Jornalismo Econômico e a Economia Real

Se tudo isso que pregam os neoclássicos fosse verdade não estaríamos vivendo numa crise e à beira de uma recessão mundial. O mundo seria perfeito, às mil maravilhas... Quanto à crise em si: O mundo não vai acabar! Por Thiago Santos Silva.

Ao assistir qualquer noticiário da televisão ou rádio nesses últimos meses, um tema tem se destacado em importância no que é noticiado: a crise econômica sem precedentes que estamos vivendo! Não quero falar sobre a crise em si, mas como ela está sendo tratada, noticiada e vista pelos nossos jornalistas.

Primeiramente gostaria de esclarecer alguns conceitos e correntes econômicas que existem, apesar de a nossa imprensa só dar ouvidos a uma única forma e corrente de pensamento, que é a Neoclássica.

A corrente Neoclássica é a base teórica da economia da maioria dos países e é também o que potencializou essa crise. Seus preceitos básicos confundem-se com os preceitos do neoliberalismo político, ou seja, é a vertente econômica do neoliberalismo. Seus defensores apóiam o Estado minimalista, não intervencionista onde os governos só existem para estar a serviço das forças e grupos economicamente hegemônicos da sociedade.

Defendem que a própria oferta é capaz de criar demanda a ela (o que deixa os especuladores livres para investirem onde bem entenderem, pouco se preocupando com as reais necessidades de investimento de um país) e o que considero hoje (à beira de uma recessão) crucial para entender alguns dos motivos dessa crise é o fato de esta linha de pensamento econômico ignorar que a economia financeira (mercado de ações/bolsas de valores) interfere na economia real nossa do dia-a-dia.

Se tudo isso que pregam os neoclássicos fosse verdade não estaríamos vivendo numa crise e à beira de uma recessão mundial. O mundo seria perfeito, às mil maravilhas...

Felizmente para uns e infelizmente para outros o mundo e as coisas não são bem assim.

A corrente oposta à Neoclássica é o que podemos chamar de Estruturalismo, que tem entre suas vertentes principais o Keynesianismo (aquele que o único capaz de resgatar o mundo da crise de 29 e a grande depressão subseqüente).

Em linhas mestras essa corrente defende a tendência de crises do capitalismo, ou seja, as crises cíclicas e como única maneira de conter ou amenizar os efeitos dessa tendência o intervencionismo Estatal nas economias. Essa tendência à crise é algo impossível de se negar, pois se formos estudar a história do capitalismo, esta se confundirá com a história das crises do capitalismo, o que automaticamente já prova a teoria de crises cíclicas.

Outro ponto defendido pelo estruturalismo Keynesiano é o da contaminação da economia real pela economia financeira. Isso se vê facilmente no dia-a-dia. Exemplificando: basta a cotação do petróleo subir na bolsa de valores (de forma especulativa) que automaticamente temos o aumento no preço dos seus derivados na economia real. A especulação da economia financeira tem reflexos claros na economia real nossa do dia-a-dia.

O Estruturalismo Keynesiano também defende que a oferta não cria demanda e sim o contrário e o fato de se acreditar na possibilidade neoclássica leva a descompensamentos produtivos, onde não se investe na produção das reais necessidades de um país, o que acarreta a inflação de produtos essenciais.

Agora por que somente é dado voz à visão neoclássica da economia por parte da nossa imprensa e por que os economistas trabalham com essa visão em detrimento da visão estruturalista que é mais sensata?

Fácil entender.

Para uma pessoa que vive da especulação financeira seria praticamente suicídio trabalhar com a possibilidade de estar à beira de uma crise a cada momento. O mercado ficaria sempre em pânico e a especulação não alçaria vôos tão altos como alça atualmente. Então essas pessoas preferem fazer de conta que nada disso existe ou é verdadeiro para poder conseguir ganhos rápidos e fáceis e, se porventura estourar uma crise (o que é normal que aconteça), os Estados e governos é que devem ser responsabilizados, não eles os verdadeiros agentes e causadores da crise.

Já o fato de a imprensa só dar voz a essa visão ocorre por ter ela estreitas ligações com toda essa economia financeira e principalmente para, não veiculando essa outra visão da realidade, fazer a sua parte de tentar manter as coisas como estão, ajudando assim os seus parceiros do mercado financeiro que são também os seus patrocinadores. Ou seja: uma mão lava a outra.

Quanto à crise em si: O mundo não vai acabar!

Essa crise só é mais uma das crises cíclicas do capitalismo, só que em proporções maiores pela “perspicácia” dos nossos especuladores financeiros e sua avidez por lucros, que fizeram dos mercados financeiros verdadeiros cassinos, ignorando as conseqüências disto para a economia mundial.

(*) Visite o blog de Thiago Santos Silva clicando aqui.




_______________________________________
www.consciencia.net

Jornalismo Econômico e a Economia Real

Se tudo isso que pregam os neoclássicos fosse verdade não estaríamos vivendo numa crise e à beira de uma recessão mundial. O mundo seria perfeito, às mil maravilhas... Quanto à crise em si: O mundo não vai acabar! Por Thiago Santos Silva, clique aqui para ler.

Ao assistir qualquer noticiário da televisão ou rádio nesses últimos meses, um tema tem se destacado em importância no que é noticiado: a crise econômica sem precedentes que estamos vivendo! Não quero falar sobre a crise em si, mas como ela está sendo tratada, noticiada e vista pelos nossos jornalistas.

Primeiramente gostaria de esclarecer alguns conceitos e correntes econômicas que existem, apesar de a nossa imprensa só dar ouvidos a uma única forma e corrente de pensamento, que é a Neoclássica.

A corrente Neoclássica é a base teórica da economia da maioria dos países e é também o que potencializou essa crise. Seus preceitos básicos confundem-se com os preceitos do neoliberalismo político, ou seja, é a vertente econômica do neoliberalismo. Seus defensores apóiam o Estado minimalista, não intervencionista onde os governos só existem para estar a serviço das forças e grupos economicamente hegemônicos da sociedade.

Defendem que a própria oferta é capaz de criar demanda a ela (o que deixa os especuladores livres para investirem onde bem entenderem, pouco se preocupando com as reais necessidades de investimento de um país) e o que considero hoje (à beira de uma recessão) crucial para entender alguns dos motivos dessa crise é o fato de esta linha de pensamento econômico ignorar que a economia financeira (mercado de ações/bolsas de valores) interfere na economia real nossa do dia-a-dia.

Se tudo isso que pregam os neoclássicos fosse verdade não estaríamos vivendo numa crise e à beira de uma recessão mundial. O mundo seria perfeito, às mil maravilhas...

Felizmente para uns e infelizmente para outros o mundo e as coisas não são bem assim.

A corrente oposta à Neoclássica é o que podemos chamar de Estruturalismo, que tem entre suas vertentes principais o Keynesianismo (aquele que o único capaz de resgatar o mundo da crise de 29 e a grande depressão subseqüente).

Em linhas mestras essa corrente defende a tendência de crises do capitalismo, ou seja, as crises cíclicas e como única maneira de conter ou amenizar os efeitos dessa tendência o intervencionismo Estatal nas economias. Essa tendência à crise é algo impossível de se negar, pois se formos estudar a história do capitalismo, esta se confundirá com a história das crises do capitalismo, o que automaticamente já prova a teoria de crises cíclicas.

Outro ponto defendido pelo estruturalismo Keynesiano é o da contaminação da economia real pela economia financeira. Isso se vê facilmente no dia-a-dia. Exemplificando: basta a cotação do petróleo subir na bolsa de valores (de forma especulativa) que automaticamente temos o aumento no preço dos seus derivados na economia real. A especulação da economia financeira tem reflexos claros na economia real nossa do dia-a-dia.

O Estruturalismo Keynesiano também defende que a oferta não cria demanda e sim o contrário e o fato de se acreditar na possibilidade neoclássica leva a descompensamentos produtivos, onde não se investe na produção das reais necessidades de um país, o que acarreta a inflação de produtos essenciais.

Agora por que somente é dado voz à visão neoclássica da economia por parte da nossa imprensa e por que os economistas trabalham com essa visão em detrimento da visão estruturalista que é mais sensata?

Fácil entender.

Para uma pessoa que vive da especulação financeira seria praticamente suicídio trabalhar com a possibilidade de estar à beira de uma crise a cada momento. O mercado ficaria sempre em pânico e a especulação não alçaria vôos tão altos como alça atualmente. Então essas pessoas preferem fazer de conta que nada disso existe ou é verdadeiro para poder conseguir ganhos rápidos e fáceis e, se porventura estourar uma crise (o que é normal que aconteça), os Estados e governos é que devem ser responsabilizados, não eles os verdadeiros agentes e causadores da crise.

Já o fato de a imprensa só dar voz a essa visão ocorre por ter ela estreitas ligações com toda essa economia financeira e principalmente para, não veiculando essa outra visão da realidade, fazer a sua parte de tentar manter as coisas como estão, ajudando assim os seus parceiros do mercado financeiro que são também os seus patrocinadores. Ou seja: uma mão lava a outra.

Quanto à crise em si: O mundo não vai acabar!

Essa crise só é mais uma das crises cíclicas do capitalismo, só que em proporções maiores pela “perspicácia” dos nossos especuladores financeiros e sua avidez por lucros, que fizeram dos mercados financeiros verdadeiros cassinos, ignorando as conseqüências disto para a economia mundial.

(*) Visite o blog de Thiago Santos Silva clicando aqui.

Diogo Mainardi encampa discurso neo-racista brasileiro

Destruidor de quilombos foi o bandeirante Domingos Jorge Velho, matador de negros do século XVII, até hoje relacionado entre os maiores assassinos de nossa História. Seus seguidores, como Mainardi, Reinaldo de Azevedo e Ali Kamel, atiram-se com o mesmo furor homicida contra a imagem dos quilombos. Só que, em vez de apertar gatilhos, comprimem teclas. Por Ismar C. De Souza (*).

“O negro que lute
pra poder sonhar
em mudar isso aqui,
o poder tem tantas mãos
e só sabe mentir”
(Djavan, "Soweto")

Com ataques cuidadosamente dosados contra a política de cotas universitárias implantadas no Brasil – que está sob julgamento no Supremo Tribunal Federal –, e, na verdade, querendo atingir todas as lutas do negro brasileiro, o colunista da revista Veja, Diogo Mainardi, encampou de vez o discurso neo-racista brasileiro. “É uma chance para acabar de vez com o quilombolismo retardatário que se entrincheirou no matagal ideológico das universidades brasileiras", afirma ele em "O quilombo do mundo" (edição 2057, 23/04/2008).

Mainardi se soma a outros jornalistas da Veja (impressa e online) e a demais pessoas que recebem espaço na maior revista de circulação nacional para mover um combate sem tréguas à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, à política de cotas universitárias, à figura de Zumbi dos Palmares, ao Dia da Consciência Negra e, enfim, à causa da reparação das injustiças cometidas contra a comunidade negra ao longo da História brasileira.

