Iraque: 90 mil vidas a menos e lucros empresariais garantidos

Estudo publicado na última sexta (19) confirma que bairros sunitas de Bagdá apresentam sinais de “limpeza étnica”. Já os lucros, obtidos a partir de contratos sem concorrência pública, vão muito bem, obrigado. Por Gustavo Barreto.

Cerca de cinco anos e meio após a invasão estadunidense no Iraque, este país se encontra hoje destruído, dividido e, em parte, devastado em termos populacionais. Um estudo publicado na última sexta (19) confirma que bairros sunitas de Bagdá apresentam sinais de “limpeza étnica”, o que teria reduzido a violência sectária na região. As imagens de satélites dos bairros esvaziados foram captadas antes da chegada dos reforços de 30 mil militares dos EUA, em 2007. Os lucros, no entanto, vão muito bem, obrigado [leia mais abaixo].

Sem nenhum planejamento prévio, os EUA demoraram mais de 4 anos para enviar reforços para os bairros sunitas, cuja população estava sendo alvo prioritário de atentados. “[Quando os reforços chegaram] muitos dos alvos do conflito já haviam sido mortos ou fugido do país, e desligaram as luzes quando partiram”, disse em nota o professor de Geografia John Agnew, da Universidade da Califórnia, que dirigiu o estudo.

Quase 100 mil mortos

Em números oficiais (e, portanto, conservadores), de 87 mil a 95 mil civis foram assassinados no Iraque, em decorrência dos conflitos neste país. Os dados são da organização Iraq Body Count (1), cujo nome tem como base uma frase do general americano Tommy Franks durante uma das crises no país: “Nós não contamos corpos” (2). Em julho, foram 360 civis mortos.

Um dos mortos é o carioca Sérgio Vieira de Mello, diplomata da ONU e líder político experiente que buscou, juntamente com uma equipe treinada para atuar na região, ouvir os principais líderes locais. Segundo fontes da Casa Branca que trabalham na missão norte-americana em 2003 e 2004, o governo Bush ignorou praticamente todas as medidas administrativas aconselhadas por especialistas, como a não dissolução do Exército iraquiano, a não demissão de funcionários públicos e uma transição moderada do regime político de Saddam.

Pouco antes de morrer, em 19 de agosto de 2003, Sérgio Vieira de Mello – que era o chefe da missão da ONU no Iraque – estava sendo ignorado, segundo fontes do Pentágono, pelo diplomata e administrador da Autoridade Provisória da Coalizão, Paul Bremer, um dos principais responsáveis pela derrocada da invasão.

Os refugiados iraquianos totalizam 4 milhões, sendo 2 milhões internos e outros 2 milhões na Síria e na Jordânia, países vizinhos. “Nossas descobertas sugerem que essa onda [ações dos EUA] não teve um efeito observável, exceto no sentido de que ajudou a criar um selo de aprovação para um processo de homogeneização etno-sectária dos bairros que agora está largamente concluído”, escreveu o grupo de Agnew no relatório (3).

Segundo o estudo, em geral a iluminação noturna de Bagdá desde a invasão dos EUA parece ter melhorado entre 2003 e 2006, e então declinado dramaticamente entre 20 de março de 2006 e 16 de dezembro de 2007. Nesse período, as luzes da favela xiita de Sadr City continuaram constantes, assim como na Zona Verde (área central com órgãos públicos e embaixadas). Houve aumento também no bairro xiita de Nova Bagdá, na zona leste.

Imagens de satélites já foram usadas como documentação de deslocamentos forçados em Myanmar e limpeza étnica em Uganda.

Atualmente, segundo dados oficiais do Pentágono, quase 100 mil milicianos – de fato, membros e ex-membros da insurgência – foram contratados por 300 dólares por mês para “mudar de lado”. São funcionários do Pentágono e vigiam bairros que suas respectivas milícias dominam.

Invasão genocida

A Casa Branca iniciou um movimento oficial de invasão do Iraque em janeiro de 2003, convocando diversos oficiais da reserva que nem sequer tinham experiência em intervenções militares ou reconstrução de um país destruído. Passou por cima até mesmo do conservador Conselho de Segurança das Nações Unidas e, evidentemente, da Assembléia Geral da ONU, que reprovou formalmente a invasão. Inspetores da ONU concluíram que o Iraque não era, de forma alguma, uma ameaça à segurança de qualquer país vizinho e que não possuía armas de destruição em massa.

Até conservadora “inteligência” dos EUA – CIA, FBI e conselheiros da Casa Branca à frente – afirmaram que, caso fosse feita uma ação desta envergadura, era preciso planejamento. Em um movimento inédito, milhões de pessoas foram às ruas em todas as grandes cidades do mundo e pediram mais do que provas: exigiam um motivo. A Casa Branca falsificou um relatório com dados sobre a ligação da Al Qaeda de Osama Bin Laden e Saddam Hussein, bem como informações de satélite sobre supostas armas de destruição em massa que o Iraque possuiria.

Pouco antes do começo da invasão, no dia 19 de março de 2003, o ministro do Exterior do Iraque, Naji Sabri, deu um depoimento, já ciente do iminente ataque a seu país por parte do governo genocida de George W. Bush e Donald Rumsfeld, líderes da ação. Sabri, entre outras coisas, disse que “é o senhor Bush que deveria ir para o exílio”.

E seguiu: “Os Estados Unidos jogam toneladas de bombas e ainda falam em direitos humanos. Vão contra a opinião pública do mundo inteiro e ainda falam em democracia. Como este homem [Bush] pode ter se tornado presidente de pessoas inteligentes como os norte-americanos?” Sabri foi censurado por quase todas as cadeias de televisão globais, repercutindo nas principais emissoras nacionais e regionais em todo o mundo. (4)

Além das mortes e da tortura promovida pelos americanos e denunciada globalmente tempos depois, a invasão criminosa da Casa Branca desencadeou no Iraque uma séria crise humanitária, no mais amplo sentido do termo.

Com o caos instalado e um exército invasor de mãos atadas, despreparado e sem liderança, se sucederam saques durante meses no país. Famílias foram humilhadas e centenas de mulheres relataram a organizações de direitos humanos estupros em massa, na presença dos demais membros da família, envolvendo soldados norte-americanos. Cenário parecido foi verificado, por exemplo, em Ruanda durante sua maior crise humanitária, em 1994, e é observável até hoje nos países da África central. Desta vez, os eventos ocorreram em nome da “libertação” do Iraque, segundo o discurso oficial da Casa Branca.

No dia 8 de novembro de 2006, Rumsfeld demitiu-se da Administração Bush. No dia 25 do mesmo mês, Janis Karpinski, ex-general e responsável pela prisão iraquiana de Abu Ghraib entre julho e novembro de 2003, afirmou que o ex-secretário de Defesa americano autorizou as torturas de presos no Iraque.

Os mais graves saques culturais ocorreram nos sítios arqueológicos do Iraque, berço da civilização moderna. A ameaça foi alertada previamente por especialistas em todo o planeta, mas a Casa Branca ignorou os apelos. Estavam guardados ali 7 mil anos de história. Administradores do Pentágono presentes no Iraque à época afirmaram que havia ordem expressa para não proteger os prédios públicos e, por conseqüência, os museus e sítios.

Em seu discurso na 63ª Assembléia Geral da ONU nesta terça 23, o genocida e presidente dos EUA George W. Bush afirmou, depois de oito anos desrespeitando a instituição e os direitos humanos, que a ONU e outras instituições multilaterais são atualmente “mais necessárias e de modo mais urgente do que nunca”, e por isso é preciso “fortalecê-las”.

Em Manchester, protesto

Segundo a agência espanhola EFE, cerca de cinco mil pessoas protagonizaram no sábado 20, em Manchester, uma manifestação de protesto contra os conflitos do Iraque e do Afeganistão em frente ao local onde se realiza o congresso do Partido Trabalhista. Os manifestantes pediram ao primeiro-ministro, Gordon Brown, que retire as tropas britânicas de um conflito como o iraquiano, que teve conseqüências catastróficas para o Iraque e o resto do mundo.

