Por Raquel Gandra (*), de Cannes, para a Revista Consciência.Net
Após a surpreendente premiação da 60° edição de Cannes, que em 2007 prestigiou o filme de Cristian Mungiu, 4 meses, 3 semanas e 2 dias com a Palma de Ouro, o cinema Romeno continua cada vez mais conquistando espaço no panorama dos festivais e consequentemente no panorama internacional.
Estréia de Haim TABAKMAN em Cannes surpreende
Por Raquel Gandra (*), de Cannes, para a Revista Consciência.Net
Eyes wide open, produção israelense e primeiro longa metragem dirigido pelo jovem cineasta Haim Tabakman, é um filme sobre um homem de familia (Aaron), frequentador assíduo da sinagoga, com valores morais e costumes conservadores e cujo o cotidiano é preenchido pelos mesmos movimentos e as mesmas paisagens todos os dias (...)
Eyes wide open, produção israelense e primeiro longa metragem dirigido pelo jovem cineasta Haim Tabakman, é um filme sobre um homem de familia (Aaron), frequentador assíduo da sinagoga, com valores morais e costumes conservadores e cujo o cotidiano é preenchido pelos mesmos movimentos e as mesmas paisagens todos os dias (...)
Resenha: Looking for Eric
Por Raquel Gandra, de Cannes
O novo filme do irlandês Ken Loach, Looking for Eric, é bem distante do tom severo e histórico de seu último, The Wind that shakes the barley, vencedor da Palma de Ouro em 2006. Dessa vez, Loach resolveu ir por um lado mais cômico, ainda que tocando assuntos sérios e importantes, como família, amigos, medo e reparações.
O novo filme do irlandês Ken Loach, Looking for Eric, é bem distante do tom severo e histórico de seu último, The Wind that shakes the barley, vencedor da Palma de Ouro em 2006. Dessa vez, Loach resolveu ir por um lado mais cômico, ainda que tocando assuntos sérios e importantes, como família, amigos, medo e reparações.
Réquiem para um cinema de bairro
Por Celso Lungaretti
Ao derrotarem Cartago na 3ª Guerra Púnica, os romanos fizeram a imponente rival sumir do mapa, literalmente: não só incendiaram e destruíram a cidade, como araram as terras com sal, para que nelas nada mais florescesse, nem se soubesse ao certo sua localização. Quais seriam os sentimentos de um cartaginês sobrevivente, ao percorrer os sítios familiares e nada encontrar além do deserto?
Ao derrotarem Cartago na 3ª Guerra Púnica, os romanos fizeram a imponente rival sumir do mapa, literalmente: não só incendiaram e destruíram a cidade, como araram as terras com sal, para que nelas nada mais florescesse, nem se soubesse ao certo sua localização. Quais seriam os sentimentos de um cartaginês sobrevivente, ao percorrer os sítios familiares e nada encontrar além do deserto?
Cannes 2009: uma introdução
Por Raquel Gandra (*), direto de Cannes
Festival de Cannes, um dos mais importantes festivais do mundo, que reconheceu obras prima do nosso cinema como Vidas Secas e Terra em Transe, mantem esse ano seu interesse pelo cinema brasileiro através de filmes de Heitor Dhalia (A Deriva) e do querido Eduardo Valente (No meu Lugar) e comemora seu 62o aniversário.
>> Resultados de Cannes 2009
Festival de Cannes, um dos mais importantes festivais do mundo, que reconheceu obras prima do nosso cinema como Vidas Secas e Terra em Transe, mantem esse ano seu interesse pelo cinema brasileiro através de filmes de Heitor Dhalia (A Deriva) e do querido Eduardo Valente (No meu Lugar) e comemora seu 62o aniversário.
>> Resultados de Cannes 2009
Augusto Boal (1931-2009)
"A morte de Augusto Boal me atingiu como se eu tivesse perdido um grande amigo. A ele e a Gianfrancesco Guarnieri devo o texto e a encenação da primeira peça de teatro profissional a que assisti, aos 15 anos: Arena Conta Zumbi. Marcou-me para sempre, assim como a seguinte, Arena Conta Tiradentes. As duas têm muito a ver com o rumo que tomei na vida." Leia texto de Celso Lungaretti clicando no título.
Mensagem do MST a Augusto Boal
Por sua viagem inesperada...
A ti sempre estimaremos por nos ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que exemplo para nós, companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os bons combatentes se forjam na luta. Leia mais.
A ti sempre estimaremos por nos ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que exemplo para nós, companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os bons combatentes se forjam na luta. Leia mais.
O teatro popular de luto
Morreu hoje, aos 78 anos, o dramaturgo Augusto Boal, embaixador mundial do teatro da Unesco, por insuficiência respiratória, segundo informou sua família. Fundador do 'teatro do oprimido', sofria de leucemia e estava internado desde a ultima 3a em um hospital no Rio por problemas respiratórios, deu no BlueBus aqui. Matéria "Carioca da Penha e herói da resistência" no JB online, logo mais outras. Uma perda para a resistência cultural mundial ;/Leia dois textos aqui publicados aqui (Teatro é a solução) e aqui (Presente de Natal).
A luta da indústria contra a livre troca de conhecimento
Ganância das grandes empresas por aumentar lucros exorbitantes tem novo capítulo em condenação incoerente na Suécia. Autores do “The Pirate Bay”, site que não hospeda nada, são condenados na Justiça (e na mídia). A BBC, que também manipulou informação, entrega o xis da questão: “os servidores do Pirate Bay não hospedam conteúdos de direitos autorais, mas sim links para arquivos de vídeo e música mantidos nos computadores de seus usuários”. Artigo de Gustavo Barreto (*), da redação. Leia mais.Na foto da AP, Gottfrid Svartholm Warg (à esq.) e Peter Sunde no tribunal, antes do veredicto.
A agência AFP informou na última sexta-feira (17) que a justiça sueca condenou “quatro diretores do site The Pirate Bay”, uma das redes de compartilhamento de conteúdo do mundo, a um ano de prisão por “cumplicidade na violação dos direitos autorais”. Cabe recurso, que já foi pedido. A “cumplicidade, leia-se, é compartilhada com outros 22 milhões de usuários – diretamente responsáveis pela troca de conteúdo. Inexplicavelmente apenas 4 foram condenados (cabendo recurso, nota-se).
“Ao elaborar o site com (...) funções de busca bem desenvolvidas, fácil 'uploading' e possibilidades de armazenamento, e com um 'tracker' (rastreador) linkado ao site, os acusados estimularam crimes que os compartilhadores de arquivos (filesharers) cometeram”, informou o tribunal.