Entremeando afirmações tendenciosas e citações do livro “Não Somos Racistas” (acredite quem quiser...) do guru do combate ao movimento negro brasileiro, o diretor de Jornalismo da Rede Globo Ali Kamel, Mainardi se mostra ainda mais parcial quando tenta apoiar sua tortuosa racionália numa frase do senador de ascendência africana Barak Obama:

– Se olharem minhas filhas, Malia e Sasha, e disserem que elas estão numa situação bastante confortável, então (raça) não deveria ser um fator. Por outro lado, se houver um jovem branco que trabalhe, que se esforce, e que tenha superado grandes dificuldades, isso é algo que deveria ser levado em consideração.

Tratou-se de um comentário superficial e meio confuso, proferido durante um debate eleitoral. A conclusão de que Obama “quebrou um tabu e defendeu abertamente o fim das cotas raciais” é uma óbvia forçação de barra. Mainardi subestima a inteligência dos seus leitores.

Agora vejamos o que a Veja, preconceituosamente, em sua página de internet, via outro jornalista da turma do Mainardi (Reinaldo Azevedo, postado em www.veja.com.br/reinaldo, no dia 07/01/2008, 15h:51), opinou sobre o mesmo senador e candidato a candidato do Partido Democrata:

– Que diabo se passa com o Partido Democrata americano, que tem como favoritos uma mulher e um negro com sobrenome islâmico e nenhum homem branco para enfrentá-los? (...) Para bom entendedor: tomo o par “homem branco” como apelo simbólico à tradição e à conservação de um modelo que, inegavelmente, deu certo e fez a maior, mais importante e mais rica democracia do mundo, que venceu, por exemplo, o embate civilizatório com o comunismo.

Como esse preconceito mal dissimulado ofende a qualquer ser humano digno desse nome, só restou à tropa de elite da Veja buscar o apoio da trupe dos conservadores raivosos, dos reacionários empedernidos e de alguns parlamentares influenciáveis que estão tentando barrar a implantação do Estatuto da Igualdade Racial.

Políticas de incentivo à integração do negro

Foi apenas em junho de 1998 que o Brasil empossou seu primeiro ministro de Estado negro, o mineiro Carlos Alberto Reis de Paula. Num país de aproximadamente 183 milhões de habitantes, com 11,5 milhões (6,3%) de negros, isto comprova que o Brasil é, sim, um país racista, ainda que de uma forma dissimulada.

O certo é que só recentemente o problema da integração e participação digna do negro na sociedade passou a ter visibilidade nacional como política de Estado. E já produziu efeitos, pois agora são cinco os negros que participam como ministros do Governo Federal. Antes, só entravam como empregados subalternos.

Os interesses e idiossincrasias de nossa elite conservadora produziram convicções escravocratas que se tornaram estereótipos, ultrapassando os limites do simbólico e incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão dos negros na escala social, por menor que seja, sempre deu lugar a manifestações veladas ou ostensivas de ressentimentos.

Cotas raciais nos EUA e no Brasil

A campanha pelos direitos civis nos Estados Unidos, que ganhou notoriedade internacional com a marcha de quase meio milhão de pessoas até Washington em 1963, foi o embrião da política oficial de cotas raciais, implementada a partir de 1970.

Em 1965, quando foi assinada a lei permitindo o voto e a eleição de negros nos EUA, a esmagadora maioria era pobre; assim, na primeira eleição, pouco mais de uma centena deles conquistou mandatos públicos. Hoje são mais de 8 mil.

Primeiro país a implantar o sistema de cotas, os EUA contam (abril/2008) com uma candidata negra, Cynthia Mckinney, candidata pelo Green Party (Partido Verde estadunidense) à presidência da república e com Obama tendo grande chance de se tornar o postulante do Partido Democrata.

Se lá, como aqui, o sistema de cotas possui falhas e não resolveu todos os problemas raciais da nação, com certeza motivou um grande debate nacional e alavancou uma melhor participação dos negros em sua sociedade, tanto que estes já têm presença marcante na classe média, ao contrário do Brasil.

Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por muito tempo, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar a inconformidade, vista como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolheu a discriminação ou preconceito.

O reacionário Mainardi, contra tudo e contra todos

Na contramão dos grandes pesquisadores e educadores brasileiros, o colunista da Veja chegou ao cúmulo de propor que o Brasil siga o exemplo dos EUA, extinguindo totalmente a gratuidade no ensino superior:

– Se é para macaquear os Estados Unidos, temos de macaqueá-los por inteiro. A universidade pública americana cobra mensalidade dos alunos. Quem pode pagar, paga. Os outros se arranjam com bolsas, empréstimos ou bicos.

Como se fosse possível equiparar dois países em estágios de desenvolvimento econômico tão diferentes! E como se os estudantes daqui tivessem a mesma facilidade em levantar recursos por meio de “bolsas, empréstimos ou bicos”!

Bem se vê que Mainardi, habitando ou não no Brasil, estará sempre a anos-luz de distância de nossa sofrida realidade... o que não o impede de tentar, arrogantemente, ensinar a nós, nativos, como devemos viver, segundo o figurino da metrópole.

A violência policial e o silêncio cúmplice dos neo-racistas

Negros de qualquer classe social, no Brasil, são tratados da forma mais preconceituosa e arbitrária pelas autoridades policiais – vide o caso do dentista Flávio Ferreira Sant'Ana, assassinado em 2004 na zona norte paulistana apenas por suspeitarem que tivesse roubado o luxuoso carro que dirigia.

É nas estatísticas da violência policial contra os negros que as contradições da sociedade brasileira se mostram mais agudas, como se depreende, p. ex., de uma pesquisa que o Datafolha realizou em 1997 na cidade de São Paulo:

- a escolaridade e condição financeira têm pouca influência sobre a freqüência e incidência das revistas policiais e da violência praticada pela polícia;

- entre os da raça negra, quase metade (48%) já foi revistada alguma vez. Desses, 21% já foram ofendidos verbalmente e 14%, agredidos fisicamente por policiais;

- os pardos superam os negros em ofensas: 27% deles foram ofendidos verbalmente e 12% agredidos fisicamente. Ao todo, 46% já foram revistados alguma vez;

- a população branca é menos visada pela polícia. Entre estes, 34% já passaram por uma revista, 17% ouviram ofensas e 6% já foram agredidos, menos da metade da incidência entre negros.

Sobre a violência seletiva aplicada em muito maior escala e intensidade contra a população negra pelas polícias estaduais, os neo-racistas se calam, não escrevendo uma palavra sequer. Tais fatos não entram nas elocubrações deles, as vidas ou direitos destas pessoas não lhes interessam, pois na verdade não têm o que dizer sobre este assunto. Nem mesmo o guru Ali Kamel, que parece ter fixação por estatísticas, encontrou justificativa para estas.

Final rancoroso e melancólico

Como já fizera no título, Mainardi termina seu artigo dando uma conotação pejorativa à palavra quilombo:

– O Brasil se refugiou no passado. O Brasil é o quilombo do mundo.

Quilombo, segundo o dicionário Aurélio, é “estado de tipo africano formado, nos sertões brasileiros, por escravos fugidos”. Para nós, quilombo simboliza toda uma luta por liberdade e justiça. Ademais, como em alguns quilombos também viviam índios e brancos simpatizantes, pode ter sido o primeiro lugar no Brasil onde pessoas de raças diferentes conviveram harmoniosamente.

Destruidor de quilombos foi o bandeirante Domingos Jorge Velho, matador de negros do século XVII, até hoje relacionado entre os maiores assassinos de nossa História. Seus seguidores, como Mainardi, Reinaldo de Azevedo e Ali Kamel, atiram-se com o mesmo furor homicida contra a imagem dos quilombos. Só que, em vez de apertar gatilhos, comprimem teclas.

Não percebem, entretanto, que jamais conseguirão deletar as páginas de heroísmo escritas pelos negros, nem sua possibilidade de obterem agora o que lhes foi negado durante séculos.

Mas estão deletando a si próprios da civilização, eles sim refugiados num passado vergonhoso: aquele em que os preconceitos raciais ainda podiam ser expressos impunemente. Hoje, pelo contrário, só despertam perplexidade, indignação e asco.

(*) Ismar C. de Souza é militante do Movimento Negro. Email: ismarsouza@hotmail.com


_______________________________________
www.consciencia.net

Diogo Mainardi encampa discurso neo-racista brasileiro

Destruidor de quilombos foi o bandeirante Domingos Jorge Velho, matador de negros do século XVII, até hoje relacionado entre os maiores assassinos de nossa História. Seus seguidores, como Mainardi, Reinaldo de Azevedo e Ali Kamel, atiram-se com o mesmo furor homicida contra a imagem dos quilombos. Só que, em vez de apertar gatilhos, comprimem teclas. Por Ismar C. De Souza (*).

“O negro que lute
pra poder sonhar
em mudar isso aqui,
o poder tem tantas mãos
e só sabe mentir”
(Djavan, "Soweto")

Com ataques cuidadosamente dosados contra a política de cotas universitárias implantadas no Brasil – que está sob julgamento no Supremo Tribunal Federal –, e, na verdade, querendo atingir todas as lutas do negro brasileiro, o colunista da revista Veja, Diogo Mainardi, encampou de vez o discurso neo-racista brasileiro. “É uma chance para acabar de vez com o quilombolismo retardatário que se entrincheirou no matagal ideológico das universidades brasileiras", afirma ele em "O quilombo do mundo" (edição 2057, 23/04/2008).

Mainardi se soma a outros jornalistas da Veja (impressa e online) e a demais pessoas que recebem espaço na maior revista de circulação nacional para mover um combate sem tréguas à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, à política de cotas universitárias, à figura de Zumbi dos Palmares, ao Dia da Consciência Negra e, enfim, à causa da reparação das injustiças cometidas contra a comunidade negra ao longo da História brasileira.

Entremeando afirmações tendenciosas e citações do livro “Não Somos Racistas” (acredite quem quiser...) do guru do combate ao movimento negro brasileiro, o diretor de Jornalismo da Rede Globo Ali Kamel, Mainardi se mostra ainda mais parcial quando tenta apoiar sua tortuosa racionália numa frase do senador de ascendência africana Barak Obama:

– Se olharem minhas filhas, Malia e Sasha, e disserem que elas estão numa situação bastante confortável, então (raça) não deveria ser um fator. Por outro lado, se houver um jovem branco que trabalhe, que se esforce, e que tenha superado grandes dificuldades, isso é algo que deveria ser levado em consideração.

Tratou-se de um comentário superficial e meio confuso, proferido durante um debate eleitoral. A conclusão de que Obama “quebrou um tabu e defendeu abertamente o fim das cotas raciais” é uma óbvia forçação de barra. Mainardi subestima a inteligência dos seus leitores.

Agora vejamos o que a Veja, preconceituosamente, em sua página de internet, via outro jornalista da turma do Mainardi (Reinaldo Azevedo, postado em www.veja.com.br/reinaldo, no dia 07/01/2008, 15h:51), opinou sobre o mesmo senador e candidato a candidato do Partido Democrata:

– Que diabo se passa com o Partido Democrata americano, que tem como favoritos uma mulher e um negro com sobrenome islâmico e nenhum homem branco para enfrentá-los? (...) Para bom entendedor: tomo o par “homem branco” como apelo simbólico à tradição e à conservação de um modelo que, inegavelmente, deu certo e fez a maior, mais importante e mais rica democracia do mundo, que venceu, por exemplo, o embate civilizatório com o comunismo.