A manifestação foi convocada pela coalizão pacifista Stop the War e pela Campanha pelo Desarmamento Nuclear. Também se manifestaram membros de famílias de militares mortos ou feridos no Iraque e no Afeganistão que se opõem à continuação dos conflitos, com fotos dos falecidos.

Os participantes da passeata entregaram uma carta a um funcionário trabalhista na qual denunciam que a política externa britânica se limita a seguir à do governo americano. “Pedimos que cumpram seu compromisso de retirar todas as tropas britânicas da ocupação ilegal e catastrófica do Iraque”, diz a carta. A coordenadora da Campanha pelo Desarmamento Nuclear, Kate Hudson, explicou que os manifestantes estavam ali para pedir uma política externa baseada na paz, e não na guerra.

Em Wall Street, tudo bem, obrigado

Apesar de todo o genocídio étnico e cultural, o sucesso americano no Iraque está garantido: o governo iraquiano anunciou no final de junho deste ano a abertura do setor petroleiro a investimentos estrangeiros, em um suposto esforço para elevar a receita do país com seu principal produto.

Companhias americanas e européias serão autorizadas a prover serviços e know-how com a finalidade de elevar a produção de petróleo em meio milhão de barris até o final de 2009, informou a agência inglesa de notícias BBC (5). O Iraque tem a segunda ou terceira maior reserva de petróleo do mundo (dependendo do critério de avaliação), estimada em 115 bilhões de barris – fator determinante para que a Casa Branca se interesse em promover a “democracia” neste país e fechar os olhos, por exemplo, para outras ditaduras com as quais já mantêm parcerias lucrativas, como a Arábia Saudita, país com a maior reserva de petróleo do mundo.

Apesar do discurso, os meios de comunicação de massa – preocupados em relatar apenas os atentados de forma isolada e sem conexão com a vida política do Iraque – se esforçam em esconder detalhes que confirmam os objetivos explícitos da invasão.

Contratos sem concorrência

O jornal The New York Times revelou que as gigantes petrolíferas ocidentais – como Exxon Mobil, Shell, Total e BP (British Petroleum) – estão em fase final de acertos com o Iraque para voltarem a explorar as reservas petrolíferas do país sob contratos firmados sem concorrência (6). Segundo as últimas negociações, apenas 25% do valor do contrato deverá ser repassado ao governo iraquiano, restando 75% para as empresas estrangeiras.

Os benefícios já são milionários para a Halliburton, empresa transnacional líder mundial em energia e que já teve como CEO [diretor-geral] Dick Cheney, vice-presidente dos EUA durante toda a administração Bush [2001-2008].

A matéria do NYT informa que as companhias estão há 36 anos longe do país, desde que Saddam Hussein nacionalizou as concessões das empresas. O jornal cita como fontes funcionários das petrolíferas e do Ministério do Petróleo iraquiano, além de um diplomata americano.

Segundo o jornal americano, os contratos sem concorrência são raros na indústria, e as empresas deixaram para trás “mais de 40 companhias, incluindo petrolíferas da Rússia, China e Índia”. “Os contratos terão duração de um a dois anos e são relativamente pequenos para os padrões da indústria, mas, no entanto, dariam às companhias uma vantagem em disputas por futuros contratos”, afirma a matéria.

Americanos atuam como funcionários do Ministério do Petróleo

De acordo com o jornal, “não está claro qual foi o papel desempenhado pelos EUA no fechamento dos contratos” e ainda há “conselheiros americanos no Ministério do Petróleo iraquiano”. Os contratos são uma grande oportunidade para que as gigantes petrolíferas reponham suas reservas, enquanto o petróleo dá sinais de esgotamento em todo o mundo.

Os dados dão alguma noção acerca do interesse na “democracia” iraquiana: o país exportou em agosto deste ano 54,4 milhões de barris de petróleo e faturou US$ 5,549 bilhões por sua venda, conforme anúncio do Ministério do Petróleo iraquiano em comunicado neste domingo 21.

Segundo um porta-voz do Ministério iraquiano, os contratos sem concorrência foram “uma medida emergencial” para trazer “habilidades modernas aos campos de petróleo enquanto a lei petrolífera está pendente no Parlamento”. A mesma fonte confirmou ao NYT que estas empresas já vêm trabalhando junto ao Ministério. De acordo com os funcionários ouvidos pelo NYT, as companhias “cederam aconselhamento e treinamento gratuito aos iraquianos” e, por isso, “os contratos não foram abertos à concorrência pública”.

Últimos ataques de insurgentes

Apesar dos menores índices de violência em quatro anos no Iraque, a violência continua alta e o país apresenta elementos de desestabilidade política. Pelo menos três pessoas morreram nesta segunda 22 e nove ficaram feridas em duas explosões nas cidades de Bagdá e Tikrit, informaram fontes policiais.

Também na segunda 22, pelo menos cinco crianças morreram e outras três ficaram feridas por uma explosão em Mossul, 400 quilômetros ao norte de Bagdá. As crianças tinham entre 7 e 9 anos brincavam no momento do acidente, segundo a polícia.

No domingo 21, seis pessoas morreram e 29 ficaram feridas no norte do país, após as explosões de duas bombas. Em Bagdá, segundo a Reuters, um funcionário do alto escalão do Ministério do Interior, o general Adel Abbas, e o motorista dele foram mortos em um ataque a tiros contra seu veículo. Um atentado suicida contra um posto de controle policial com um caminhão-bomba matou três pessoas e feriu 23 em Kirkuk, no norte do Iraque, a 250 quilômetros ao norte de Bagdá.

Mais para o sul, uma bomba colocada numa estrada atingiu um microônibus, matando os três ocupantes e ferindo outros seis perto da cidade de Jalawla, na província de Diyala.

Segundo Aws Qusay, repórter da Reuters no país, os insurgentes vêm mostrando que ainda são capazes de desfechar ataques mortíferos, especialmente no norte, onde militantes da rede Al Qaeda se reagruparam depois de terem sido expulsos de outras partes do país.

(*) Gustavo Barreto é editor da Revista Consciência.Net e da seção de Internacional do Fazendo Media.
REFERÊNCIAS:

(1) Iraq Body Count. Acesso em 22 set. 2008.

(2) Wikipedia. Tommy Franks. Acesso em 22 set. 2008.

(3) Maggie Fox. "Imagens de satélite apontam para limpeza étnica no Iraque". Reuters, 19 set. 2008.

(4) Especial Consciência.Net sobre a guerra no Iraque. Mar-Jun. 2003.

(5) Iraque oferece contratos para expandir setor petroleiro. BBC Brasil. Acesso em 30 jun. 2008.

(6) Petrolíferas fecham contrato sem concorrência no Iraque, diz "NYT". Folha Online. Acesso em 19 jun. 2008.


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Iraque: 90 mil vidas a menos e lucros empresariais garantidos

Estudo publicado na última sexta (19) confirma que bairros sunitas de Bagdá apresentam sinais de “limpeza étnica”. Já os lucros, obtidos a partir de contratos sem concorrência pública, vão muito bem, obrigado. Por Gustavo Barreto.

Cerca de cinco anos e meio após a invasão estadunidense no Iraque, este país se encontra hoje destruído, dividido e, em parte, devastado em termos populacionais. Um estudo publicado na última sexta (19) confirma que bairros sunitas de Bagdá apresentam sinais de “limpeza étnica”, o que teria reduzido a violência sectária na região. As imagens de satélites dos bairros esvaziados foram captadas antes da chegada dos reforços de 30 mil militares dos EUA, em 2007. Os lucros, no entanto, vão muito bem, obrigado [leia mais abaixo].

Sem nenhum planejamento prévio, os EUA demoraram mais de 4 anos para enviar reforços para os bairros sunitas, cuja população estava sendo alvo prioritário de atentados. “[Quando os reforços chegaram] muitos dos alvos do conflito já haviam sido mortos ou fugido do país, e desligaram as luzes quando partiram”, disse em nota o professor de Geografia John Agnew, da Universidade da Califórnia, que dirigiu o estudo.

