Entrevista exclusiva com a Ministra Nilcéa Freire sobre as cotas
Nilcéa Freire, da secretaria de Políticas para as Mulheres, era reitora da UERJ quando as cotas foram aprovadas lá, na Conferência Nacional Contra o Racismo e a Intolerância. Mas a mídia nunca tocou no assunto com ela, que acabou de dar uma exclusiva por email no www.emdiacomacidadania.com.br
Vídeo circula pela rede com denúncias de racismo na TV Globo; emissora desmente
Um suposto diretor do Programa do Faustão, que passa orientações ao apresentador, dispara comentários racistas e se refere de forma depreciativa, o tempo todo, a um senhor idoso, convidado do programa, como criolo. A Globo afirmou, por meio de sua assessoria, tratar-se de uma informação falsa: "Trata-se de uma montagem grotesca. Inclusive, o Fausto sequer usa ponto eletrônico". Leia mais.
A vitória de Barack Obama e o Brasil
A vitória de Barack Obama pode sugerir duas afirmações. A primeira é que os Estados Unidos não são tão racistas como parecem; A segunda, o Brasil é mais racista do que se imagina. A análise é de Paulo Rogério Nunes.
A vitória de Barack Obama pode sugerir duas afirmações. A primeira é que os Estados Unidos não são tão racistas como parecem; A segunda, o Brasil é mais racista do que se imagina. Durante anos, intelectuais brasileiros insistiam na afirmação de que o país era uma democracia racial, e que nossos vizinhos do norte, estes sim, eram racistas e segregadores. Tanto é assim que na década de 50 uma missão da Unesco visitou nosso país em busca da "fórmula mágica" da integração racial, sugerida por nossos dirigentes como única no mundo. A resposta não agradou aos pesquisadores.
Dos anos 50 para cá a conjuntura mudou. Com o movimento dos direitos civis e a implementação das ações afirmativas, a sociedade estadunidense foi, pouco a pouco, corrigindo as distorções sociais que qualificavam aquele país, corretamente, como um país apartado. A situação dos negros americanos não foi completamente resolvida até hoje, mas não há como negar o grandioso avanço na integração dos afro-americanos à economia. Se fossem um país, os afro-americanos seriam hoje a 11º economia do mundo.
Por aqui, não. Presos ao mito da democracia racial, ampliamos o abismo entre negros e não-negros e fomos aos poucos assumindo o posto de uma das nações mais desiguais do mundo. Segundo o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo, Doudou Diène, "viajar pelo país é como mover-se entre dois planetas".
A eleição de Obama é um retrato dessa diferença na abordagem anti-racista entre Brasil e Estados Unidos. A população afro-americana não passa de 12%, enquanto o nosso contingente beira os 50%. Apesar disso, ainda não foi criada no Brasil uma plataforma social capaz de inserir os afro-brasileiros nas esferas de poder, talvez o motivo de nunca termos cogitado um presidente negro, nem mesmo na ficção televisiva.
Um presidente não surge sem base social e econômica. Para Obama chegar aonde chegou foram cruciais as contribuições de negros que ocupam lugares de destaque, como empresários, jornalistas, acadêmicos e diplomatas, que chegaram a esses espaços impulsionados pelas ações afirmativas – aqui tão criticadas. Em entrevista à France Press, Berenice King, filha de Martin Luther King, principal ativista dos direitos civis que foi assassinado nos anos 60, disse que "o trabalho pelo qual meu pai e minha mãe se sacrificaram não foi em vão".
Para o Brasil, resta-nos refletir o motivo de não conseguimos realizar tal fato, já que nos consideramos "pouco racistas". O fenômeno Obama deve ser encarado como um marco para uma reflexão sobre nossas relações raciais. Sem um enfrentamento real dessas desigualdades, dificilmente poderemos nos orgulhar de nossa democracia e elegermos, no futuro, um presidente negro.
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A vitória de Barack Obama pode sugerir duas afirmações. A primeira é que os Estados Unidos não são tão racistas como parecem; A segunda, o Brasil é mais racista do que se imagina. Durante anos, intelectuais brasileiros insistiam na afirmação de que o país era uma democracia racial, e que nossos vizinhos do norte, estes sim, eram racistas e segregadores. Tanto é assim que na década de 50 uma missão da Unesco visitou nosso país em busca da "fórmula mágica" da integração racial, sugerida por nossos dirigentes como única no mundo. A resposta não agradou aos pesquisadores.
Dos anos 50 para cá a conjuntura mudou. Com o movimento dos direitos civis e a implementação das ações afirmativas, a sociedade estadunidense foi, pouco a pouco, corrigindo as distorções sociais que qualificavam aquele país, corretamente, como um país apartado. A situação dos negros americanos não foi completamente resolvida até hoje, mas não há como negar o grandioso avanço na integração dos afro-americanos à economia. Se fossem um país, os afro-americanos seriam hoje a 11º economia do mundo.
Por aqui, não. Presos ao mito da democracia racial, ampliamos o abismo entre negros e não-negros e fomos aos poucos assumindo o posto de uma das nações mais desiguais do mundo. Segundo o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo, Doudou Diène, "viajar pelo país é como mover-se entre dois planetas".
A eleição de Obama é um retrato dessa diferença na abordagem anti-racista entre Brasil e Estados Unidos. A população afro-americana não passa de 12%, enquanto o nosso contingente beira os 50%. Apesar disso, ainda não foi criada no Brasil uma plataforma social capaz de inserir os afro-brasileiros nas esferas de poder, talvez o motivo de nunca termos cogitado um presidente negro, nem mesmo na ficção televisiva.
Um presidente não surge sem base social e econômica. Para Obama chegar aonde chegou foram cruciais as contribuições de negros que ocupam lugares de destaque, como empresários, jornalistas, acadêmicos e diplomatas, que chegaram a esses espaços impulsionados pelas ações afirmativas – aqui tão criticadas. Em entrevista à France Press, Berenice King, filha de Martin Luther King, principal ativista dos direitos civis que foi assassinado nos anos 60, disse que "o trabalho pelo qual meu pai e minha mãe se sacrificaram não foi em vão".
Para o Brasil, resta-nos refletir o motivo de não conseguimos realizar tal fato, já que nos consideramos "pouco racistas". O fenômeno Obama deve ser encarado como um marco para uma reflexão sobre nossas relações raciais. Sem um enfrentamento real dessas desigualdades, dificilmente poderemos nos orgulhar de nossa democracia e elegermos, no futuro, um presidente negro.
(*) Paulo Rogério Nunes, publicitário, especialista em Política e diretor do Instituto Mídia Étnica. Email: rogerio@midiaetnica.org / Site: www.correionago.com.br
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A vitória de Barack Obama e o Brasil
A vitória de Barack Obama pode sugerir duas afirmações. A primeira é que os Estados Unidos não são tão racistas como parecem; A segunda, o Brasil é mais racista do que se imagina. A análise é de Paulo Rogério Nunes. Clique aqui para ler.
A vitória de Barack Obama pode sugerir duas afirmações. A primeira é que os Estados Unidos não são tão racistas como parecem; A segunda, o Brasil é mais racista do que se imagina. Durante anos, intelectuais brasileiros insistiam na afirmação de que o país era uma democracia racial, e que nossos vizinhos do norte, estes sim, eram racistas e segregadores. Tanto é assim que na década de 50 uma missão da Unesco visitou nosso país em busca da "fórmula mágica" da integração racial, sugerida por nossos dirigentes como única no mundo. A resposta não agradou aos pesquisadores.
Dos anos 50 para cá a conjuntura mudou. Com o movimento dos direitos civis e a implementação das ações afirmativas, a sociedade estadunidense foi, pouco a pouco, corrigindo as distorções sociais que qualificavam aquele país, corretamente, como um país apartado. A situação dos negros americanos não foi completamente resolvida até hoje, mas não há como negar o grandioso avanço na integração dos afro-americanos à economia. Se fossem um país, os afro-americanos seriam hoje a 11º economia do mundo.
Por aqui, não. Presos ao mito da democracia racial, ampliamos o abismo entre negros e não-negros e fomos aos poucos assumindo o posto de uma das nações mais desiguais do mundo. Segundo o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo, Doudou Diène, "viajar pelo país é como mover-se entre dois planetas".
A eleição de Obama é um retrato dessa diferença na abordagem anti-racista entre Brasil e Estados Unidos. A população afro-americana não passa de 12%, enquanto o nosso contingente beira os 50%. Apesar disso, ainda não foi criada no Brasil uma plataforma social capaz de inserir os afro-brasileiros nas esferas de poder, talvez o motivo de nunca termos cogitado um presidente negro, nem mesmo na ficção televisiva.
Um presidente não surge sem base social e econômica. Para Obama chegar aonde chegou foram cruciais as contribuições de negros que ocupam lugares de destaque, como empresários, jornalistas, acadêmicos e diplomatas, que chegaram a esses espaços impulsionados pelas ações afirmativas – aqui tão criticadas. Em entrevista à France Press, Berenice King, filha de Martin Luther King, principal ativista dos direitos civis que foi assassinado nos anos 60, disse que "o trabalho pelo qual meu pai e minha mãe se sacrificaram não foi em vão".
Para o Brasil, resta-nos refletir o motivo de não conseguimos realizar tal fato, já que nos consideramos "pouco racistas". O fenômeno Obama deve ser encarado como um marco para uma reflexão sobre nossas relações raciais. Sem um enfrentamento real dessas desigualdades, dificilmente poderemos nos orgulhar de nossa democracia e elegermos, no futuro, um presidente negro.
Dos anos 50 para cá a conjuntura mudou. Com o movimento dos direitos civis e a implementação das ações afirmativas, a sociedade estadunidense foi, pouco a pouco, corrigindo as distorções sociais que qualificavam aquele país, corretamente, como um país apartado. A situação dos negros americanos não foi completamente resolvida até hoje, mas não há como negar o grandioso avanço na integração dos afro-americanos à economia. Se fossem um país, os afro-americanos seriam hoje a 11º economia do mundo.
Por aqui, não. Presos ao mito da democracia racial, ampliamos o abismo entre negros e não-negros e fomos aos poucos assumindo o posto de uma das nações mais desiguais do mundo. Segundo o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo, Doudou Diène, "viajar pelo país é como mover-se entre dois planetas".
A eleição de Obama é um retrato dessa diferença na abordagem anti-racista entre Brasil e Estados Unidos. A população afro-americana não passa de 12%, enquanto o nosso contingente beira os 50%. Apesar disso, ainda não foi criada no Brasil uma plataforma social capaz de inserir os afro-brasileiros nas esferas de poder, talvez o motivo de nunca termos cogitado um presidente negro, nem mesmo na ficção televisiva.
Um presidente não surge sem base social e econômica. Para Obama chegar aonde chegou foram cruciais as contribuições de negros que ocupam lugares de destaque, como empresários, jornalistas, acadêmicos e diplomatas, que chegaram a esses espaços impulsionados pelas ações afirmativas – aqui tão criticadas. Em entrevista à France Press, Berenice King, filha de Martin Luther King, principal ativista dos direitos civis que foi assassinado nos anos 60, disse que "o trabalho pelo qual meu pai e minha mãe se sacrificaram não foi em vão".