“Não se preocupem, nada vai mudar para o The Pirate Bay, nem para nós nem para o compartilhamento de arquivos”, escreveu Sunde na comunidade do site no Twitter, segundo agência de notícias sueca. “Como em todos os bons filmes, os heróis perdem no início, mas têm uma vitória épica no fim. Isto é a única coisa que Hollywood nos ensinou”, afirma um texto publicado na página do Pirate Bay.Na imagem, marca do site "The Pirate Bay"
O tribunal condenou os réus ainda a pagar 30 milhões de coroas (3,56 milhões de dólares) por “danos e prejuízos à indústria fonográfica, cinematográfica e de jogos eletrônicos”, que pediam 117 milhões de coroas (US$ 13,9 milhões) a título de “lucros não obtidos provocados pelos downloads via internet”.
Conforme John Kennedy, representante da Federação da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), que entrega sua própria hipocrisia, “esse pessoal não estava defendendo um princípio, eles estavam querendo encher os bolsos. Não havia nenhum mérito no comportamento deles”. Parece que lucrar vale para uns, mas não para outros. Kennedy e sua indústria ignoram não só o princípio do compartilhamento de arquivos quanto a nova realidade dos dados em nível global.
Caso se estenderá por “2 ou 3 anos”, afirmam criadores
Os quatro criadores do Pirate Bay confirmaram que já apelaram contra a decisão. Em postagem no blog oficial, os rapazes dizem que o caso já está num nível superior da corte e levará mais dois ou três anos para que uma nova sentença seja decretada. Os responsáveis pelo site de torrents pedem aos usuários que parem com as mobilizações para arrecadar o dinheiro da multa, pois ela não será paga.
A postagem [1] diz que, se os usuários quiserem ajudar, podem mandar mais torrents, comprar uma camiseta do The Pirate Bay, não ter medo de usar a rede e continuar criando blogs, grupos de discussão e sites de compartilhamento de arquivos.
A imprensa correu para “condenar” previamente os coordenadores do Pirate Bay, mesmo que ainda caiba recurso. “O dinheiro irá para várias empresas da indústria do entretenimento, como Warner Bros, Sony, EMI e Columbia Pictures”, escreveu a BBC Brasil, ignorando que nada será pago até que o recurso seja avaliado pela Justiça. “Nada vai acontecer com o TPB [sigla do site], isto foi apenas um grande teatro para a imprensa”, desdenhou Sunde.
Como funciona o compartilhamento de arquivos
Fundado em 2003, o Pirate Bay possibilita a troca de arquivos de filmes, músicas e jogos por meio da tecnologia de “bit torrent”, mas nenhum material baixado pode ser encontrado no servidor do Pirate Bay, que reúne em sua rede 22 milhões de usuários.
É uma contradição em termos técnicos condenar o site em si (e não o conjunto de 22 milhões de usuários), já que o Pirate Bay não existiria sem a intensa atividade do conjunto de usuários da rede. Conforme a própria BBC teve que admitir (só depois de confundir o leitor), “os servidores do Pirate Bay não hospedam conteúdos de direitos autorais, mas sim links para arquivos de vídeo e música mantidos nos computadores de seus usuários” [2].
Esta semana, a British Telecom, em decisão arbitrária, decidiu bloquear o Pirate Bay para usuários das redes móveis [3], seguindo determinação da entidade conservadora Internet Watch Foundation.
Referências
[1] Blog oficial do “The Pirate Bay”: http://thepiratebay.org/blog.php
[2] Fundadores do Pirate Bay são condenados à prisão na Suécia. BBC Brasil online, 17/04/2009. [http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2009/04/090417_sueciapiratebayml.shtml]
[3] Ver notícia tendenciosa da Exame Informática, de Portugal [http://exameinformatica.clix.pt/noticias/internet/1002262.html]. Com esta decisão, o Pirate Bay foi colocado pela empresa no mesmo saco dos sites que contem conteúdo sexual explícito.
(*) Gustavo Barreto, editor da Revista Consciência.Net e integrante do Pontão de Cultura Digital da Escola de Comunicação da UFRJ.
Terra Infecunda: sobre a saga literária de Santa Bruna Surfistinha no meretrício
Esclareço logo ao desavisado: sou mulher e, a despeito disso, gosto de literatura marginal, de brutalismo e menção ao escatológico. Nesse lugar literário, pornografia e, sobretudo, pornofonia me agradam porque, feito dente quebrado e cicatriz, excetuando a gente frígida, o sexo humaniza. (...) Resenha de Carol Albala, colaboradora Consciência.Net. Leia mais.
Etimologicamente, berram teus músculos - filólogos graduados - ao segundo do orgasmo: viestes do húmus!
Não há epifania mais fecunda, eu acho.
Percebo, entretanto, neste universo erótico - talvez por ignorância de minha parte, falta de acesso ou, realmente, de produção discursiva feminina - a irritante presença hegemônica do homem.
Às mulheres - e, especificamente, às brasileiras -, excetuando umas poucas literatas ilustres, temos reservadas as páginas de revista masculina e folhinhas de borracharia, razão pela qual tive em mais alta conta a prostituta escritora Bruna Surfistinha antes mesmo de ler, em duas horas e meia, a versão digital em PDF, que me fora enviada por correio eletrônico, de seu "Doce veneno do escorpião".
Anticlímax.
Não encontro melhor definição para o livrinho ao qual me refiro.
Nada mais há a ser dito sobre as confissões duma prostituta na pós-adolescência que se mandou da casa dos pais depois de arrancar toda a grana dos velhos para convert ê-la em pó, trabalhou em bordel de altíssima rotatividade, não tem papas na língua para descrever, nos mínimos detalhes, os meandros mais íntimos do sexo comercial e, no entanto, utiliza reticências para evitar a escrita por extenso da palavra "CU".
Alguém diz: ‘tá pegando no pé da moça; qual é o problema de usar três pontinhos no ânus?
Respondo já: o problema é que puta desse naipe com medo de escrever cu não cola, a menos que não seja alfabetizada. Sendo, é inverossímil.
Cheguei à conclusão de que a Bruna Surfistinha não existe fora da biografia: tenho certeza de que é invenção de algum fã do José de Alencar decidido a dar voz à "Lucíola" após a derrubada das torres gêmeas porque, afinal, nem a Madre Teresa de Calcutá era tão carola.
‘A tomá no c...
Referências:
ALENCAR, José de. Lucíola. São Paulo: Ática. 19ª ed. 1995
SURFISTINHA, Bruna. O doce veneno do escorpião. São Paulo: Panda Books. 2005.
Não há epifania mais fecunda, eu acho.
Percebo, entretanto, neste universo erótico - talvez por ignorância de minha parte, falta de acesso ou, realmente, de produção discursiva feminina - a irritante presença hegemônica do homem.
