Campanha em solidariedade a Cuba por sua revitalização
Do Fazendo Media - Inaugurada no Rio de Janeiro campanha nacional em solidariedade a Cuba. País passa por dificuldades devido aos furacões que devastaram grande parte do seu território, deixando milhares de desabrigados e sua infra-estrutura abalada. Clique no título para ler.
Banco da Alba será lançado no final de abril
Jornal Brasil de Fato - O banco da Alternativa Bolivariana para a América (Alba) entrará em funcionamento a partir do próximo dia 25. O anúncio foi feito pelo ministro venezuelano de Indústria Básica e Mineração, Rodolfo Sanz, durante reunião da Comissão de Mesas Técnicas da Alba, realizada no último final de semana em Caracas. A Alba é um instrumento de integração firmado entre Bolívia, Cuba, Nicarágua, República Dominicana e Venezuela. Segundo seus idealizadores, o bloco distingue-se de outras propostas do gênero – como o Mercosul ou mesmo a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) por não visar apenas os interesses comerciais e contemplar também ações que reduzam os contrastes sociais na América Latina.
Na Constituição da Alba, há ainda três esferas de poder: a dos presidentes e Chefes de Estado; outras de políticos regionais ou municipais; e uma última com representantes de movimentos sociais latino-americanos.De acordo com Sanz, os primeiros projetos a serem financiados pelo banco serão nas áreas de telecomunicações, agricultura e indústria de alimentos e medicamentos. Já está prevista a criação de cinco empresas da Alba, chamadas de gran-nacionais, e dez projetos de caráter social. Clique no título para ler mais.
Na Constituição da Alba, há ainda três esferas de poder: a dos presidentes e Chefes de Estado; outras de políticos regionais ou municipais; e uma última com representantes de movimentos sociais latino-americanos.De acordo com Sanz, os primeiros projetos a serem financiados pelo banco serão nas áreas de telecomunicações, agricultura e indústria de alimentos e medicamentos. Já está prevista a criação de cinco empresas da Alba, chamadas de gran-nacionais, e dez projetos de caráter social. Clique no título para ler mais.
Capa da "New Yorker" sobre Fidel realça o quanto "Veja" se tornou vulgar
Por Luiz Carlos AzenhaClasse é outra coisa. Não é só questão de estampa. A New Yorker da semana traz um belo texto de Alma Guillermoprieto sobre a despedida de Fidel. "Vamos, Fidel, não há ninguém em seu caminho", ela escreve - nos transportando para uma porta imaginária pela qual passa "o filho do fazendeiro espanhol rico com a lavadeira cubana", com um ondulante roupão de hospital.
"Depois de quase cinqüenta anos, é difícil argüir que de fato houve o desejo do povo cubano de ver seu líder detonado por um charuto explosivo ou de dar boas vindas a uma invasão terceirizada", escreveu.
"Hoje, mesmo a mais veemente oposição dentro de Cuba tem poucas ilusões de que Washington adotará uma postura informada, esclarecida, não-intervencionista e generosa" diante da transição na ilha, afirma ela, oferecendo a própria sobrevivência de Fidel como prova de que o embargo econômico mantido por nove presidentes americanos fracassou.
O site da revista tirou do arquivo um perfil escrito por Jon Lee Anderson, o biógrafo de Che - aquele, que detonou a Veja.Podem acusar Fidel de qualquer coisa, menos deste exibicionismo vulgar, uma caricatura do Brasil atrasado:
O texto de Alma Guillermoprieto você lê aqui (em inglês).
Propaganda contra Cuba no Brasil não visa Fidel Castro; o alvo são os próprios brasileiros
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Por Luiz Carlos Azenha, de Washington (*).
Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, há alguns meses detonou uma reportagem de capa da revista Veja sobre Guevara. Anderson escreve para a revista New Yorker. Seus livros vendem milhões de cópias em todo o mundo. Como é que ele avaliou o texto de Diogo Schelp?
"O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado."
Anderson não é comunista. Não recebe dinheiro de Fidel Castro. É simplesmente um grande jornalista.
A resposta indigente do repórter da Veja incluiu uma ameaça de que o nome do escritor não apareceria mais nas páginas da revista brasileira - o que é indicativo da falta de noção de Diogo Schelp. Estou curioso para saber qual o impacto que a ameaça de Schelp teve nas vendas do escritor americano.
É esse jornalismo vagabundo, contaminado por objetivos políticos e ideológicos, que infelizmente tornou-se o principal produto da grande mídia brasileira - especialmente de Veja, O Globo e TV Globo.
Tive duas experiências marcantes em minha carreira. Uma delas foi ao desembarcar em Moscou, em 1985. Linda a cidade, especialmente a praça Vermelha, de madrugada. Mas a paranóia de um estado policial era evidente. E o estado de decomposição das instituições estava no ar. Embora Mikhail Gorbatchev já tivesse assumido o poder, a União Soviética tinha a feição de Leonid Brezhnev, o morto-vivo que foi mantido no poder muito além de quando ainda tinha capacidade física e mental para governar.
Mais recentemente, fiquei surpreso ao desembarcar em Havana. Arquitetura dilapidada, transporte público caótico mas uma população surpreendentemente relaxada e alegre. Filmei à vontade. Conversei com os cubanos à vontade. E eles falaram mal do governo à vontade. E bem também. Conversei com dezenas de pessoas nas ruas.
Todas demonstraram grande admiração por Fidel Castro. Muitas se diziam amedrontadas com a ascensão de Raul Castro, visto no país como o "homem do paredão". Um dos momentos mais impressionantes foi a conversa que eu e minhas filhas tivemos com o dono de um pequeno restaurante. Ele lamentava que, aos 48 anos de idade, não tinha podido ainda sair do país.