Para o Brasil, resta-nos refletir o motivo de não conseguimos realizar tal fato, já que nos consideramos "pouco racistas". O fenômeno Obama deve ser encarado como um marco para uma reflexão sobre nossas relações raciais. Sem um enfrentamento real dessas desigualdades, dificilmente poderemos nos orgulhar de nossa democracia e elegermos, no futuro, um presidente negro.
(*) Paulo Rogério Nunes, publicitário, especialista em Política e diretor do Instituto Mídia Étnica. Email: rogerio@midiaetnica.org / Site: www.correionago.com.br
UERJ sedia III Fórum Racismo é Crime
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) será sede, dias 26, 27 de 28 de novembro, do III Fórum “Racismo É Crime! Aplicabilidade da Lei Penal”. O Fórum é gratuito e terá validade de horas para o Estágio Forense, conforme autorização da Comissão de Estágio da OAB/RJ e contagem de pontos para funcionários públicos.
Abordará os seguintes temas: Aspectos Jurídicos, Políticos, Culturais e Sociais dos Crimes de Racismo e a Sociedade Brasileira; Aspectos legais das decisões dos Tribunais de Justiça nos crimes de racismo, e atuação do Ministério Público, da Polícia Judiciária e da OAB, quanto à Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; entre outros. Clique no título para saber mais.
Abordará os seguintes temas: Aspectos Jurídicos, Políticos, Culturais e Sociais dos Crimes de Racismo e a Sociedade Brasileira; Aspectos legais das decisões dos Tribunais de Justiça nos crimes de racismo, e atuação do Ministério Público, da Polícia Judiciária e da OAB, quanto à Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; entre outros. Clique no título para saber mais.
UERJ sedia III Fórum Racismo é Crime
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) será sede, dias 26, 27 de 28 de novembro, do III Fórum “Racismo É Crime! Aplicabilidade da Lei Penal”.
O evento é promovido pelo Centro de Pesquisas Criminológicas do Rio de Janeiro (CEPERJ) e pela UERJ, por meio do Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos e Afro-Americanos (PROAFRO), do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE), da Comissão OAB/RJ Vai à Escola, da Academia de Polícia Civil Silvio Terra (ACADEPOL) e do Instituto Palmares de Direitos Humanos (IPDH). O Fórum ocorre no Mês da Consciência Negra.
O Fórum é gratuito e terá validade de horas para o Estágio Forense, conforme autorização da Comissão de Estágio da OAB/RJ e contagem de pontos para funcionários públicos.
Contará com a participação de palestrantes como: Dr. Wilson Roberto Prudente, Procurador do Ministério Público Federal /Ministério do Trabalho, professor universitário, mestre em Direito; Dr. Ítalo Bittencourt de Macedo, Delegado de polícia civil, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal; Dr. Carlos Alberto de Oliveira – Delegado de polícia Civil, Titular da Delegacia de Repressão à Armas e Explosivos – DRAE; Dr. Mário Leopoldo – Presidente da Comissão OAB Vai à Escola – Consultor jurídico do COMDEDINE, Professor da UFRJ; Dr. Humberto Adami, advogado, mestre em Direito, presidente do IARA, Diretor da UNI - Palmares; Dr. Oswaldo Barbosa da Silva, advogado, Presidente do Parlamento Internacional dos Povos, Presidente do 2º Encontro dos Advogados Afro-descendentes e Africanos; entre outros palestrantes.
Abordará os seguintes temas: Aspectos Jurídicos, Políticos, Culturais e Sociais dos Crimes de Racismo e a Sociedade Brasileira; Aspectos legais das decisões dos Tribunais de Justiça nos crimes de racismo, e atuação do Ministério Público, da Polícia Judiciária e da OAB, quanto à Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; Aspectos culturais, sociais e jurídicos dos crimes de racismo por intolerância religiosa, racial, homofobia, e a Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; Crimes de Racismo: Aspectos da Responsabilidade Civil em face das condenações dos crimes de racismo; e Crimes de Racismo: A questão Histórica, a Sociologia Jurídica e os Movimentos Sociais.
Informações:
Telefones: (21) 2557-1382, 9676-2490, 9893-4191, 9943-8589
Emails: centro.ceperj@terra.com.br e forumracismoecrime@terra.com.br
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O Fórum é gratuito e terá validade de horas para o Estágio Forense, conforme autorização da Comissão de Estágio da OAB/RJ e contagem de pontos para funcionários públicos.
Contará com a participação de palestrantes como: Dr. Wilson Roberto Prudente, Procurador do Ministério Público Federal /Ministério do Trabalho, professor universitário, mestre em Direito; Dr. Ítalo Bittencourt de Macedo, Delegado de polícia civil, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal; Dr. Carlos Alberto de Oliveira – Delegado de polícia Civil, Titular da Delegacia de Repressão à Armas e Explosivos – DRAE; Dr. Mário Leopoldo – Presidente da Comissão OAB Vai à Escola – Consultor jurídico do COMDEDINE, Professor da UFRJ; Dr. Humberto Adami, advogado, mestre em Direito, presidente do IARA, Diretor da UNI - Palmares; Dr. Oswaldo Barbosa da Silva, advogado, Presidente do Parlamento Internacional dos Povos, Presidente do 2º Encontro dos Advogados Afro-descendentes e Africanos; entre outros palestrantes.
Abordará os seguintes temas: Aspectos Jurídicos, Políticos, Culturais e Sociais dos Crimes de Racismo e a Sociedade Brasileira; Aspectos legais das decisões dos Tribunais de Justiça nos crimes de racismo, e atuação do Ministério Público, da Polícia Judiciária e da OAB, quanto à Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; Aspectos culturais, sociais e jurídicos dos crimes de racismo por intolerância religiosa, racial, homofobia, e a Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; Crimes de Racismo: Aspectos da Responsabilidade Civil em face das condenações dos crimes de racismo; e Crimes de Racismo: A questão Histórica, a Sociologia Jurídica e os Movimentos Sociais.
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O Fórum é gratuito e terá validade de horas para o Estágio Forense, conforme autorização da Comissão de Estágio da OAB/RJ e contagem de pontos para funcionários públicos.
Contará com a participação de palestrantes como: Dr. Wilson Roberto Prudente, Procurador do Ministério Público Federal /Ministério do Trabalho, professor universitário, mestre em Direito; Dr. Ítalo Bittencourt de Macedo, Delegado de polícia civil, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal; Dr. Carlos Alberto de Oliveira – Delegado de polícia Civil, Titular da Delegacia de Repressão à Armas e Explosivos – DRAE; Dr. Mário Leopoldo – Presidente da Comissão OAB Vai à Escola – Consultor jurídico do COMDEDINE, Professor da UFRJ; Dr. Humberto Adami, advogado, mestre em Direito, presidente do IARA, Diretor da UNI - Palmares; Dr. Oswaldo Barbosa da Silva, advogado, Presidente do Parlamento Internacional dos Povos, Presidente do 2º Encontro dos Advogados Afro-descendentes e Africanos; entre outros palestrantes.
Abordará os seguintes temas: Aspectos Jurídicos, Políticos, Culturais e Sociais dos Crimes de Racismo e a Sociedade Brasileira; Aspectos legais das decisões dos Tribunais de Justiça nos crimes de racismo, e atuação do Ministério Público, da Polícia Judiciária e da OAB, quanto à Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; Aspectos culturais, sociais e jurídicos dos crimes de racismo por intolerância religiosa, racial, homofobia, e a Aplicabilidade Penal da Lei dos Crimes de Racismo; Crimes de Racismo: Aspectos da Responsabilidade Civil em face das condenações dos crimes de racismo; e Crimes de Racismo: A questão Histórica, a Sociologia Jurídica e os Movimentos Sociais.
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Cenas de Racismo
Racializar as relações sociais é trazer para o plano da consciência social a diferenciação social dissimulada pelos discursos da democracia racial e da convivência pacífica brasileira. A idéia de que somos um povo mestiço domina as nossas cabeças, entretanto ela nos faz esquecer que os negros ainda existem e estão submetidos a toda sorte de preconceitos e racismo. Por Igor Vitorino (*).
Certo dia fui à zona sul do Rio de Janeiro, na casa de uma amiga. Chegando à rua, dirigi-me ao prédio que procurava, perguntei ao porteiro pelo número 602 e ele ficou meia hora tentando me dizer que ali não havia aquele número. "Mas minha amiga disse que era nesse prédio" - eu lhe falei. Novamente ele ficou olhando-me tortamente e de cara feia.
Fiquei revoltado, pois percebi o que estava acontecendo, o que para ele deveria ser um procedimento naturalizado. Ele deveria estar pensando: “Esse cara está querendo alguma coisa!”. Naquela tensão, novamente falei: "Quero ir no apartamento 602, por favor!" Entretanto, ele só confirmou que minha colega morava ali após eu dizer firmemente: “É na casa da Marcela, meu senhor!”. “Ele respondeu: Ah, espere um pouco!”.
Ai logo ele providenciou, ligou para minha colega e mandou que eu entrasse, quando já estava perto do elevador eu disse, em tom irônico: “Acho que os senhores não estão acostumados a receber negros nesse prédio”. Ele surpreendentemente, confirmando o que eu já tinha sentido, que se tratava de preconceito racial, do estigma negro-marginal-pobre, rebateu dizendo: “Não meu senhor, é uma questão de segurança”. E, ainda, acrescentou: “Aqui temos moradores mais escuros do que o senhor”. O mais assustador é que o porteiro era nordestino, daqueles preconceituosamente chamados no Rio de Janeiro de “paraíbas”.
Entendia o que estava acontecendo naquela interação social, ela me feria profundamente, sabia que foi devido a minha condição de negro, recebi aquele tratamento diferenciado na portaria. Como negro não podia dizer somente o número do apartamento, para que depois a dona do apartamento perguntasse quem eram, para depois permitir a entrada. Nada disso, como negro tinha que dizer minha coordenada, tinha que provar que ela não era aquela imaginada pelo porteiro: “entrar para assaltar”.
Todavia quantos amigos e amigas negras já não agüentam mais ficar explicando e justificando que não são marginais, que têm os mesmos direitos, principalmente àqueles cujas características fenótipas não são reconhecidas no mundo da estética, como os dos negros consumíveis de mercado.
Esse tipo de experiência social, cuja ferida nos dilacera e o direito objetivo não consegue reconhecer e as instituições republicanas não dão conta de resolver, potencializa diversos tipos de revoltas sociais: seja pela pura violência, seja na ação coletiva. Ele imprime, diariamente, nos corpos dos negros, a vivência da negação do direito a ir-vir. Os negros não têm direito a flanar, quando o fazem, são imediatamente abordados com seguinte pergunta: "Tá fazendo o que aí?”.
A possibilidade de dar voz e de tornar essa questão explicita abriu espaço para partilhar nossos dramas e alcançarmos uma nova natureza das relações sociais no Brasil. O tabu dessa temática fez muitos intelectuais e escritores a tratá-la nas entrelinhas de seus textos (como Machado de Assis), fez nossos pais e ancestrais a viverem-na no silêncio do seus corações.