Às mulheres - e, especificamente, às brasileiras -, excetuando umas poucas literatas ilustres, temos reservadas as páginas de revista masculina e folhinhas de borracharia, razão pela qual tive em mais alta conta a prostituta escritora Bruna Surfistinha antes mesmo de ler, em duas horas e meia, a versão digital em PDF, que me fora enviada por correio eletrônico, de seu "Doce veneno do escorpião".
Anticlímax.
Não encontro melhor definição para o livrinho ao qual me refiro.
Nada mais há a ser dito sobre as confissões duma prostituta na pós-adolescência que se mandou da casa dos pais depois de arrancar toda a grana dos velhos para convert ê-la em pó, trabalhou em bordel de altíssima rotatividade, não tem papas na língua para descrever, nos mínimos detalhes, os meandros mais íntimos do sexo comercial e, no entanto, utiliza reticências para evitar a escrita por extenso da palavra "CU".
Alguém diz: ‘tá pegando no pé da moça; qual é o problema de usar três pontinhos no ânus?
Respondo já: o problema é que puta desse naipe com medo de escrever cu não cola, a menos que não seja alfabetizada. Sendo, é inverossímil.
Cheguei à conclusão de que a Bruna Surfistinha não existe fora da biografia: tenho certeza de que é invenção de algum fã do José de Alencar decidido a dar voz à "Lucíola" após a derrubada das torres gêmeas porque, afinal, nem a Madre Teresa de Calcutá era tão carola.
‘A tomá no c...
Referências:
ALENCAR, José de. Lucíola. São Paulo: Ática. 19ª ed. 1995
SURFISTINHA, Bruna. O doce veneno do escorpião. São Paulo: Panda Books. 2005.
Milton Hatoum: "Pátria é a língua e a infância"
Milton Hatoum é o escritor brasileiro mais comentado do momento. Desde sua estréia - com o romance Relato de Um Certo Oriente (Cia. das Letras, 1989) - vem atraindo olhares atentos da crítica literária. Conversei com o escritor na ocasião do lançamento de seu mais recente romance, Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 2008), na Livraria Saraiva, em Campinas. Leia a entrevista a Bruno Ribeiro, da redação.
Por Bruno Ribeiro
Milton Hatoum é o escritor brasileiro mais comentado do momento. Desde sua estréia - com o romance Relato de Um Certo Oriente (Cia. das Letras, 1989) - vem atraindo olhares atentos da crítica literária. Mas é com seu segundo livro - Dois Irmãos (Cia. das Letras, 2000) - que o autor amazonense, nascido em Manaus, começou a obter o reconhecimento do leitor comum. Filho de pai libanês e mãe brasileira, Hatoum combina em sua obra referências da cultura árabe e indígena. Partes do universo da infância do menino que não via TV e sonhava ser escritor por causa do avô, um contador de histórias que o remetia à um mundo mágico, mas real: a Amazônia.
Durante muitos anos, Milton Hatoum, 56, foi professor de Língua e Literatura Francesa na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. Porém, sentindo a necessidade de alavancar a carreira, mudou-se para São Paulo, onde achou a consagração definitiva com Cinzas do Norte (Cia. das Letras, 2005). Traduzido para várias línguas e comercializado em diversos países, o romance permitiu que o autor pudesse viver exclusivamente de sua literatura. Poucos no Brasil usufruem, atualmente, do reconhecimento e do prestígio de Hatoum. Conversei com o escritor na ocasião do lançamento de seu mais recente romance, Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 2008), na Livraria Saraiva, em Campinas.
Bruno Ribeiro - Em uma entrevista, o senhor chegou a citar seu avô como o responsável por seu gosto pela literatura. De que maneira ele exerceu esta influência?
Milton Hatoum - Meu avô foi a biblioteca oral da minha infância. Meu primeiro livro lido, na verdade, foi um livro ouvido. Nunca conheci ninguém que contasse histórias tão bem como ele. Certamente a minha infância teria sido mais pobre sem meu avô. Eu estava na Espanha quando ele morreu e só então, quando soube de sua morte, me dei conta da importância que ele tinha sobre minha formação.
Como foi a sua infância em Manaus?
Tive a sorte de ter passado a infância em uma cidade onde não havia TV. Para quem quer escrever, para quem sonha em ser escritor, é uma vantagem imensa não ter TV em casa. Fui uma criança simples, como todas as crianças daquela região. Mas considero que minha infância foi muito rica. Tive a possibilidade de conviver com todo o tipo de gente e de cultura. De minha família ouvia histórias da Síria, do Líbano... Manaus era uma cidade que recebia muitos estrangeiros - sobretudo imigrantes árabes, judeus marroquinos, portugueses. Sem falar na forte tradição indígena. Tudo isso estimulou a minha imaginação.
É comum que seu nome apareça associado à cultura árabe no Brasil. O senhor se considera um escritor brasileiro?
Quanto a isso, deixe-me dizer uma coisa. No lançamento do meu primeiro romance nos Estados Unidos, colocaram um cartaz me apresentando como autor líbano-brasileiro. Comecei dizendo: ‘Olha, isso não faz sentido no Brasil, vocês podem tirar isso aí’. Até o meu pai, que era libanês, se sentia brasileiro. Quando chegou ao Brasil, o pai quis que os filhos falassem português. Porque, para ele, a pátria era a língua. Eu diria mais: é a língua e a infância. Eu falo português e as recordações da minha infância são amazônicas. Só posso ser brasileiro.
Como sua família se integrou à cultura da Amazônia? Não houve um estranhamento inicial?
A partir do momento em que você deixa sua terra para tentar a vida em outro país, você tem que se adaptar. Ou você se integra à nova realidade ou você é engolido por ela. Meu pai se manteve fiel à religião árabe, mas sabia que não poderia exigir o mesmo dos filhos. Mas é impressionante a capacidade que tem o Brasil de absorver outras culturas e transformá-las. A Amazônia é onde isso acontece com mais ênfase. Lá os nativos continuam se casando com imigrantes há 500 anos, numa fusão absolutamente saudável de culturas. Nós já superamos a questão das imigrações há muito tempo. Essa questão que tanto incomoda a Europa e os Estados Unidos, nós já superamos. A gente não está preocupado se a mistura de um caboclo com um alemão vai dar certo. Nosso problema é outro.
E quais são os grandes problemas que o Brasil precisa resolver?
Todo mundo sabe quais são os problemas do Brasil: a favela, a violência, a saúde, a falta de escolaridade do povo, a corrupção das instituições... Enfim, as necessidades básicas que não são atendidas. Quando resolvermos estes problemas que tanto nos envergonham, você não tenha dúvidas, seremos uma grande nação. Porque estamos à frente do resto do mundo em uma série de coisas, como na miscigenação. Nos Estados Unidos, a mistura é tratada como choque de civilizações. Aqui a coisa é resolvida na cama ou no botequim. O milagre brasileiro, eu diria, é a assimilação muito rápida das imigrações, a diluição das origens e das identidades.