Quase 100 mil mortos

Em números oficiais (e, portanto, conservadores), de 87 mil a 95 mil civis foram assassinados no Iraque, em decorrência dos conflitos neste país. Os dados são da organização Iraq Body Count (1), cujo nome tem como base uma frase do general americano Tommy Franks durante uma das crises no país: “Nós não contamos corpos” (2). Em julho, foram 360 civis mortos.

Um dos mortos é o carioca Sérgio Vieira de Mello, diplomata da ONU e líder político experiente que buscou, juntamente com uma equipe treinada para atuar na região, ouvir os principais líderes locais. Segundo fontes da Casa Branca que trabalham na missão norte-americana em 2003 e 2004, o governo Bush ignorou praticamente todas as medidas administrativas aconselhadas por especialistas, como a não dissolução do Exército iraquiano, a não demissão de funcionários públicos e uma transição moderada do regime político de Saddam.

Pouco antes de morrer, em 19 de agosto de 2003, Sérgio Vieira de Mello – que era o chefe da missão da ONU no Iraque – estava sendo ignorado, segundo fontes do Pentágono, pelo diplomata e administrador da Autoridade Provisória da Coalizão, Paul Bremer, um dos principais responsáveis pela derrocada da invasão.

Os refugiados iraquianos totalizam 4 milhões, sendo 2 milhões internos e outros 2 milhões na Síria e na Jordânia, países vizinhos. “Nossas descobertas sugerem que essa onda [ações dos EUA] não teve um efeito observável, exceto no sentido de que ajudou a criar um selo de aprovação para um processo de homogeneização etno-sectária dos bairros que agora está largamente concluído”, escreveu o grupo de Agnew no relatório (3).

Segundo o estudo, em geral a iluminação noturna de Bagdá desde a invasão dos EUA parece ter melhorado entre 2003 e 2006, e então declinado dramaticamente entre 20 de março de 2006 e 16 de dezembro de 2007. Nesse período, as luzes da favela xiita de Sadr City continuaram constantes, assim como na Zona Verde (área central com órgãos públicos e embaixadas). Houve aumento também no bairro xiita de Nova Bagdá, na zona leste.

Imagens de satélites já foram usadas como documentação de deslocamentos forçados em Myanmar e limpeza étnica em Uganda.

Atualmente, segundo dados oficiais do Pentágono, quase 100 mil milicianos – de fato, membros e ex-membros da insurgência – foram contratados por 300 dólares por mês para “mudar de lado”. São funcionários do Pentágono e vigiam bairros que suas respectivas milícias dominam.

Invasão genocida

A Casa Branca iniciou um movimento oficial de invasão do Iraque em janeiro de 2003, convocando diversos oficiais da reserva que nem sequer tinham experiência em intervenções militares ou reconstrução de um país destruído. Passou por cima até mesmo do conservador Conselho de Segurança das Nações Unidas e, evidentemente, da Assembléia Geral da ONU, que reprovou formalmente a invasão. Inspetores da ONU concluíram que o Iraque não era, de forma alguma, uma ameaça à segurança de qualquer país vizinho e que não possuía armas de destruição em massa.

Até conservadora “inteligência” dos EUA – CIA, FBI e conselheiros da Casa Branca à frente – afirmaram que, caso fosse feita uma ação desta envergadura, era preciso planejamento. Em um movimento inédito, milhões de pessoas foram às ruas em todas as grandes cidades do mundo e pediram mais do que provas: exigiam um motivo. A Casa Branca falsificou um relatório com dados sobre a ligação da Al Qaeda de Osama Bin Laden e Saddam Hussein, bem como informações de satélite sobre supostas armas de destruição em massa que o Iraque possuiria.

Pouco antes do começo da invasão, no dia 19 de março de 2003, o ministro do Exterior do Iraque, Naji Sabri, deu um depoimento, já ciente do iminente ataque a seu país por parte do governo genocida de George W. Bush e Donald Rumsfeld, líderes da ação. Sabri, entre outras coisas, disse que “é o senhor Bush que deveria ir para o exílio”.

E seguiu: “Os Estados Unidos jogam toneladas de bombas e ainda falam em direitos humanos. Vão contra a opinião pública do mundo inteiro e ainda falam em democracia. Como este homem [Bush] pode ter se tornado presidente de pessoas inteligentes como os norte-americanos?” Sabri foi censurado por quase todas as cadeias de televisão globais, repercutindo nas principais emissoras nacionais e regionais em todo o mundo. (4)

Além das mortes e da tortura promovida pelos americanos e denunciada globalmente tempos depois, a invasão criminosa da Casa Branca desencadeou no Iraque uma séria crise humanitária, no mais amplo sentido do termo.

Com o caos instalado e um exército invasor de mãos atadas, despreparado e sem liderança, se sucederam saques durante meses no país. Famílias foram humilhadas e centenas de mulheres relataram a organizações de direitos humanos estupros em massa, na presença dos demais membros da família, envolvendo soldados norte-americanos. Cenário parecido foi verificado, por exemplo, em Ruanda durante sua maior crise humanitária, em 1994, e é observável até hoje nos países da África central. Desta vez, os eventos ocorreram em nome da “libertação” do Iraque, segundo o discurso oficial da Casa Branca.

No dia 8 de novembro de 2006, Rumsfeld demitiu-se da Administração Bush. No dia 25 do mesmo mês, Janis Karpinski, ex-general e responsável pela prisão iraquiana de Abu Ghraib entre julho e novembro de 2003, afirmou que o ex-secretário de Defesa americano autorizou as torturas de presos no Iraque.

Os mais graves saques culturais ocorreram nos sítios arqueológicos do Iraque, berço da civilização moderna. A ameaça foi alertada previamente por especialistas em todo o planeta, mas a Casa Branca ignorou os apelos. Estavam guardados ali 7 mil anos de história. Administradores do Pentágono presentes no Iraque à época afirmaram que havia ordem expressa para não proteger os prédios públicos e, por conseqüência, os museus e sítios.

Em seu discurso na 63ª Assembléia Geral da ONU nesta terça 23, o genocida e presidente dos EUA George W. Bush afirmou, depois de oito anos desrespeitando a instituição e os direitos humanos, que a ONU e outras instituições multilaterais são atualmente “mais necessárias e de modo mais urgente do que nunca”, e por isso é preciso “fortalecê-las”.

Em Manchester, protesto

Segundo a agência espanhola EFE, cerca de cinco mil pessoas protagonizaram no sábado 20, em Manchester, uma manifestação de protesto contra os conflitos do Iraque e do Afeganistão em frente ao local onde se realiza o congresso do Partido Trabalhista. Os manifestantes pediram ao primeiro-ministro, Gordon Brown, que retire as tropas britânicas de um conflito como o iraquiano, que teve conseqüências catastróficas para o Iraque e o resto do mundo.

A manifestação foi convocada pela coalizão pacifista Stop the War e pela Campanha pelo Desarmamento Nuclear. Também se manifestaram membros de famílias de militares mortos ou feridos no Iraque e no Afeganistão que se opõem à continuação dos conflitos, com fotos dos falecidos.

Os participantes da passeata entregaram uma carta a um funcionário trabalhista na qual denunciam que a política externa britânica se limita a seguir à do governo americano. “Pedimos que cumpram seu compromisso de retirar todas as tropas britânicas da ocupação ilegal e catastrófica do Iraque”, diz a carta. A coordenadora da Campanha pelo Desarmamento Nuclear, Kate Hudson, explicou que os manifestantes estavam ali para pedir uma política externa baseada na paz, e não na guerra.

Em Wall Street, tudo bem, obrigado

Apesar de todo o genocídio étnico e cultural, o sucesso americano no Iraque está garantido: o governo iraquiano anunciou no final de junho deste ano a abertura do setor petroleiro a investimentos estrangeiros, em um suposto esforço para elevar a receita do país com seu principal produto.