"Não quero fugir para os Estados Unidos. Quero visitar o México, a Jamaica, quem sabe o Brasil". Fiquei com a clara impressão de que Fidel Castro produziu uma classe média educada e saudável que quer ir além dos slogans revolucionários. Os jovens não viveram o clima de guerra que cercou a ascensão de Fidel ao poder. Experimentam, sim, o boicote econômico dos Estados Unidos, que tenta estrangular a ilha desde os anos 60.
Os cubanos admiram as conquistas sociais, especialmente na Saúde e Educação. Eles são orgulhosos. Eu conheço quase toda a América Central. E digo, sem qualquer chance de errar, que os cubanos têm o melhor padrão de vida da região, comparável apenas ao da Costa Rica. Em comparação com a Guatemala, por exemplo, Cuba é um paraíso. E a Guatemala é uma "democracia plena" se considerarmos os padrões de Washington. E não há boicote americano à Guatemala.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Cuba é superior ao do Brasil, que tem um dos piores índices de distribuição de renda do mundo. A classe média de Cuba seria pobre no Higienópolis e no Leblon, mas seria rica na periferia das grandes cidades brasileiras. Rica, saudável e educada.
E isso não é irrelevante. Se fosse, a TV Globo não continuaria até hoje com suas peças de propaganda disfarçadas de Jornalismo. Depois de quase 50 anos no poder, a contínua necessidade de demonizar Fidel Castro é sinal de que ele continua incomodando. Mais recentemente, já afastado do governo, ele cantou a pedra: a produção de álcool de milho provocaria desabastecimento de alimentos. Na época, Fidel foi surrado pela mídia. Hoje está constatado que a produção de álcool a partir de milho fez disparar o preço do produto e causou inflação nos Estados Unidos. A fonte é o New York Times.
Dizer que os cubanos não querem liberdade de ir e vir ou de desenvolver suas próprias atividades econômicas é mentira. Cuba não é o paraíso vendido pela esquerda. Nem o inferno vendido pela direita. É um país de gente alegre, educada e saudável que tem grande ressentimento por não poder freqüentar as mesmas praias que os turistas estrangeiros - hoje a grande fonte de moeda forte do país. Fidel plantou as sementes que resultaram em uma geração que quer mudanças. Mas elas não virão de Washington, nem de Miami, nem de Brasília.
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Isso diz mais sobre o Brasil e sua democracia para poucos do que sobre Cuba e Fidel Castro.
A mídia americana se comporta hoje como se o povo cubano fosse se levantar e derrubar o governo esta noite... É muita desinformação. Eles aqui se perguntam: como é que as emissoras da América Latina continuam no ar normalmente, sem interromper a programação para transmitir o que está acontecendo em Cuba? É que depois de tantos anos os americanos - e o Ali Kamel - passaram a acreditar na propaganda que promovem.
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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, há alguns meses detonou uma reportagem de capa da revista Veja sobre Guevara. Anderson escreve para a revista New Yorker. Seus livros vendem milhões de cópias em todo o mundo. Como é que ele avaliou o texto de Diogo Schelp?
"O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado."
Anderson não é comunista. Não recebe dinheiro de Fidel Castro. É simplesmente um grande jornalista.
A resposta indigente do repórter da Veja incluiu uma ameaça de que o nome do escritor não apareceria mais nas páginas da revista brasileira - o que é indicativo da falta de noção de Diogo Schelp. Estou curioso para saber qual o impacto que a ameaça de Schelp teve nas vendas do escritor americano.
É esse jornalismo vagabundo, contaminado por objetivos políticos e ideológicos, que infelizmente tornou-se o principal produto da grande mídia brasileira - especialmente de Veja, O Globo e TV Globo.
Tive duas experiências marcantes em minha carreira. Uma delas foi ao desembarcar em Moscou, em 1985. Linda a cidade, especialmente a praça Vermelha, de madrugada. Mas a paranóia de um estado policial era evidente. E o estado de decomposição das instituições estava no ar. Embora Mikhail Gorbatchev já tivesse assumido o poder, a União Soviética tinha a feição de Leonid Brezhnev, o morto-vivo que foi mantido no poder muito além de quando ainda tinha capacidade física e mental para governar.
Mais recentemente, fiquei surpreso ao desembarcar em Havana. Arquitetura dilapidada, transporte público caótico mas uma população surpreendentemente relaxada e alegre. Filmei à vontade. Conversei com os cubanos à vontade. E eles falaram mal do governo à vontade. E bem também. Conversei com dezenas de pessoas nas ruas.
Todas demonstraram grande admiração por Fidel Castro. Muitas se diziam amedrontadas com a ascensão de Raul Castro, visto no país como o "homem do paredão". Um dos momentos mais impressionantes foi a conversa que eu e minhas filhas tivemos com o dono de um pequeno restaurante. Ele lamentava que, aos 48 anos de idade, não tinha podido ainda sair do país.
"Não quero fugir para os Estados Unidos. Quero visitar o México, a Jamaica, quem sabe o Brasil". Fiquei com a clara impressão de que Fidel Castro produziu uma classe média educada e saudável que quer ir além dos slogans revolucionários. Os jovens não viveram o clima de guerra que cercou a ascensão de Fidel ao poder. Experimentam, sim, o boicote econômico dos Estados Unidos, que tenta estrangular a ilha desde os anos 60.
Os cubanos admiram as conquistas sociais, especialmente na Saúde e Educação. Eles são orgulhosos. Eu conheço quase toda a América Central. E digo, sem qualquer chance de errar, que os cubanos têm o melhor padrão de vida da região, comparável apenas ao da Costa Rica. Em comparação com a Guatemala, por exemplo, Cuba é um paraíso. E a Guatemala é uma "democracia plena" se considerarmos os padrões de Washington. E não há boicote americano à Guatemala.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Cuba é superior ao do Brasil, que tem um dos piores índices de distribuição de renda do mundo. A classe média de Cuba seria pobre no Higienópolis e no Leblon, mas seria rica na periferia das grandes cidades brasileiras. Rica, saudável e educada.