O senhor acredita que a sua literatura pode ter alguma responsabilidade política ou social?
Não vejo um sentido missionário na literatura como um todo, embora haja escritores que acreditem nisso. Eu respeito quem pensa diferente, mas não acho que a literatura seja uma missão ou deva cumprir um papel político. A literatura é apenas uma forma de conhecimento. É uma forma de indagação da realidade. Ela cria um universo ficcional para questionar a realidade. A literatura é uma forma de conhecer a si mesmo e ao outro. Nesse sentido, ela pode ter alguma função social.
O senhor diz que o maior mistério da literatura é o leitor. Por quê?
Porque a gente desconhece completamente o leitor. Mente quem diz o contrário. Quando publiquei um livro de poesia, em 1978, eu sabia exatamente quem eram os meus leitores: minha mãe, meu pai e oito amigos (risos). Hoje não. Eu sou lido em todo o Brasil e em outros países também. E sempre me impressiono com as pessoas que vêm falar comigo. Viajo aos lugares mais pobres e afastados do país e sempre aparece alguém dizendo que leu o meu livro. O Brasil mudou muito nestes últimos anos. Engana-se quem pensa que o pobre continua sendo aquele coitadinho que não tem acesso à informação e à leitura.
Como o senhor explica o fato de ser um dos autores mais lidos entre o público acadêmico e ser reconhecido também pelo leitor comum?
A gente tem o péssimo costume de subestimar o povo brasileiro. Dizemos que o povo não gosta de ler. Mas é aí que a gente se engana. Dois Irmãos conquistou o público acadêmico, mas também pegou o leitor comum porque conta uma história parecida com a história de muitos de nós. As pessoas não estão percebendo que há uma massa de brasileiros despossuídos com acesso à internet e cartão de crédito. Essas pessoas não estão mais esperando que alguém lhes explique as coisas. Estão indo atrás do conhecimento, comprando livros pelo computador, correndo atrás do prejuízo. Tenho notado que, nos últimos seis ou sete anos, que coincidem com o governo do Lula, o leitor brasileiro deixou de ser o cara de classe média alta.
Por que o senhor tomou a decisão de sair de Manaus e se mudar para São Paulo?
Há cerca de oito anos, minha vida começou a andar para trás. Estava tudo errado. Nada mais estava acontecendo de positivo na minha vida e eu resolvi vir para o Sudeste. São Paulo me libertou, porque minha vida de escritor começou quando cheguei aqui, em 2000. A mudança teve uma razão muito pessoal e objetiva, não saí rompido com nada ou ninguém. Continuo gostando de Manaus do mesmo jeito.
O senhor está vivendo exclusivamente de literatura?
Hoje sim. Comecei a viver de literatura com Dois Irmãos. Eu sempre fui pessimista, achava que ia ser um desastre, que ninguém ia ler o meu livro. Aí o meu editor (Luiz Schwartz) apostou comigo que o romance alcançaria um público considerável no Brasil, que eu poderia deixar as aulas na universidade e, finalmente, ser apenas escritor. Paguei para ver e perdi a aposta, porque o livro bateu recordes de venda, foi adotado em escolas e universidades e traduzido para outras línguas. Para os padrões brasileiros, 50 mil exemplares vendidos é um número excelente. Os editores acham muita coisa. Eu acho um exagero.
Por Bruno RibeiroMilton Hatoum é o escritor brasileiro mais comentado do momento. Desde sua estréia - com o romance Relato de Um Certo Oriente (Cia. das Letras, 1989) - vem atraindo olhares atentos da crítica literária. Mas é com seu segundo livro - Dois Irmãos (Cia. das Letras, 2000) - que o autor amazonense, nascido em Manaus, começou a obter o reconhecimento do leitor comum. Filho de pai libanês e mãe brasileira, Hatoum combina em sua obra referências da cultura árabe e indígena. Partes do universo da infância do menino que não via TV e sonhava ser escritor por causa do avô, um contador de histórias que o remetia à um mundo mágico, mas real: a Amazônia.
Durante muitos anos, Milton Hatoum, 56, foi professor de Língua e Literatura Francesa na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. Porém, sentindo a necessidade de alavancar a carreira, mudou-se para São Paulo, onde achou a consagração definitiva com Cinzas do Norte (Cia. das Letras, 2005). Traduzido para várias línguas e comercializado em diversos países, o romance permitiu que o autor pudesse viver exclusivamente de sua literatura. Poucos no Brasil usufruem, atualmente, do reconhecimento e do prestígio de Hatoum. Conversei com o escritor na ocasião do lançamento de seu mais recente romance, Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 2008), na Livraria Saraiva, em Campinas.
Bruno Ribeiro - Em uma entrevista, o senhor chegou a citar seu avô como o responsável por seu gosto pela literatura. De que maneira ele exerceu esta influência?
Milton Hatoum - Meu avô foi a biblioteca oral da minha infância. Meu primeiro livro lido, na verdade, foi um livro ouvido. Nunca conheci ninguém que contasse histórias tão bem como ele. Certamente a minha infância teria sido mais pobre sem meu avô. Eu estava na Espanha quando ele morreu e só então, quando soube de sua morte, me dei conta da importância que ele tinha sobre minha formação.
Como foi a sua infância em Manaus?
Tive a sorte de ter passado a infância em uma cidade onde não havia TV. Para quem quer escrever, para quem sonha em ser escritor, é uma vantagem imensa não ter TV em casa. Fui uma criança simples, como todas as crianças daquela região. Mas considero que minha infância foi muito rica. Tive a possibilidade de conviver com todo o tipo de gente e de cultura. De minha família ouvia histórias da Síria, do Líbano... Manaus era uma cidade que recebia muitos estrangeiros - sobretudo imigrantes árabes, judeus marroquinos, portugueses. Sem falar na forte tradição indígena. Tudo isso estimulou a minha imaginação.
É comum que seu nome apareça associado à cultura árabe no Brasil. O senhor se considera um escritor brasileiro?
Quanto a isso, deixe-me dizer uma coisa. No lançamento do meu primeiro romance nos Estados Unidos, colocaram um cartaz me apresentando como autor líbano-brasileiro. Comecei dizendo: ‘Olha, isso não faz sentido no Brasil, vocês podem tirar isso aí’. Até o meu pai, que era libanês, se sentia brasileiro. Quando chegou ao Brasil, o pai quis que os filhos falassem português. Porque, para ele, a pátria era a língua. Eu diria mais: é a língua e a infância. Eu falo português e as recordações da minha infância são amazônicas. Só posso ser brasileiro.