Hoje cada vez mais saímos das entrelinhas para as linhas, talvez seja este um dos motivos de tantos protestos contra as políticas de cotas, pois estas conferem aos negros a possibilidade de falar sobre si, mais do que se apropriarem das profissões e dos recursos materiais e simbólicos que permitem construir um outro discurso sobre a nossa história brasileira. Na realidade, a política de cotas é a síntese da luta dos negros e das negras por um lugar de fala na sociedade brasileira.
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Certo dia fui à zona sul do Rio de Janeiro, na casa de uma amiga. Chegando à rua, dirigi-me ao prédio que procurava, perguntei ao porteiro pelo número 602 e ele ficou meia hora tentando me dizer que ali não havia aquele número. "Mas minha amiga disse que era nesse prédio" - eu lhe falei. Novamente ele ficou olhando-me tortamente e de cara feia.
Fiquei revoltado, pois percebi o que estava acontecendo, o que para ele deveria ser um procedimento naturalizado. Ele deveria estar pensando: “Esse cara está querendo alguma coisa!”. Naquela tensão, novamente falei: "Quero ir no apartamento 602, por favor!" Entretanto, ele só confirmou que minha colega morava ali após eu dizer firmemente: “É na casa da Marcela, meu senhor!”. “Ele respondeu: Ah, espere um pouco!”.
Ai logo ele providenciou, ligou para minha colega e mandou que eu entrasse, quando já estava perto do elevador eu disse, em tom irônico: “Acho que os senhores não estão acostumados a receber negros nesse prédio”. Ele surpreendentemente, confirmando o que eu já tinha sentido, que se tratava de preconceito racial, do estigma negro-marginal-pobre, rebateu dizendo: “Não meu senhor, é uma questão de segurança”. E, ainda, acrescentou: “Aqui temos moradores mais escuros do que o senhor”. O mais assustador é que o porteiro era nordestino, daqueles preconceituosamente chamados no Rio de Janeiro de “paraíbas”.
Entendia o que estava acontecendo naquela interação social, ela me feria profundamente, sabia que foi devido a minha condição de negro, recebi aquele tratamento diferenciado na portaria. Como negro não podia dizer somente o número do apartamento, para que depois a dona do apartamento perguntasse quem eram, para depois permitir a entrada. Nada disso, como negro tinha que dizer minha coordenada, tinha que provar que ela não era aquela imaginada pelo porteiro: “entrar para assaltar”.
Todavia quantos amigos e amigas negras já não agüentam mais ficar explicando e justificando que não são marginais, que têm os mesmos direitos, principalmente àqueles cujas características fenótipas não são reconhecidas no mundo da estética, como os dos negros consumíveis de mercado.
Esse tipo de experiência social, cuja ferida nos dilacera e o direito objetivo não consegue reconhecer e as instituições republicanas não dão conta de resolver, potencializa diversos tipos de revoltas sociais: seja pela pura violência, seja na ação coletiva. Ele imprime, diariamente, nos corpos dos negros, a vivência da negação do direito a ir-vir. Os negros não têm direito a flanar, quando o fazem, são imediatamente abordados com seguinte pergunta: "Tá fazendo o que aí?”.
A possibilidade de dar voz e de tornar essa questão explicita abriu espaço para partilhar nossos dramas e alcançarmos uma nova natureza das relações sociais no Brasil. O tabu dessa temática fez muitos intelectuais e escritores a tratá-la nas entrelinhas de seus textos (como Machado de Assis), fez nossos pais e ancestrais a viverem-na no silêncio do seus corações.
Hoje cada vez mais saímos das entrelinhas para as linhas, talvez seja este um dos motivos de tantos protestos contra as políticas de cotas, pois estas conferem aos negros a possibilidade de falar sobre si, mais do que se apropriarem das profissões e dos recursos materiais e simbólicos que permitem construir um outro discurso sobre a nossa história brasileira. Na realidade, a política de cotas é a síntese da luta dos negros e das negras por um lugar de fala na sociedade brasileira.
(*) Igor Vitorino é formando em história pela UFES. Mestrando em Planejamento Urbano e Regional na IPPUR\UFRJ.
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Cenas de Racismo
Racializar as relações sociais é trazer para o plano da consciência social a diferenciação social dissimulada pelos discursos da democracia racial e da convivência pacífica brasileira. A idéia de que somos um povo mestiço domina as nossas cabeças, entretanto ela nos faz esquecer que os negros ainda existem e estão submetidos a toda sorte de preconceitos e racismo. Por Igor Vitorino (*).
Certo dia fui à zona sul do Rio de Janeiro, na casa de uma amiga. Chegando à rua, dirigi-me ao prédio que procurava, perguntei ao porteiro pelo número 602 e ele ficou meia hora tentando me dizer que ali não havia aquele número. "Mas minha amiga disse que era nesse prédio" - eu lhe falei. Novamente ele ficou olhando-me tortamente e de cara feia.
Fiquei revoltado, pois percebi o que estava acontecendo, o que para ele deveria ser um procedimento naturalizado. Ele deveria estar pensando: “Esse cara está querendo alguma coisa!”. Naquela tensão, novamente falei: "Quero ir no apartamento 602, por favor!" Entretanto, ele só confirmou que minha colega morava ali após eu dizer firmemente: “É na casa da Marcela, meu senhor!”. “Ele respondeu: Ah, espere um pouco!”.
Ai logo ele providenciou, ligou para minha colega e mandou que eu entrasse, quando já estava perto do elevador eu disse, em tom irônico: “Acho que os senhores não estão acostumados a receber negros nesse prédio”. Ele surpreendentemente, confirmando o que eu já tinha sentido, que se tratava de preconceito racial, do estigma negro-marginal-pobre, rebateu dizendo: “Não meu senhor, é uma questão de segurança”. E, ainda, acrescentou: “Aqui temos moradores mais escuros do que o senhor”. O mais assustador é que o porteiro era nordestino, daqueles preconceituosamente chamados no Rio de Janeiro de “paraíbas”.
Entendia o que estava acontecendo naquela interação social, ela me feria profundamente, sabia que foi devido a minha condição de negro, recebi aquele tratamento diferenciado na portaria. Como negro não podia dizer somente o número do apartamento, para que depois a dona do apartamento perguntasse quem eram, para depois permitir a entrada. Nada disso, como negro tinha que dizer minha coordenada, tinha que provar que ela não era aquela imaginada pelo porteiro: “entrar para assaltar”.
Todavia quantos amigos e amigas negras já não agüentam mais ficar explicando e justificando que não são marginais, que têm os mesmos direitos, principalmente àqueles cujas características fenótipas não são reconhecidas no mundo da estética, como os dos negros consumíveis de mercado.
Esse tipo de experiência social, cuja ferida nos dilacera e o direito objetivo não consegue reconhecer e as instituições republicanas não dão conta de resolver, potencializa diversos tipos de revoltas sociais: seja pela pura violência, seja na ação coletiva. Ele imprime, diariamente, nos corpos dos negros, a vivência da negação do direito a ir-vir. Os negros não têm direito a flanar, quando o fazem, são imediatamente abordados com seguinte pergunta: "Tá fazendo o que aí?”.
A possibilidade de dar voz e de tornar essa questão explicita abriu espaço para partilhar nossos dramas e alcançarmos uma nova natureza das relações sociais no Brasil. O tabu dessa temática fez muitos intelectuais e escritores a tratá-la nas entrelinhas de seus textos (como Machado de Assis), fez nossos pais e ancestrais a viverem-na no silêncio do seus corações.
Hoje cada vez mais saímos das entrelinhas para as linhas, talvez seja este um dos motivos de tantos protestos contra as políticas de cotas, pois estas conferem aos negros a possibilidade de falar sobre si, mais do que se apropriarem das profissões e dos recursos materiais e simbólicos que permitem construir um outro discurso sobre a nossa história brasileira. Na realidade, a política de cotas é a síntese da luta dos negros e das negras por um lugar de fala na sociedade brasileira.
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Certo dia fui à zona sul do Rio de Janeiro, na casa de uma amiga. Chegando à rua, dirigi-me ao prédio que procurava, perguntei ao porteiro pelo número 602 e ele ficou meia hora tentando me dizer que ali não havia aquele número. "Mas minha amiga disse que era nesse prédio" - eu lhe falei. Novamente ele ficou olhando-me tortamente e de cara feia.
Fiquei revoltado, pois percebi o que estava acontecendo, o que para ele deveria ser um procedimento naturalizado. Ele deveria estar pensando: “Esse cara está querendo alguma coisa!”. Naquela tensão, novamente falei: "Quero ir no apartamento 602, por favor!" Entretanto, ele só confirmou que minha colega morava ali após eu dizer firmemente: “É na casa da Marcela, meu senhor!”. “Ele respondeu: Ah, espere um pouco!”.
Ai logo ele providenciou, ligou para minha colega e mandou que eu entrasse, quando já estava perto do elevador eu disse, em tom irônico: “Acho que os senhores não estão acostumados a receber negros nesse prédio”. Ele surpreendentemente, confirmando o que eu já tinha sentido, que se tratava de preconceito racial, do estigma negro-marginal-pobre, rebateu dizendo: “Não meu senhor, é uma questão de segurança”. E, ainda, acrescentou: “Aqui temos moradores mais escuros do que o senhor”. O mais assustador é que o porteiro era nordestino, daqueles preconceituosamente chamados no Rio de Janeiro de “paraíbas”.
Entendia o que estava acontecendo naquela interação social, ela me feria profundamente, sabia que foi devido a minha condição de negro, recebi aquele tratamento diferenciado na portaria. Como negro não podia dizer somente o número do apartamento, para que depois a dona do apartamento perguntasse quem eram, para depois permitir a entrada. Nada disso, como negro tinha que dizer minha coordenada, tinha que provar que ela não era aquela imaginada pelo porteiro: “entrar para assaltar”.
Todavia quantos amigos e amigas negras já não agüentam mais ficar explicando e justificando que não são marginais, que têm os mesmos direitos, principalmente àqueles cujas características fenótipas não são reconhecidas no mundo da estética, como os dos negros consumíveis de mercado.
Esse tipo de experiência social, cuja ferida nos dilacera e o direito objetivo não consegue reconhecer e as instituições republicanas não dão conta de resolver, potencializa diversos tipos de revoltas sociais: seja pela pura violência, seja na ação coletiva. Ele imprime, diariamente, nos corpos dos negros, a vivência da negação do direito a ir-vir. Os negros não têm direito a flanar, quando o fazem, são imediatamente abordados com seguinte pergunta: "Tá fazendo o que aí?”.
A possibilidade de dar voz e de tornar essa questão explicita abriu espaço para partilhar nossos dramas e alcançarmos uma nova natureza das relações sociais no Brasil. O tabu dessa temática fez muitos intelectuais e escritores a tratá-la nas entrelinhas de seus textos (como Machado de Assis), fez nossos pais e ancestrais a viverem-na no silêncio do seus corações.