Como esse preconceito mal dissimulado ofende a qualquer ser humano digno desse nome, só restou à tropa de elite da Veja buscar o apoio da trupe dos conservadores raivosos, dos reacionários empedernidos e de alguns parlamentares influenciáveis que estão tentando barrar a implantação do Estatuto da Igualdade Racial.

Políticas de incentivo à integração do negro

Foi apenas em junho de 1998 que o Brasil empossou seu primeiro ministro de Estado negro, o mineiro Carlos Alberto Reis de Paula. Num país de aproximadamente 183 milhões de habitantes, com 11,5 milhões (6,3%) de negros, isto comprova que o Brasil é, sim, um país racista, ainda que de uma forma dissimulada.

O certo é que só recentemente o problema da integração e participação digna do negro na sociedade passou a ter visibilidade nacional como política de Estado. E já produziu efeitos, pois agora são cinco os negros que participam como ministros do Governo Federal. Antes, só entravam como empregados subalternos.

Os interesses e idiossincrasias de nossa elite conservadora produziram convicções escravocratas que se tornaram estereótipos, ultrapassando os limites do simbólico e incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão dos negros na escala social, por menor que seja, sempre deu lugar a manifestações veladas ou ostensivas de ressentimentos.

Cotas raciais nos EUA e no Brasil

A campanha pelos direitos civis nos Estados Unidos, que ganhou notoriedade internacional com a marcha de quase meio milhão de pessoas até Washington em 1963, foi o embrião da política oficial de cotas raciais, implementada a partir de 1970.

Em 1965, quando foi assinada a lei permitindo o voto e a eleição de negros nos EUA, a esmagadora maioria era pobre; assim, na primeira eleição, pouco mais de uma centena deles conquistou mandatos públicos. Hoje são mais de 8 mil.

Primeiro país a implantar o sistema de cotas, os EUA contam (abril/2008) com uma candidata negra, Cynthia Mckinney, candidata pelo Green Party (Partido Verde estadunidense) à presidência da república e com Obama tendo grande chance de se tornar o postulante do Partido Democrata.

Se lá, como aqui, o sistema de cotas possui falhas e não resolveu todos os problemas raciais da nação, com certeza motivou um grande debate nacional e alavancou uma melhor participação dos negros em sua sociedade, tanto que estes já têm presença marcante na classe média, ao contrário do Brasil.

Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por muito tempo, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar a inconformidade, vista como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolheu a discriminação ou preconceito.

O reacionário Mainardi, contra tudo e contra todos

Na contramão dos grandes pesquisadores e educadores brasileiros, o colunista da Veja chegou ao cúmulo de propor que o Brasil siga o exemplo dos EUA, extinguindo totalmente a gratuidade no ensino superior:

– Se é para macaquear os Estados Unidos, temos de macaqueá-los por inteiro. A universidade pública americana cobra mensalidade dos alunos. Quem pode pagar, paga. Os outros se arranjam com bolsas, empréstimos ou bicos.

Como se fosse possível equiparar dois países em estágios de desenvolvimento econômico tão diferentes! E como se os estudantes daqui tivessem a mesma facilidade em levantar recursos por meio de “bolsas, empréstimos ou bicos”!

Bem se vê que Mainardi, habitando ou não no Brasil, estará sempre a anos-luz de distância de nossa sofrida realidade... o que não o impede de tentar, arrogantemente, ensinar a nós, nativos, como devemos viver, segundo o figurino da metrópole.

A violência policial e o silêncio cúmplice dos neo-racistas

Negros de qualquer classe social, no Brasil, são tratados da forma mais preconceituosa e arbitrária pelas autoridades policiais – vide o caso do dentista Flávio Ferreira Sant'Ana, assassinado em 2004 na zona norte paulistana apenas por suspeitarem que tivesse roubado o luxuoso carro que dirigia.

É nas estatísticas da violência policial contra os negros que as contradições da sociedade brasileira se mostram mais agudas, como se depreende, p. ex., de uma pesquisa que o Datafolha realizou em 1997 na cidade de São Paulo:

- a escolaridade e condição financeira têm pouca influência sobre a freqüência e incidência das revistas policiais e da violência praticada pela polícia;

- entre os da raça negra, quase metade (48%) já foi revistada alguma vez. Desses, 21% já foram ofendidos verbalmente e 14%, agredidos fisicamente por policiais;

- os pardos superam os negros em ofensas: 27% deles foram ofendidos verbalmente e 12% agredidos fisicamente. Ao todo, 46% já foram revistados alguma vez;

- a população branca é menos visada pela polícia. Entre estes, 34% já passaram por uma revista, 17% ouviram ofensas e 6% já foram agredidos, menos da metade da incidência entre negros.

Sobre a violência seletiva aplicada em muito maior escala e intensidade contra a população negra pelas polícias estaduais, os neo-racistas se calam, não escrevendo uma palavra sequer. Tais fatos não entram nas elocubrações deles, as vidas ou direitos destas pessoas não lhes interessam, pois na verdade não têm o que dizer sobre este assunto. Nem mesmo o guru Ali Kamel, que parece ter fixação por estatísticas, encontrou justificativa para estas.

Final rancoroso e melancólico

Como já fizera no título, Mainardi termina seu artigo dando uma conotação pejorativa à palavra quilombo:

– O Brasil se refugiou no passado. O Brasil é o quilombo do mundo.

Quilombo, segundo o dicionário Aurélio, é “estado de tipo africano formado, nos sertões brasileiros, por escravos fugidos”. Para nós, quilombo simboliza toda uma luta por liberdade e justiça. Ademais, como em alguns quilombos também viviam índios e brancos simpatizantes, pode ter sido o primeiro lugar no Brasil onde pessoas de raças diferentes conviveram harmoniosamente.

Destruidor de quilombos foi o bandeirante Domingos Jorge Velho, matador de negros do século XVII, até hoje relacionado entre os maiores assassinos de nossa História. Seus seguidores, como Mainardi, Reinaldo de Azevedo e Ali Kamel, atiram-se com o mesmo furor homicida contra a imagem dos quilombos. Só que, em vez de apertar gatilhos, comprimem teclas.

Não percebem, entretanto, que jamais conseguirão deletar as páginas de heroísmo escritas pelos negros, nem sua possibilidade de obterem agora o que lhes foi negado durante séculos.

Mas estão deletando a si próprios da civilização, eles sim refugiados num passado vergonhoso: aquele em que os preconceitos raciais ainda podiam ser expressos impunemente. Hoje, pelo contrário, só despertam perplexidade, indignação e asco.

(*) Ismar C. de Souza é militante do Movimento Negro. Email: ismarsouza@hotmail.com


_______________________________________
www.consciencia.net

Mídia corrupta: apoiada por uma oposição de corruptos e ladrões

Democracia sem responsabilidade da mídia é uma vergonha. Em termos de jornalismo eu falo para alunos e amigos: eu só acredito pensando. Ao contrário do ler e ver que dizíamos, eu só acredito lendo, ou eu só acredito vendo, agora é ver e duvidar, ouvir e suspeitar, ler e criticar (...) Por Silas C. Leite.

Deu na Veja? Então não significa nada. Deu em nada. A Veja é tendenciosa, imparcial – seus donos Civitas foram expulsos da Argentina - ou seriam presos. Aqui atua na oposição suspeita, amoral e leviana. Já pensou? Deu na Folha? A Folha comete Falhas. Já vendeu assinaturas perpétuas depois deu no que deu. Apoiou Collor. O Estadão ataca o Lula mas preserva o Pinóquio de Chuchu. Mas o Estadão não apoiou a canalha de 64? Pois é. Que vergonha. Já pensou que acervo midiático rastaquara? Sai de baixo.

Deu na Rede Globo? Duvide. Mude da canal. Duas caras, essas coisas. Jornal Neoliberal. O medo do Lula gera monstros. Os podres da pior oposição da história da República aparecem. Mídia podre. Num belo cartun, publicado na Revista do Brasil (Edição Número Seis), o humorista Maringoni, num desenho entitulado "Curso de Jornalismo Rápido", com subtítulo "Como funciona o monopólio da mídia nas eleições" mostra uma máquina de moer carne que tem embaixo a palavra Verdade em vermelho, e, em cima, passando sobre a moenda, os dizeres (referindo-se à mídia brasileira): Boatos, Lobbies, Negociatas, Favorecimentos, Adulterações Primárias, Interesses Confessáveis e Inconfessáveis, Especulações, Difamações, Jabás, e, por fim, ainda, Mutretas, Acobertamentos, Falsificações, Calúnias, Malandragens. Tudo isso bem qualificado.

Já pensou que Imprensa, Jornalismo, Mídia? Lindo. Jóia. Dizem que alguns professores universitários acadêmicos de alto quilate e gabarito, mandaram copiar o cartun em banners enormes, e deram uma semana de aula em importantes e éticos Cursos de Jornalismos na USP, em Escolas Federais e uma ou outra Universidade privada de renome nesse campo. Já pensou? Claro que, não estamos num país de santos, não temos políticos santos, mas ter uma imprensa vendida é dose, fere a própria instituição democrática.

O que era para ser no bom sentido Quarto Poder, vira uma espécie de crime organizado da mídia, salvo honrosas exceções. Os maiores corruptos e ladrões do Brasil têm jornais, rádios, canais de tevês, pior, compõem na sua maioria uma oposição contra o governo Lula. Liberdade de Imprensa é outra coisa. Democracia sem responsabilidade da mídia é uma vergonha. Em termos de jornalismo eu falo para alunos e amigos: eu só acredito pensando. Ao contrário do ler e ver que dizíamos, eu só acredito lendo, ou eu só acredito vendo, agora é ver e duvidar, ouvir e suspeitar, ler e criticar.

Os tempos são outros. Os podres aparecem de lado a lado. A Rede Globo em decadência, a Veja quebrando, como é que agiotas do capital estrangeiro, que ganharam com as privatizações roubos (privatarias) tucano-liberais do demo, vão se sustentar no capitalhordismo americanalhado. Pois é. Estão na oposição rastaquara e salve-se quem puder. O "interesse Brasil" é outra coisa. Não acredite naqueles que fizeram você eleger Collor, Maluf, FHC, Geraldo Alckmin, Kassab, Pita, ACM, Agnaldo Timóteo... Clodovil. Pense e fique de olho. Seja você também o seu próprio observatório da imprensa.

Silas C. Leite é leitor Consciência.Net (poesilas@terra.com.br)


_______________________________________
Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]

Mídia corrupta: apoiada por uma oposição de corruptos e ladrões

Democracia sem responsabilidade da mídia é uma vergonha. Em termos de jornalismo eu falo para alunos e amigos: eu só acredito pensando. Ao contrário do ler e ver que dizíamos, eu só acredito lendo, ou eu só acredito vendo, agora é ver e duvidar, ouvir e suspeitar, ler e criticar (...) Por Silas C. Leite.

Deu na Veja? Então não significa nada. Deu em nada. A Veja é tendenciosa, imparcial – seus donos Civitas foram expulsos da Argentina - ou seriam presos. Aqui atua na oposição suspeita, amoral e leviana. Já pensou? Deu na Folha? A Folha comete Falhas. Já vendeu assinaturas perpétuas depois deu no que deu. Apoiou Collor. O Estadão ataca o Lula mas preserva o Pinóquio de Chuchu. Mas o Estadão não apoiou a canalha de 64? Pois é. Que vergonha. Já pensou que acervo midiático rastaquara? Sai de baixo.