Como sua família se integrou à cultura da Amazônia? Não houve um estranhamento inicial?
A partir do momento em que você deixa sua terra para tentar a vida em outro país, você tem que se adaptar. Ou você se integra à nova realidade ou você é engolido por ela. Meu pai se manteve fiel à religião árabe, mas sabia que não poderia exigir o mesmo dos filhos. Mas é impressionante a capacidade que tem o Brasil de absorver outras culturas e transformá-las. A Amazônia é onde isso acontece com mais ênfase. Lá os nativos continuam se casando com imigrantes há 500 anos, numa fusão absolutamente saudável de culturas. Nós já superamos a questão das imigrações há muito tempo. Essa questão que tanto incomoda a Europa e os Estados Unidos, nós já superamos. A gente não está preocupado se a mistura de um caboclo com um alemão vai dar certo. Nosso problema é outro.
E quais são os grandes problemas que o Brasil precisa resolver?
Todo mundo sabe quais são os problemas do Brasil: a favela, a violência, a saúde, a falta de escolaridade do povo, a corrupção das instituições... Enfim, as necessidades básicas que não são atendidas. Quando resolvermos estes problemas que tanto nos envergonham, você não tenha dúvidas, seremos uma grande nação. Porque estamos à frente do resto do mundo em uma série de coisas, como na miscigenação. Nos Estados Unidos, a mistura é tratada como choque de civilizações. Aqui a coisa é resolvida na cama ou no botequim. O milagre brasileiro, eu diria, é a assimilação muito rápida das imigrações, a diluição das origens e das identidades.
O senhor acredita que a sua literatura pode ter alguma responsabilidade política ou social?
Não vejo um sentido missionário na literatura como um todo, embora haja escritores que acreditem nisso. Eu respeito quem pensa diferente, mas não acho que a literatura seja uma missão ou deva cumprir um papel político. A literatura é apenas uma forma de conhecimento. É uma forma de indagação da realidade. Ela cria um universo ficcional para questionar a realidade. A literatura é uma forma de conhecer a si mesmo e ao outro. Nesse sentido, ela pode ter alguma função social.
O senhor diz que o maior mistério da literatura é o leitor. Por quê?
Porque a gente desconhece completamente o leitor. Mente quem diz o contrário. Quando publiquei um livro de poesia, em 1978, eu sabia exatamente quem eram os meus leitores: minha mãe, meu pai e oito amigos (risos). Hoje não. Eu sou lido em todo o Brasil e em outros países também. E sempre me impressiono com as pessoas que vêm falar comigo. Viajo aos lugares mais pobres e afastados do país e sempre aparece alguém dizendo que leu o meu livro. O Brasil mudou muito nestes últimos anos. Engana-se quem pensa que o pobre continua sendo aquele coitadinho que não tem acesso à informação e à leitura.
Como o senhor explica o fato de ser um dos autores mais lidos entre o público acadêmico e ser reconhecido também pelo leitor comum?
A gente tem o péssimo costume de subestimar o povo brasileiro. Dizemos que o povo não gosta de ler. Mas é aí que a gente se engana. Dois Irmãos conquistou o público acadêmico, mas também pegou o leitor comum porque conta uma história parecida com a história de muitos de nós. As pessoas não estão percebendo que há uma massa de brasileiros despossuídos com acesso à internet e cartão de crédito. Essas pessoas não estão mais esperando que alguém lhes explique as coisas. Estão indo atrás do conhecimento, comprando livros pelo computador, correndo atrás do prejuízo. Tenho notado que, nos últimos seis ou sete anos, que coincidem com o governo do Lula, o leitor brasileiro deixou de ser o cara de classe média alta.
Por que o senhor tomou a decisão de sair de Manaus e se mudar para São Paulo?
Há cerca de oito anos, minha vida começou a andar para trás. Estava tudo errado. Nada mais estava acontecendo de positivo na minha vida e eu resolvi vir para o Sudeste. São Paulo me libertou, porque minha vida de escritor começou quando cheguei aqui, em 2000. A mudança teve uma razão muito pessoal e objetiva, não saí rompido com nada ou ninguém. Continuo gostando de Manaus do mesmo jeito.
O senhor está vivendo exclusivamente de literatura?
Hoje sim. Comecei a viver de literatura com Dois Irmãos. Eu sempre fui pessimista, achava que ia ser um desastre, que ninguém ia ler o meu livro. Aí o meu editor (Luiz Schwartz) apostou comigo que o romance alcançaria um público considerável no Brasil, que eu poderia deixar as aulas na universidade e, finalmente, ser apenas escritor. Paguei para ver e perdi a aposta, porque o livro bateu recordes de venda, foi adotado em escolas e universidades e traduzido para outras línguas. Para os padrões brasileiros, 50 mil exemplares vendidos é um número excelente. Os editores acham muita coisa. Eu acho um exagero.
Woodstock/40 anos: éramos crianças, brincando no paraíso
Faz muito tempo que um ano não começa de forma tão deprimente. O baixo astral é tamanho que a imprensa brasileira está esquecendo de registrar que, em 2009, serão comemorados os 40 anos de um dos acontecimentos mais alentadores do século passado: o Festival de Música e Artes de Woodstock. A análise é de Celso Lungaretti, clique no título para ler.
Milton Hatoum: "Pátria é a língua e a infância"
Por Bruno RibeiroMilton Hatoum é o escritor brasileiro mais comentado do momento. Desde sua estréia - com o romance Relato de Um Certo Oriente (Cia. das Letras, 1989) - vem atraindo olhares atentos da crítica literária. Mas é com seu segundo livro - Dois Irmãos (Cia. das Letras, 2000) - que o autor amazonense, nascido em Manaus, começou a obter o reconhecimento do leitor comum. Filho de pai libanês e mãe brasileira, Hatoum combina em sua obra referências da cultura árabe e indígena. Partes do universo da infância do menino que não via TV e sonhava ser escritor por causa do avô, um contador de histórias que o remetia à um mundo mágico, mas real: a Amazônia.
Durante muitos anos, Milton Hatoum, 56, foi professor de Língua e Literatura Francesa na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. Porém, sentindo a necessidade de alavancar a carreira, mudou-se para São Paulo, onde achou a consagração definitiva com Cinzas do Norte (Cia. das Letras, 2005). Traduzido para várias línguas e comercializado em diversos países, o romance permitiu que o autor pudesse viver exclusivamente de sua literatura. Poucos no Brasil usufruem, atualmente, do reconhecimento e do prestígio de Hatoum. Conversei com o escritor na ocasião do lançamento de seu mais recente romance, Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 2008), na Livraria Saraiva, em Campinas.
Bruno Ribeiro - Em uma entrevista, o senhor chegou a citar seu avô como o responsável por seu gosto pela literatura. De que maneira ele exerceu esta influência?