Hoje cada vez mais saímos das entrelinhas para as linhas, talvez seja este um dos motivos de tantos protestos contra as políticas de cotas, pois estas conferem aos negros a possibilidade de falar sobre si, mais do que se apropriarem das profissões e dos recursos materiais e simbólicos que permitem construir um outro discurso sobre a nossa história brasileira. Na realidade, a política de cotas é a síntese da luta dos negros e das negras por um lugar de fala na sociedade brasileira.
(*) Igor Vitorino é formando em história pela UFES. Mestrando em Planejamento Urbano e Regional na IPPUR\UFRJ.
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Chico Buarque fala sobre o racismo
Em Dia Com A Cidadania - Chico Buarque fala neste vídeo sobre racismo em geral e aquele sofrido pela sua família, pois uma de suas filhas é casada com Carlinhos Brown e os netos, evidentemente, mulatos. Clique no título para assistir ou veja abaixo.
Raça e Classe: a luta pela alteridade
Continuamos a explicar as diferenciações sociais a partir das diferenças biológicas, ainda que também se utilize das diferenças sociais para legitimar as hierarquias. A questão não é dizer que não existe uma substância chamada raça, mas sim reconhecer que ela é uma categoria social, utilizada na vida social para fazer reconhecer e estabelecer distinções e hierarquias sociais. Por Igor Vitorino (*).
Recentemente, em 2006, num seminário no Centro Cultural Banco do Brasil, o conferencista apresentava a interpretação destoante de Manuel Bonfim sobre a questão da viabilidade do Brasil diante de sua matriz racial. Segundo o conferencista, o eminente intelectual brasileiro defendia que o Brasil não era um pais birracial, como os implantadores do sistema de cotas defendem hoje. Manoel Bonfim seria avant-lettre anunciador da não existência de raças, demonstrando o uso do racismo como forma de dominação. A partir dessa proposição que destoava da agenda pública no início do século, o nobre conferencista argumentou para o plenário: não havendo raças, não há sentido na política de cotas. As cotas estariam produzindo um país bicolor, impulsionando a fragmentação da unidade da nação – exclamava acidamente o sociólogo.
Nessa linha de argumentação, construiu-se uma conclusão de que as políticas de cotas racializam as relações sociais, pois impulsionam os indivíduos a interagirem a partir do reconhecimento de sua identidade étnica, em primeiro lugar. Para contestar essas políticas, o conferencista novamente chamou para o debate a questão de que o problema é de classe, pois a grande maioria dos negros estariam nas classes populares.
Entretanto, o estudioso se esqueceu de que, apesar da Física moderna desde Galileu ter descoberto que o sol não gira em torno da terra, não é impossível encontrar muitos que pensam o contrário. Ora, se a biologia descobriu que só há uma raça humana e, inclusive, que ela partiu da África para os outros continentes, não significa que essa informação irá diluir a ideologia do racismo e a representação social da diferença pela idéia de raça, que constituem o tecido social desse país.
Continuamos a explicar as diferenciações sociais a partir das diferenças biológicas, ainda que também se utilize das diferenças sociais para legitimar as hierarquias. A questão não é dizer que não existe uma substância chamada raça, mas sim reconhecer que ela é uma categoria social, utilizada na vida social para fazer reconhecer e estabelecer distinções e hierarquias sociais, que ela serve para julgar moralmente o outro.
Com a crise do Estado do Bem-Estar Social na Europa e nos Estados Unidos, as diferenciações biológicas e diferenciações étnicas e culturais têm sido tomadas como justificava das diferenciações sociais, e usadas como explicação para a crise que vivem esses países. Muçulmanos, africanos, indianos são visto como os estranhos produtores da desordem, ameaçadores da unidade nacional. O preconceito racial e o racismo se tornam armas que escondem os processos de mudanças no capitalismo central e tendem a culpar os explorados por sua própria exploração.
É claro que os efeitos de classe podem se unir aos efeitos de status (raça), entretanto não nos podemos deixar enganar pelas facilidades ao querermos sobrepor as questões raciais às questões de classe. O professor Milton Santos, um dos mais importantes intelectuais brasileiros da atualidade, pertencia à classe média intelectualizada, entretanto essa posição de classe não se traduzia em anulação dos efeitos do status, não era reconhecido como cidadão completo. Assim como a estratégia de Pelé de não discutir sobre sua negritude evidencia que a condição de negro lhe traz alguns problemas ligados às interações sociais.
Creio que o ódio que se levanta recentemente contra as políticas de cotas se inscreve na disputa pelo poder simbólico, de se poder dizer quem somos. É isso que está em jogo. Negar que o poder social no Brasil é branco é fechar olhos aos efeitos materiais e imateriais dessa realidade. Encontramos, é claro, negros em todos os lugares em que vamos, mas quase sempre estão na cozinha, estão dirigindo o carro de alguém, estão nas portaria de prédios, limpando as ruas, etc. Não temos nada contra essas profissões, elas são dignas e devem ser mais valorizadas, entretanto por que não há mais negros em outros lugares sociais?
A grande mudança contemporânea hoje na problematização do preconceito racial e do racismo no Brasil é que sua problematização enquanto problema social está sendo construída pelos sujeitos que vivem/viveram esse drama. A emergência de uma elite intelectual negra ou membros de classe média colocou em disputa os meios simbólicos e materiais de produção das interpretações sobre a condição da negritude, de combate às imagens e práticas depreciadoras dos negros, cujo maior efeito eram construir um self-ideal negador de nós mesmo.
Voltando ao seminário, o palestrante afirmava que o Brasil não era um país birracial e que as cotas irão institucionalizar o racismo e o preconceito racial, que é necessário uma política universal de educação básica. Não discordo. Entretanto ele não conseguia explicar porque as positividades e qualidades sociais têm como centro imagens da população branca. Ter um diploma, em última instância, não revolverá o problema do negro, mas possibilitará que ele vivencie a positividade de sua condição, possibilitará outra experiência de mundo e construção de outras perspectivas, inclusive, para outros negros. O mais importante nas políticas de cotas é dotar de instrumentos intelectuais e condições sociais a população negra, possibilidade de que o que sempre foi silenciado se torne grito, na história. Não sabemos quais serão os problemas dessa escolha, mas poderemos dizer que tentamos. Nós, indíos e negros, precisamos reinterpretar o Brasil.
Se fomos escravos, a vergonha não é nossa, mas de quem nos escravizou. Lutamos pela liberdade, sim – que o digam os muitos negros direcionados ao tronco, os alforriados, os que trabalhavam a mais para conseguirem pagar suas alforrias, as diversas estratégias de resistências, individuais e coletivas. A questão é que as interpretações do Brasil foram feitas a partir dos dilemas e questões postos um determinado tempo; esse é primeiro momento em que essas questões e dilemas têm a presença de outros sujeitos, não mais como objetos, mas como sujeitos, buscando reinterpretar a sua presença. Queremos nosso reconhecimento como cidadãos plenos porque cada cantinho e pedra colocada em construções deste país tiveram o dedo de nossos avós. Se não temos os sobrenomes deles – porque até isso foi negado – temos a visibilidade de suas mãos que construíram sob chicotada, negociação, rebeldia, protestos a nação brasileira.
Sabemos que as explicações da presença maior dos negros nos setores mais subalternos da sociedade não se explica somente pela questão racial, mas também pelo modelo de desenvolvimento concentrador de renda e autoritário que esse país adotou. A formulação dos problemas raciais por aqueles que os sofrem abriu, enfim, espaço para uma nova formulação do que seja o Brasil. Talvez o preço a ser pago seja mesmo o processo de racialização da sociedade, emergência de interesses apoiada na diferenciação racial, o que nos colocará novos desafios, inclusive da descoberta de que os donos do poder continuam brancos.
Mesmo assim, fica-nos uma pergunta: a quem interessa a reação pacífica dos negros à sua condição de inferiorização? O ódio racial cada vez mais impulsionado também não estaria ligado à inexistência de instituições que reconheçam o negro como cidadão? Até quando nós negros teremos que dizer, peremptoriamente, que não somos marginais ou exclamar: "E aí, dona, não vou roubar a sua bolsa"? Ou perceber que, na rua, uma pessoa adiantou os passos ao ver um de nós se aproximando dela? A luta do negro no Brasil carrega a mesma problemática da luta dos trabalhadores, ou seja, torna as condições objetivas, de negro e trabalhador, em condições subjetivas, tornar-se sujeito diante de seu outro, os brancos e o Capital. Todavia, no Brasil, constantemente são bloqueadas essas possibilidades pelos discursos nacionalistas, da pacificidade do brasileiro, da cordialidade, da democracia racial. Dizia o revolucionário russo Leon Trotski: "Se o sol não é de todos, por que ele tem que brilhar para alguns?"
É claro que os negros, mais do que na sua condição de trabalhadores, têm cada vez mais conseguido tornar seus interesses expressos na agenda pública – efeito da ascensão social de muitos negros – entretanto, precisamos construir uma agenda que concilie as condições sociais de negro e as condições de trabalhador. Meus avós reconheciam, com muita dor, o lugar social deles, sabiam que eram pobres e que eram negros, mesmo que não verbalizassem. Nós que iniciamos um processo de individuação queremos ser reconhecidos como cidadãos, temos o direito disso, não queremos que nossas ações sejam avaliadas pelas nossas características físicas e biológicas, mas sim por partilharmos a mesma humanidade. Esse é medo do racista: ver no outro a sua semelhança.
Acredito – ao contrário do intelectual que grita contra a destruição do sonho brasileiro do país pacífico – que a bicoloridade e multicoloridade brasileira dará início, nesse país, a uma nova releitura de sua história e a uma rediscussão de sua nacionalidade. Queremos que a diferença seja reconhecida não só como direito, mas que ela se expresse na apropriação dos recursos materiais e imateriais desse país. A raça, enquanto construção social, existe, orienta e coordena as ações sociais e o imaginário da sociedade brasileira, portanto é preciso abrir espaço para raças e etnias que são oprimidas, esquecidas, escondidas, indignificadas nessa relação: índios, negros... Enquanto na minisérie Malhação só aparecerem imagens e modelos de beleza branca, enquanto um juiz julgar pela aparência, continuaremos um país bicolor ou tricolor, onde só têm direito à fala os brancos. Queremos nosso direito à fala.
Notas
[1] “Manoel Bomfim (1868-1932), intelectual sergipano, autor de A América Latina (1905), Através do Brasil (1910) — co-escrito por Olavo Bilac (1864-1934) — etc., além de uma trilogia composta por: O Brasil na América (1929), O Brasil na História (1930) e O Brasil Nação (1931). Livros dedicados à análise da formação da nacionalidade brasileira. O autor se empenhava em criticar os historiadores e os políticos do Brasil que, segundo ele, teriam deturpado a história nacional e contribuído para a "degradação" da nação. Interessado em resgatar as "qualidades características do povo" brasileiro — que considerava esquecidas pela historiografia —, ele desenvolveu uma reflexão sobre o País e seus habitantes, em que é possível identificar diálogos com pensadores de seu tempo e de outros tempos”. (Gontijo, 2003)
Bibliografia
GONTIJO, Rebeca. Manoel Bomfim: "pensador da história" na Primeira República. Rev. Bras. Hist. , São Paulo, v. 23, n. 45, 2003 . Disponível em:. Acesso em: 23 Oct 2007.