Deu na Rede Globo? Duvide. Mude da canal. Duas caras, essas coisas. Jornal Neoliberal. O medo do Lula gera monstros. Os podres da pior oposição da história da República aparecem. Mídia podre. Num belo cartun, publicado na Revista do Brasil (Edição Número Seis), o humorista Maringoni, num desenho entitulado "Curso de Jornalismo Rápido", com subtítulo "Como funciona o monopólio da mídia nas eleições" mostra uma máquina de moer carne que tem embaixo a palavra Verdade em vermelho, e, em cima, passando sobre a moenda, os dizeres (referindo-se à mídia brasileira): Boatos, Lobbies, Negociatas, Favorecimentos, Adulterações Primárias, Interesses Confessáveis e Inconfessáveis, Especulações, Difamações, Jabás, e, por fim, ainda, Mutretas, Acobertamentos, Falsificações, Calúnias, Malandragens. Tudo isso bem qualificado.

Já pensou que Imprensa, Jornalismo, Mídia? Lindo. Jóia. Dizem que alguns professores universitários acadêmicos de alto quilate e gabarito, mandaram copiar o cartun em banners enormes, e deram uma semana de aula em importantes e éticos Cursos de Jornalismos na USP, em Escolas Federais e uma ou outra Universidade privada de renome nesse campo. Já pensou? Claro que, não estamos num país de santos, não temos políticos santos, mas ter uma imprensa vendida é dose, fere a própria instituição democrática.

O que era para ser no bom sentido Quarto Poder, vira uma espécie de crime organizado da mídia, salvo honrosas exceções. Os maiores corruptos e ladrões do Brasil têm jornais, rádios, canais de tevês, pior, compõem na sua maioria uma oposição contra o governo Lula. Liberdade de Imprensa é outra coisa. Democracia sem responsabilidade da mídia é uma vergonha. Em termos de jornalismo eu falo para alunos e amigos: eu só acredito pensando. Ao contrário do ler e ver que dizíamos, eu só acredito lendo, ou eu só acredito vendo, agora é ver e duvidar, ouvir e suspeitar, ler e criticar.

Os tempos são outros. Os podres aparecem de lado a lado. A Rede Globo em decadência, a Veja quebrando, como é que agiotas do capital estrangeiro, que ganharam com as privatizações roubos (privatarias) tucano-liberais do demo, vão se sustentar no capitalhordismo americanalhado. Pois é. Estão na oposição rastaquara e salve-se quem puder. O "interesse Brasil" é outra coisa. Não acredite naqueles que fizeram você eleger Collor, Maluf, FHC, Geraldo Alckmin, Kassab, Pita, ACM, Agnaldo Timóteo... Clodovil. Pense e fique de olho. Seja você também o seu próprio observatório da imprensa.

Silas C. Leite é leitor Consciência.Net (poesilas@terra.com.br)


_______________________________________
Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]

Garçom, tem um terrorista na minha sopa!

Por Ricardo Lanza (*)

Pois é. Como nada mais é surpresa neste bélico mundo do século XXI, nossos vizinhos amazônicos andam às turras. Parece que o presidente colombiano Álvaro Uribe está se tornando uma espécie de Tony Blair latino. Já senta, dá a patinha e finge de morto, magistralmente adestrado pelos falcões do Bushinho. Depois de repetir como papagaio a ladainha estadunidense, resolveu agir como seus patrocinadores, invadindo território equatoriano. A justificativa já estava na ponta da língua: "guerra ao terrorismo"!

Lendo a cobertura (acobertura?) da imprensa, parece absolutamente normal que um país simplesmente invada o outro. Soberania nacional é apenas um detalhe... O enfoque recorrente na maioria dos textos é o êxito das ações. Pouquíssimas linhas sobre o perigoso precedente aberto pelo exército colombiano, que como todos nós sabemos, há muito tempo é literalmente bombado por grande quantidade de verdinhas. Aliás, Bushinho não tardou em "agradecer" Uribe por sua ação "forte" no combate aos terroristas.

O mais estranho é que a investida contra as FARC (uma das várias e abomináveis milícias colombianas) se dá justamente no período em que vislumbrava-se alguma luz nesta história obscura. Concordando-se ou não com esta perspectiva, pela primeira vez víamos alguns reféns serem libertados, com o presidente/mico de circo venezuelano Hugo Chavez se destacando como interlocutor. Alguns dos reféns libertados inclusive afirmaram que a ação de Chavez era válida e deveria continuar. Parece que esta imagem positiva do presidente venezuelano nos noticiários não agradou o pessoal lá do norte.

E tome movimentação militar nas fronteiras. O Equador, mais do que corretamente, exige providências na OEA. Se a moda pega, a Venezuela é a bola da vez, e Chavez terá orgasmos múltiplos. E a Colômbia? Bem, continua de quatro, esperando que entrem mais dólares. Está fazendo direitinho a lição. Já alardeia aos quatro ventos que o Equador "dá abrigo a terroristas" e que Chaves "financia o terrorismo". Talvez seja na densa floresta amazônica que finalmente encontraremos Osama Bin Laden e as armas de destruição em massa.

(*) Leia mais de Ricardo Lanza em http://oblognervoso.blogspot.com/


_______________________________________
Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]

Garçom, tem um terrorista na minha sopa!

Por Ricardo Lanza (*)

Pois é. Como nada mais é surpresa neste bélico mundo do século XXI, nossos vizinhos amazônicos andam às turras. Parece que o presidente colombiano Álvaro Uribe está se tornando uma espécie de Tony Blair latino. Já senta, dá a patinha e finge de morto, magistralmente adestrado pelos falcões do Bushinho. Depois de repetir como papagaio a ladainha estadunidense, resolveu agir como seus patrocinadores, invadindo território equatoriano. A justificativa já estava na ponta da língua: "guerra ao terrorismo"!

Lendo a cobertura (acobertura?) da imprensa, parece absolutamente normal que um país simplesmente invada o outro. Soberania nacional é apenas um detalhe... O enfoque recorrente na maioria dos textos é o êxito das ações. Pouquíssimas linhas sobre o perigoso precedente aberto pelo exército colombiano, que como todos nós sabemos, há muito tempo é literalmente bombado por grande quantidade de verdinhas. Aliás, Bushinho não tardou em "agradecer" Uribe por sua ação "forte" no combate aos terroristas.

O mais estranho é que a investida contra as FARC (uma das várias e abomináveis milícias colombianas) se dá justamente no período em que vislumbrava-se alguma luz nesta história obscura. Concordando-se ou não com esta perspectiva, pela primeira vez víamos alguns reféns serem libertados, com o presidente/mico de circo venezuelano Hugo Chavez se destacando como interlocutor. Alguns dos reféns libertados inclusive afirmaram que a ação de Chavez era válida e deveria continuar. Parece que esta imagem positiva do presidente venezuelano nos noticiários não agradou o pessoal lá do norte.

E tome movimentação militar nas fronteiras. O Equador, mais do que corretamente, exige providências na OEA. Se a moda pega, a Venezuela é a bola da vez, e Chavez terá orgasmos múltiplos. E a Colômbia? Bem, continua de quatro, esperando que entrem mais dólares. Está fazendo direitinho a lição. Já alardeia aos quatro ventos que o Equador "dá abrigo a terroristas" e que Chaves "financia o terrorismo". Talvez seja na densa floresta amazônica que finalmente encontraremos Osama Bin Laden e as armas de destruição em massa.

(*) Leia mais de Ricardo Lanza em http://oblognervoso.blogspot.com/


_______________________________________
Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]

Tropa de Elite: o avesso do avesso

Os objetivos da produção de drogas são acumular capitais e produzir lucros. O espaço de sua produção não são as favelas e nem seus proprietários habitam lá. Onde ela é produzida? Quem são os produtores? Onde residem? Por Ana Lúcia da Silva (*).

“Homem de preto,
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão”

Tropa de Elite, o mais badalado filme produzido nos últimos anos no Brasil, pretende retratar uma guerra: a guerra entre o Bope (Batalhão de Operações Especiais) e os traficantes. Qual o objetivo da guerra? “Salvar a cidade do Rio de Janeiro”, como afirma o capitão Nascimento, narrador do filme. “Se o Bope não existisse os traficantes há muito tempo já teriam tomado conta da cidade”, diz ele.

Que guerra é esta?

É uma guerra da qual os objetivos e os responsáveis não são personagens do filme.

Na realidade, Tropa de Elite retrata o espaço e a vida das vítimas da guerra. E quais são elas?

* Os trabalhadores que moram nas favelas. O capitão Nascimento afirma que os traficantes, vítimas das ações do Bope, moram nas favelas e controlam a maioria delas. Isto implica, na versão do filme, que os trabalhadores que habitam nas favelas são coniventes e protegem os traficantes, por medo ou por acomodação. Por isto, o Bope as invade com uma estratégia elaborada que lhe permite avançar e matar várias pessoas, sendo todas elas consideradas traficantes. Mesmo que investigações posteriores comprovem que mataram simples trabalhadores, sem nenhum envolvimento com atividades consideradas criminosas.

* Os traficantes que são espancados, torturados, humilhados e por fim mortos. Estas ações são louvadas e julgadas necessárias. É missão: “Homem de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão.” Nenhuma destas ações é considerada crime e desrespeito às convenções internacionais dos direitos humanos.

Em todo Estado de Direito, criminoso deve ser preso, julgado e, considerado culpado, condenado. A polícia, que é uma concessão pública, não pode fazer justiça pelas próprias mãos.

* Os policiais, da polícia tradicional ou do Bope. O próprio filme mostra que os componentes da polícia são trabalhadores com péssimos salários e condições de trabalho, que terminam se submetendo a uma engrenagem de corrupção e de descaso por parte, principalmente, dos escalões superiores da hierarquia militar que, no caso, representam o Estado. Muitos, para sobreviverem, corrompem-se das mais variadas formas, inclusive chantageando os traficantes e com eles fazendo acordos e tornando-se, conseqüentemente, bandidos fardados. Ora, como poderiam os que se tornaram bandidos fardados guerrear contra bandidos civis? Esta seria uma guerra impossível. Por isto, criou-se o Bope, que aparece como uma resposta à ineficiência e corrupção da “polícia convencional” e aos políticos que a alimentam.

Essa elite de policiais é apresentada como constituída por homens de caráter, incorruptíveis, que sacrificam a vida pessoal e familiar, cujo lema é “faca na caveira e nada na carteira”. Eles passam por uma rigorosa seleção e são “formados na base da porrada, para resistirem às piores provações e até humilhações”. Esta pedagogia da violência é valorizada, julgada eficaz, necessária e se expressa nos cantos de guerra do Bope "Tropa de Elite, Osso duro de roer, Pega um, pega geral.Também vai pegar você!" Mas como é possível que, de algo tão corrompido, saia algo tão incorruptível?

* Os consumidores de droga: sejam os moradores das favelas, seja a juventude rica que estuda na PUC. No filme, principalmente estes são considerados culpados pela existência do tráfico, conseqüentemente da guerra. Em uma cena o capitão Nascimento pergunta a um jovem, apontando para um traficante morto, quem matou este cara? E afirma: “Quem matou esse cara aqui foi você. Seu veado, seu maconheiro, é você quem financia essa merda. A gente sobe aqui pra desfazer a merda que vocês fazem”. Ou seja, os usuários são os responsáveis pela existência do comércio de drogas.