Milton Hatoum - Meu avô foi a biblioteca oral da minha infância. Meu primeiro livro lido, na verdade, foi um livro ouvido. Nunca conheci ninguém que contasse histórias tão bem como ele. Certamente a minha infância teria sido mais pobre sem meu avô. Eu estava na Espanha quando ele morreu e só então, quando soube de sua morte, me dei conta da importância que ele tinha sobre minha formação.
Como foi a sua infância em Manaus?
Tive a sorte de ter passado a infância em uma cidade onde não havia TV. Para quem quer escrever, para quem sonha em ser escritor, é uma vantagem imensa não ter TV em casa. Fui uma criança simples, como todas as crianças daquela região. Mas considero que minha infância foi muito rica. Tive a possibilidade de conviver com todo o tipo de gente e de cultura. De minha família ouvia histórias da Síria, do Líbano... Manaus era uma cidade que recebia muitos estrangeiros - sobretudo imigrantes árabes, judeus marroquinos, portugueses. Sem falar na forte tradição indígena. Tudo isso estimulou a minha imaginação.
É comum que seu nome apareça associado à cultura árabe no Brasil. O senhor se considera um escritor brasileiro?
Quanto a isso, deixe-me dizer uma coisa. No lançamento do meu primeiro romance nos Estados Unidos, colocaram um cartaz me apresentando como autor líbano-brasileiro. Comecei dizendo: ‘Olha, isso não faz sentido no Brasil, vocês podem tirar isso aí’. Até o meu pai, que era libanês, se sentia brasileiro. Quando chegou ao Brasil, o pai quis que os filhos falassem português. Porque, para ele, a pátria era a língua. Eu diria mais: é a língua e a infância. Eu falo português e as recordações da minha infância são amazônicas. Só posso ser brasileiro.
Como sua família se integrou à cultura da Amazônia? Não houve um estranhamento inicial?
A partir do momento em que você deixa sua terra para tentar a vida em outro país, você tem que se adaptar. Ou você se integra à nova realidade ou você é engolido por ela. Meu pai se manteve fiel à religião árabe, mas sabia que não poderia exigir o mesmo dos filhos. Mas é impressionante a capacidade que tem o Brasil de absorver outras culturas e transformá-las. A Amazônia é onde isso acontece com mais ênfase. Lá os nativos continuam se casando com imigrantes há 500 anos, numa fusão absolutamente saudável de culturas. Nós já superamos a questão das imigrações há muito tempo. Essa questão que tanto incomoda a Europa e os Estados Unidos, nós já superamos. A gente não está preocupado se a mistura de um caboclo com um alemão vai dar certo. Nosso problema é outro.
E quais são os grandes problemas que o Brasil precisa resolver?
Todo mundo sabe quais são os problemas do Brasil: a favela, a violência, a saúde, a falta de escolaridade do povo, a corrupção das instituições... Enfim, as necessidades básicas que não são atendidas. Quando resolvermos estes problemas que tanto nos envergonham, você não tenha dúvidas, seremos uma grande nação. Porque estamos à frente do resto do mundo em uma série de coisas, como na miscigenação. Nos Estados Unidos, a mistura é tratada como choque de civilizações. Aqui a coisa é resolvida na cama ou no botequim. O milagre brasileiro, eu diria, é a assimilação muito rápida das imigrações, a diluição das origens e das identidades.
O senhor acredita que a sua literatura pode ter alguma responsabilidade política ou social?
Não vejo um sentido missionário na literatura como um todo, embora haja escritores que acreditem nisso. Eu respeito quem pensa diferente, mas não acho que a literatura seja uma missão ou deva cumprir um papel político. A literatura é apenas uma forma de conhecimento. É uma forma de indagação da realidade. Ela cria um universo ficcional para questionar a realidade. A literatura é uma forma de conhecer a si mesmo e ao outro. Nesse sentido, ela pode ter alguma função social.
O senhor diz que o maior mistério da literatura é o leitor. Por quê?
Porque a gente desconhece completamente o leitor. Mente quem diz o contrário. Quando publiquei um livro de poesia, em 1978, eu sabia exatamente quem eram os meus leitores: minha mãe, meu pai e oito amigos (risos). Hoje não. Eu sou lido em todo o Brasil e em outros países também. E sempre me impressiono com as pessoas que vêm falar comigo. Viajo aos lugares mais pobres e afastados do país e sempre aparece alguém dizendo que leu o meu livro. O Brasil mudou muito nestes últimos anos. Engana-se quem pensa que o pobre continua sendo aquele coitadinho que não tem acesso à informação e à leitura.
Como o senhor explica o fato de ser um dos autores mais lidos entre o público acadêmico e ser reconhecido também pelo leitor comum?
A gente tem o péssimo costume de subestimar o povo brasileiro. Dizemos que o povo não gosta de ler. Mas é aí que a gente se engana. Dois Irmãos conquistou o público acadêmico, mas também pegou o leitor comum porque conta uma história parecida com a história de muitos de nós. As pessoas não estão percebendo que há uma massa de brasileiros despossuídos com acesso à internet e cartão de crédito. Essas pessoas não estão mais esperando que alguém lhes explique as coisas. Estão indo atrás do conhecimento, comprando livros pelo computador, correndo atrás do prejuízo. Tenho notado que, nos últimos seis ou sete anos, que coincidem com o governo do Lula, o leitor brasileiro deixou de ser o cara de classe média alta.
Por que o senhor tomou a decisão de sair de Manaus e se mudar para São Paulo?
Há cerca de oito anos, minha vida começou a andar para trás. Estava tudo errado. Nada mais estava acontecendo de positivo na minha vida e eu resolvi vir para o Sudeste. São Paulo me libertou, porque minha vida de escritor começou quando cheguei aqui, em 2000. A mudança teve uma razão muito pessoal e objetiva, não saí rompido com nada ou ninguém. Continuo gostando de Manaus do mesmo jeito.
O senhor está vivendo exclusivamente de literatura?
Hoje sim. Comecei a viver de literatura com Dois Irmãos. Eu sempre fui pessimista, achava que ia ser um desastre, que ninguém ia ler o meu livro. Aí o meu editor (Luiz Schwartz) apostou comigo que o romance alcançaria um público considerável no Brasil, que eu poderia deixar as aulas na universidade e, finalmente, ser apenas escritor. Paguei para ver e perdi a aposta, porque o livro bateu recordes de venda, foi adotado em escolas e universidades e traduzido para outras línguas. Para os padrões brasileiros, 50 mil exemplares vendidos é um número excelente. Os editores acham muita coisa. Eu acho um exagero.