Companhias americanas e européias serão autorizadas a prover serviços e know-how com a finalidade de elevar a produção de petróleo em meio milhão de barris até o final de 2009, informou a agência inglesa de notícias BBC (5). O Iraque tem a segunda ou terceira maior reserva de petróleo do mundo (dependendo do critério de avaliação), estimada em 115 bilhões de barris – fator determinante para que a Casa Branca se interesse em promover a “democracia” neste país e fechar os olhos, por exemplo, para outras ditaduras com as quais já mantêm parcerias lucrativas, como a Arábia Saudita, país com a maior reserva de petróleo do mundo.

Apesar do discurso, os meios de comunicação de massa – preocupados em relatar apenas os atentados de forma isolada e sem conexão com a vida política do Iraque – se esforçam em esconder detalhes que confirmam os objetivos explícitos da invasão.

Contratos sem concorrência

O jornal The New York Times revelou que as gigantes petrolíferas ocidentais – como Exxon Mobil, Shell, Total e BP (British Petroleum) – estão em fase final de acertos com o Iraque para voltarem a explorar as reservas petrolíferas do país sob contratos firmados sem concorrência (6). Segundo as últimas negociações, apenas 25% do valor do contrato deverá ser repassado ao governo iraquiano, restando 75% para as empresas estrangeiras.

Os benefícios já são milionários para a Halliburton, empresa transnacional líder mundial em energia e que já teve como CEO [diretor-geral] Dick Cheney, vice-presidente dos EUA durante toda a administração Bush [2001-2008].

A matéria do NYT informa que as companhias estão há 36 anos longe do país, desde que Saddam Hussein nacionalizou as concessões das empresas. O jornal cita como fontes funcionários das petrolíferas e do Ministério do Petróleo iraquiano, além de um diplomata americano.

Segundo o jornal americano, os contratos sem concorrência são raros na indústria, e as empresas deixaram para trás “mais de 40 companhias, incluindo petrolíferas da Rússia, China e Índia”. “Os contratos terão duração de um a dois anos e são relativamente pequenos para os padrões da indústria, mas, no entanto, dariam às companhias uma vantagem em disputas por futuros contratos”, afirma a matéria.

Americanos atuam como funcionários do Ministério do Petróleo

De acordo com o jornal, “não está claro qual foi o papel desempenhado pelos EUA no fechamento dos contratos” e ainda há “conselheiros americanos no Ministério do Petróleo iraquiano”. Os contratos são uma grande oportunidade para que as gigantes petrolíferas reponham suas reservas, enquanto o petróleo dá sinais de esgotamento em todo o mundo.

Os dados dão alguma noção acerca do interesse na “democracia” iraquiana: o país exportou em agosto deste ano 54,4 milhões de barris de petróleo e faturou US$ 5,549 bilhões por sua venda, conforme anúncio do Ministério do Petróleo iraquiano em comunicado neste domingo 21.

Segundo um porta-voz do Ministério iraquiano, os contratos sem concorrência foram “uma medida emergencial” para trazer “habilidades modernas aos campos de petróleo enquanto a lei petrolífera está pendente no Parlamento”. A mesma fonte confirmou ao NYT que estas empresas já vêm trabalhando junto ao Ministério. De acordo com os funcionários ouvidos pelo NYT, as companhias “cederam aconselhamento e treinamento gratuito aos iraquianos” e, por isso, “os contratos não foram abertos à concorrência pública”.

Últimos ataques de insurgentes

Apesar dos menores índices de violência em quatro anos no Iraque, a violência continua alta e o país apresenta elementos de desestabilidade política. Pelo menos três pessoas morreram nesta segunda 22 e nove ficaram feridas em duas explosões nas cidades de Bagdá e Tikrit, informaram fontes policiais.

Também na segunda 22, pelo menos cinco crianças morreram e outras três ficaram feridas por uma explosão em Mossul, 400 quilômetros ao norte de Bagdá. As crianças tinham entre 7 e 9 anos brincavam no momento do acidente, segundo a polícia.

No domingo 21, seis pessoas morreram e 29 ficaram feridas no norte do país, após as explosões de duas bombas. Em Bagdá, segundo a Reuters, um funcionário do alto escalão do Ministério do Interior, o general Adel Abbas, e o motorista dele foram mortos em um ataque a tiros contra seu veículo. Um atentado suicida contra um posto de controle policial com um caminhão-bomba matou três pessoas e feriu 23 em Kirkuk, no norte do Iraque, a 250 quilômetros ao norte de Bagdá.

Mais para o sul, uma bomba colocada numa estrada atingiu um microônibus, matando os três ocupantes e ferindo outros seis perto da cidade de Jalawla, na província de Diyala.

Segundo Aws Qusay, repórter da Reuters no país, os insurgentes vêm mostrando que ainda são capazes de desfechar ataques mortíferos, especialmente no norte, onde militantes da rede Al Qaeda se reagruparam depois de terem sido expulsos de outras partes do país.

(*) Gustavo Barreto é editor da Revista Consciência.Net e da seção de Internacional do Fazendo Media.
REFERÊNCIAS:

(1) Iraq Body Count. Acesso em 22 set. 2008.

(2) Wikipedia. Tommy Franks. Acesso em 22 set. 2008.

(3) Maggie Fox. "Imagens de satélite apontam para limpeza étnica no Iraque". Reuters, 19 set. 2008.

(4) Especial Consciência.Net sobre a guerra no Iraque. Mar-Jun. 2003.

(5) Iraque oferece contratos para expandir setor petroleiro. BBC Brasil. Acesso em 30 jun. 2008.

(6) Petrolíferas fecham contrato sem concorrência no Iraque, diz "NYT". Folha Online. Acesso em 19 jun. 2008.


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EUA: Exército recorre cada vez mais a empresas privadas

Do Opinião e Notícia - A Blackwater e a Halliburton são os nomes de empresas privadas mais associados à ocupação do Iraque, mas inúmeras outras têm participado dos espólios de guerra. De acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA, entre 2003 e 2007 o governo norte-americano gastou US$ 85 bilhões em contratos no Iraque. Os EUA têm um vasto histórico de utilização de empresas privadas para auxiliar nos esforços militares.

Na Guerra da Independência dos EUA, civis vendiam, por exemplo, bacon e açúcar para os soldados. Mas a confiança norte-americana no setor privado nunca foi tão grande. Nos Balcãs, em 1990, o número de empregados de empresas privadas e soldados era praticamente o mesmo, tal como acontece atualmente no Iraque.

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Kosovo rompe con Serbia

Isaac Bigio, www.bigio.org

Kosovo está declarando su independencia ante Serbia. EEUU y la Unión Europea avalan ello mientras que Rusia apoya la negativa de su tradicional aliada Serbia pues también teme que eso incentive a que los chechenos y otras nacionalidades suyas a querer escindirse.

Hasta le fecha la ONU ha aceptado la independencia de todas las 23 repúblicas que formaron parte de las ‘federaciones socialistas’ de Yugoeslavia, Checoeslovaquia o la Unión Soviética. Sin embargo, Kosovo nunca fue una república federada sino una provincia. Avalar su separación podría animar a otras regiones a exigir lo mismo en Rusia, Georgia, Moldavia, Sudán, Iraq, Turquía, etc. También podría crear una oleada de nuevos Estados que hagan que la ONU supere los 200 miembros o generar un antecedente para quienes quisieran crear un Estado camba o aymara en los Andes.

Bush, al mismo tiempo que busca que Kosovo sea un nuevo país, se esfuerza en impedir que los kurdos (quienes suman más de diez veces el total de kosovares) escindan a sus aliados en Iraq y Turquía.

Iraque: arquivo 2003-2007

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Mercenários disponíveis para serem recrutados?

O jornalista que primeiro noticiou o início da guerra no Iraque, Carlos Fino, fala sobre os riscos do jornalismo praticado em situação de conflito armado. Por Fernanda Bonadia, de São Paulo. Foto: Marjorie Rodrigues.