Mas, afinal, que guerra é esta? Quais seus reais objetivos e o espaço onde se desenrola?

Todos sabemos que uma mercadoria para ser vendida tem que ser produzida. Inclusive, o grau de desenvolvimento de um país é determinado, principalmente, pelo tamanho e volume de seu parque industrial. A produção das chamadas drogas ilícitas é um processo industrial complexo. Pelo volume, envolve plantações em grande escala, indústria de refino, armazenamento, transporte. Sendo ilícita, a produção, transporte e armazenamento exigem segurança em todas as etapas (de homens, indústria de armas, subornos, serviço de inteligência), variados transportes terrestres e aéreos, fronteiras, complexa logística de distribuição. Estimula, inclusive, uma crescente e complexa rede privada de segurança, por onde, em 2005, circularam 11,8 bilhões de reais. Sem produção não há consumo. Esta sofisticada e complexa produção é uma enorme fonte de lucros e de acumulação de capital.

Portanto, os objetivos da produção de drogas são acumular capitais e produzir lucros. O espaço de sua produção não são as favelas e nem seus proprietários habitam lá. Onde ela é produzida? Quem são os produtores? Onde residem? Com a palavra os serviços de inteligência do país. Sobre estes personagens centrais para a existência das drogas, o filme não diz uma palavra.

A produção e comercialização das drogas envolvem bilhões de reais ou dólares. É óbvio que este dinheiro não é guardado nas favelas, nas mãos dos traficantes que lá habitam. É lógico que circula no sistema financeiro, que, provavelmente, é o que mais lucra com este comércio e o que enfrenta os menores riscos. O dinheiro é depositado em nome dos próprios produtores da drogas? Em nome de laranjas? Com a palavra o Banco Central.

Este personagem sequer é mencionado no filme.

Esta engrenagem responsável pela indústria da droga funciona a pleno vapor pela omissão, quando não pela conivência do Estado. Personagem também ausente do filme. Esporadicamente aparecem notícias de envolvimento de membros do poder executivo, legislativo e judiciário com a indústria de drogas. Uma investigação aprofundada descobriria os reais responsáveis pela indústria da droga, suas articulações e principais beneficiários. Mas isto destruiria uma poderosa indústria produtora de lucros, poder e prestígio. Por isto, cria-se uma guerra contra os traficantes, transformando as vítimas em personagens centrais, no filme e na vida real. Mas o filme, ao lado de toda a divulgação que a mídia dá sobre a violência urbana, contribui para fortalecer algumas idéias do senso comum que contribuem para a manutenção e reprodução desta poderosa máquina de lucros.

* Miséria e violência tornam-se sinônimos e as favelas são o espaço de sua reprodução. Inúmeras pesquisas apontam que, apesar de milhões de trabalhadores habitarem em favelas, principalmente nas grandes cidades, a porcentagem dos que se dedicam as chamadas atividades criminosas gira em torno de 3%. E que a violência maior no cotidiano das favelas não vem do tráfico, mas expressam a violência das tensões do mundo contemporâneo, tensões que explodem nas brigas de rua, de vizinhos, entre amigos, nos campos de futebol etc.

* O tráfico de drogas é o maior responsável por esta violência. No entanto, dados de pesquisa publicados na revista Carta Capital desmentem esta versão e mostram que, entre os motivos para assassinato, 13% tem origem no tráfico.

Este senso comum que norteia principalmente o ideário da classe média esconde o fundamental: a monstruosa concentração de renda no Brasil é que abre espaço para a cultura da violência. Numa sociedade em que as pessoas valem pelo que consomem, a juventude das favelas assimila o incentivo ao consumo de roupas, carros, jóias, shows, baladas, bebidas, que simbolizam bem estar, prestígio, status, poder. Sem outras oportunidades sociais, buscam no tráfico os recursos que lhes permitem tornarem-se “consumidores” socialmente valorizados em suas comunidades. Pode-se concluir que a solução do problema do tráfico não é policial, mas política e passa pelas reformas: tributária, agrária, urbana, política, cultural e financeira.

(*) Ana Lúcia da Silva é historiadora. Publicado também no Jornal O Popular (GO).


_______________________________________
www.consciencia.net

Tropa de Elite: o avesso do avesso

Os objetivos da produção de drogas são acumular capitais e produzir lucros. O espaço de sua produção não são as favelas e nem seus proprietários habitam lá. Onde ela é produzida? Quem são os produtores? Onde residem? Por Ana Lúcia da Silva (*).

“Homem de preto,
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão”

Tropa de Elite, o mais badalado filme produzido nos últimos anos no Brasil, pretende retratar uma guerra: a guerra entre o Bope (Batalhão de Operações Especiais) e os traficantes. Qual o objetivo da guerra? “Salvar a cidade do Rio de Janeiro”, como afirma o capitão Nascimento, narrador do filme. “Se o Bope não existisse os traficantes há muito tempo já teriam tomado conta da cidade”, diz ele.

Que guerra é esta?

É uma guerra da qual os objetivos e os responsáveis não são personagens do filme.

Na realidade, Tropa de Elite retrata o espaço e a vida das vítimas da guerra. E quais são elas?

* Os trabalhadores que moram nas favelas. O capitão Nascimento afirma que os traficantes, vítimas das ações do Bope, moram nas favelas e controlam a maioria delas. Isto implica, na versão do filme, que os trabalhadores que habitam nas favelas são coniventes e protegem os traficantes, por medo ou por acomodação. Por isto, o Bope as invade com uma estratégia elaborada que lhe permite avançar e matar várias pessoas, sendo todas elas consideradas traficantes. Mesmo que investigações posteriores comprovem que mataram simples trabalhadores, sem nenhum envolvimento com atividades consideradas criminosas.

* Os traficantes que são espancados, torturados, humilhados e por fim mortos. Estas ações são louvadas e julgadas necessárias. É missão: “Homem de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão.” Nenhuma destas ações é considerada crime e desrespeito às convenções internacionais dos direitos humanos.

Em todo Estado de Direito, criminoso deve ser preso, julgado e, considerado culpado, condenado. A polícia, que é uma concessão pública, não pode fazer justiça pelas próprias mãos.

* Os policiais, da polícia tradicional ou do Bope. O próprio filme mostra que os componentes da polícia são trabalhadores com péssimos salários e condições de trabalho, que terminam se submetendo a uma engrenagem de corrupção e de descaso por parte, principalmente, dos escalões superiores da hierarquia militar que, no caso, representam o Estado. Muitos, para sobreviverem, corrompem-se das mais variadas formas, inclusive chantageando os traficantes e com eles fazendo acordos e tornando-se, conseqüentemente, bandidos fardados. Ora, como poderiam os que se tornaram bandidos fardados guerrear contra bandidos civis? Esta seria uma guerra impossível. Por isto, criou-se o Bope, que aparece como uma resposta à ineficiência e corrupção da “polícia convencional” e aos políticos que a alimentam.

Essa elite de policiais é apresentada como constituída por homens de caráter, incorruptíveis, que sacrificam a vida pessoal e familiar, cujo lema é “faca na caveira e nada na carteira”. Eles passam por uma rigorosa seleção e são “formados na base da porrada, para resistirem às piores provações e até humilhações”. Esta pedagogia da violência é valorizada, julgada eficaz, necessária e se expressa nos cantos de guerra do Bope "Tropa de Elite, Osso duro de roer, Pega um, pega geral.Também vai pegar você!" Mas como é possível que, de algo tão corrompido, saia algo tão incorruptível?

* Os consumidores de droga: sejam os moradores das favelas, seja a juventude rica que estuda na PUC. No filme, principalmente estes são considerados culpados pela existência do tráfico, conseqüentemente da guerra. Em uma cena o capitão Nascimento pergunta a um jovem, apontando para um traficante morto, quem matou este cara? E afirma: “Quem matou esse cara aqui foi você. Seu veado, seu maconheiro, é você quem financia essa merda. A gente sobe aqui pra desfazer a merda que vocês fazem”. Ou seja, os usuários são os responsáveis pela existência do comércio de drogas.

Mas, afinal, que guerra é esta? Quais seus reais objetivos e o espaço onde se desenrola?

Todos sabemos que uma mercadoria para ser vendida tem que ser produzida. Inclusive, o grau de desenvolvimento de um país é determinado, principalmente, pelo tamanho e volume de seu parque industrial. A produção das chamadas drogas ilícitas é um processo industrial complexo. Pelo volume, envolve plantações em grande escala, indústria de refino, armazenamento, transporte. Sendo ilícita, a produção, transporte e armazenamento exigem segurança em todas as etapas (de homens, indústria de armas, subornos, serviço de inteligência), variados transportes terrestres e aéreos, fronteiras, complexa logística de distribuição. Estimula, inclusive, uma crescente e complexa rede privada de segurança, por onde, em 2005, circularam 11,8 bilhões de reais. Sem produção não há consumo. Esta sofisticada e complexa produção é uma enorme fonte de lucros e de acumulação de capital.

Portanto, os objetivos da produção de drogas são acumular capitais e produzir lucros. O espaço de sua produção não são as favelas e nem seus proprietários habitam lá. Onde ela é produzida? Quem são os produtores? Onde residem? Com a palavra os serviços de inteligência do país. Sobre estes personagens centrais para a existência das drogas, o filme não diz uma palavra.

A produção e comercialização das drogas envolvem bilhões de reais ou dólares. É óbvio que este dinheiro não é guardado nas favelas, nas mãos dos traficantes que lá habitam. É lógico que circula no sistema financeiro, que, provavelmente, é o que mais lucra com este comércio e o que enfrenta os menores riscos. O dinheiro é depositado em nome dos próprios produtores da drogas? Em nome de laranjas? Com a palavra o Banco Central.

Este personagem sequer é mencionado no filme.

Esta engrenagem responsável pela indústria da droga funciona a pleno vapor pela omissão, quando não pela conivência do Estado. Personagem também ausente do filme. Esporadicamente aparecem notícias de envolvimento de membros do poder executivo, legislativo e judiciário com a indústria de drogas. Uma investigação aprofundada descobriria os reais responsáveis pela indústria da droga, suas articulações e principais beneficiários. Mas isto destruiria uma poderosa indústria produtora de lucros, poder e prestígio. Por isto, cria-se uma guerra contra os traficantes, transformando as vítimas em personagens centrais, no filme e na vida real. Mas o filme, ao lado de toda a divulgação que a mídia dá sobre a violência urbana, contribui para fortalecer algumas idéias do senso comum que contribuem para a manutenção e reprodução desta poderosa máquina de lucros.

* Miséria e violência tornam-se sinônimos e as favelas são o espaço de sua reprodução. Inúmeras pesquisas apontam que, apesar de milhões de trabalhadores habitarem em favelas, principalmente nas grandes cidades, a porcentagem dos que se dedicam as chamadas atividades criminosas gira em torno de 3%. E que a violência maior no cotidiano das favelas não vem do tráfico, mas expressam a violência das tensões do mundo contemporâneo, tensões que explodem nas brigas de rua, de vizinhos, entre amigos, nos campos de futebol etc.

* O tráfico de drogas é o maior responsável por esta violência. No entanto, dados de pesquisa publicados na revista Carta Capital desmentem esta versão e mostram que, entre os motivos para assassinato, 13% tem origem no tráfico.