Sem vacilo, a Vila faz bonito
O curta "Feitiço da Vila", que vale a pena, tem quase 5 minutos e foi dirigido por Robson de Oliveira, em novembro de 2004. Faz um panorama rápido desde janeiro de 1872, quando nasce oficialmente o bairro. A Corte mantinha uma fazenda com escravos na região, a Fazenda dos Macacos, mas surge lá boa parte da resistência negra. Leia a resenha de Gustavo Barreto, da redação.
Faz um panorama rápido desde janeiro de 1872, quando nasce oficialmente o bairro. A Corte mantinha uma fazenda com escravos na região, a Fazenda dos Macacos, mas surge lá boa parte da resistência negra.
Foi palco de diversos movimentos abolicionistas, confirmando desde o começo a tradição de luta por justiça social. Enquanto outros bairros mantêm hoje muitos generais e senhores de terra nos nomes de ruas, Vila Isabel possui uma grande quantidade de abolicionistas homenageados (Visconde de Abaeté, Souza Franco, Torres Homem, Hipólito da Costa, Luis Barbosa, entre outros).
Dizem que os franceses passaram pela Avenida Boulevard 28 de Setembro quando invadiram a cidade em 1710 - invasões de Duclerc e de Duguay-Trouin, esta um ano depois.
Aqui já funcionou a extinta TV Guanabara (canal 9) - antes TV Continental, na verdade, que mudara para Vila Isabel depois de ser despejada em 1970. Passou a transmitir de um caminhão de externas e, em 1971, mudou para a Av. 28 de Setembro, número 258. Com muito esforço, resistiu com duas horas diárias de programação, realizadas pela equipe do Instituto de Educação de Alfredina de Paiva e Sousa. Teve a concessão cassada em fevereiro de 1972.
"Feitiço da Vila", nome emprestado ao curta, é um dos melhores sambas de todos os tempos. Para mim, claro, é o maior.
A emoção que dá ao ouvir "Sol, pelo o amor de Deus não venha agora, que as morenas vão logo embora" é indescritível. Como na letra, São Paulo dá café, Minas dá leite e Vila Isabel dá samba.
Robson participou também do roteiro, texto (com Lúcia Marapodi), fotografia e, de quebra, fez a narração. No samba: "(...) tenho que dizer, modéstia à parte, meus senhores eu sou da Vila".
Uma reportagem na Rede Globo parece confirmar esta crença, já que é a única imagem que eles utilizam em um VT sobre o compositor.
Com Vadico e Francisco Alves, fez o clássico "Conversa de botequim", gravado em 1935 e relançado em 1950. Chico Buarque regravou e ficou ótimo.
No entanto, quem nasce aqui sabe que o valor do bairro está acima de qualquer problema temporário - por pior que seja. Com muita criatividade, samba e resistência, o bairro está unido e não vacila.
O curta "Feitiço da Vila", que vale a pena, tem quase 5 minutos e foi dirigido por Robson de Oliveira, em novembro de 2004. É apenas uma síntese, já que a História de Vila Isabel dá um longa, no entanto não deixa de ser interessante. O autor promete mais. A produção é do Canal Futura.
Faz um panorama rápido desde janeiro de 1872, quando nasce oficialmente o bairro. A Corte mantinha uma fazenda com escravos na região, a Fazenda dos Macacos, mas surge lá boa parte da resistência negra.
Foi palco de diversos movimentos abolicionistas, confirmando desde o começo a tradição de luta por justiça social. Enquanto outros bairros mantêm hoje muitos generais e senhores de terra nos nomes de ruas, Vila Isabel possui uma grande quantidade de abolicionistas homenageados (Visconde de Abaeté, Souza Franco, Torres Homem, Hipólito da Costa, Luis Barbosa, entre outros).
Dizem que os franceses passaram pela Avenida Boulevard 28 de Setembro quando invadiram a cidade em 1710 - invasões de Duclerc e de Duguay-Trouin, esta um ano depois.
Aqui já funcionou a extinta TV Guanabara (canal 9) - antes TV Continental, na verdade, que mudara para Vila Isabel depois de ser despejada em 1970. Passou a transmitir de um caminhão de externas e, em 1971, mudou para a Av. 28 de Setembro, número 258. Com muito esforço, resistiu com duas horas diárias de programação, realizadas pela equipe do Instituto de Educação de Alfredina de Paiva e Sousa. Teve a concessão cassada em fevereiro de 1972.
Braguinha, Nei Lopes, Pixinguinha, Noel Rosa e Martinho da Vila são alguns dos craques da poesia que já passaram e ainda passam pelo bairro. Noel, claro, é o mais lembrado. E não é à toa. Nasceu, viveu e morreu aqui, sempre na mesma casa, por 26 anos.
"Feitiço da Vila", nome emprestado ao curta, é um dos melhores sambas de todos os tempos. Para mim, claro, é o maior.
A emoção que dá ao ouvir "Sol, pelo o amor de Deus não venha agora, que as morenas vão logo embora" é indescritível. Como na letra, São Paulo dá café, Minas dá leite e Vila Isabel dá samba.
Robson participou também do roteiro, texto (com Lúcia Marapodi), fotografia e, de quebra, fez a narração. No samba: "(...) tenho que dizer, modéstia à parte, meus senhores eu sou da Vila".
Dê uma olhada na única imagem em movimento de Noel Rosa, pelo que se comenta.
Uma reportagem na Rede Globo parece confirmar esta crença, já que é a única imagem que eles utilizam em um VT sobre o compositor.
O Quinteto Levapalavá interpreta Noel e divulgou no YouTube a simpática Tipo Zero.
Com Vadico e Francisco Alves, fez o clássico "Conversa de botequim", gravado em 1935 e relançado em 1950. Chico Buarque regravou e ficou ótimo.
Sem esquecer, claro, que nos últimos anos se intensificaram os conflitos entre traficantes, policiais militares e milicianos (ex-policiais e policiais corruptos). Para o pessoal da favela, o cenário é mais violento.
No entanto, quem nasce aqui sabe que o valor do bairro está acima de qualquer problema temporário - por pior que seja. Com muita criatividade, samba e resistência, o bairro está unido e não vacila.
If I need someone
Poema, refiere Beatles, George Harrison vestido de blanco, cantando con los cuatro de Liverpool, en recuerdo de los años 1962, años en que ellos, Los Beatles, nos hicieron posibles. Por Rolando Lazarte. Leia mais.
Un solo Beatle vino a visitarme.
Fue George, bailando con los cuatro, los cuatro vestidos de blanco.
Una honra para mí, que los amé sin saber lo que es amor, desde 1962, cuando escuché Twist y gritos, en el colegio Leo Bovisio anexo.
If I need someone, escucho hoy. María ama esta canción. Yo la amo. La canción y María.
If I need someone.
Palabras clave: Beatles, años 1962. Canciones, sueños sentimientos.