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Recentemente, em 2006, num seminário no Centro Cultural Banco do Brasil, o conferencista apresentava a interpretação destoante de Manuel Bonfim sobre a questão da viabilidade do Brasil diante de sua matriz racial. Segundo o conferencista, o eminente intelectual brasileiro defendia que o Brasil não era um pais birracial, como os implantadores do sistema de cotas defendem hoje. Manoel Bonfim seria avant-lettre anunciador da não existência de raças, demonstrando o uso do racismo como forma de dominação. A partir dessa proposição que destoava da agenda pública no início do século, o nobre conferencista argumentou para o plenário: não havendo raças, não há sentido na política de cotas. As cotas estariam produzindo um país bicolor, impulsionando a fragmentação da unidade da nação – exclamava acidamente o sociólogo.
Nessa linha de argumentação, construiu-se uma conclusão de que as políticas de cotas racializam as relações sociais, pois impulsionam os indivíduos a interagirem a partir do reconhecimento de sua identidade étnica, em primeiro lugar. Para contestar essas políticas, o conferencista novamente chamou para o debate a questão de que o problema é de classe, pois a grande maioria dos negros estariam nas classes populares.
Entretanto, o estudioso se esqueceu de que, apesar da Física moderna desde Galileu ter descoberto que o sol não gira em torno da terra, não é impossível encontrar muitos que pensam o contrário. Ora, se a biologia descobriu que só há uma raça humana e, inclusive, que ela partiu da África para os outros continentes, não significa que essa informação irá diluir a ideologia do racismo e a representação social da diferença pela idéia de raça, que constituem o tecido social desse país.
Continuamos a explicar as diferenciações sociais a partir das diferenças biológicas, ainda que também se utilize das diferenças sociais para legitimar as hierarquias. A questão não é dizer que não existe uma substância chamada raça, mas sim reconhecer que ela é uma categoria social, utilizada na vida social para fazer reconhecer e estabelecer distinções e hierarquias sociais, que ela serve para julgar moralmente o outro.
Com a crise do Estado do Bem-Estar Social na Europa e nos Estados Unidos, as diferenciações biológicas e diferenciações étnicas e culturais têm sido tomadas como justificava das diferenciações sociais, e usadas como explicação para a crise que vivem esses países. Muçulmanos, africanos, indianos são visto como os estranhos produtores da desordem, ameaçadores da unidade nacional. O preconceito racial e o racismo se tornam armas que escondem os processos de mudanças no capitalismo central e tendem a culpar os explorados por sua própria exploração.
É claro que os efeitos de classe podem se unir aos efeitos de status (raça), entretanto não nos podemos deixar enganar pelas facilidades ao querermos sobrepor as questões raciais às questões de classe. O professor Milton Santos, um dos mais importantes intelectuais brasileiros da atualidade, pertencia à classe média intelectualizada, entretanto essa posição de classe não se traduzia em anulação dos efeitos do status, não era reconhecido como cidadão completo. Assim como a estratégia de Pelé de não discutir sobre sua negritude evidencia que a condição de negro lhe traz alguns problemas ligados às interações sociais.
Creio que o ódio que se levanta recentemente contra as políticas de cotas se inscreve na disputa pelo poder simbólico, de se poder dizer quem somos. É isso que está em jogo. Negar que o poder social no Brasil é branco é fechar olhos aos efeitos materiais e imateriais dessa realidade. Encontramos, é claro, negros em todos os lugares em que vamos, mas quase sempre estão na cozinha, estão dirigindo o carro de alguém, estão nas portaria de prédios, limpando as ruas, etc. Não temos nada contra essas profissões, elas são dignas e devem ser mais valorizadas, entretanto por que não há mais negros em outros lugares sociais?
A grande mudança contemporânea hoje na problematização do preconceito racial e do racismo no Brasil é que sua problematização enquanto problema social está sendo construída pelos sujeitos que vivem/viveram esse drama. A emergência de uma elite intelectual negra ou membros de classe média colocou em disputa os meios simbólicos e materiais de produção das interpretações sobre a condição da negritude, de combate às imagens e práticas depreciadoras dos negros, cujo maior efeito eram construir um self-ideal negador de nós mesmo.
Voltando ao seminário, o palestrante afirmava que o Brasil não era um país birracial e que as cotas irão institucionalizar o racismo e o preconceito racial, que é necessário uma política universal de educação básica. Não discordo. Entretanto ele não conseguia explicar porque as positividades e qualidades sociais têm como centro imagens da população branca. Ter um diploma, em última instância, não revolverá o problema do negro, mas possibilitará que ele vivencie a positividade de sua condição, possibilitará outra experiência de mundo e construção de outras perspectivas, inclusive, para outros negros. O mais importante nas políticas de cotas é dotar de instrumentos intelectuais e condições sociais a população negra, possibilidade de que o que sempre foi silenciado se torne grito, na história. Não sabemos quais serão os problemas dessa escolha, mas poderemos dizer que tentamos. Nós, indíos e negros, precisamos reinterpretar o Brasil.
Se fomos escravos, a vergonha não é nossa, mas de quem nos escravizou. Lutamos pela liberdade, sim – que o digam os muitos negros direcionados ao tronco, os alforriados, os que trabalhavam a mais para conseguirem pagar suas alforrias, as diversas estratégias de resistências, individuais e coletivas. A questão é que as interpretações do Brasil foram feitas a partir dos dilemas e questões postos um determinado tempo; esse é primeiro momento em que essas questões e dilemas têm a presença de outros sujeitos, não mais como objetos, mas como sujeitos, buscando reinterpretar a sua presença. Queremos nosso reconhecimento como cidadãos plenos porque cada cantinho e pedra colocada em construções deste país tiveram o dedo de nossos avós. Se não temos os sobrenomes deles – porque até isso foi negado – temos a visibilidade de suas mãos que construíram sob chicotada, negociação, rebeldia, protestos a nação brasileira.
Sabemos que as explicações da presença maior dos negros nos setores mais subalternos da sociedade não se explica somente pela questão racial, mas também pelo modelo de desenvolvimento concentrador de renda e autoritário que esse país adotou. A formulação dos problemas raciais por aqueles que os sofrem abriu, enfim, espaço para uma nova formulação do que seja o Brasil. Talvez o preço a ser pago seja mesmo o processo de racialização da sociedade, emergência de interesses apoiada na diferenciação racial, o que nos colocará novos desafios, inclusive da descoberta de que os donos do poder continuam brancos.
Mesmo assim, fica-nos uma pergunta: a quem interessa a reação pacífica dos negros à sua condição de inferiorização? O ódio racial cada vez mais impulsionado também não estaria ligado à inexistência de instituições que reconheçam o negro como cidadão? Até quando nós negros teremos que dizer, peremptoriamente, que não somos marginais ou exclamar: "E aí, dona, não vou roubar a sua bolsa"? Ou perceber que, na rua, uma pessoa adiantou os passos ao ver um de nós se aproximando dela? A luta do negro no Brasil carrega a mesma problemática da luta dos trabalhadores, ou seja, torna as condições objetivas, de negro e trabalhador, em condições subjetivas, tornar-se sujeito diante de seu outro, os brancos e o Capital. Todavia, no Brasil, constantemente são bloqueadas essas possibilidades pelos discursos nacionalistas, da pacificidade do brasileiro, da cordialidade, da democracia racial. Dizia o revolucionário russo Leon Trotski: "Se o sol não é de todos, por que ele tem que brilhar para alguns?"
É claro que os negros, mais do que na sua condição de trabalhadores, têm cada vez mais conseguido tornar seus interesses expressos na agenda pública – efeito da ascensão social de muitos negros – entretanto, precisamos construir uma agenda que concilie as condições sociais de negro e as condições de trabalhador. Meus avós reconheciam, com muita dor, o lugar social deles, sabiam que eram pobres e que eram negros, mesmo que não verbalizassem. Nós que iniciamos um processo de individuação queremos ser reconhecidos como cidadãos, temos o direito disso, não queremos que nossas ações sejam avaliadas pelas nossas características físicas e biológicas, mas sim por partilharmos a mesma humanidade. Esse é medo do racista: ver no outro a sua semelhança.
Acredito – ao contrário do intelectual que grita contra a destruição do sonho brasileiro do país pacífico – que a bicoloridade e multicoloridade brasileira dará início, nesse país, a uma nova releitura de sua história e a uma rediscussão de sua nacionalidade. Queremos que a diferença seja reconhecida não só como direito, mas que ela se expresse na apropriação dos recursos materiais e imateriais desse país. A raça, enquanto construção social, existe, orienta e coordena as ações sociais e o imaginário da sociedade brasileira, portanto é preciso abrir espaço para raças e etnias que são oprimidas, esquecidas, escondidas, indignificadas nessa relação: índios, negros... Enquanto na minisérie Malhação só aparecerem imagens e modelos de beleza branca, enquanto um juiz julgar pela aparência, continuaremos um país bicolor ou tricolor, onde só têm direito à fala os brancos. Queremos nosso direito à fala.
Notas
[1] “Manoel Bomfim (1868-1932), intelectual sergipano, autor de A América Latina (1905), Através do Brasil (1910) — co-escrito por Olavo Bilac (1864-1934) — etc., além de uma trilogia composta por: O Brasil na América (1929), O Brasil na História (1930) e O Brasil Nação (1931). Livros dedicados à análise da formação da nacionalidade brasileira. O autor se empenhava em criticar os historiadores e os políticos do Brasil que, segundo ele, teriam deturpado a história nacional e contribuído para a "degradação" da nação. Interessado em resgatar as "qualidades características do povo" brasileiro — que considerava esquecidas pela historiografia —, ele desenvolveu uma reflexão sobre o País e seus habitantes, em que é possível identificar diálogos com pensadores de seu tempo e de outros tempos”. (Gontijo, 2003)
Bibliografia
GONTIJO, Rebeca. Manoel Bomfim: "pensador da história" na Primeira República. Rev. Bras. Hist. , São Paulo, v. 23, n. 45, 2003 . Disponível em:
(*) Igor Vitorino é formando em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Mestrando em Planejamento Urbano e Regional -IPPUR\UFRJ.
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Raça e Classe: a luta pela alteridade
Continuamos a explicar as diferenciações sociais a partir das diferenças biológicas, ainda que também se utilize das diferenças sociais para legitimar as hierarquias. A questão não é dizer que não existe uma substância chamada raça, mas sim reconhecer que ela é uma categoria social, utilizada na vida social para fazer reconhecer e estabelecer distinções e hierarquias sociais. Por Igor Vitorino (*).
Recentemente, em 2006, num seminário no Centro Cultural Banco do Brasil, o conferencista apresentava a interpretação destoante de Manuel Bonfim sobre a questão da viabilidade do Brasil diante de sua matriz racial. Segundo o conferencista, o eminente intelectual brasileiro defendia que o Brasil não era um pais birracial, como os implantadores do sistema de cotas defendem hoje. Manoel Bonfim seria avant-lettre anunciador da não existência de raças, demonstrando o uso do racismo como forma de dominação. A partir dessa proposição que destoava da agenda pública no início do século, o nobre conferencista argumentou para o plenário: não havendo raças, não há sentido na política de cotas. As cotas estariam produzindo um país bicolor, impulsionando a fragmentação da unidade da nação – exclamava acidamente o sociólogo.