E isso não é irrelevante. Se fosse, a TV Globo não continuaria até hoje com suas peças de propaganda disfarçadas de Jornalismo. Depois de quase 50 anos no poder, a contínua necessidade de demonizar Fidel Castro é sinal de que ele continua incomodando. Mais recentemente, já afastado do governo, ele cantou a pedra: a produção de álcool de milho provocaria desabastecimento de alimentos. Na época, Fidel foi surrado pela mídia. Hoje está constatado que a produção de álcool a partir de milho fez disparar o preço do produto e causou inflação nos Estados Unidos. A fonte é o New York Times.
Dizer que os cubanos não querem liberdade de ir e vir ou de desenvolver suas próprias atividades econômicas é mentira. Cuba não é o paraíso vendido pela esquerda. Nem o inferno vendido pela direita. É um país de gente alegre, educada e saudável que tem grande ressentimento por não poder freqüentar as mesmas praias que os turistas estrangeiros - hoje a grande fonte de moeda forte do país. Fidel plantou as sementes que resultaram em uma geração que quer mudanças. Mas elas não virão de Washington, nem de Miami, nem de Brasília.
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Isso diz mais sobre o Brasil e sua democracia para poucos do que sobre Cuba e Fidel Castro.
A mídia americana se comporta hoje como se o povo cubano fosse se levantar e derrubar o governo esta noite... É muita desinformação. Eles aqui se perguntam: como é que as emissoras da América Latina continuam no ar normalmente, sem interromper a programação para transmitir o que está acontecendo em Cuba? É que depois de tantos anos os americanos - e o Ali Kamel - passaram a acreditar na propaganda que promovem.
(*) Luiz Carlos Azenha é jornalista e editor do www.viomundo.com.br
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Propaganda contra Cuba no Brasil não visa Fidel Castro; o alvo são os próprios brasileiros
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Por Luiz Carlos Azenha, de Washington (*).
Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, há alguns meses detonou uma reportagem de capa da revista Veja sobre Guevara. Anderson escreve para a revista New Yorker. Seus livros vendem milhões de cópias em todo o mundo. Como é que ele avaliou o texto de Diogo Schelp?
"O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado."
Anderson não é comunista. Não recebe dinheiro de Fidel Castro. É simplesmente um grande jornalista.
A resposta indigente do repórter da Veja incluiu uma ameaça de que o nome do escritor não apareceria mais nas páginas da revista brasileira - o que é indicativo da falta de noção de Diogo Schelp. Estou curioso para saber qual o impacto que a ameaça de Schelp teve nas vendas do escritor americano.
É esse jornalismo vagabundo, contaminado por objetivos políticos e ideológicos, que infelizmente tornou-se o principal produto da grande mídia brasileira - especialmente de Veja, O Globo e TV Globo.
Tive duas experiências marcantes em minha carreira. Uma delas foi ao desembarcar em Moscou, em 1985. Linda a cidade, especialmente a praça Vermelha, de madrugada. Mas a paranóia de um estado policial era evidente. E o estado de decomposição das instituições estava no ar. Embora Mikhail Gorbatchev já tivesse assumido o poder, a União Soviética tinha a feição de Leonid Brezhnev, o morto-vivo que foi mantido no poder muito além de quando ainda tinha capacidade física e mental para governar.
Mais recentemente, fiquei surpreso ao desembarcar em Havana. Arquitetura dilapidada, transporte público caótico mas uma população surpreendentemente relaxada e alegre. Filmei à vontade. Conversei com os cubanos à vontade. E eles falaram mal do governo à vontade. E bem também. Conversei com dezenas de pessoas nas ruas.
Todas demonstraram grande admiração por Fidel Castro. Muitas se diziam amedrontadas com a ascensão de Raul Castro, visto no país como o "homem do paredão". Um dos momentos mais impressionantes foi a conversa que eu e minhas filhas tivemos com o dono de um pequeno restaurante. Ele lamentava que, aos 48 anos de idade, não tinha podido ainda sair do país.
"Não quero fugir para os Estados Unidos. Quero visitar o México, a Jamaica, quem sabe o Brasil". Fiquei com a clara impressão de que Fidel Castro produziu uma classe média educada e saudável que quer ir além dos slogans revolucionários. Os jovens não viveram o clima de guerra que cercou a ascensão de Fidel ao poder. Experimentam, sim, o boicote econômico dos Estados Unidos, que tenta estrangular a ilha desde os anos 60.
Os cubanos admiram as conquistas sociais, especialmente na Saúde e Educação. Eles são orgulhosos. Eu conheço quase toda a América Central. E digo, sem qualquer chance de errar, que os cubanos têm o melhor padrão de vida da região, comparável apenas ao da Costa Rica. Em comparação com a Guatemala, por exemplo, Cuba é um paraíso. E a Guatemala é uma "democracia plena" se considerarmos os padrões de Washington. E não há boicote americano à Guatemala.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Cuba é superior ao do Brasil, que tem um dos piores índices de distribuição de renda do mundo. A classe média de Cuba seria pobre no Higienópolis e no Leblon, mas seria rica na periferia das grandes cidades brasileiras. Rica, saudável e educada.
E isso não é irrelevante. Se fosse, a TV Globo não continuaria até hoje com suas peças de propaganda disfarçadas de Jornalismo. Depois de quase 50 anos no poder, a contínua necessidade de demonizar Fidel Castro é sinal de que ele continua incomodando. Mais recentemente, já afastado do governo, ele cantou a pedra: a produção de álcool de milho provocaria desabastecimento de alimentos. Na época, Fidel foi surrado pela mídia. Hoje está constatado que a produção de álcool a partir de milho fez disparar o preço do produto e causou inflação nos Estados Unidos. A fonte é o New York Times.
