder de produção e reprodução de subjetividades. Há outras instituições, como Família, Hospital, Igreja, Forças Armadas e todo um escopo de organizações disciplinares. Mas a mídia supera todas as outras em função de sua transversalidade e devido ao alcance que atingiu com o desenvolvimento tecnológico.
Ou seja, é a mídia quem tem maior poder de produzir e reproduzir formas de sentir, perceber, agir e viver. Se você tem um campo subjetivo construído à direita, esse sujeito vai pautar sua vida por atitudes à direita – incluindo o voto. Se, por outro lado, o repertório de palavras e imagens é progressista, temos o inverso.
Entendendo isso, resta saber se interessa à esquerda assumir essa bandeira – que não é tarefa de um, dois anos, mas um exercício de longo prazo.
(*) Marcelo Salles é jornalista.

Rebelo não se opõe a “Memorial da Guerra da Tríplice Aliança" a ser organizado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Indigna-se, porém, com a possibilidade de que tenha como objetivo rememorar o “genocídio levado a cabo contra o povo paraguaio”, que define como “ignomínia contra o Brasil”. Para apoiar sua defesa incondicional da ação do Império contra a pequenina nação, desenvolve desbragada manipulação nacional-patriótica da verdade e do método históricos, ao estilo “verde, amarelo, branco, azul anil....”, dos anos 1970. Nada estranho nos atuais tempos bicudos, se o deputado não se assinasse comunista.
Abraçando o irracionalismo e o relativismo histórico, Rebelo propõe ser impossível escrever história isenta da guerra, pois as análises sobre ela variariam segundo os “autores e as conjunturas”. Fulmina as leituras do “passado com as lentes do presente”, talvez sugerindo que deva ser analisado com os olhos do passado ou do futuro! Defende que, para se ter “conclusões irrefutáveis” sobre “aspectos controversos da guerra”, faltariam sobretudo “muitos documentos a apresentar”. Proposta paradoxal para apoiador de governo que rejeita caninamente a exigência dos historiadores ao direito de consulta de documentos sobre o conflito classificados como secretos pelo atual governo!
O Mal Uso da História
Rebelo empreende igualmente passeio sumário na historiografia do conflito. Sempre apoiado na atual historiografia nacional-patriótica restauracionista, esclarece que as “primeiras interpretações tecidas nos panteões oficiais” – em geral por oficiais das forças armadas – teriam sido sucedidas por “criticismo exarcebado”, que define como “revisionismo infantil”. Fulmina, assim, sem ter a coragem de citar, o estudo Genocídio americano: uma história da Guerra do Paraguai, do jornalista Júlio Chiavenatto, que, apesar de seus indiscutíveis limites, contribuiu corajosamente, durante a ditadura, ao esclarecimento da ação – esta sim ignominiosa – do governo imperial no Paraguai.
Promove paradoxal defesa do imperialismo inglês no Prata, ao propor que o Império Britânico, além de não ter responsabilidades no conflito, teria tentado “pôr panos quentes na desavença”! Destaque-se que, em Cartas dos campos de batalha do Paraguai, o diplomata britânico sir Richard F. Burton [1821-1890] registrou, sem papas na língua, a visão geral das classes dominantes da grande potência imperialista: “Minhas simpatias vão para o Brasil, pelo menos enquanto sua ‘missão’ for desaferrolhar [...] o grande Mississipi do Sul.”
Na sua empolgação nacional-patriótica, desatento à própria linguagem – surpreendente para autor de proposta de lei supostamente destinada a proteger a língua portuguesa da ingerência externa –, afirma nada menos do que o “nosso [sic] Império escravista” seria “pacifista”, escamoteando com sua apologia as múltiplas intervenções imperialistas do Segundo Reinado no Prata, entre 1851-1876! Registre-se a paradoxal apresentação do exército imperial como vanguarda da Abolição! [...] o Segundo Reinado era pacifista [...], e foi a guerra que conferiu a esta força militar fôlego e consciência para se reorganizar e se consolidar como instituição decisiva, a ponto de ser protagonista das rupturas históricas representadas pela Abolição [...].”
Para inocentar os crimes realizados na guerra, apoiado em “pesquisadora americana [sic]” – estadunidense, prezado deputado! –, impugna a estimativa de 1,1 milhões de habitantes para o Paraguai, que reduz para 320 mil, dos quais “60 mil” teriam morrido “durante a guerra”. O paradoxal no raciocínio é que, se esses números forem corretos, o Paraguai teria perdido em torno de 20% de sua população! Um verdadeiro e indiscutível genocídio! A minoração apologética extremada da população paraguaia deixa também em péssimos panos o Império que, com mais de nove milhões de habitantes, necessitou de seis anos, dezenas de milhares de mortos e recursos impressionantes para se impor a país, segundo proposto, na época, com uma população menor do que a da província do Rio Grande do Sul – 430 mil habitantes, em 1872!
Guerra entre nós, paz com os senhores!