Este senso comum que norteia principalmente o ideário da classe média esconde o fundamental: a monstruosa concentração de renda no Brasil é que abre espaço para a cultura da violência. Numa sociedade em que as pessoas valem pelo que consomem, a juventude das favelas assimila o incentivo ao consumo de roupas, carros, jóias, shows, baladas, bebidas, que simbolizam bem estar, prestígio, status, poder. Sem outras oportunidades sociais, buscam no tráfico os recursos que lhes permitem tornarem-se “consumidores” socialmente valorizados em suas comunidades. Pode-se concluir que a solução do problema do tráfico não é policial, mas política e passa pelas reformas: tributária, agrária, urbana, política, cultural e financeira.

(*) Ana Lúcia da Silva é historiadora. Publicado também no Jornal O Popular (GO).


_______________________________________
www.consciencia.net

As nossas escolhas

Dia desses, uma manchete do jornal me chamou a atenção e talvez me tenha atrasado o sono. Dizia que “Brasileiro gasta mais com jogo de azar do que com educação”. Não por que o brasileiro não tenha o direito de gastar sua grana com o que bem entender. Mas pelo fato de como nós brasileiros fazemos nossas escolhas e nos relacionamos com elas. Por Marcos Sílvio de Santana, de Patos de Minas (MG)

A matéria do jornal aponta para as conseqüências de algumas escolhas que fazemos. Por exemplo, se gastamos mais com cigarros do que com livros, isso vai refletir na qualidade da mão-de-obra disponível no mercado diminuindo a nossa capacidade produtiva, a nossa competitividade, sem falar que o cigarro também vai piorar a saúde que por sua vez também reduz o potencial produtivo.

A autora da notícia lembra que a média de estudos do brasileiro é inferior a sete anos, enquanto que na Europa é superior a doze. Agora, imaginemos estar andando a 10 km/h e, à nossa frente, a uma distância “x”, alguém a 20 km/h e no mesmo sentido. Isso significa que, uma hora depois, esse alguém estará a uma distância “2x” de vantagem e, após duas horas, “3x”, e assim por diante. Considerando a forma com que o brasileiro encara a educação e também outros vários fatores básicos para a “ordem e o progresso” socioeconômico, diríamos que as perspectivas são desalentadoras.

Trazendo a idéia para o plano interno, é possível vislumbrar um “achatamento” ou uma deformação da atual pirâmide social. As poucas pessoas com maior renda vão cada vez ficando mais escassas, e as camadas mais carentes aumentando, em relação ao conjunto populacional, tendo em vista, principalmente, o controle de natalidade das famílias nos diversos estratos sociais.

Assim, aliando-se esses fatores a tantos outros, estaria o País caminhando para uma inexorável catástrofe social?

Outra questão inquietante é a nossa falta de compreensão dos temas políticos, a nossa forma de nos relacionarmos com os valores democráticos e com a cidadania. Recentemente, houve quem falasse em uma “nova constituinte”, uma revisão constitucional, ou coisa assim. Quem pensou na convocação de uma assembléia constituinte certamente não parou pra pensar no momento político que vivemos. Não refletiu nem um pouco sobre a nossa capacidade ou preparo para escolher ou eleger uma assembléia constituinte. O risco de termos a pior “safra” de representantes de todos os tempos é enorme. Isto por que as circunstâncias de momento inibem o surgimento de novos quadros e favorecem o aparecimento de mais aventureiros e oportunistas impregnados de interesses escusos.

Também não podemos nos esquecer de que os “políticos” saem do nosso meio. Eles não vêm de um outro mundo, o “mundo dos maus”. Eles são frutos da nossa sociedade, das nossas famílias e o que eles fazem é resultado do aprendizado adquirido no meio social. Não se quer aqui “pintar” um cenário de pessimismo. Porém, a melhor maneira de começar a equacionar os problemas é arrostar a realidade. As dificuldades domésticas devem ser resolvidas em casa e pelos donos da casa.

Não seria hora de darmos um “basta” nas bajulações enfadonhas, de rejeitarmos esses títulos hipócritas de povo íntegro, honesto, trabalhador, etc.? Aliás, precisamos desconstituir todo esse formato adquirido ao longo de 500 anos de erros. Recomeçarmos, iniciando por uma reconstrução social, através da remodelação dos nossos valores, da nossa postura como cidadãos, revendo o papel de cada um socialmente e na família. Quem sabe, pensar nua escola com educação moral e cívica, disciplina, religião, etc.

A expressão “resgate de valores” tem estado muito presente em vários segmentos da nossa sociedade. É um bom sinal, pois significa que as pessoas têm-se preocupado com o assunto. Porém, não há milagres. O tão almejado resgate de valores somente se dará quando formos capazes de reinventar a forma de nos educarmos, tanto na escola como na família. Somente com educação adequada será possível a reinversão dos nossos conceitos e nos tornarmos capazes de pensar por nós mesmos, com autocrítica e capacidade de discernimento. Então, obviamente, as nossas escolhas, as nossas preferências deixarão de ser alvo de assombros e deboches, e o Brasil sairá do desconforto de ser considerado um “país de 3ª divisão”.

_______________________________________
www.consciencia.net

As nossas escolhas

Dia desses, uma manchete do jornal me chamou a atenção e talvez me tenha atrasado o sono. Dizia que “Brasileiro gasta mais com jogo de azar do que com educação”. Não por que o brasileiro não tenha o direito de gastar sua grana com o que bem entender. Mas pelo fato de como nós brasileiros fazemos nossas escolhas e nos relacionamos com elas. Por Marcos Sílvio de Santana, de Patos de Minas (MG)

A matéria do jornal aponta para as conseqüências de algumas escolhas que fazemos. Por exemplo, se gastamos mais com cigarros do que com livros, isso vai refletir na qualidade da mão-de-obra disponível no mercado diminuindo a nossa capacidade produtiva, a nossa competitividade, sem falar que o cigarro também vai piorar a saúde que por sua vez também reduz o potencial produtivo.

A autora da notícia lembra que a média de estudos do brasileiro é inferior a sete anos, enquanto que na Europa é superior a doze. Agora, imaginemos estar andando a 10 km/h e, à nossa frente, a uma distância “x”, alguém a 20 km/h e no mesmo sentido. Isso significa que, uma hora depois, esse alguém estará a uma distância “2x” de vantagem e, após duas horas, “3x”, e assim por diante. Considerando a forma com que o brasileiro encara a educação e também outros vários fatores básicos para a “ordem e o progresso” socioeconômico, diríamos que as perspectivas são desalentadoras.

Trazendo a idéia para o plano interno, é possível vislumbrar um “achatamento” ou uma deformação da atual pirâmide social. As poucas pessoas com maior renda vão cada vez ficando mais escassas, e as camadas mais carentes aumentando, em relação ao conjunto populacional, tendo em vista, principalmente, o controle de natalidade das famílias nos diversos estratos sociais.

Assim, aliando-se esses fatores a tantos outros, estaria o País caminhando para uma inexorável catástrofe social?

Outra questão inquietante é a nossa falta de compreensão dos temas políticos, a nossa forma de nos relacionarmos com os valores democráticos e com a cidadania. Recentemente, houve quem falasse em uma “nova constituinte”, uma revisão constitucional, ou coisa assim. Quem pensou na convocação de uma assembléia constituinte certamente não parou pra pensar no momento político que vivemos. Não refletiu nem um pouco sobre a nossa capacidade ou preparo para escolher ou eleger uma assembléia constituinte. O risco de termos a pior “safra” de representantes de todos os tempos é enorme. Isto por que as circunstâncias de momento inibem o surgimento de novos quadros e favorecem o aparecimento de mais aventureiros e oportunistas impregnados de interesses escusos.

Também não podemos nos esquecer de que os “políticos” saem do nosso meio. Eles não vêm de um outro mundo, o “mundo dos maus”. Eles são frutos da nossa sociedade, das nossas famílias e o que eles fazem é resultado do aprendizado adquirido no meio social. Não se quer aqui “pintar” um cenário de pessimismo. Porém, a melhor maneira de começar a equacionar os problemas é arrostar a realidade. As dificuldades domésticas devem ser resolvidas em casa e pelos donos da casa.

Não seria hora de darmos um “basta” nas bajulações enfadonhas, de rejeitarmos esses títulos hipócritas de povo íntegro, honesto, trabalhador, etc.? Aliás, precisamos desconstituir todo esse formato adquirido ao longo de 500 anos de erros. Recomeçarmos, iniciando por uma reconstrução social, através da remodelação dos nossos valores, da nossa postura como cidadãos, revendo o papel de cada um socialmente e na família. Quem sabe, pensar nua escola com educação moral e cívica, disciplina, religião, etc.

A expressão “resgate de valores” tem estado muito presente em vários segmentos da nossa sociedade. É um bom sinal, pois significa que as pessoas têm-se preocupado com o assunto. Porém, não há milagres. O tão almejado resgate de valores somente se dará quando formos capazes de reinventar a forma de nos educarmos, tanto na escola como na família. Somente com educação adequada será possível a reinversão dos nossos conceitos e nos tornarmos capazes de pensar por nós mesmos, com autocrítica e capacidade de discernimento. Então, obviamente, as nossas escolhas, as nossas preferências deixarão de ser alvo de assombros e deboches, e o Brasil sairá do desconforto de ser considerado um “país de 3ª divisão”.

_______________________________________
www.consciencia.net

Fórum Econômico Mundial e Fórum Social Mundial: possíveis laboratórios para uma democracia global?

A maneira como os grupos envolvidos no FEM ou no FSM lidariam com tamanha variedade, se há contornos de dominação sobressaindo nas ações destes agentes, podem nos dizer hoje se a aposta em uma esfera pública global futura, ou uma democracia mundial, é fadada a ser um grande fracasso. Por George Gomes Coutinho (*).

No mês de janeiro, sobretudo nos últimos seis anos, parte significativa da grande imprensa mundial mobiliza-se em torno de dois grandes eventos que, em maior ou menor escala, sintetizam e debatem no seu desenrolar parcela nada desprezível dos problemas que acossam a humanidade. Estão presentes, enquanto objeto de discussão, temáticas que vão desde a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis (com destaque para a AIDS), bioética, patentes, desenvolvimento, religiosidades, tecnologias de informação, mercado financeiro etc., o leque é, pois, multifacetado. E, direta ou indiretamente, a temática da democracia, ponto que irei retomar adiante, também está presente em discursos e posicionamentos.

O primeiro destes eventos, o Fórum Econômico Mundial (doravante FEM) representa hegemonicamente a reunião da fração rica do mundo, ocorrendo seu grande encontro anual desde 1971 até a presente data. Segundo o Wall Street Journal de 20 de janeiro de 2003, naquele mesmo ano contavam-se mais de 1000 (mil) grandes corporações presentes nas reuniões realizadas em Davos, aquela pequena e sofisticada estação de esqui na Suíça. Evidente que também há a presença, incensada, de partícipes do showbusiness internacional como a atriz Sharon Stone ou o cantor da banda de rock irlandesa, Bono Vox, do U2 o que ajuda a atrair os olhares ávidos por novidades dos correspondentes da imprensa.