“Eram 2h30 da manhã em Lisboa e 5h30 em Bagdá. Como se imaginava que a guerra iria começar, a RTP (Rádio e Televisão Portuguesa) abriu uma exceção em sua programação e naquela noite exibiu um programa ao vivo em estúdio sobre a guerra. Tudo já havia sido passado, todos os apresentadores e jornalistas tinham falado, e várias vezes tinham entrado ao vivo com Bagdá, mas nada ocorria. O pessoal estava esgotado e todos queriam dormir. Decidiram por encerrar o programa e me avisaram. Então, desconectamos os cabos e quando sentamos, aconteceu como num filme: caiu a primeira bomba. Foi difícil convencer Lisboa a reatar a ligação com Bagdá. Por acaso, o programa ainda estava no ar, porque se já tivesse parado e retomado a programação normal, eu acho que não teria sido o primeiro a transmitir o início da guerra”.

O relato é de Carlos Fino, agora assessor de imprensa na Embaixada Portuguesa no Brasil. Ele era correspondente no Iraque da RTP e deu o furo mundial do início da guerra, em 2003. “Me fizeram esperar quatro minutos para me colocar no ar. Eu os chamei dos nomes todos. Nosso repórter está sendo atacado, mas primeiro os comerciais. É um pouco isso que aconteceu”, declara Fino em entrevista coletiva realizada no último sábado, 13 de outubro, durante o VI Curso de Informação Sobre Jornalismo em Situação de Conflito Armado, ocorrido em São Paulo.

“Nós somos uma profissão de fronteira, entre a propaganda e a informação”, diz o ex-repórter da RTP. Enquanto a atividade jornalística, em princípio, é de serviço público, o repórter atua num meio que é determinado pelo mercado e as regras do mercado, e as empresas para as quais se trabalha visam os lucros.

Manipulação em tempos de guerra

Outra ambigüidade essencial do jornalismo é o que Fino chama de situação “esquizofrênica”, pois ao mesmo tempo em que se cultiva a fonte, para conseguir publicar a matéria, é preciso trair essa mesma fonte. O jornalista explica que em situações de guerra essas características se acentuam, pois “a guerra abre as portas do inferno em que tudo é possível e tudo é permissível”.

Além disso, a informação tornou-se um elemento da guerra. “Ela é o próprio objeto, pois sempre que há um conflito, cada uma das partes tenta utilizar a mídia dentro dos seus próprios interesses: esconder o que não convém, salientar o que é conveniente para seu próprio ponto de vista e até desinformar”.

Fino acrescenta que, quando há uma guerra, há uma batalha civil de interesses e o perigo consiste em os jornalistas serem tratados como mercenários disponíveis para serem recrutados. Por isso, o repórter tem que cuidar para não se deixar manipular nem ser conduzido por esse jogo.

Ao contrário do que comumente se acredita, para estar no local da guerra, segundo Carlos Fino, o jornalista tem que se ligar a um dos lados do conflito. “Eu tinha um compromisso com o regime do Saddam, pois sem isso eu não poderia estar em Bagdá”. E, sendo mais enfático, diz: “Os que tentaram agir de forma totalmente autônoma e independente foram rapidamente eliminados”.

Os profissionais têm que refletir sobre o tipo de compromisso que irão aceitar, pois, apesar das limitações, “é preciso ter repórteres no local para dar as sensações e o estado de espírito, não se pode reportar sem estar e nada substitui o papel do repórter no local”. E, se é necessário pagar um preço para estar presente, Fino não titubeia: “Vale a pena pagar”.

“Repórter acidental”

Apesar de estar em Moscou e de presenciar o colapso do Leste Europeu com o fim da URSS, de cobrir a guerra do Golfo, os conflitos na Palestina e a guerra contra o Iraque, Carlos Fino não se considera um repórter de guerra. “Sou um pouco repórter de guerra acidental, embora esse acidental tenha se tornado o essencial do meu perfil”, explica.

Ele conta que mergulhou de cabeça em algo totalmente desconhecido. “Hoje, retrospectivamente, eu considero ideal que os jornalistas que vão para esses cenários se preparem para aquilo que vão enfrentar, como conhecer as Convenções Internacionais, ter noções de primeiros socorros, de sobrevivência e direito humanitário”, resume.

Os riscos de se trabalhar em uma guerra são enormes, inclusive há perigo dentro dos hotéis, ao contrário do que muitas pessoas acreditam. “Eu acho que isso é uma caricatura que não leva em conta os perigos mesmo, às vezes, de estar dentro do hotel, como o Hotel Palestine, em Bagdá, que hospedava diversos jornalistas e foi alvo de ataques americanos”. Foi desse mesmo hotel que Fino deu o furo mundial do início da guerra, mostrando que esses não são lugares seguros nem afastados da notícia.

Há muito tempo jornalistas são acusados de ficar no hotel, longe do front e das fontes, deduzindo e escrevendo matérias, mas Fino desmistifica tais acusações com sua própria história e enfatiza: “Não só é injusto, como é inverídico”. Numa situação de conflito armado não há uma regra comportamental, diz o jornalista, “há quem fique no hotel e pode lhe acontecer algo duro, e há quem arrisque mais e não lhe ocorre nada”.

Para fazer a diferença numa cobertura, explica Fino, é necessário que o jornalista estude para estar bem informado. Também se deve cumprir o conjunto de preceitos que, em princípio, garantem o não fugir dos fatos: “Ser mais objetivo e eqüidistante, dois pontos possíveis dentro de limites, como o fato de a objetividade estar vinculada a uma subjetividade e o fato de o jornalista não reportar de forma neutra”, diz.

A importância da contextualização

O repórter tem que reconhecer a realidade que vai noticiar o mais profundamente possível, pois as “novas tecnologias dão ao jornalista a possibilidade de ser chamado para uma transmissão ao vivo, em tempo real. Ou você sabe do que vai falar, ou praticamente esgota aquilo que quer dizer”, avalia o ex-repórter.

Assim, com base nas observações do entrevistado, conclui-se que o papel do jornalista não se limita a reportar o que transcorre no dia-a-dia. “Ele tem que saber o suficiente para dar um enquadramento e uma explicação para aquilo que está ocorrendo, sem ser mero relator dos fatos que acontecem”, explica Carlos Fino.


Fernanda Bonadia é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (SP) e de História da USP. Contato: fernanda.ohm@gmail.com

Mercenários disponíveis para serem recrutados?

O jornalista que primeiro noticiou o início da guerra no Iraque, Carlos Fino, fala sobre os riscos do jornalismo praticado em situação de conflito armado. Por Fernanda Bonadia, de São Paulo. Foto: Marjorie Rodrigues.

“Eram 2h30 da manhã em Lisboa e 5h30 em Bagdá. Como se imaginava que a guerra iria começar, a RTP (Rádio e Televisão Portuguesa) abriu uma exceção em sua programação e naquela noite exibiu um programa ao vivo em estúdio sobre a guerra. Tudo já havia sido passado, todos os apresentadores e jornalistas tinham falado, e várias vezes tinham entrado ao vivo com Bagdá, mas nada ocorria. O pessoal estava esgotado e todos queriam dormir. Decidiram por encerrar o programa e me avisaram. Então, desconectamos os cabos e quando sentamos, aconteceu como num filme: caiu a primeira bomba. Foi difícil convencer Lisboa a reatar a ligação com Bagdá. Por acaso, o programa ainda estava no ar, porque se já tivesse parado e retomado a programação normal, eu acho que não teria sido o primeiro a transmitir o início da guerra”.

O relato é de Carlos Fino, agora assessor de imprensa na Embaixada Portuguesa no Brasil. Ele era correspondente no Iraque da RTP e deu o furo mundial do início da guerra, em 2003. “Me fizeram esperar quatro minutos para me colocar no ar. Eu os chamei dos nomes todos. Nosso repórter está sendo atacado, mas primeiro os comerciais. É um pouco isso que aconteceu”, declara Fino em entrevista coletiva realizada no último sábado, 13 de outubro, durante o VI Curso de Informação Sobre Jornalismo em Situação de Conflito Armado, ocorrido em São Paulo.