Nessa linha de argumentação, construiu-se uma conclusão de que as políticas de cotas racializam as relações sociais, pois impulsionam os indivíduos a interagirem a partir do reconhecimento de sua identidade étnica, em primeiro lugar. Para contestar essas políticas, o conferencista novamente chamou para o debate a questão de que o problema é de classe, pois a grande maioria dos negros estariam nas classes populares.
Entretanto, o estudioso se esqueceu de que, apesar da Física moderna desde Galileu ter descoberto que o sol não gira em torno da terra, não é impossível encontrar muitos que pensam o contrário. Ora, se a biologia descobriu que só há uma raça humana e, inclusive, que ela partiu da África para os outros continentes, não significa que essa informação irá diluir a ideologia do racismo e a representação social da diferença pela idéia de raça, que constituem o tecido social desse país.
Continuamos a explicar as diferenciações sociais a partir das diferenças biológicas, ainda que também se utilize das diferenças sociais para legitimar as hierarquias. A questão não é dizer que não existe uma substância chamada raça, mas sim reconhecer que ela é uma categoria social, utilizada na vida social para fazer reconhecer e estabelecer distinções e hierarquias sociais, que ela serve para julgar moralmente o outro.
Com a crise do Estado do Bem-Estar Social na Europa e nos Estados Unidos, as diferenciações biológicas e diferenciações étnicas e culturais têm sido tomadas como justificava das diferenciações sociais, e usadas como explicação para a crise que vivem esses países. Muçulmanos, africanos, indianos são visto como os estranhos produtores da desordem, ameaçadores da unidade nacional. O preconceito racial e o racismo se tornam armas que escondem os processos de mudanças no capitalismo central e tendem a culpar os explorados por sua própria exploração.
É claro que os efeitos de classe podem se unir aos efeitos de status (raça), entretanto não nos podemos deixar enganar pelas facilidades ao querermos sobrepor as questões raciais às questões de classe. O professor Milton Santos, um dos mais importantes intelectuais brasileiros da atualidade, pertencia à classe média intelectualizada, entretanto essa posição de classe não se traduzia em anulação dos efeitos do status, não era reconhecido como cidadão completo. Assim como a estratégia de Pelé de não discutir sobre sua negritude evidencia que a condição de negro lhe traz alguns problemas ligados às interações sociais.
Creio que o ódio que se levanta recentemente contra as políticas de cotas se inscreve na disputa pelo poder simbólico, de se poder dizer quem somos. É isso que está em jogo. Negar que o poder social no Brasil é branco é fechar olhos aos efeitos materiais e imateriais dessa realidade. Encontramos, é claro, negros em todos os lugares em que vamos, mas quase sempre estão na cozinha, estão dirigindo o carro de alguém, estão nas portaria de prédios, limpando as ruas, etc. Não temos nada contra essas profissões, elas são dignas e devem ser mais valorizadas, entretanto por que não há mais negros em outros lugares sociais?
A grande mudança contemporânea hoje na problematização do preconceito racial e do racismo no Brasil é que sua problematização enquanto problema social está sendo construída pelos sujeitos que vivem/viveram esse drama. A emergência de uma elite intelectual negra ou membros de classe média colocou em disputa os meios simbólicos e materiais de produção das interpretações sobre a condição da negritude, de combate às imagens e práticas depreciadoras dos negros, cujo maior efeito eram construir um self-ideal negador de nós mesmo.
Voltando ao seminário, o palestrante afirmava que o Brasil não era um país birracial e que as cotas irão institucionalizar o racismo e o preconceito racial, que é necessário uma política universal de educação básica. Não discordo. Entretanto ele não conseguia explicar porque as positividades e qualidades sociais têm como centro imagens da população branca. Ter um diploma, em última instância, não revolverá o problema do negro, mas possibilitará que ele vivencie a positividade de sua condição, possibilitará outra experiência de mundo e construção de outras perspectivas, inclusive, para outros negros. O mais importante nas políticas de cotas é dotar de instrumentos intelectuais e condições sociais a população negra, possibilidade de que o que sempre foi silenciado se torne grito, na história. Não sabemos quais serão os problemas dessa escolha, mas poderemos dizer que tentamos. Nós, indíos e negros, precisamos reinterpretar o Brasil.
Se fomos escravos, a vergonha não é nossa, mas de quem nos escravizou. Lutamos pela liberdade, sim – que o digam os muitos negros direcionados ao tronco, os alforriados, os que trabalhavam a mais para conseguirem pagar suas alforrias, as diversas estratégias de resistências, individuais e coletivas. A questão é que as interpretações do Brasil foram feitas a partir dos dilemas e questões postos um determinado tempo; esse é primeiro momento em que essas questões e dilemas têm a presença de outros sujeitos, não mais como objetos, mas como sujeitos, buscando reinterpretar a sua presença. Queremos nosso reconhecimento como cidadãos plenos porque cada cantinho e pedra colocada em construções deste país tiveram o dedo de nossos avós. Se não temos os sobrenomes deles – porque até isso foi negado – temos a visibilidade de suas mãos que construíram sob chicotada, negociação, rebeldia, protestos a nação brasileira.
Sabemos que as explicações da presença maior dos negros nos setores mais subalternos da sociedade não se explica somente pela questão racial, mas também pelo modelo de desenvolvimento concentrador de renda e autoritário que esse país adotou. A formulação dos problemas raciais por aqueles que os sofrem abriu, enfim, espaço para uma nova formulação do que seja o Brasil. Talvez o preço a ser pago seja mesmo o processo de racialização da sociedade, emergência de interesses apoiada na diferenciação racial, o que nos colocará novos desafios, inclusive da descoberta de que os donos do poder continuam brancos.
Mesmo assim, fica-nos uma pergunta: a quem interessa a reação pacífica dos negros à sua condição de inferiorização? O ódio racial cada vez mais impulsionado também não estaria ligado à inexistência de instituições que reconheçam o negro como cidadão? Até quando nós negros teremos que dizer, peremptoriamente, que não somos marginais ou exclamar: "E aí, dona, não vou roubar a sua bolsa"? Ou perceber que, na rua, uma pessoa adiantou os passos ao ver um de nós se aproximando dela? A luta do negro no Brasil carrega a mesma problemática da luta dos trabalhadores, ou seja, torna as condições objetivas, de negro e trabalhador, em condições subjetivas, tornar-se sujeito diante de seu outro, os brancos e o Capital. Todavia, no Brasil, constantemente são bloqueadas essas possibilidades pelos discursos nacionalistas, da pacificidade do brasileiro, da cordialidade, da democracia racial. Dizia o revolucionário russo Leon Trotski: "Se o sol não é de todos, por que ele tem que brilhar para alguns?"
É claro que os negros, mais do que na sua condição de trabalhadores, têm cada vez mais conseguido tornar seus interesses expressos na agenda pública – efeito da ascensão social de muitos negros – entretanto, precisamos construir uma agenda que concilie as condições sociais de negro e as condições de trabalhador. Meus avós reconheciam, com muita dor, o lugar social deles, sabiam que eram pobres e que eram negros, mesmo que não verbalizassem. Nós que iniciamos um processo de individuação queremos ser reconhecidos como cidadãos, temos o direito disso, não queremos que nossas ações sejam avaliadas pelas nossas características físicas e biológicas, mas sim por partilharmos a mesma humanidade. Esse é medo do racista: ver no outro a sua semelhança.
Acredito – ao contrário do intelectual que grita contra a destruição do sonho brasileiro do país pacífico – que a bicoloridade e multicoloridade brasileira dará início, nesse país, a uma nova releitura de sua história e a uma rediscussão de sua nacionalidade. Queremos que a diferença seja reconhecida não só como direito, mas que ela se expresse na apropriação dos recursos materiais e imateriais desse país. A raça, enquanto construção social, existe, orienta e coordena as ações sociais e o imaginário da sociedade brasileira, portanto é preciso abrir espaço para raças e etnias que são oprimidas, esquecidas, escondidas, indignificadas nessa relação: índios, negros... Enquanto na minisérie Malhação só aparecerem imagens e modelos de beleza branca, enquanto um juiz julgar pela aparência, continuaremos um país bicolor ou tricolor, onde só têm direito à fala os brancos. Queremos nosso direito à fala.
Notas
[1] “Manoel Bomfim (1868-1932), intelectual sergipano, autor de A América Latina (1905), Através do Brasil (1910) — co-escrito por Olavo Bilac (1864-1934) — etc., além de uma trilogia composta por: O Brasil na América (1929), O Brasil na História (1930) e O Brasil Nação (1931). Livros dedicados à análise da formação da nacionalidade brasileira. O autor se empenhava em criticar os historiadores e os políticos do Brasil que, segundo ele, teriam deturpado a história nacional e contribuído para a "degradação" da nação. Interessado em resgatar as "qualidades características do povo" brasileiro — que considerava esquecidas pela historiografia —, ele desenvolveu uma reflexão sobre o País e seus habitantes, em que é possível identificar diálogos com pensadores de seu tempo e de outros tempos”. (Gontijo, 2003)
Bibliografia
GONTIJO, Rebeca. Manoel Bomfim: "pensador da história" na Primeira República. Rev. Bras. Hist. , São Paulo, v. 23, n. 45, 2003 . Disponível em:. Acesso em: 23 Oct 2007.
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Recentemente, em 2006, num seminário no Centro Cultural Banco do Brasil, o conferencista apresentava a interpretação destoante de Manuel Bonfim sobre a questão da viabilidade do Brasil diante de sua matriz racial. Segundo o conferencista, o eminente intelectual brasileiro defendia que o Brasil não era um pais birracial, como os implantadores do sistema de cotas defendem hoje. Manoel Bonfim seria avant-lettre anunciador da não existência de raças, demonstrando o uso do racismo como forma de dominação. A partir dessa proposição que destoava da agenda pública no início do século, o nobre conferencista argumentou para o plenário: não havendo raças, não há sentido na política de cotas. As cotas estariam produzindo um país bicolor, impulsionando a fragmentação da unidade da nação – exclamava acidamente o sociólogo.
Nessa linha de argumentação, construiu-se uma conclusão de que as políticas de cotas racializam as relações sociais, pois impulsionam os indivíduos a interagirem a partir do reconhecimento de sua identidade étnica, em primeiro lugar. Para contestar essas políticas, o conferencista novamente chamou para o debate a questão de que o problema é de classe, pois a grande maioria dos negros estariam nas classes populares.
Entretanto, o estudioso se esqueceu de que, apesar da Física moderna desde Galileu ter descoberto que o sol não gira em torno da terra, não é impossível encontrar muitos que pensam o contrário. Ora, se a biologia descobriu que só há uma raça humana e, inclusive, que ela partiu da África para os outros continentes, não significa que essa informação irá diluir a ideologia do racismo e a representação social da diferença pela idéia de raça, que constituem o tecido social desse país.