Contudo, em meio à tamanha pirotecnia e paparazzos, segundo dados disponibilizados pelo próprio evento em seu sítio eletrônico (http://www.weforum.org), nada mais que 69% dos participantes da última reunião, no ano de 2005, eram provenientes da dupla Europa/América do Norte. Parte significativa do “restante” do mundo divide-se nos 31% restantes. Seja como for não é exagero afirmar que os grandes “Senhores” do mundo, sejam senhores de guerra ou da paz, por lá se encontram, realizando uma interessante mistura de grandes e pequenos líderes mundiais com homens de negócio. A ausência das “mulheres de negócios” deve-se ao fato de que estas ainda sejam minoria no FEM, ao menos se tomarmos como referência o ano de 2005.

O Fórum Social Mundial (doravante FSM) é representado comumente como a contraparte do FEM, o seu grande antagonista, seja pela mídia ou por seus idealizadores. Evento realizado primeiramente no ano de 2001, concebido por Oded Grajew (ex-presidente da Grow brinquedos), Francisco Whitaker (arquiteto de formação e atuante em movimentos sociais de base católica) e Bernard Cassen (diretor do jornal Le Monde Diplomatique), o FSM viria congregar as forças anti-globalização que atuaram em protestos que sacudiram as sociedades centrais como o de Seattle (EUA) em 1999 e, depois, iria fornecer elementos para outras manifestações, como a ocorrida em Gênova, Itália, no mês de julho do ano de 2001.

Desde então, as reuniões anuais ocorridas em Porto Alegre (Brasil), tendo apenas uma edição acontecido na cidade de Mumbai (Índia), funcionam para tentarmos compreender quais seriam as apostas e formatos encontrados para “Um outro mundo possível”. Também tal estratégia metodológica pode ser interessante na observação do FEM, ou seja, nos discursos elaborados pelos freqüentadores desta reunião também anual.

Retornando ao FSM, este é inegavelmente plural, multilingüe, multiétnico, multicultural e dotado de uma tolerância religiosa que faz com que convivam crenças monoteístas, politeístas e ateus, porém convivendo com uma séria fragilidade, que seria a obtenção de um maior número de representantes da maior gama de tendências político/culturais possíveis, sejam de uma esquerda mais “tradicional”, ou de grupos oriundos da chamada “nova esquerda”. Inclusive, o formato “policêntrico” em voga, com reuniões acontecendo em diversas partes do mundo visa obter maior legitimidade perante os grandes movimentos atuantes na esfera global objetivando ser um facilitador para a presença dos militantes que, em sua maioria, são auto-financiados. Caracas (Venezuela), Bamako (Mali) e Karachi (Paquistão) são as sedes desta tentativa no ano de 2006, para uma maior diversidade humana no FSM.

Estes dois Fóruns nos chamam a atenção por ocorrerem em um momento histórico complexo no que diz respeito à democracia. O “refluxo” é uma realidade pois estaríamos vivendo, ao mesmo tempo, o espraiamento das democracias representativas liberais no mundo e também, parcialmente, o seu questionamento. Seja pela baixa freqüência do eleitorado nas urnas em determinados países centrais, ou pela invasão efetuada pelos EUA no território iraquiano em nome de uma democracia representativa imposta realizada às expensas do povo daquele país, ou, mais um paradoxo, na ascensão de grupos de extrema direita na Europa, que consideram normalmente a democracia um artefato de pouca utilidade, parecendo ignorar solenemente que eles mesmos estejam em ascensão não a despeito das nossas democracias “formais” e, sim, em conseqüência destas. Se, por um lado, “nunca fomos tão democratas” aparentemente este regime ou procedimento, se não for acompanhado por inovações no campo institucional, pode vir a pique ou ser ainda mais desgastado no médio/longo prazo.

Uma outra grande questão, o que faz com os dois Fóruns possam ser vistos como um laboratório para a democracia contemporânea: os chamados “contextos pós-nacionais”. A despeito do tamanho exagero de determinados analistas no que diz respeito ao fenômeno da globalização, é inviável dizer que “nada mudou”. Se o capitalismo desde o século XVI, se assim o quisermos, guarda uma vocação global, contudo, este jamais viu tamanha velocidade de comunicação. Esta comunicação é acelerada, dado o avanço das tecnologias, atrelado a uma notória disseminação da cultura material do capitalismo, a despeito de ocidente e oriente e, evidentemente, de sua distribuição desigual.

Também é contraproducente ignorar a difusão de sua cultura simbólica, expressa em valores, objetos de desejos e séries de longa duração que nos chegam pela televisão a cabo, etc.. Há alguma homogeneidade comportamental em curso, no que tange as classes médias, que supera os limites dos grandes Estados-Nacionais. Mas, a despeito da enorme importância do campo simbólico e da descoberta de novas subjetividades oriundas deste contexto, sabemos que há um grau de dependência transnacional abissal no campo econômico. As reconfigurações no mundo contemporâneo, como a criação de megablocos comerciais como a União Européia, nos apontam para desafios inelutáveis. A constante circulação de imigrantes nos leva ao problema de uma cidadania que pode, e necessita, ser pensada para além do espaço dos Estados-Nacionais se não quisermos deixar também estes blocos nascerem já “abortados”.

As teorias da democracia, que remontam ao seu nascedouro na Grécia antiga há pelo menos 2500 anos e que depois foram repaginadas para conviver com os Estados e a sociabilidade burguesa que se edificam a partir do século XVIII, chegam ao século XXI necessitando lidar com mais esta demanda. Neste sentido, respondendo a pergunta que confere título a este ensaio, eu digo que o FEM e o FSM podem ser vistos, se assim o quisermos, como laboratórios para pensarmos novas propostas no campo democrático, sobretudo, uma nova práxis democrática, necessariamente mais inclusiva, que saiba compreender e lidar com as vicissitudes do atual momento histórico.

Nas atuais circunstâncias em que a Organização das Nações Unidas (ONU) demonstra pouco poder de aglutinação e ação, embora mantendo alguma legitimidade simbólica, a movimentação mais ou menos espontânea de diversas categorias de agentes em ambos os Fóruns pode trazer oportunidades únicas para estudarmos esse fenômeno na devida complexidade que ele exige. Não há, ainda, uma esfera pública global. Ou, se há uma esfera pública desta magnitude, esta é ainda incrivelmente incipiente, trazendo poucos efeitos práticos para o exercício da cidadania. Mas, há a sua matéria prima: uma ampla variedade discursiva. Retornando aos dois fóruns poderíamos arriscar dizer que há esboços de uma esfera publica que lida com diferentes linguagens, valores, apostas, religiões, moralidades, etc..

A maneira como os grupos envolvidos no FEM ou no FSM lidariam com tamanha variedade, se há contornos de dominação sobressaindo nas ações destes agentes, podem nos dizer hoje se a aposta em uma esfera pública global futura, ou uma democracia mundial, é fadada a ser um grande fracasso. Os poucos analistas que se dedicam aos contextos pós-nacionais, até agora, tem dito que dificilmente conseguiremos erguer algo assim. Todavia, as ciências relacionadas a política, sejam a sociologia ou antropologia, história, filosofia política, relações internacionais, além da própria ciência política, terão que, mais cedo ou mais tarde, atentarem com vagar a este novo problema.

(*) George Gomes Coutinho é Mestrando em Políticas Sociais - UENF e Membro do Núcleo de Estudos em Teoria Social (NETS), coordenado pela professora Dr ª Adelia Miglievich - UENF.


_______________________________________
www.consciencia.net

Fórum Econômico Mundial e Fórum Social Mundial: possíveis laboratórios para uma democracia global?

A maneira como os grupos envolvidos no FEM ou no FSM lidariam com tamanha variedade, se há contornos de dominação sobressaindo nas ações destes agentes, podem nos dizer hoje se a aposta em uma esfera pública global futura, ou uma democracia mundial, é fadada a ser um grande fracasso. Por George Gomes Coutinho (*).

No mês de janeiro, sobretudo nos últimos seis anos, parte significativa da grande imprensa mundial mobiliza-se em torno de dois grandes eventos que, em maior ou menor escala, sintetizam e debatem no seu desenrolar parcela nada desprezível dos problemas que acossam a humanidade. Estão presentes, enquanto objeto de discussão, temáticas que vão desde a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis (com destaque para a AIDS), bioética, patentes, desenvolvimento, religiosidades, tecnologias de informação, mercado financeiro etc., o leque é, pois, multifacetado. E, direta ou indiretamente, a temática da democracia, ponto que irei retomar adiante, também está presente em discursos e posicionamentos.

O primeiro destes eventos, o Fórum Econômico Mundial (doravante FEM) representa hegemonicamente a reunião da fração rica do mundo, ocorrendo seu grande encontro anual desde 1971 até a presente data. Segundo o Wall Street Journal de 20 de janeiro de 2003, naquele mesmo ano contavam-se mais de 1000 (mil) grandes corporações presentes nas reuniões realizadas em Davos, aquela pequena e sofisticada estação de esqui na Suíça. Evidente que também há a presença, incensada, de partícipes do showbusiness internacional como a atriz Sharon Stone ou o cantor da banda de rock irlandesa, Bono Vox, do U2 o que ajuda a atrair os olhares ávidos por novidades dos correspondentes da imprensa.

Contudo, em meio à tamanha pirotecnia e paparazzos, segundo dados disponibilizados pelo próprio evento em seu sítio eletrônico (http://www.weforum.org), nada mais que 69% dos participantes da última reunião, no ano de 2005, eram provenientes da dupla Europa/América do Norte. Parte significativa do “restante” do mundo divide-se nos 31% restantes. Seja como for não é exagero afirmar que os grandes “Senhores” do mundo, sejam senhores de guerra ou da paz, por lá se encontram, realizando uma interessante mistura de grandes e pequenos líderes mundiais com homens de negócio. A ausência das “mulheres de negócios” deve-se ao fato de que estas ainda sejam minoria no FEM, ao menos se tomarmos como referência o ano de 2005.

O Fórum Social Mundial (doravante FSM) é representado comumente como a contraparte do FEM, o seu grande antagonista, seja pela mídia ou por seus idealizadores. Evento realizado primeiramente no ano de 2001, concebido por Oded Grajew (ex-presidente da Grow brinquedos), Francisco Whitaker (arquiteto de formação e atuante em movimentos sociais de base católica) e Bernard Cassen (diretor do jornal Le Monde Diplomatique), o FSM viria congregar as forças anti-globalização que atuaram em protestos que sacudiram as sociedades centrais como o de Seattle (EUA) em 1999 e, depois, iria fornecer elementos para outras manifestações, como a ocorrida em Gênova, Itália, no mês de julho do ano de 2001.

Desde então, as reuniões anuais ocorridas em Porto Alegre (Brasil), tendo apenas uma edição acontecido na cidade de Mumbai (Índia), funcionam para tentarmos compreender quais seriam as apostas e formatos encontrados para “Um outro mundo possível”. Também tal estratégia metodológica pode ser interessante na observação do FEM, ou seja, nos discursos elaborados pelos freqüentadores desta reunião também anual.