A avaliação histórica de Rebelo do grande conflito é de relativismo patriótico paradoxal. No conflito, o Paraguai teve suas razões e seus heróis, ao igual que o Brasil. “Cabe-nos”, apenas, “perfilar os heróis de cada lado”, cantando, cada um, paraguaio e brasileiro, loas aos seus feitos patriótico-militares. Os combatentes paraguaios merecem a honra eterna de seus compatriotas”, como “os mais de 50 mil brasileiros mortos merecem e aguardam o reconhecimento plena da Pátria, pois foi por ela e em nome dela que pereceram [...]” – propõe o deputado.
Visão que liquida qualquer possibilidade de construção de interpretação geral da história, desde o ponto de vista dos povos e dos oprimidos, ao reduzi-la a realidade de valores e parâmetros essencialmente nacionais-patrióticos, que irmana oprimido e opressores. No frigir dos ovos, Rebelo substitui o grito sintética sobre a falta de contradição entre os oprimidos de todo o mundo, lançado há 161 anos, com a velha proposta nacional-patriótica de que os “proletários e povos de todo o mundo devem unir-se .... sob o mando das suas respectivas classes dominantes!”
Sem dúvidas a “historiografia ainda tem um longo caminho a percorrer” para elucidar todos os aspectos daquela guerra fratricida. Porém, ao contrário do que propõe Rebelo, não há hoje dúvidas, entre os especialistas não dogmáticos, sobre o caráter socialmente avançado do Paraguai, nascido das suas singularidades históricas que deprimiram o surgimento de classes proprietárias e comerciais, ensejando o desenvolvimento de poderosa classe de pequenos camponeses proprietários ou arrendatários, sobretudo das grandes fazendas públicas do país. Principal base social dos governos nacional-jacobinos paraguaios do dr. Francia e de Lopez pai e filho.
Contra-Revolução Liberal
O sentido da Guerra contra o Paraguai explicita-se plenamente após o conflito, quando o país, sob governos fantoches e liberais, foi obrigado a endividar-se para pagar, por décadas, indenizações draconianas ao Brasil e à Argentina e perdeu boa parte de seus territórios em favor desses países. A Guerra constituiu sobretudo espécie de implantação sob as forças das armas, com o apoio indiscutido da Inglaterra, de ordem liberal-mercantil no país. A partir dos anos de ocupação militar pelos exércitos do Império brasileiro, privatizaram-se aceleradamente as fazendas públicas, os ervais, as reservas florestais e constituíram-se grandes latifúndios, em geral propriedades de estrangeiros – argentinos, ingleses, brasileiros, paraguais colaboracionistasetc.
Desde a independência, em 1810, até o fim do sangrento conflito, em 1870, o Paraguai fora caso único de estabilidade política e social na América do Sul. Ao desorganizar para todo o sempre o poderoso campesinato de origem guarani, derrotado e profundamente dizimado durante a guerra, o conflito lançou aquela nação em uma situação de instabilidade e ditaduras militares, permanentes cortejadas e manipuladas pelos grandes interesses econômicos sobretudo do Brasil e da Argentina.
Alfredo Strossner manteve, de 1954-1989, uma das mais longevas, corruptas e desapiedadas ditaduras latino-americanas, ao dar as costas à Argentina e obter o apadrinhamento permanente dos sucessivos governos brasileiros. Foi durante o seu governo que os ditadores em turno no Brasil ditaram as condições draconianas que permitiram a construção da Usina Hidroelétrica de Itaipu Bi-nacional. Fernando Lugo elegeu-se defendendo precisamente uma rediscussão desses acordos espúrios e a devolução parcial das terras arrancadas ao campesinato paraguaio, hoje em boa parte nas mãos de grandes sojicultores brasileiros.
Por uma História e Política dos Povos
Os crimes cometidos contra a população e a nação paraguaias são de exclusiva responsabilidade das classes dominantes brasileiras, como um todo, e das facções liberais argentinas e uruguaias de então. No Brasil, na Argentina, no Uruguai, a população pobre partia, não raro, manietada e tratada como gado, para ir lutar em conflito que literalmente abominava, pois tudo tinha a perder e nada a ganhar na luta contra os irmãos paraguaios.
Na Argentina, os gauchos desertaram e levantaram-se em armas aos milhares contra os governos liberais de Mitre e Sarmiento que agrediam sua autonomia provincial e os direitos nacionais paraguaios. No Brasil, a negativa do homem livre em partir para o Prata obrigou a compra e libertação de cativos destinados a morrer sob bandeira negreira que manteria nos grilhões, por ainda quase vinte anos, seus irmãos. Durante a guerra, os quilombos brasileiros regurgitaram de desertores, que compreendiam que, se “deus é grande, o mato é maior!”
Ao contrário do que afirmam os proprietários das riquezas e do poder e seus intelectuais arrendados, não houve, ontem, como não há hoje, contradições entre os trabalhadores e trabalhadoras, entre os homens e as mulheres de bem das nações latino-americanas. O “Memorial da Guerra da Tríplice Aliança” que devemos construir deverá cimentar a aliança dos trabalhadores, pobres e oprimidos latino-americanos e celebrar o martírio dos populares e combatentes guaranis, brasileiros, argentinos e uruguaios, ceifados no altar dos mesquinhos interesses das suas classes dominantes nacionais.