“Nós somos uma profissão de fronteira, entre a propaganda e a informação”, diz o ex-repórter da RTP. Enquanto a atividade jornalística, em princípio, é de serviço público, o repórter atua num meio que é determinado pelo mercado e as regras do mercado, e as empresas para as quais se trabalha visam os lucros.

Manipulação em tempos de guerra

Outra ambigüidade essencial do jornalismo é o que Fino chama de situação “esquizofrênica”, pois ao mesmo tempo em que se cultiva a fonte, para conseguir publicar a matéria, é preciso trair essa mesma fonte. O jornalista explica que em situações de guerra essas características se acentuam, pois “a guerra abre as portas do inferno em que tudo é possível e tudo é permissível”.

Além disso, a informação tornou-se um elemento da guerra. “Ela é o próprio objeto, pois sempre que há um conflito, cada uma das partes tenta utilizar a mídia dentro dos seus próprios interesses: esconder o que não convém, salientar o que é conveniente para seu próprio ponto de vista e até desinformar”.

Fino acrescenta que, quando há uma guerra, há uma batalha civil de interesses e o perigo consiste em os jornalistas serem tratados como mercenários disponíveis para serem recrutados. Por isso, o repórter tem que cuidar para não se deixar manipular nem ser conduzido por esse jogo.

Ao contrário do que comumente se acredita, para estar no local da guerra, segundo Carlos Fino, o jornalista tem que se ligar a um dos lados do conflito. “Eu tinha um compromisso com o regime do Saddam, pois sem isso eu não poderia estar em Bagdá”. E, sendo mais enfático, diz: “Os que tentaram agir de forma totalmente autônoma e independente foram rapidamente eliminados”.

Os profissionais têm que refletir sobre o tipo de compromisso que irão aceitar, pois, apesar das limitações, “é preciso ter repórteres no local para dar as sensações e o estado de espírito, não se pode reportar sem estar e nada substitui o papel do repórter no local”. E, se é necessário pagar um preço para estar presente, Fino não titubeia: “Vale a pena pagar”.

“Repórter acidental”

Apesar de estar em Moscou e de presenciar o colapso do Leste Europeu com o fim da URSS, de cobrir a guerra do Golfo, os conflitos na Palestina e a guerra contra o Iraque, Carlos Fino não se considera um repórter de guerra. “Sou um pouco repórter de guerra acidental, embora esse acidental tenha se tornado o essencial do meu perfil”, explica.

Ele conta que mergulhou de cabeça em algo totalmente desconhecido. “Hoje, retrospectivamente, eu considero ideal que os jornalistas que vão para esses cenários se preparem para aquilo que vão enfrentar, como conhecer as Convenções Internacionais, ter noções de primeiros socorros, de sobrevivência e direito humanitário”, resume.

Os riscos de se trabalhar em uma guerra são enormes, inclusive há perigo dentro dos hotéis, ao contrário do que muitas pessoas acreditam. “Eu acho que isso é uma caricatura que não leva em conta os perigos mesmo, às vezes, de estar dentro do hotel, como o Hotel Palestine, em Bagdá, que hospedava diversos jornalistas e foi alvo de ataques americanos”. Foi desse mesmo hotel que Fino deu o furo mundial do início da guerra, mostrando que esses não são lugares seguros nem afastados da notícia.

Há muito tempo jornalistas são acusados de ficar no hotel, longe do front e das fontes, deduzindo e escrevendo matérias, mas Fino desmistifica tais acusações com sua própria história e enfatiza: “Não só é injusto, como é inverídico”. Numa situação de conflito armado não há uma regra comportamental, diz o jornalista, “há quem fique no hotel e pode lhe acontecer algo duro, e há quem arrisque mais e não lhe ocorre nada”.

Para fazer a diferença numa cobertura, explica Fino, é necessário que o jornalista estude para estar bem informado. Também se deve cumprir o conjunto de preceitos que, em princípio, garantem o não fugir dos fatos: “Ser mais objetivo e eqüidistante, dois pontos possíveis dentro de limites, como o fato de a objetividade estar vinculada a uma subjetividade e o fato de o jornalista não reportar de forma neutra”, diz.

A importância da contextualização

O repórter tem que reconhecer a realidade que vai noticiar o mais profundamente possível, pois as “novas tecnologias dão ao jornalista a possibilidade de ser chamado para uma transmissão ao vivo, em tempo real. Ou você sabe do que vai falar, ou praticamente esgota aquilo que quer dizer”, avalia o ex-repórter.

Assim, com base nas observações do entrevistado, conclui-se que o papel do jornalista não se limita a reportar o que transcorre no dia-a-dia. “Ele tem que saber o suficiente para dar um enquadramento e uma explicação para aquilo que está ocorrendo, sem ser mero relator dos fatos que acontecem”, explica Carlos Fino.


Fernanda Bonadia é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (SP) e de História da USP. Contato: fernanda.ohm@gmail.com

Falah Alwan: Iraque é uma questão internacional

Em entrevista ao Pravda em português, Falah Alwan, presidente da Federação de Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque, declarou que a questão do Iraque é internacional e, por isso, a sua resolução deverá passar pela comunidade internacional e as suas associações e instituições.

Alwan revela que
Saddam Hussein tinha perdido o poder anos antes da invasão e os americanos sabiam disso: "A qualquer altura, um governo revolucionário socialista poderia ter surgido e não teria sido difícil derrubar Saddam nos últimos tempos do seu regime, era uma questão de quando, não se".

No tempo em que Saddam Hussein era todo poderoso no Iraque, Falah Alwan já trabalhava nos bastidores secretamente, organizando comissões de trabalhadores e tentando angariar fundos para compensar as famílias em caso de acidentes - no Iraque de Saddam Hussein, os sindicatos eram proibidos.

Eleito em 2005 pela segunda vez presidente da Federação de Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque, Falah Alwan continua a lutar contra os velhos decretos de Saddam, utilizados por um governo fantoche que continua a praticar muitos dos abusos do antigo regime, continua a dificultar a formação de sindicatos e que não é mais do que o braço político das várias facções armadas no país, cuja autoridade está restrita à Zona Verde em Bagdad.

Em Lisboa, a convite do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, Falah Alwan falou em entrevista exclusiva ao PRAVDA.Ru.

PRAVDA.Ru: Qual é a situação atual do movimento sindical no Iraque?

Falah Alwan
: As autoridades continuam a evocar os decretos de Saddam Hussein, que esmagou tentativas de formar sindicatos de trabalhadores, por isso continua a ser uma luta constante que precisa do apoio dos movimentos internacionais. Começamos com o Sindicato dos Desempregados e tivemos 13 manifestações com a lema “Emprego ou Segurança Social”, movimento que obrigou as autoridades a instalarem um fundo de desemprego, embora elas se referem a isso como extensão do sistema que já existia e nunca admitiriam que fosse uma vitória nossa. Continuamos na Federação de Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque a trabalhar ativamente na construção de Comissões de Trabalhadores para coordenar as suas atividades com Conselhos de Trabalhadores.

PRAVDA.Ru: E como se pode descrever a vida diária do cidadão no Iraque de hoje?

Falah Alwan
: Além da violência, o desemprego aumentou em flecha. As pequenas fábricas do tempo de Saddam Hussein, que empregavam principalmente mulheres na área de têxteis, desapareceram, e as grandes indústrias que empregavam milhares de homens também, levando a uma situação em que as autoridades admitem uma taxa de desemprego de 30 até 35 por cento, mas a cifra real seria de 50% ou mais.

O custo das necessidades básicas subiu muito. O custo de combustível, num país que produz tanto, aumentou e em grandes áreas nem há electricidade, por isso as firmas paralisaram. Isso é o resultado da ocupação, que não serve para nada. E para dar um exemplo do dia a dia, por exemplo, no centro de Bagdad, uma viagem de táxi do centro da cidade até o aeroporto, uma viagem de meia hora, custa 60 dólares americanos, por ser tão perigoso, e o caminho se chama “caminho da morte”. Há assassinatos, há raptos, há ataques com bombas todos os dias.