Dizer que os cubanos não querem liberdade de ir e vir ou de desenvolver suas próprias atividades econômicas é mentira. Cuba não é o paraíso vendido pela esquerda. Nem o inferno vendido pela direita. É um país de gente alegre, educada e saudável que tem grande ressentimento por não poder freqüentar as mesmas praias que os turistas estrangeiros - hoje a grande fonte de moeda forte do país. Fidel plantou as sementes que resultaram em uma geração que quer mudanças. Mas elas não virão de Washington, nem de Miami, nem de Brasília.
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Isso diz mais sobre o Brasil e sua democracia para poucos do que sobre Cuba e Fidel Castro.
A mídia americana se comporta hoje como se o povo cubano fosse se levantar e derrubar o governo esta noite... É muita desinformação. Eles aqui se perguntam: como é que as emissoras da América Latina continuam no ar normalmente, sem interromper a programação para transmitir o que está acontecendo em Cuba? É que depois de tantos anos os americanos - e o Ali Kamel - passaram a acreditar na propaganda que promovem.
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Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, há alguns meses detonou uma reportagem de capa da revista Veja sobre Guevara. Anderson escreve para a revista New Yorker. Seus livros vendem milhões de cópias em todo o mundo. Como é que ele avaliou o texto de Diogo Schelp?
"O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado."
Anderson não é comunista. Não recebe dinheiro de Fidel Castro. É simplesmente um grande jornalista.
A resposta indigente do repórter da Veja incluiu uma ameaça de que o nome do escritor não apareceria mais nas páginas da revista brasileira - o que é indicativo da falta de noção de Diogo Schelp. Estou curioso para saber qual o impacto que a ameaça de Schelp teve nas vendas do escritor americano.
É esse jornalismo vagabundo, contaminado por objetivos políticos e ideológicos, que infelizmente tornou-se o principal produto da grande mídia brasileira - especialmente de Veja, O Globo e TV Globo.
Tive duas experiências marcantes em minha carreira. Uma delas foi ao desembarcar em Moscou, em 1985. Linda a cidade, especialmente a praça Vermelha, de madrugada. Mas a paranóia de um estado policial era evidente. E o estado de decomposição das instituições estava no ar. Embora Mikhail Gorbatchev já tivesse assumido o poder, a União Soviética tinha a feição de Leonid Brezhnev, o morto-vivo que foi mantido no poder muito além de quando ainda tinha capacidade física e mental para governar.
Mais recentemente, fiquei surpreso ao desembarcar em Havana. Arquitetura dilapidada, transporte público caótico mas uma população surpreendentemente relaxada e alegre. Filmei à vontade. Conversei com os cubanos à vontade. E eles falaram mal do governo à vontade. E bem também. Conversei com dezenas de pessoas nas ruas.
Todas demonstraram grande admiração por Fidel Castro. Muitas se diziam amedrontadas com a ascensão de Raul Castro, visto no país como o "homem do paredão". Um dos momentos mais impressionantes foi a conversa que eu e minhas filhas tivemos com o dono de um pequeno restaurante. Ele lamentava que, aos 48 anos de idade, não tinha podido ainda sair do país.
"Não quero fugir para os Estados Unidos. Quero visitar o México, a Jamaica, quem sabe o Brasil". Fiquei com a clara impressão de que Fidel Castro produziu uma classe média educada e saudável que quer ir além dos slogans revolucionários. Os jovens não viveram o clima de guerra que cercou a ascensão de Fidel ao poder. Experimentam, sim, o boicote econômico dos Estados Unidos, que tenta estrangular a ilha desde os anos 60.
Os cubanos admiram as conquistas sociais, especialmente na Saúde e Educação. Eles são orgulhosos. Eu conheço quase toda a América Central. E digo, sem qualquer chance de errar, que os cubanos têm o melhor padrão de vida da região, comparável apenas ao da Costa Rica. Em comparação com a Guatemala, por exemplo, Cuba é um paraíso. E a Guatemala é uma "democracia plena" se considerarmos os padrões de Washington. E não há boicote americano à Guatemala.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Cuba é superior ao do Brasil, que tem um dos piores índices de distribuição de renda do mundo. A classe média de Cuba seria pobre no Higienópolis e no Leblon, mas seria rica na periferia das grandes cidades brasileiras. Rica, saudável e educada.
E isso não é irrelevante. Se fosse, a TV Globo não continuaria até hoje com suas peças de propaganda disfarçadas de Jornalismo. Depois de quase 50 anos no poder, a contínua necessidade de demonizar Fidel Castro é sinal de que ele continua incomodando. Mais recentemente, já afastado do governo, ele cantou a pedra: a produção de álcool de milho provocaria desabastecimento de alimentos. Na época, Fidel foi surrado pela mídia. Hoje está constatado que a produção de álcool a partir de milho fez disparar o preço do produto e causou inflação nos Estados Unidos. A fonte é o New York Times.
Dizer que os cubanos não querem liberdade de ir e vir ou de desenvolver suas próprias atividades econômicas é mentira. Cuba não é o paraíso vendido pela esquerda. Nem o inferno vendido pela direita. É um país de gente alegre, educada e saudável que tem grande ressentimento por não poder freqüentar as mesmas praias que os turistas estrangeiros - hoje a grande fonte de moeda forte do país. Fidel plantou as sementes que resultaram em uma geração que quer mudanças. Mas elas não virão de Washington, nem de Miami, nem de Brasília.
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Isso diz mais sobre o Brasil e sua democracia para poucos do que sobre Cuba e Fidel Castro.
A mídia americana se comporta hoje como se o povo cubano fosse se levantar e derrubar o governo esta noite... É muita desinformação. Eles aqui se perguntam: como é que as emissoras da América Latina continuam no ar normalmente, sem interromper a programação para transmitir o que está acontecendo em Cuba? É que depois de tantos anos os americanos - e o Ali Kamel - passaram a acreditar na propaganda que promovem.
(*) Luiz Carlos Azenha é jornalista e editor do www.viomundo.com.br
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O outono do libertador
Quando se puder avaliar o papel histórico de Fidel Castro sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava. Por Celso Lungaretti (*).