Retornando ao FSM, este é inegavelmente plural, multilingüe, multiétnico, multicultural e dotado de uma tolerância religiosa que faz com que convivam crenças monoteístas, politeístas e ateus, porém convivendo com uma séria fragilidade, que seria a obtenção de um maior número de representantes da maior gama de tendências político/culturais possíveis, sejam de uma esquerda mais “tradicional”, ou de grupos oriundos da chamada “nova esquerda”. Inclusive, o formato “policêntrico” em voga, com reuniões acontecendo em diversas partes do mundo visa obter maior legitimidade perante os grandes movimentos atuantes na esfera global objetivando ser um facilitador para a presença dos militantes que, em sua maioria, são auto-financiados. Caracas (Venezuela), Bamako (Mali) e Karachi (Paquistão) são as sedes desta tentativa no ano de 2006, para uma maior diversidade humana no FSM.

Estes dois Fóruns nos chamam a atenção por ocorrerem em um momento histórico complexo no que diz respeito à democracia. O “refluxo” é uma realidade pois estaríamos vivendo, ao mesmo tempo, o espraiamento das democracias representativas liberais no mundo e também, parcialmente, o seu questionamento. Seja pela baixa freqüência do eleitorado nas urnas em determinados países centrais, ou pela invasão efetuada pelos EUA no território iraquiano em nome de uma democracia representativa imposta realizada às expensas do povo daquele país, ou, mais um paradoxo, na ascensão de grupos de extrema direita na Europa, que consideram normalmente a democracia um artefato de pouca utilidade, parecendo ignorar solenemente que eles mesmos estejam em ascensão não a despeito das nossas democracias “formais” e, sim, em conseqüência destas. Se, por um lado, “nunca fomos tão democratas” aparentemente este regime ou procedimento, se não for acompanhado por inovações no campo institucional, pode vir a pique ou ser ainda mais desgastado no médio/longo prazo.

Uma outra grande questão, o que faz com os dois Fóruns possam ser vistos como um laboratório para a democracia contemporânea: os chamados “contextos pós-nacionais”. A despeito do tamanho exagero de determinados analistas no que diz respeito ao fenômeno da globalização, é inviável dizer que “nada mudou”. Se o capitalismo desde o século XVI, se assim o quisermos, guarda uma vocação global, contudo, este jamais viu tamanha velocidade de comunicação. Esta comunicação é acelerada, dado o avanço das tecnologias, atrelado a uma notória disseminação da cultura material do capitalismo, a despeito de ocidente e oriente e, evidentemente, de sua distribuição desigual.

Também é contraproducente ignorar a difusão de sua cultura simbólica, expressa em valores, objetos de desejos e séries de longa duração que nos chegam pela televisão a cabo, etc.. Há alguma homogeneidade comportamental em curso, no que tange as classes médias, que supera os limites dos grandes Estados-Nacionais. Mas, a despeito da enorme importância do campo simbólico e da descoberta de novas subjetividades oriundas deste contexto, sabemos que há um grau de dependência transnacional abissal no campo econômico. As reconfigurações no mundo contemporâneo, como a criação de megablocos comerciais como a União Européia, nos apontam para desafios inelutáveis. A constante circulação de imigrantes nos leva ao problema de uma cidadania que pode, e necessita, ser pensada para além do espaço dos Estados-Nacionais se não quisermos deixar também estes blocos nascerem já “abortados”.

As teorias da democracia, que remontam ao seu nascedouro na Grécia antiga há pelo menos 2500 anos e que depois foram repaginadas para conviver com os Estados e a sociabilidade burguesa que se edificam a partir do século XVIII, chegam ao século XXI necessitando lidar com mais esta demanda. Neste sentido, respondendo a pergunta que confere título a este ensaio, eu digo que o FEM e o FSM podem ser vistos, se assim o quisermos, como laboratórios para pensarmos novas propostas no campo democrático, sobretudo, uma nova práxis democrática, necessariamente mais inclusiva, que saiba compreender e lidar com as vicissitudes do atual momento histórico.

Nas atuais circunstâncias em que a Organização das Nações Unidas (ONU) demonstra pouco poder de aglutinação e ação, embora mantendo alguma legitimidade simbólica, a movimentação mais ou menos espontânea de diversas categorias de agentes em ambos os Fóruns pode trazer oportunidades únicas para estudarmos esse fenômeno na devida complexidade que ele exige. Não há, ainda, uma esfera pública global. Ou, se há uma esfera pública desta magnitude, esta é ainda incrivelmente incipiente, trazendo poucos efeitos práticos para o exercício da cidadania. Mas, há a sua matéria prima: uma ampla variedade discursiva. Retornando aos dois fóruns poderíamos arriscar dizer que há esboços de uma esfera publica que lida com diferentes linguagens, valores, apostas, religiões, moralidades, etc..

A maneira como os grupos envolvidos no FEM ou no FSM lidariam com tamanha variedade, se há contornos de dominação sobressaindo nas ações destes agentes, podem nos dizer hoje se a aposta em uma esfera pública global futura, ou uma democracia mundial, é fadada a ser um grande fracasso. Os poucos analistas que se dedicam aos contextos pós-nacionais, até agora, tem dito que dificilmente conseguiremos erguer algo assim. Todavia, as ciências relacionadas a política, sejam a sociologia ou antropologia, história, filosofia política, relações internacionais, além da própria ciência política, terão que, mais cedo ou mais tarde, atentarem com vagar a este novo problema.

(*) George Gomes Coutinho é Mestrando em Políticas Sociais - UENF e Membro do Núcleo de Estudos em Teoria Social (NETS), coordenado pela professora Dr ª Adelia Miglievich - UENF.


_______________________________________
www.consciencia.net

Greve ilegal no país do Presidente Sindicalista

Toda decisão judicial é interpretativa e, portanto, ideológica. Toda interpretação é ideológica. Não existe decisão não interpretativa. Se assim fosse, não seria necessária a figura do juiz. Bastaria um programa de computador (...) O direito inscrito na Constituição Federal independe de regulamentação para o seu exercício. Se a regulamentação não existe cabe ao judiciário decidir, mas nunca eliminar o direito Constitucional. Pode restringir, mas não eliminar o direito. Por Pedro Aparecido de Souza (*).

Nos anos de Governo do PT e aliados, os judiciários estaduais, na sua maioria, declaram, assim que provocados, a maioria das greves como ilegal. As greves na educação e transporte são as mais visadas pelos judiciários estaduais.

Sobre os efeitos da greve sobre a população são inegáveis os malefícios. A importância do transporte de pessoas e educação para a população também é inegável. E se são importantes para a população, quem efetivamente trabalha e faz a educação e o transporte funcionar deveria ser tratado com respeito e inegável importância pelos patrões: proprietários de ônibus e os governos.

No desenrolar das greves, manifesta-se uma grande diferença: no Judiciário Federal Trabalhista uma greve geralmente é declarada legal e no Judiciário Estadual a outra é, geralmente, declarada ilegal.

As greves nos transportes são julgadas pelo Judiciário Federal Trabalhista. Já as greves na educação pública são julgadas pelos Judiciários Estaduais.

No Judiciário Federal Trabalhista geralmente as greves dos transportes (concessão pública) são consideradas legais. Nos Judiciários Estaduais as greves na educação pública são consideradas ilegais.

Toda decisão judicial é interpretativa e, portanto, ideológica. Toda interpretação é ideológica. Não existe decisão não interpretativa. Se assim fosse, não seria necessária a figura do juiz. Bastaria um programa de computador. O juiz existe para dar interpretação aos fatos, baseando-se na lei, jurisprudência e outras fontes. Se a decisão é interpretativa, também cabe interpretação da decisão.

A declaração da greve ilegal se dá baseada no dispositivo constitucional que a greve para os servidores públicos não está regulamentada em lei. O direito de greve está evidente na Constituição da República em seu artigo 9°, no capítulo dos Direitos Sociais: "É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender". No parágrafo 1º, do mesmo artigo: "A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade" e no parágrafo 2º: "Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei".

Portanto o direito de greve é claro como o dia. Os únicos servidores públicos que não têm direito de greve são os militares (Art. 142, inciso IV). Não têm direito sequer à sindicalização. Se a Constituição da República, explicitamente, restringe o direito de greve a uma única categoria, significa que todos os outros servidores públicos têm direito de greve.

E, por isso mesmo, para os servidores públicos está contemplado o direito de greve no artigo 37 da Constituição da República, no inciso VI: "O direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica".

Aqui está todo o cerne da discussão. A greve dos trabalhadores da educação pública é declarada ilegal porque o direito de greve dos servidores não está regulamentado em lei. E é a pura verdade.

No entanto, tudo que está escrito na Constituição da República não é por acaso. Ou seja, o Direito dado pela Constituição, somente uma emenda constitucional ou uma nova Assembléia Constituinte pode modificá-lo, ou através do STF com declaração de constitucionalidade ou inconstitucionalidade.

O direito de greve dos servidores públicos está registrado na Constituição da República. E ponto final. Se não existe lei regulamentando, não elimina o direito de greve.

Fazendo uma simples comparação: se na Constituição de qualquer país está escrito que as pessoas têm o direito à vida, e que esse direito será regulamentado em lei, será que o direito à vida não existe enquanto não for regulamentado? Será que se poderia matar, já que não está regulamentado em lei?

O direito inscrito na Constituição Federal independe de regulamentação para o seu exercício. Se a regulamentação não existe cabe ao judiciário decidir, mas nunca eliminar o direito Constitucional. Pode restringir, mas não eliminar o direito.

E, baseado nisso, o Judiciário Federal Trabalhista declara legal a greve de motoristas e cobradores. Quase sempre coloca restrições. Por exemplo: no mínimo 30% dos ônibus deverão estar na rua e multa de R$ 5.000,00 em caso de descumprimento. Mas nada de cassar o direito constitucional de greve.

Mas a covardia do Governo Federal do PT e aliados é muito pior que as decisões dos Judiciários Estaduais, pois esse tumulto todo não haveria se o Governo Federal regulamentasse o direito de greve dos servidores públicos.

Para um Governo que se elegeu sustentado pelos trabalhadores e que durante mais de vinte anos se posicionou ao lado dos trabalhadores, o mínimo que se esperava seria a regulamentação da greve dos servidores públicos.

Ficamos no paradoxo: um governo que tem um Sindicalista (com certeza o maior Sindicalista que o Brasil já teve) como Presidente da República, que tem um partido que se definiu e atuou como esquerda durante mais de vinte anos e não tem coragem de regulamentar o direito de greve para os servidores públicos do Brasil.

E ainda, de brinde, não garantiu hora extra, FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e férias de trinta dias aos empregados domésticos e empregadas domésticas perpetuando, assim, a situação dos últimos escravos oficialmente não libertos pela Lei.

(*) Pedro Aparecido de Souza é Consultor Sindical em Planejamento e Estratégia em diversas Entidades Sindicais e Associativas no Brasil; Diretor de Comunicação da Diretoria Executiva Colegiada do SINDIJUFE-MT – Sindicato dos Servidores Públicos no Poder Judiciário Federal no Estado de Mato Grosso; Diretor Executivo da Diretoria Colegiada da FENAJUFE – Federação Nacional dos Trabalhadores no Judiciário Federal e Ministério Público da União; Presidente do Conselho da ASSOJAF-MT – Associação dos Oficiais de Justiça Avaliadores Federais no Estado de Mato Grosso; Oficial de Justiça Avaliador Federal no TRT 23ª Região e Professor Universitário de Direito. Site: www.pedroaparecido.com. Email: pedroaparecido@pedroaparecido.com


_______________________________________
www.consciencia.net