PRAVDA.Ru: E o que faz o governo e as tropas de ocupação para reduzir a violência e criminalidade?

Falah Alwan: O governo não está interessado no desenvolvimento de segurança porque, se houver segurança, muitas facções no governo perderiam a sua posição. Elas não são mais do que o braço político das facções armadas, que por sua vez são as facções armadas das formações políticas no governo.

Estas facções no governo falam com as facções armadas e discutem como reterem o poder e as suas posições, como manter o equilíbrio de poder. E quanto aos americanos, ficam nas suas bases, porque sabem que não conseguem manter a paz. A violência é um resultado direto da ocupação. E está ficando pior.

A sociedade iraquiana está dividida como nunca antes, está dividida entre seitas, religiões, línguas, grupos étnicos que pela primeira vez assumem importância. Dentro de Bagdad há uma muralha entre as várias secções da sociedade, como uma Muralha de Berlim dentro de Bagdad.

PRAVDA.Ru: E esta situação não existia no Iraque de Saddam Hussein?

Falah Alwan: Esta divisão não existia mas também Saddam Hussein tinha perdido o poder antes da invasão, uns anos antes e os americanos sabiam disso. A qualquer altura, um governo revolucionário socialista poderia ter surgido e não teria sido difícil derrubar Saddam nos últimos tempos do seu regime, era uma questão de quando, não se. Talvez para neutralizar a ocorrência deste tipo de governo no Iraque, e as ondas de choque que teria tido na região, eles invadiram. Lembremos que 70% dos iraquianos vivem nas cidades, muitos são operários.

PRAVDA.Ru: Relativamente aos sindicatos e movimentos operários internacionais, têm recebido apoio?

Falah Alwan: Sim, recentemente quando o Ministro de Petróleo decretou que os organizadores de uma greve neste setor deveriam ser presos, houve uma onda de indignação de movimentos nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países, que fizeram com que o Ministro recuasse. Isso foi em julho de 2007. O governo em si nada faz para nos ajudar porque nos trata como ilegais e impede os operários de se organizarem, utilizando medidas draconianas do tempo de Saddam. Mas o governo representa a si próprio e na Zona Verde.

No discurso do governo, seus inimigos são terroristas ou os restos do regime de Saddam, quando de fato cada facção no Governo tem sua milícia. Pode dizer-se que este governo depende em grande parte da milícia controlada pelo Iran, mas mesmo dentro das milícias há muitas divisões e mini-facções.

PRAVDA.Ru: Os britânicos recentemente saíram da Basra e disseram que “o trabalho estava feito”. Comentários?

Falah Alwan: Vou dar-lhe um exemplo. Quando em Basra uns militantes estabeleceram um ponto de controle e queriam espancar uma mulher que não usava o véu, esses soldados britânicos disseram que não tinha nada a ver com eles, pois eram costumes locais e não defenderam a mulher. Que o trabalho está feito em Basra? Bem, eu diria que a cidade de Basra e aquela região está sob a influência do Iran, seus agentes e gangues criminosas. Quem manda aí são grupos armados de milícias e o Reino Unido não fez nada para impedi-los de se impor na cidade.

PRAVDA.Ru: E o caminho para a frente?

Falah Alwan: Está no interesse dos operários e trabalhadores terminarem a ocupação o quanto antes. Isso interessa a muitos setores. Há que mudar o equilíbrio de poder político, de estabelecer um poder político secular e não Islamistas políticos, que é o governo de hoje maioritariamente. Temos de impor um modelo diferente, de progresso social e temos aqui o potencial para os classes de operários organizar a sociedade iraquiana em base secular, polarizando à volta dos interesses dos trabalhadores, criando uma sociedade justa e de benefícios a todos.

Queríamos expandir o movimento secular dos trabalhadores e, para isso, precisamos de criar laços internacionais. Por esta razão estou aqui hoje. A invasão é uma questão internacional e, daí, tem de ser a comunidade internacional a resolver a questão do Iraque. É altura para o resto da comunidade internacional intervir. A nossa questão é como criar uma coordenação internacional para continuar a apelar pelo apoio de organismos e instituições que zelem pelos direitos dos operários, que já alcançaram as suas metas nos seus países. Nós estamos no início e precisamos de apoio.

Precisamos de apoio para estabelecer um modelo humanitário, um movimento internacionalista e um movimento secular que constitui uma alternativa viável, primeiro no Iraque. É altura para uma Nova Esquerda intervir.

Entrevista realizada por Timothy Bancroft-Hinchey, Diretor e Chefe de Redação do PRAVDA.Ru (versão portuguesa). Iniciativa do colaborador Luís de Carvalho, agradecimentos ao SPGL. É possível contactar Falah Alwan directamente em falahalwan@yahoo.com (inglês e/ou árabe). Sites: www.equality.org e www.uuiraq.org

Se porventura quiserem contactar Falah Alwan e não souberem inglês ou árabe, podem enviar a sua mensagem à PRAVDA.Ru (
pravdaru@hotmail.com). O Pravda fará a tradução e servirá de ligação entre as partes.

Falah Alwan: Iraque é uma questão internacional

Em entrevista ao Pravda em português, Falah Alwan, presidente da Federação de Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque, declarou que a questão do Iraque é internacional e, por isso, a sua resolução deverá passar pela comunidade internacional e as suas associações e instituições.

Alwan revela que
Saddam Hussein tinha perdido o poder anos antes da invasão e os americanos sabiam disso: "A qualquer altura, um governo revolucionário socialista poderia ter surgido e não teria sido difícil derrubar Saddam nos últimos tempos do seu regime, era uma questão de quando, não se".

No tempo em que Saddam Hussein era todo poderoso no Iraque, Falah Alwan já trabalhava nos bastidores secretamente, organizando comissões de trabalhadores e tentando angariar fundos para compensar as famílias em caso de acidentes - no Iraque de Saddam Hussein, os sindicatos eram proibidos.

Eleito em 2005 pela segunda vez presidente da Federação de Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque, Falah Alwan continua a lutar contra os velhos decretos de Saddam, utilizados por um governo fantoche que continua a praticar muitos dos abusos do antigo regime, continua a dificultar a formação de sindicatos e que não é mais do que o braço político das várias facções armadas no país, cuja autoridade está restrita à Zona Verde em Bagdad.

Em Lisboa, a convite do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, Falah Alwan falou em entrevista exclusiva ao PRAVDA.Ru.

PRAVDA.Ru: Qual é a situação atual do movimento sindical no Iraque?

Falah Alwan
: As autoridades continuam a evocar os decretos de Saddam Hussein, que esmagou tentativas de formar sindicatos de trabalhadores, por isso continua a ser uma luta constante que precisa do apoio dos movimentos internacionais. Começamos com o Sindicato dos Desempregados e tivemos 13 manifestações com a lema “Emprego ou Segurança Social”, movimento que obrigou as autoridades a instalarem um fundo de desemprego, embora elas se referem a isso como extensão do sistema que já existia e nunca admitiriam que fosse uma vitória nossa. Continuamos na Federação de Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque a trabalhar ativamente na construção de Comissões de Trabalhadores para coordenar as suas atividades com Conselhos de Trabalhadores.

PRAVDA.Ru: E como se pode descrever a vida diária do cidadão no Iraque de hoje?

Falah Alwan
: Além da violência, o desemprego aumentou em flecha. As pequenas fábricas do tempo de Saddam Hussein, que empregavam principalmente mulheres na área de têxteis, desapareceram, e as grandes indústrias que empregavam milhares de homens também, levando a uma situação em que as autoridades admitem uma taxa de desemprego de 30 até 35 por cento, mas a cifra real seria de 50% ou mais.

O custo das necessidades básicas subiu muito. O custo de combustível, num país que produz tanto, aumentou e em grandes áreas nem há electricidade, por isso as firmas paralisaram. Isso é o resultado da ocupação, que não serve para nada. E para dar um exemplo do dia a dia, por exemplo, no centro de Bagdad, uma viagem de táxi do centro da cidade até o aeroporto, uma viagem de meia hora, custa 60 dólares americanos, por ser tão perigoso, e o caminho se chama “caminho da morte”. Há assassinatos, há raptos, há ataques com bombas todos os dias.