Faltou pouco para Fidel Castro completar meio século como homem forte de Cuba: aos 81 anos de idade, afinal admitiu que sua saúde debilitada o impede de retomar as funções delegadas a seu irmão Raul em junho de 2006. Em carta publicada no Granma, Fidel se declara impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”. E conclui: “Não desejarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe”.
Dificilmente o outono do patriarca será avaliado com distanciamento crítico na imprensa e internet. Explícitas ou implícitas, as posições ideológicas dos autores vão inspirar a maioria dos textos.
Não pretendendo ser exceção à regra, pelo menos tentarei fazer justiça ao personagem histórico que marcou profundamente a história mundial na segunda metade do século XX.
Castro nunca teve o perfil do revolucionário que quer mudar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, drogas... e discrição.
Os tão alardeados paredóns, as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder, inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas. Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social".
A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (várias vezes fracassaram os planos mirabolantes da CIA para matar Fidel!).
A contrapartida desse guarda-chuva protetor foi a total submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país, com economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que deveria representá-la. Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para revolucionar a África e, principalmente, a América do Sul.
Com a execução de Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Khrushchov nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos. Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.
Se pessoas mais capazes e empreendedoras eram impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhe asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor que a de antes. Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e do afloramento de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.
Agonia lenta
A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu. Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do seu regime, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. Na década passada, as fugas da ilha com barcos improvisados chegaram ao auge.
O pior já passou, mas os tempos heróicos também. O povo cubano não é o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos norte-americanos. Essas lembranças estão muito distantes. Hoje, conta mais o quanto Cuba está perdendo ao ficar fora do fluxo de capitais e de comércio do capitalismo globalizado. Nenhum povo se dispõe a sacrificar-se indefinidamente por uma ideologia. Até suporta, estóica ou heroicamente, os rigores, mas quer depois as recompensas.
Então, tudo indica que, sob Raul Castro, Cuba vai encontrar um modus vivendi com as nações capitalistas e assumirá seu papel na economia globalizada. Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que lhe permitiu inflar demais o balão cubano, mas só enquanto durou. No fim da linha estava a agonia lenta.
Em circunstâncias quase sempre dificílimas, ele fez o melhor que pôde por seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções. Quando se puder avaliar seu papel histórico sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.
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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
Faltou pouco para Fidel Castro completar meio século como homem forte de Cuba: aos 81 anos de idade, afinal admitiu que sua saúde debilitada o impede de retomar as funções delegadas a seu irmão Raul em junho de 2006. Em carta publicada no Granma, Fidel se declara impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”. E conclui: “Não desejarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe”.
Dificilmente o outono do patriarca será avaliado com distanciamento crítico na imprensa e internet. Explícitas ou implícitas, as posições ideológicas dos autores vão inspirar a maioria dos textos.
Não pretendendo ser exceção à regra, pelo menos tentarei fazer justiça ao personagem histórico que marcou profundamente a história mundial na segunda metade do século XX.
Castro nunca teve o perfil do revolucionário que quer mudar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, drogas... e discrição.
Os tão alardeados paredóns, as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder, inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas. Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social".
A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (várias vezes fracassaram os planos mirabolantes da CIA para matar Fidel!).
A contrapartida desse guarda-chuva protetor foi a total submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país, com economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que deveria representá-la. Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para revolucionar a África e, principalmente, a América do Sul.
Com a execução de Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Khrushchov nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos. Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.
Se pessoas mais capazes e empreendedoras eram impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhe asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor que a de antes. Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e do afloramento de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.
Agonia lenta
A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu. Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do seu regime, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. Na década passada, as fugas da ilha com barcos improvisados chegaram ao auge.
O pior já passou, mas os tempos heróicos também. O povo cubano não é o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos norte-americanos. Essas lembranças estão muito distantes. Hoje, conta mais o quanto Cuba está perdendo ao ficar fora do fluxo de capitais e de comércio do capitalismo globalizado. Nenhum povo se dispõe a sacrificar-se indefinidamente por uma ideologia. Até suporta, estóica ou heroicamente, os rigores, mas quer depois as recompensas.
Então, tudo indica que, sob Raul Castro, Cuba vai encontrar um modus vivendi com as nações capitalistas e assumirá seu papel na economia globalizada. Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que lhe permitiu inflar demais o balão cubano, mas só enquanto durou. No fim da linha estava a agonia lenta.
Em circunstâncias quase sempre dificílimas, ele fez o melhor que pôde por seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções. Quando se puder avaliar seu papel histórico sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.
(*) Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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O outono do libertador
Quando se puder avaliar o papel histórico de Fidel Castro sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava. Por Celso Lungaretti (*).
Faltou pouco para Fidel Castro completar meio século como homem forte de Cuba: aos 81 anos de idade, afinal admitiu que sua saúde debilitada o impede de retomar as funções delegadas a seu irmão Raul em junho de 2006. Em carta publicada no Granma, Fidel se declara impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”. E conclui: “Não desejarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe”.
Dificilmente o outono do patriarca será avaliado com distanciamento crítico na imprensa e internet. Explícitas ou implícitas, as posições ideológicas dos autores vão inspirar a maioria dos textos.
Não pretendendo ser exceção à regra, pelo menos tentarei fazer justiça ao personagem histórico que marcou profundamente a história mundial na segunda metade do século XX.
Castro nunca teve o perfil do revolucionário que quer mudar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, drogas... e discrição.
Os tão alardeados paredóns, as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder, inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas. Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social".
A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (várias vezes fracassaram os planos mirabolantes da CIA para matar Fidel!).
A contrapartida desse guarda-chuva protetor foi a total submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país, com economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que deveria representá-la. Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para revolucionar a África e, principalmente, a América do Sul.
Com a execução de Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Khrushchov nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos. Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.
Se pessoas mais capazes e empreendedoras eram impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhe asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor que a de antes. Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e do afloramento de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.
Agonia lenta
A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu. Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do seu regime, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. Na década passada, as fugas da ilha com barcos improvisados chegaram ao auge.