Un solo Beatle vino a visitarme.
Fue George, bailando con los cuatro, los cuatro vestidos de blanco.
Una honra para mí, que los amé sin saber lo que es amor, desde 1962, cuando escuché Twist y gritos, en el colegio Leo Bovisio anexo.
If I need someone, escucho hoy. María ama esta canción. Yo la amo. La canción y María.
If I need someone.
Palabras clave: Beatles, años 1962. Canciones, sueños sentimientos.
Prenúncio VII – Epílogo.
“Prenúncio!” está dividido em seis prenúncios e o epílogo. Divulgaremos um por semana neste mesmo espaço. Todos estão reunidos no marcador abaixo. Poema de Roberto Peixoto, poeta popular
_______________________________________
www.consciencia.net
Eu vi o homem em seu ápice.
E vi que um dia Deus o consagrava a vitória final:
Meu filho,
nada fizestes de errado.
Fui eu quem o fiz assim.
Se eu quisesse que soubessem a fórmula da verdade desde o início,
eu não teria te dado a inteligência para descobrires o caminho por si mesmo.
E vi que um dia Deus o consagrava a vitória final:
Meu filho,
nada fizestes de errado.
Fui eu quem o fiz assim.
Se eu quisesse que soubessem a fórmula da verdade desde o início,
eu não teria te dado a inteligência para descobrires o caminho por si mesmo.
(*) O poeta popular Roberto Peixoto costuma ser visto na Lapa. Colabora com a Revista Consciência.Net desde 2005. Participa também do “Corujão da Poesia”, que acontece todas as terças-feiras, de meia-noite em diante, na livraria Letras e Expressões do Leblon. Contato: poetapeixoto@yahoo.com.br
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Prenúncio VII – Epílogo.
“Prenúncio!” está dividido em seis prenúncios e o epílogo. Divulgaremos um por semana neste mesmo espaço. Todos estão reunidos no marcador abaixo. Poema de Roberto Peixoto, poeta popular. Leia mais.
Eu vi o homem em seu ápice.
E vi que um dia Deus o consagrava a vitória final:
- Meu filho,
nada fizestes de errado.
Fui eu quem o fiz assim.
Se eu quisesse que soubessem a fórmula da verdade desde o início,
eu não teria te dado a inteligência para descobrires o caminho por si mesmo.
E vi que um dia Deus o consagrava a vitória final:
- Meu filho,
nada fizestes de errado.
Fui eu quem o fiz assim.
Se eu quisesse que soubessem a fórmula da verdade desde o início,
eu não teria te dado a inteligência para descobrires o caminho por si mesmo.
(*) O poeta popular Roberto Peixoto costuma ser visto na Lapa. Colabora com a Revista Consciência.Net desde 2005. Participa também do “Corujão da Poesia”, que acontece todas as terças-feiras, de meia-noite em diante, na livraria Letras e Expressões do Leblon. Contato: poetapeixoto@yahoo.com.br
Roberto Peixoto: Prenúncio VI
“Prenúncio!” está dividido em seis prenúncios e o epílogo. Divulgaremos um por semana neste mesmo espaço. Todos estão reunidos no marcador abaixo. Poema de Roberto Peixoto, poeta popular. Leia mais.
Eu vi o homem atravessando todas as barreiras.
Inclusive as que separam o mundo dos humanos vivos,
e o mundo dos humanos mortos.
E que comercializavam essas viagens.
Tanto para o mundo dos vivos,
como para o mundo dos mortos.
Com um detalhe.
haviam contratos de ida e volta,
com o tempo previsto de viagem e permanência,
e tudo dentro da lei e da ordem.
Mas que mesmo assim ainda clamavam os humanos:
Oh Deus,
o que foi que eu fiz de errado?
(*) O poeta popular Roberto Peixoto costuma ser visto na Lapa. Colabora com a Revista Consciência.Net desde 2005. Participa também do “Corujão da Poesia”, que acontece todas as terças-feiras, de meia-noite em diante, na livraria Letras e Expressões do Leblon. Contato: poetapeixoto@yahoo.com.br
Roberto Peixoto: Prenúncio V
“Prenúncio!” está dividido em seis prenúncios e o epílogo. Divulgaremos um por semana neste mesmo espaço. Todos estão reunidos no marcador abaixo. Poema de Roberto Peixoto, poeta popular.
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Mostrou para a classe trabalhadora que o teatro pode ser uma arma revolucionária a serviço da emancipação humana.
Aprendeu, no contato direto com os combatentes das Ligas Camponesas, que só o teatro não faz revolução. Quantas vezes contou nos teus livros e em nossos encontros de teu aprendizado com Virgílio, o líder camponês que te fez observar que na luta de classes todos tem que correr o mesmo risco.
Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta.
Na ditadura, foi preso, torturado e exilado. No contra-ataque, desenvolveu o Teatro do Oprimido, com diversas táticas de combate e educação por meio do teatro, que hoje fazemos uso em nossas escolas do campo, em nossos acampamentos e assentamentos, e no trabalho de formação política que desenvolvemos com as comunidades de periferia urbana.
Poucas pessoas no Brasil atravessaram décadas a fio sem mudar de posição política, sem abrandar o discurso, sem fazer concessões, sem jogar na lata de lixo da história a experiência revolucionária que se forjou no teatro brasileiro até seu esmagamento pela burguesia nacional e os militares, com o golpe militar de 1964.
Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao mesmo tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política.
Poucos artistas souberam evitar o poder sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se vendeu, não se calou.
Aprendemos contigo que um revolucionário deve lutar contra todas, absolutamente todas as formas de opressão. Contemporâneo de Che Guevara, soube como ninguém multiplicar o legado de que é preciso se indignar contra todo tipo de injustiça.
Poucos atacaram com tanta radicalidade as criminosas leis de incentivo fiscal para o financiamento da cultura brasileira. Você, companheiro, não se deixou seduzir pelos privilégios dos artistas renomados. Nos ensinou a mirar nos alvos certeiros.
Incansável, meio século depois de teus primeiros combates, propôs ao MST a formação de multiplicadores teatrais em nosso meio. Em 2001 criamos contigo, e com os demais companheiros e companheiras do Centro do Teatro do Oprimido, a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré. Você que na década de 1960 aprendeu com Virgílio que não basta o teatro dizer ao povo o que fazer, soube transferir os meios de produção da linguagem teatral para que nós, camponeses, façamos nosso próprio teatro, e por meio dele discutir nossos problemas e formular estratégias coletivas para a transformação social.
Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras. No que depender de nós, tua vida e tua luta não será esquecida e transformada em mercadoria.
O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de Teatro do Oprimido no mundo.
Dos companheiros e companheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
02 de maio de 2009