PRAVDA.Ru: E o que faz o governo e as tropas de ocupação para reduzir a violência e criminalidade?

Falah Alwan: O governo não está interessado no desenvolvimento de segurança porque, se houver segurança, muitas facções no governo perderiam a sua posição. Elas não são mais do que o braço político das facções armadas, que por sua vez são as facções armadas das formações políticas no governo.

Estas facções no governo falam com as facções armadas e discutem como reterem o poder e as suas posições, como manter o equilíbrio de poder. E quanto aos americanos, ficam nas suas bases, porque sabem que não conseguem manter a paz. A violência é um resultado direto da ocupação. E está ficando pior.

A sociedade iraquiana está dividida como nunca antes, está dividida entre seitas, religiões, línguas, grupos étnicos que pela primeira vez assumem importância. Dentro de Bagdad há uma muralha entre as várias secções da sociedade, como uma Muralha de Berlim dentro de Bagdad.

PRAVDA.Ru: E esta situação não existia no Iraque de Saddam Hussein?

Falah Alwan: Esta divisão não existia mas também Saddam Hussein tinha perdido o poder antes da invasão, uns anos antes e os americanos sabiam disso. A qualquer altura, um governo revolucionário socialista poderia ter surgido e não teria sido difícil derrubar Saddam nos últimos tempos do seu regime, era uma questão de quando, não se. Talvez para neutralizar a ocorrência deste tipo de governo no Iraque, e as ondas de choque que teria tido na região, eles invadiram. Lembremos que 70% dos iraquianos vivem nas cidades, muitos são operários.

PRAVDA.Ru: Relativamente aos sindicatos e movimentos operários internacionais, têm recebido apoio?

Falah Alwan: Sim, recentemente quando o Ministro de Petróleo decretou que os organizadores de uma greve neste setor deveriam ser presos, houve uma onda de indignação de movimentos nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países, que fizeram com que o Ministro recuasse. Isso foi em julho de 2007. O governo em si nada faz para nos ajudar porque nos trata como ilegais e impede os operários de se organizarem, utilizando medidas draconianas do tempo de Saddam. Mas o governo representa a si próprio e na Zona Verde.

No discurso do governo, seus inimigos são terroristas ou os restos do regime de Saddam, quando de fato cada facção no Governo tem sua milícia. Pode dizer-se que este governo depende em grande parte da milícia controlada pelo Iran, mas mesmo dentro das milícias há muitas divisões e mini-facções.

PRAVDA.Ru: Os britânicos recentemente saíram da Basra e disseram que “o trabalho estava feito”. Comentários?

Falah Alwan: Vou dar-lhe um exemplo. Quando em Basra uns militantes estabeleceram um ponto de controle e queriam espancar uma mulher que não usava o véu, esses soldados britânicos disseram que não tinha nada a ver com eles, pois eram costumes locais e não defenderam a mulher. Que o trabalho está feito em Basra? Bem, eu diria que a cidade de Basra e aquela região está sob a influência do Iran, seus agentes e gangues criminosas. Quem manda aí são grupos armados de milícias e o Reino Unido não fez nada para impedi-los de se impor na cidade.

PRAVDA.Ru: E o caminho para a frente?

Falah Alwan: Está no interesse dos operários e trabalhadores terminarem a ocupação o quanto antes. Isso interessa a muitos setores. Há que mudar o equilíbrio de poder político, de estabelecer um poder político secular e não Islamistas políticos, que é o governo de hoje maioritariamente. Temos de impor um modelo diferente, de progresso social e temos aqui o potencial para os classes de operários organizar a sociedade iraquiana em base secular, polarizando à volta dos interesses dos trabalhadores, criando uma sociedade justa e de benefícios a todos.

Queríamos expandir o movimento secular dos trabalhadores e, para isso, precisamos de criar laços internacionais. Por esta razão estou aqui hoje. A invasão é uma questão internacional e, daí, tem de ser a comunidade internacional a resolver a questão do Iraque. É altura para o resto da comunidade internacional intervir. A nossa questão é como criar uma coordenação internacional para continuar a apelar pelo apoio de organismos e instituições que zelem pelos direitos dos operários, que já alcançaram as suas metas nos seus países. Nós estamos no início e precisamos de apoio.

Precisamos de apoio para estabelecer um modelo humanitário, um movimento internacionalista e um movimento secular que constitui uma alternativa viável, primeiro no Iraque. É altura para uma Nova Esquerda intervir.

Entrevista realizada por Timothy Bancroft-Hinchey, Diretor e Chefe de Redação do PRAVDA.Ru (versão portuguesa). Iniciativa do colaborador Luís de Carvalho, agradecimentos ao SPGL. É possível contactar Falah Alwan directamente em falahalwan@yahoo.com (inglês e/ou árabe). Sites: www.equality.org e www.uuiraq.org

Se porventura quiserem contactar Falah Alwan e não souberem inglês ou árabe, podem enviar a sua mensagem à PRAVDA.Ru (
pravdaru@hotmail.com). O Pravda fará a tradução e servirá de ligação entre as partes.

Dezesseis mil médicos abandonaram o Iraque

Do Portal Vermelho com agências

Cerca de 16 mil médicos abandonaram o Iraque no período de quatro anos de ocupação militar principiada pelos Estados Unidos, revelou nesta quinta-feira (8/3) o jornal iraquiano al-Mashraq. O jornal reproduziu um comunicado do sindicato dos médicos, que explica que esse número é quase a metade do total de afiliados ao sindicato.

Após a derrubada do governo do presidente Saddam Hussein, executado em dezembro passado, o ocupante estrangeiro e seus aliados iraquianos tornaram o país instável e colocaram em perigo de morte os cidadãos do país árabe. A área da saúde é uma das mais afetadas pela situação, ao ponto de ter cessado completamente a assistência médica em centenas de aldeias e povoados.

De acordo com a mídia, milhares de profissionais e técnicos de outros setores também emigraram, levando consigo familiares, perante a possibilidade de morrer em fogo cruzado ou em ações da "guerra suja" — executadas por esquadrões da morte ligados ao ministério do Interior do país e que realizam ataques sectários.

Um dos setores mais atingido, além dos profissionais de saúde, é o da educação. O país perdeu mais de 40% dos seus estabelecimentos escolares e centenas de professores foram assassinados em ações dos ocupantes.

Mais de mil mortos em procissão xiita

Jornal do Brasil - O rumor de que havia um homem-bomba entre mais de um milhão de peregrinos xiitas que marchavam em direção à mesquita de Kadhimiya, na celebração de uma festa religiosa na manhã de ontem, levou pânico aos iraquianos fazendo com que um número estimado em mais de mil pessoas morressem pisoteadas e afogadas no incidente na ponte sobre o rio Tigre, ao Norte de Bagdá. A correria deixou cerca de 400 feridos. Muitos fiéis continuam desaparecidos.

Mulheres, crianças e idosos foram as principais vítimas, encontrando dificuldade para fugir. Muitas pessoas começaram a se atirar no rio quando souberam do boato. Na correria, corpos eram vistos no caminho. Minutos depois do início da tragédia, o local ficou ainda mais cheio, com pessoas que vinham de todas as partes em busca dos sobreviventes. Ambulâncias tentavam em vão penetrar na multidão. Leia no JB online.

Síria não reconhecerá governo dos EUA no Iraque

Agência Estado - A Síria anunciou hoje que não reconhecerá nenhum governo militar estabelecido pelos EUA no Iraque. "Um governo militar no Iraque será uma ocupação", disse a porta-voz da chancelaria síria, Buzaina Shaaban. Ela acrescentou que "internacionalmente, apenas se reconhecem os governos eleitos pelos povos". Ela também qualificou de infundadas as acusações de que soldados sírios estão colaborando com o Exército iraquiano na atual guerra e garantiu que o governo está fazendo de tudo para impedir que os voluntários sigam para o Iraque.