O pior já passou, mas os tempos heróicos também. O povo cubano não é o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos norte-americanos. Essas lembranças estão muito distantes. Hoje, conta mais o quanto Cuba está perdendo ao ficar fora do fluxo de capitais e de comércio do capitalismo globalizado. Nenhum povo se dispõe a sacrificar-se indefinidamente por uma ideologia. Até suporta, estóica ou heroicamente, os rigores, mas quer depois as recompensas.
Então, tudo indica que, sob Raul Castro, Cuba vai encontrar um modus vivendi com as nações capitalistas e assumirá seu papel na economia globalizada. Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que lhe permitiu inflar demais o balão cubano, mas só enquanto durou. No fim da linha estava a agonia lenta.
Em circunstâncias quase sempre dificílimas, ele fez o melhor que pôde por seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções. Quando se puder avaliar seu papel histórico sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.
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Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
Faltou pouco para Fidel Castro completar meio século como homem forte de Cuba: aos 81 anos de idade, afinal admitiu que sua saúde debilitada o impede de retomar as funções delegadas a seu irmão Raul em junho de 2006. Em carta publicada no Granma, Fidel se declara impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”. E conclui: “Não desejarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe”.
Dificilmente o outono do patriarca será avaliado com distanciamento crítico na imprensa e internet. Explícitas ou implícitas, as posições ideológicas dos autores vão inspirar a maioria dos textos.
Não pretendendo ser exceção à regra, pelo menos tentarei fazer justiça ao personagem histórico que marcou profundamente a história mundial na segunda metade do século XX.
Castro nunca teve o perfil do revolucionário que quer mudar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, drogas... e discrição.
Os tão alardeados paredóns, as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder, inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas. Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social".
A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (várias vezes fracassaram os planos mirabolantes da CIA para matar Fidel!).
A contrapartida desse guarda-chuva protetor foi a total submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país, com economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que deveria representá-la. Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para revolucionar a África e, principalmente, a América do Sul.
Com a execução de Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Khrushchov nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos. Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.
Se pessoas mais capazes e empreendedoras eram impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhe asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor que a de antes. Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e do afloramento de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.
Agonia lenta
A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu. Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do seu regime, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. Na década passada, as fugas da ilha com barcos improvisados chegaram ao auge.
O pior já passou, mas os tempos heróicos também. O povo cubano não é o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos norte-americanos. Essas lembranças estão muito distantes. Hoje, conta mais o quanto Cuba está perdendo ao ficar fora do fluxo de capitais e de comércio do capitalismo globalizado. Nenhum povo se dispõe a sacrificar-se indefinidamente por uma ideologia. Até suporta, estóica ou heroicamente, os rigores, mas quer depois as recompensas.
Então, tudo indica que, sob Raul Castro, Cuba vai encontrar um modus vivendi com as nações capitalistas e assumirá seu papel na economia globalizada. Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que lhe permitiu inflar demais o balão cubano, mas só enquanto durou. No fim da linha estava a agonia lenta.
Em circunstâncias quase sempre dificílimas, ele fez o melhor que pôde por seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções. Quando se puder avaliar seu papel histórico sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.
(*) Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
_______________________________________
Lembre-se que você tem quatro opções de entrega: (I) Um email de cada vez; (II) Resumo diário; (III) Email de compilação; (IV) Sem emails (acesso apenas online). Para cancelar, responda solicitando. [www.consciencia.net]
O outono do libertador
Quando se puder avaliar o papel histórico de Fidel Castro sem os exageros propagandísticos e o tiroteio ideológico atuais, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser visto como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava. Por Celso Lungaretti (*). Clique no título para ler.
Propaganda contra Cuba no Brasil não visa Fidel Castro; o alvo são os próprios brasileiros
Se a sociedade cubana fosse vulnerável à propaganda do tipo que você vê hoje na TV Globo Fidel Castro já teria sido derrubado. O objetivo da propaganda não é derrubar Fidel. Ainda é a de evitar que ele sirva de exemplo. Por Luiz Carlos Azenha, de Washington (*). (clique no título)
Cuba: mídia vai fazer campanha de desinformação
Jorge Pereira Filho, Jornal Brasil de Fato - A renúncia de Fidel vai desencadear uma campanha midiática de desinformação de proporções mundiais. Essa é a previsão do jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues, integrante do Partido Comunista Português. Segundo ele, a mídia mente ao afirmar que há uma oposição organizada ao regime em Cuba. “As personalidades e grupos contra-revolucionários carecem de expressão social. São quase folclóricos”, afirma Miguel Urbano, que viveu oito anos em Cuba.
Para o jornalista português, o regime socialista cubano seguirá seu próprio caminho, aperfeiçoando-se dentro de sua lógica. Com relação a uma eventual intervenção externa, como já chegou a cogitar o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, Miguel Urbano afirma que considera a hipótese improvável. "Mas estou certo que, no caso de uma agressão desse tipo, o povo cubano lhe daria a resposta de Abril de 61, quando derrotou em Playa Giron o desembarque mercenário idealizado e financiado pelos EUA". Leia aqui a entrevista.
Leia o texto completo da mensagem publicada nesta terça-feira (19) pelo jornal do Partido Comunista de Cuba, o Granma, no qual o presidente cubano anuncia que não concorrerá ao cargo na próxima reunião do Parlamento, domingo (24).
Para o jornalista português, o regime socialista cubano seguirá seu próprio caminho, aperfeiçoando-se dentro de sua lógica. Com relação a uma eventual intervenção externa, como já chegou a cogitar o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, Miguel Urbano afirma que considera a hipótese improvável. "Mas estou certo que, no caso de uma agressão desse tipo, o povo cubano lhe daria a resposta de Abril de 61, quando derrotou em Playa Giron o desembarque mercenário idealizado e financiado pelos EUA". Leia aqui a entrevista.