Continuamos a explicar as diferenciações sociais a partir das diferenças biológicas, ainda que também se utilize das diferenças sociais para legitimar as hierarquias. A questão não é dizer que não existe uma substância chamada raça, mas sim reconhecer que ela é uma categoria social, utilizada na vida social para fazer reconhecer e estabelecer distinções e hierarquias sociais, que ela serve para julgar moralmente o outro.
Com a crise do Estado do Bem-Estar Social na Europa e nos Estados Unidos, as diferenciações biológicas e diferenciações étnicas e culturais têm sido tomadas como justificava das diferenciações sociais, e usadas como explicação para a crise que vivem esses países. Muçulmanos, africanos, indianos são visto como os estranhos produtores da desordem, ameaçadores da unidade nacional. O preconceito racial e o racismo se tornam armas que escondem os processos de mudanças no capitalismo central e tendem a culpar os explorados por sua própria exploração.
É claro que os efeitos de classe podem se unir aos efeitos de status (raça), entretanto não nos podemos deixar enganar pelas facilidades ao querermos sobrepor as questões raciais às questões de classe. O professor Milton Santos, um dos mais importantes intelectuais brasileiros da atualidade, pertencia à classe média intelectualizada, entretanto essa posição de classe não se traduzia em anulação dos efeitos do status, não era reconhecido como cidadão completo. Assim como a estratégia de Pelé de não discutir sobre sua negritude evidencia que a condição de negro lhe traz alguns problemas ligados às interações sociais.
Creio que o ódio que se levanta recentemente contra as políticas de cotas se inscreve na disputa pelo poder simbólico, de se poder dizer quem somos. É isso que está em jogo. Negar que o poder social no Brasil é branco é fechar olhos aos efeitos materiais e imateriais dessa realidade. Encontramos, é claro, negros em todos os lugares em que vamos, mas quase sempre estão na cozinha, estão dirigindo o carro de alguém, estão nas portaria de prédios, limpando as ruas, etc. Não temos nada contra essas profissões, elas são dignas e devem ser mais valorizadas, entretanto por que não há mais negros em outros lugares sociais?
A grande mudança contemporânea hoje na problematização do preconceito racial e do racismo no Brasil é que sua problematização enquanto problema social está sendo construída pelos sujeitos que vivem/viveram esse drama. A emergência de uma elite intelectual negra ou membros de classe média colocou em disputa os meios simbólicos e materiais de produção das interpretações sobre a condição da negritude, de combate às imagens e práticas depreciadoras dos negros, cujo maior efeito eram construir um self-ideal negador de nós mesmo.
Voltando ao seminário, o palestrante afirmava que o Brasil não era um país birracial e que as cotas irão institucionalizar o racismo e o preconceito racial, que é necessário uma política universal de educação básica. Não discordo. Entretanto ele não conseguia explicar porque as positividades e qualidades sociais têm como centro imagens da população branca. Ter um diploma, em última instância, não revolverá o problema do negro, mas possibilitará que ele vivencie a positividade de sua condição, possibilitará outra experiência de mundo e construção de outras perspectivas, inclusive, para outros negros. O mais importante nas políticas de cotas é dotar de instrumentos intelectuais e condições sociais a população negra, possibilidade de que o que sempre foi silenciado se torne grito, na história. Não sabemos quais serão os problemas dessa escolha, mas poderemos dizer que tentamos. Nós, indíos e negros, precisamos reinterpretar o Brasil.
Se fomos escravos, a vergonha não é nossa, mas de quem nos escravizou. Lutamos pela liberdade, sim – que o digam os muitos negros direcionados ao tronco, os alforriados, os que trabalhavam a mais para conseguirem pagar suas alforrias, as diversas estratégias de resistências, individuais e coletivas. A questão é que as interpretações do Brasil foram feitas a partir dos dilemas e questões postos um determinado tempo; esse é primeiro momento em que essas questões e dilemas têm a presença de outros sujeitos, não mais como objetos, mas como sujeitos, buscando reinterpretar a sua presença. Queremos nosso reconhecimento como cidadãos plenos porque cada cantinho e pedra colocada em construções deste país tiveram o dedo de nossos avós. Se não temos os sobrenomes deles – porque até isso foi negado – temos a visibilidade de suas mãos que construíram sob chicotada, negociação, rebeldia, protestos a nação brasileira.
Sabemos que as explicações da presença maior dos negros nos setores mais subalternos da sociedade não se explica somente pela questão racial, mas também pelo modelo de desenvolvimento concentrador de renda e autoritário que esse país adotou. A formulação dos problemas raciais por aqueles que os sofrem abriu, enfim, espaço para uma nova formulação do que seja o Brasil. Talvez o preço a ser pago seja mesmo o processo de racialização da sociedade, emergência de interesses apoiada na diferenciação racial, o que nos colocará novos desafios, inclusive da descoberta de que os donos do poder continuam brancos.
Mesmo assim, fica-nos uma pergunta: a quem interessa a reação pacífica dos negros à sua condição de inferiorização? O ódio racial cada vez mais impulsionado também não estaria ligado à inexistência de instituições que reconheçam o negro como cidadão? Até quando nós negros teremos que dizer, peremptoriamente, que não somos marginais ou exclamar: "E aí, dona, não vou roubar a sua bolsa"? Ou perceber que, na rua, uma pessoa adiantou os passos ao ver um de nós se aproximando dela? A luta do negro no Brasil carrega a mesma problemática da luta dos trabalhadores, ou seja, torna as condições objetivas, de negro e trabalhador, em condições subjetivas, tornar-se sujeito diante de seu outro, os brancos e o Capital. Todavia, no Brasil, constantemente são bloqueadas essas possibilidades pelos discursos nacionalistas, da pacificidade do brasileiro, da cordialidade, da democracia racial. Dizia o revolucionário russo Leon Trotski: "Se o sol não é de todos, por que ele tem que brilhar para alguns?"
É claro que os negros, mais do que na sua condição de trabalhadores, têm cada vez mais conseguido tornar seus interesses expressos na agenda pública – efeito da ascensão social de muitos negros – entretanto, precisamos construir uma agenda que concilie as condições sociais de negro e as condições de trabalhador. Meus avós reconheciam, com muita dor, o lugar social deles, sabiam que eram pobres e que eram negros, mesmo que não verbalizassem. Nós que iniciamos um processo de individuação queremos ser reconhecidos como cidadãos, temos o direito disso, não queremos que nossas ações sejam avaliadas pelas nossas características físicas e biológicas, mas sim por partilharmos a mesma humanidade. Esse é medo do racista: ver no outro a sua semelhança.
Acredito – ao contrário do intelectual que grita contra a destruição do sonho brasileiro do país pacífico – que a bicoloridade e multicoloridade brasileira dará início, nesse país, a uma nova releitura de sua história e a uma rediscussão de sua nacionalidade. Queremos que a diferença seja reconhecida não só como direito, mas que ela se expresse na apropriação dos recursos materiais e imateriais desse país. A raça, enquanto construção social, existe, orienta e coordena as ações sociais e o imaginário da sociedade brasileira, portanto é preciso abrir espaço para raças e etnias que são oprimidas, esquecidas, escondidas, indignificadas nessa relação: índios, negros... Enquanto na minisérie Malhação só aparecerem imagens e modelos de beleza branca, enquanto um juiz julgar pela aparência, continuaremos um país bicolor ou tricolor, onde só têm direito à fala os brancos. Queremos nosso direito à fala.
Notas
[1] “Manoel Bomfim (1868-1932), intelectual sergipano, autor de A América Latina (1905), Através do Brasil (1910) — co-escrito por Olavo Bilac (1864-1934) — etc., além de uma trilogia composta por: O Brasil na América (1929), O Brasil na História (1930) e O Brasil Nação (1931). Livros dedicados à análise da formação da nacionalidade brasileira. O autor se empenhava em criticar os historiadores e os políticos do Brasil que, segundo ele, teriam deturpado a história nacional e contribuído para a "degradação" da nação. Interessado em resgatar as "qualidades características do povo" brasileiro — que considerava esquecidas pela historiografia —, ele desenvolveu uma reflexão sobre o País e seus habitantes, em que é possível identificar diálogos com pensadores de seu tempo e de outros tempos”. (Gontijo, 2003)
Bibliografia
GONTIJO, Rebeca. Manoel Bomfim: "pensador da história" na Primeira República. Rev. Bras. Hist. , São Paulo, v. 23, n. 45, 2003 . Disponível em:
(*) Igor Vitorino é formando em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Mestrando em Planejamento Urbano e Regional -IPPUR\UFRJ.
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Pesos e medidas
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo. Por Sueli Carneiro (*).
Pesos e medidas
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo. Por Sueli Carneiro (*).
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo.
A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares.
Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo.
Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (…) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social.
É como se estivesse inscrito em sua natureza, devendo, por isso, ser objeto de humilhação pública para servir de alerta aos que se esquecem dessa ausência “natural” de qualidade e os elevam a posições para as quais não estariam talhados. Presta-se também como ameaça aos outros, do mesmo grupo inferiorizado, que porventura ousem desejar atingir os mesmos postos. São formas de punição preventivas e educativas em que a estigmatização e a humilhação funcionam para reafirmar a incapacidade e despreparo para assumir função diretiva. Em outras palavras, a necessidade de controle social e tutela desses segmentos sociais.
Adicional e imediatamente promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua pasta. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça mas também a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir-se a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial porque seu titular cometeu um desvio de conduta?
Veiculou-se na imprensa que o presidente Lula estaria “particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de criar mais uma pasta. Para o presidente a atitude de Matilde Ribeiro dá agora argumentos aos adversários para quem a secretaria não tem função”.
Ora presidente, a disfunção da então ministra não pode confundir-se com a função da secretaria como desejam os adversários. A contaminação dos atos da ministra sobre a pasta que estava sob seu comando pode ser justificativa para ceder às pressões daqueles que, dentro e fora do governo, operam para a desestabilização daquele órgão; aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e conseqüentemente esvaziam de sentido essa secretaria.
Enquanto Matilde Ribeiro é convidada a se demitir, outros se tornam ministros ou assumem mandatos parlamentares com suspeitas muito graves. Portanto, há discriminação quando as regras não se aplicam igualmente a todos, ou melhor, no fato de que alguns devem ser exemplarmente punidos e outros não. Há racismo na associação entre a negritude da ministra e seus atos. Há racismo no aproveitamento político de falha pessoal de uma gestora pública para a desqualificação da pasta que ela dirigia. Há racismo na utilização das irregularidades cometidas para negar a existência do problema racial e da necessidade de que o seu combate seja objeto de políticas públicas.
A agenda de combate ao racismo e promoção da igualdade racial permanece como compromisso do governo no plano nacional e internacional, gostem ou não gostem os detratores. O presidente Lula da Silva precisa estar atento para que o caso de Matilde Ribeiro não seja usado, indevidamente, como o álibi perfeito para o abandono e negação desses compromissos. A crise na Seppir é também oportunidade de dotá-la das condições políticas e materiais necessárias para estar à altura desses compromissos — sobretudo o de transversalizar o tema da promoção da igualdade racial nas diversas áreas da administração pública.
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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo.
A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares.
Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo.
Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (…) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social.