Leia o texto completo da mensagem publicada nesta terça-feira (19) pelo jornal do Partido Comunista de Cuba, o Granma, no qual o presidente cubano anuncia que não concorrerá ao cargo na próxima reunião do Parlamento, domingo (24).
Assunto para o Procon
Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que a Revista Veja faz de Che Guevara só agradará a direitistas muito ignorantes. Por Valter Pomar
A Veja desta semana dedicou sua capa ao Che. Intitulada “A farsa do herói”, a revista promete “verdades inconvenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte”.
É claro que Che virou um mito e, portanto, há uma distância entre o homem e a lenda, que pode ser (e muitas vezes é) explorada por críticos de esquerda e direita, resultando ou numa destruição mais eficaz, ou numa compreensão mais correta do personagem e suas circunstâncias, inclusive daquelas que o transformaram em mito.
Mas Veja não faz nada disto. Cada vez mais parecida com a Seleções do Reader’s Digest, o semanário da Abril tenta construir um antimito: alguém cuja vida, “exceto na revolução cubana, foi uma seqüência de fracassos”.
Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que Veja faz de Che só agradará a direitistas muito ignorantes.
Pois direitistas medianamente inteligentes não engolirão o antimito proposto por Veja: um “ser desprezível”, com uma “maníaca necessidade de matar pessoas”, uma “crença inabalável na violência política”, buscando de forma “incessante” uma “morte gloriosa”.
Para Veja, o mito de Che se “sustenta no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante a sua existência”. Se isto for verdade, trata-se de um caso único na história, pois em geral os mitos têm algum tipo de contato com a realidade, por menor que seja.
Segundo Veja, o Che real seria “incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários”; ajudou a “estabelecer um sistema de penúria em Cuba”; era “aferrado com unhas e dentes à rigidez do marxismo leninismo em sua vertente mais totalitária”; um comandante “imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte”.
Para fazer estas afirmações, Veja toma entre suas “fontes” alguns exilados cubanos, mesmo reconhecendo que o “rancor pode apimentar suas lembranças”. E para desconsiderar fontes potencialmente favoráveis, afirma que “o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial”.
Veja nos poupa da “ladainha oficial” e de qualquer opinião favorável ao Che, nos submetendo a mais vulgar ladainha anticomunista. Isto tudo para concluir que no rastro das concepções revolucionárias de Che, “a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada”.
O argumento é conhecido: a luta armada empurrou as acossadas elites latino-americanas a desencadear golpes militares. Na mesma linha, teria sido a radicalização esquerdista que levou ao golpe contra Allende; teria sido a guerra fria que levou as ditaduras a seguir existindo, muito tempo depois da derrota da luta armada; e, mais recentemente, seriam os “excessos” dos governos Evo, Correa e Chávez que explicariam o golpismo das elites destes países.
Veja poderia ter nos poupado de besteiras desse tipo, limitando-se ao que está no editorial da revista: “para a juventude que quer mudar o mundo, o Che encarna os ideais de justiça e igualdade”.
Esta é a principal fonte do mito: o mundo em que vivemos. Um mundo que precisa de mudança, de socialismo, de revolução. Que Veja não aceite isto, é compreensível. Mas que seus argumentos sejam tão toscos, é sinal dos tempos.
Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT
A Veja desta semana dedicou sua capa ao Che. Intitulada “A farsa do herói”, a revista promete “verdades inconvenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte”.
É claro que Che virou um mito e, portanto, há uma distância entre o homem e a lenda, que pode ser (e muitas vezes é) explorada por críticos de esquerda e direita, resultando ou numa destruição mais eficaz, ou numa compreensão mais correta do personagem e suas circunstâncias, inclusive daquelas que o transformaram em mito.
Mas Veja não faz nada disto. Cada vez mais parecida com a Seleções do Reader’s Digest, o semanário da Abril tenta construir um antimito: alguém cuja vida, “exceto na revolução cubana, foi uma seqüência de fracassos”.
Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que Veja faz de Che só agradará a direitistas muito ignorantes.
Pois direitistas medianamente inteligentes não engolirão o antimito proposto por Veja: um “ser desprezível”, com uma “maníaca necessidade de matar pessoas”, uma “crença inabalável na violência política”, buscando de forma “incessante” uma “morte gloriosa”.
Para Veja, o mito de Che se “sustenta no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante a sua existência”. Se isto for verdade, trata-se de um caso único na história, pois em geral os mitos têm algum tipo de contato com a realidade, por menor que seja.
Segundo Veja, o Che real seria “incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários”; ajudou a “estabelecer um sistema de penúria em Cuba”; era “aferrado com unhas e dentes à rigidez do marxismo leninismo em sua vertente mais totalitária”; um comandante “imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte”.
Para fazer estas afirmações, Veja toma entre suas “fontes” alguns exilados cubanos, mesmo reconhecendo que o “rancor pode apimentar suas lembranças”. E para desconsiderar fontes potencialmente favoráveis, afirma que “o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial”.
Veja nos poupa da “ladainha oficial” e de qualquer opinião favorável ao Che, nos submetendo a mais vulgar ladainha anticomunista. Isto tudo para concluir que no rastro das concepções revolucionárias de Che, “a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada”.
O argumento é conhecido: a luta armada empurrou as acossadas elites latino-americanas a desencadear golpes militares. Na mesma linha, teria sido a radicalização esquerdista que levou ao golpe contra Allende; teria sido a guerra fria que levou as ditaduras a seguir existindo, muito tempo depois da derrota da luta armada; e, mais recentemente, seriam os “excessos” dos governos Evo, Correa e Chávez que explicariam o golpismo das elites destes países.
Veja poderia ter nos poupado de besteiras desse tipo, limitando-se ao que está no editorial da revista: “para a juventude que quer mudar o mundo, o Che encarna os ideais de justiça e igualdade”.
Esta é a principal fonte do mito: o mundo em que vivemos. Um mundo que precisa de mudança, de socialismo, de revolução. Que Veja não aceite isto, é compreensível. Mas que seus argumentos sejam tão toscos, é sinal dos tempos.
Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT
Assunto para o Procon
Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que a Revista Veja faz de Che Guevara só agradará a direitistas muito ignorantes. Por Valter Pomar
A Veja desta semana dedicou sua capa ao Che. Intitulada “A farsa do herói”, a revista promete “verdades inconvenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte”.
É claro que Che virou um mito e, portanto, há uma distância entre o homem e a lenda, que pode ser (e muitas vezes é) explorada por críticos de esquerda e direita, resultando ou numa destruição mais eficaz, ou numa compreensão mais correta do personagem e suas circunstâncias, inclusive daquelas que o transformaram em mito.
Mas Veja não faz nada disto. Cada vez mais parecida com a Seleções do Reader’s Digest, o semanário da Abril tenta construir um antimito: alguém cuja vida, “exceto na revolução cubana, foi uma seqüência de fracassos”.
Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que Veja faz de Che só agradará a direitistas muito ignorantes.
Pois direitistas medianamente inteligentes não engolirão o antimito proposto por Veja: um “ser desprezível”, com uma “maníaca necessidade de matar pessoas”, uma “crença inabalável na violência política”, buscando de forma “incessante” uma “morte gloriosa”.
Para Veja, o mito de Che se “sustenta no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante a sua existência”. Se isto for verdade, trata-se de um caso único na história, pois em geral os mitos têm algum tipo de contato com a realidade, por menor que seja.
Segundo Veja, o Che real seria “incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários”; ajudou a “estabelecer um sistema de penúria em Cuba”; era “aferrado com unhas e dentes à rigidez do marxismo leninismo em sua vertente mais totalitária”; um comandante “imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte”.
Para fazer estas afirmações, Veja toma entre suas “fontes” alguns exilados cubanos, mesmo reconhecendo que o “rancor pode apimentar suas lembranças”. E para desconsiderar fontes potencialmente favoráveis, afirma que “o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial”.
Veja nos poupa da “ladainha oficial” e de qualquer opinião favorável ao Che, nos submetendo a mais vulgar ladainha anticomunista. Isto tudo para concluir que no rastro das concepções revolucionárias de Che, “a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada”.
O argumento é conhecido: a luta armada empurrou as acossadas elites latino-americanas a desencadear golpes militares. Na mesma linha, teria sido a radicalização esquerdista que levou ao golpe contra Allende; teria sido a guerra fria que levou as ditaduras a seguir existindo, muito tempo depois da derrota da luta armada; e, mais recentemente, seriam os “excessos” dos governos Evo, Correa e Chávez que explicariam o golpismo das elites destes países.
Veja poderia ter nos poupado de besteiras desse tipo, limitando-se ao que está no editorial da revista: “para a juventude que quer mudar o mundo, o Che encarna os ideais de justiça e igualdade”.
Esta é a principal fonte do mito: o mundo em que vivemos. Um mundo que precisa de mudança, de socialismo, de revolução. Que Veja não aceite isto, é compreensível. Mas que seus argumentos sejam tão toscos, é sinal dos tempos.
Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT
A Veja desta semana dedicou sua capa ao Che. Intitulada “A farsa do herói”, a revista promete “verdades inconvenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte”.
É claro que Che virou um mito e, portanto, há uma distância entre o homem e a lenda, que pode ser (e muitas vezes é) explorada por críticos de esquerda e direita, resultando ou numa destruição mais eficaz, ou numa compreensão mais correta do personagem e suas circunstâncias, inclusive daquelas que o transformaram em mito.
Mas Veja não faz nada disto. Cada vez mais parecida com a Seleções do Reader’s Digest, o semanário da Abril tenta construir um antimito: alguém cuja vida, “exceto na revolução cubana, foi uma seqüência de fracassos”.
Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que Veja faz de Che só agradará a direitistas muito ignorantes.
Pois direitistas medianamente inteligentes não engolirão o antimito proposto por Veja: um “ser desprezível”, com uma “maníaca necessidade de matar pessoas”, uma “crença inabalável na violência política”, buscando de forma “incessante” uma “morte gloriosa”.
Para Veja, o mito de Che se “sustenta no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante a sua existência”. Se isto for verdade, trata-se de um caso único na história, pois em geral os mitos têm algum tipo de contato com a realidade, por menor que seja.
Segundo Veja, o Che real seria “incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários”; ajudou a “estabelecer um sistema de penúria em Cuba”; era “aferrado com unhas e dentes à rigidez do marxismo leninismo em sua vertente mais totalitária”; um comandante “imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte”.
Para fazer estas afirmações, Veja toma entre suas “fontes” alguns exilados cubanos, mesmo reconhecendo que o “rancor pode apimentar suas lembranças”. E para desconsiderar fontes potencialmente favoráveis, afirma que “o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial”.
Veja nos poupa da “ladainha oficial” e de qualquer opinião favorável ao Che, nos submetendo a mais vulgar ladainha anticomunista. Isto tudo para concluir que no rastro das concepções revolucionárias de Che, “a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada”.
O argumento é conhecido: a luta armada empurrou as acossadas elites latino-americanas a desencadear golpes militares. Na mesma linha, teria sido a radicalização esquerdista que levou ao golpe contra Allende; teria sido a guerra fria que levou as ditaduras a seguir existindo, muito tempo depois da derrota da luta armada; e, mais recentemente, seriam os “excessos” dos governos Evo, Correa e Chávez que explicariam o golpismo das elites destes países.
Veja poderia ter nos poupado de besteiras desse tipo, limitando-se ao que está no editorial da revista: “para a juventude que quer mudar o mundo, o Che encarna os ideais de justiça e igualdade”.
Esta é a principal fonte do mito: o mundo em que vivemos. Um mundo que precisa de mudança, de socialismo, de revolução. Que Veja não aceite isto, é compreensível. Mas que seus argumentos sejam tão toscos, é sinal dos tempos.
Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT
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