É como se estivesse inscrito em sua natureza, devendo, por isso, ser objeto de humilhação pública para servir de alerta aos que se esquecem dessa ausência “natural” de qualidade e os elevam a posições para as quais não estariam talhados. Presta-se também como ameaça aos outros, do mesmo grupo inferiorizado, que porventura ousem desejar atingir os mesmos postos. São formas de punição preventivas e educativas em que a estigmatização e a humilhação funcionam para reafirmar a incapacidade e despreparo para assumir função diretiva. Em outras palavras, a necessidade de controle social e tutela desses segmentos sociais.
Adicional e imediatamente promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua pasta. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça mas também a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir-se a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial porque seu titular cometeu um desvio de conduta?
Veiculou-se na imprensa que o presidente Lula estaria “particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de criar mais uma pasta. Para o presidente a atitude de Matilde Ribeiro dá agora argumentos aos adversários para quem a secretaria não tem função”.
Ora presidente, a disfunção da então ministra não pode confundir-se com a função da secretaria como desejam os adversários. A contaminação dos atos da ministra sobre a pasta que estava sob seu comando pode ser justificativa para ceder às pressões daqueles que, dentro e fora do governo, operam para a desestabilização daquele órgão; aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e conseqüentemente esvaziam de sentido essa secretaria.
Enquanto Matilde Ribeiro é convidada a se demitir, outros se tornam ministros ou assumem mandatos parlamentares com suspeitas muito graves. Portanto, há discriminação quando as regras não se aplicam igualmente a todos, ou melhor, no fato de que alguns devem ser exemplarmente punidos e outros não. Há racismo na associação entre a negritude da ministra e seus atos. Há racismo no aproveitamento político de falha pessoal de uma gestora pública para a desqualificação da pasta que ela dirigia. Há racismo na utilização das irregularidades cometidas para negar a existência do problema racial e da necessidade de que o seu combate seja objeto de políticas públicas.
A agenda de combate ao racismo e promoção da igualdade racial permanece como compromisso do governo no plano nacional e internacional, gostem ou não gostem os detratores. O presidente Lula da Silva precisa estar atento para que o caso de Matilde Ribeiro não seja usado, indevidamente, como o álibi perfeito para o abandono e negação desses compromissos. A crise na Seppir é também oportunidade de dotá-la das condições políticas e materiais necessárias para estar à altura desses compromissos — sobretudo o de transversalizar o tema da promoção da igualdade racial nas diversas áreas da administração pública.
(*) Sueli Carneiro é Doutora em filosofia da educação, é diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra.
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Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo. Por Sueli Carneiro (*).
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo.
A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares.
Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo.
Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (…) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social.
É como se estivesse inscrito em sua natureza, devendo, por isso, ser objeto de humilhação pública para servir de alerta aos que se esquecem dessa ausência “natural” de qualidade e os elevam a posições para as quais não estariam talhados. Presta-se também como ameaça aos outros, do mesmo grupo inferiorizado, que porventura ousem desejar atingir os mesmos postos. São formas de punição preventivas e educativas em que a estigmatização e a humilhação funcionam para reafirmar a incapacidade e despreparo para assumir função diretiva. Em outras palavras, a necessidade de controle social e tutela desses segmentos sociais.
Adicional e imediatamente promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua pasta. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça mas também a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir-se a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial porque seu titular cometeu um desvio de conduta?
Veiculou-se na imprensa que o presidente Lula estaria “particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de criar mais uma pasta. Para o presidente a atitude de Matilde Ribeiro dá agora argumentos aos adversários para quem a secretaria não tem função”.
Ora presidente, a disfunção da então ministra não pode confundir-se com a função da secretaria como desejam os adversários. A contaminação dos atos da ministra sobre a pasta que estava sob seu comando pode ser justificativa para ceder às pressões daqueles que, dentro e fora do governo, operam para a desestabilização daquele órgão; aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e conseqüentemente esvaziam de sentido essa secretaria.
Enquanto Matilde Ribeiro é convidada a se demitir, outros se tornam ministros ou assumem mandatos parlamentares com suspeitas muito graves. Portanto, há discriminação quando as regras não se aplicam igualmente a todos, ou melhor, no fato de que alguns devem ser exemplarmente punidos e outros não. Há racismo na associação entre a negritude da ministra e seus atos. Há racismo no aproveitamento político de falha pessoal de uma gestora pública para a desqualificação da pasta que ela dirigia. Há racismo na utilização das irregularidades cometidas para negar a existência do problema racial e da necessidade de que o seu combate seja objeto de políticas públicas.
A agenda de combate ao racismo e promoção da igualdade racial permanece como compromisso do governo no plano nacional e internacional, gostem ou não gostem os detratores. O presidente Lula da Silva precisa estar atento para que o caso de Matilde Ribeiro não seja usado, indevidamente, como o álibi perfeito para o abandono e negação desses compromissos. A crise na Seppir é também oportunidade de dotá-la das condições políticas e materiais necessárias para estar à altura desses compromissos — sobretudo o de transversalizar o tema da promoção da igualdade racial nas diversas áreas da administração pública.
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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo.
A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares.
Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo.
Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (…) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social.
É como se estivesse inscrito em sua natureza, devendo, por isso, ser objeto de humilhação pública para servir de alerta aos que se esquecem dessa ausência “natural” de qualidade e os elevam a posições para as quais não estariam talhados. Presta-se também como ameaça aos outros, do mesmo grupo inferiorizado, que porventura ousem desejar atingir os mesmos postos. São formas de punição preventivas e educativas em que a estigmatização e a humilhação funcionam para reafirmar a incapacidade e despreparo para assumir função diretiva. Em outras palavras, a necessidade de controle social e tutela desses segmentos sociais.
Adicional e imediatamente promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua pasta. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça mas também a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir-se a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial porque seu titular cometeu um desvio de conduta?
Veiculou-se na imprensa que o presidente Lula estaria “particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de criar mais uma pasta. Para o presidente a atitude de Matilde Ribeiro dá agora argumentos aos adversários para quem a secretaria não tem função”.
Ora presidente, a disfunção da então ministra não pode confundir-se com a função da secretaria como desejam os adversários. A contaminação dos atos da ministra sobre a pasta que estava sob seu comando pode ser justificativa para ceder às pressões daqueles que, dentro e fora do governo, operam para a desestabilização daquele órgão; aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e conseqüentemente esvaziam de sentido essa secretaria.
Enquanto Matilde Ribeiro é convidada a se demitir, outros se tornam ministros ou assumem mandatos parlamentares com suspeitas muito graves. Portanto, há discriminação quando as regras não se aplicam igualmente a todos, ou melhor, no fato de que alguns devem ser exemplarmente punidos e outros não. Há racismo na associação entre a negritude da ministra e seus atos. Há racismo no aproveitamento político de falha pessoal de uma gestora pública para a desqualificação da pasta que ela dirigia. Há racismo na utilização das irregularidades cometidas para negar a existência do problema racial e da necessidade de que o seu combate seja objeto de políticas públicas.
A agenda de combate ao racismo e promoção da igualdade racial permanece como compromisso do governo no plano nacional e internacional, gostem ou não gostem os detratores. O presidente Lula da Silva precisa estar atento para que o caso de Matilde Ribeiro não seja usado, indevidamente, como o álibi perfeito para o abandono e negação desses compromissos. A crise na Seppir é também oportunidade de dotá-la das condições políticas e materiais necessárias para estar à altura desses compromissos — sobretudo o de transversalizar o tema da promoção da igualdade racial nas diversas áreas da administração pública.
(*) Sueli Carneiro é Doutora em filosofia da educação, é diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra.
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Mulher é presa acusada de racismo em cinema da Barra
Jornal O Dia - Uma acusação de racismo foi parar na delegacia, na noite de quarta-feira, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. O crime aconteceu no cinema do Shopping Downtown, quando a vítima, que trabalha como atendente, alega ter sido chamada de "negrinha" pela produtora Ana Cristina de Paiva, de 40 anos, que acabou presa. Ela vai responder pelo crime de injúria por preconceito racial, cuja pena pode chegar a três anos de prisão.
De cordo com a vítima, que preferiu não se identificar, e com testemunhas, a confusão começou quando Ana Cristina entregou o cartão de crédito para pagar por pipocas que havia comprado. "O pagamento não foi autorizado. Eu informei e ela disse que eu é que não estava sabendo usar o equipamento. Eu disse, então, para que ela mesma tentasse, já que pensava que eu não sabia trabalhar. Ela ficou furiosa, quis passar para o lado de dentro do balcão para me bater e disse que eu era uma negrinha e que devia estar morando na Rocinha", contou a jovem. Leia mais no jornal O Dia.
De cordo com a vítima, que preferiu não se identificar, e com testemunhas, a confusão começou quando Ana Cristina entregou o cartão de crédito para pagar por pipocas que havia comprado. "O pagamento não foi autorizado. Eu informei e ela disse que eu é que não estava sabendo usar o equipamento. Eu disse, então, para que ela mesma tentasse, já que pensava que eu não sabia trabalhar. Ela ficou furiosa, quis passar para o lado de dentro do balcão para me bater e disse que eu era uma negrinha e que devia estar morando na Rocinha", contou a jovem. Leia mais no jornal O Dia.
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A Globo afirmou, por meio de sua assessoria, tratar-se de uma informação falsa: "Trata-se de uma montagem grotesca. Inclusive, o Fausto sequer usa ponto eletrônico. Sobre este ocorrido, tomaremos as medidas cabíveis para retirá-lo do ar". A resposta da emissora foi registrado na coluna Zapping da Folha de S. Paulo do dia 13 de fevereiro último.
A fala do suposto diretor continua: "Faz esse cara parar de pular, tá foda", repete. "O cara não fica parado. Ô filho da puta, segura ele, amarra essa porra, tá foda", diz o diretor, que só se refere ao aposentado como criolo. "Vai, vai, expulsa essa merda", diz ao final.
Francisco José Paulino, de Dourados (MS), tem 89 anos e é um exemplo de vida. Correu cinco vezes a São Silvestre. Tem 86 medalhas de atletismo, corre de 8 a 10 quilômetros em dias alternados, joga capoeira e completa a renda vendendo ervas medicinais, como o próprio Fausto aponta.
A Globo retirou o vídeo do YouTube, alegando violação de direitos autorais, veja na imagem abaixo (clique para ampliar).
Onde deveria estar o vídeo, aparece apenas a seguinte mensagem: "Este vídeo não está mais disponível devido à reclamação de contra a violação de direitos autorais GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES SA."
No entanto, foi republicado no Videolog. Assista abaixo.
A Lei 9459/1997, que altera os artigos 1º e 20 da Lei 7.716/1989, pune, com penas de até cinco anos de reclusão, além das multas, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, de cor, etnia, religião ou procedência nacional. O crime de racismo é inafiançável (a prisão não será relaxada em favor do criminoso) e imprescritível (a pena é perene, não ficando Estado impedido de punir a qualquer tempo o autor do delito).
Já o crime de falsidade ideológica, caso seja comprovada alteração do áudio, é figura tipificada no artigo 299 do Código Penal Brasileiro, e prevê reclusão de um a três anos, e multa, pelo documento ser particular.
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